entrevista de João Paulo Barreto
“Tempo à Faca”, novo filme do diretor Diogo Oliveira, parte da programação da 59ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, surgiu de uma história original do veterano cineasta brasileiro Ruy Guerra. Com o roteiro desenvolvido com colaboração de Ruy e de Bruno Laet, a versão final é assinada pelo próprio cineasta Diogo Oliveira. Em uma mescla de faroeste em sua estrutura clássica, mas passando-se no sertão nordestino, “Tempo a Faca” é um road movie que tem a vingança tardia, mas sempre infalível, como algo a nortear seus personagens.
Em suas figuras centrais, essa vingança parece funcionar como algo a corroer mentes e aprisioná-las em um ciclo vicioso cuja recompensa final poderá não ser satisfatória mesmo se concluída. Na trama, Neta (Agatha Moreira) segue em uma estrada com seu Cadillac 1968 de posse de uma faca e em busca de um destino que não será feliz, mesmo que ela alcance seu objetivo sanguinário. Em paralelo a isso, o velho e aposentado jagunço Deodato Cruz (Julio Adrião), viaja a légua tirana da caatinga do sertão em busca da redenção de uma filha que não viu crescer. Almejando chegar à jovem para cumprir a promessa que fez à finada esposa, Deodato quer lhe entregar um vestido de noiva. No entanto, jurado de morte pelo padrinho e tutor da menina desde criança (Carlos Betão), é emboscado pelo jovem jagunço Floro Xavier (Vertin Moura), a quem, ironicamente, acaba salvando a vida e gerando uma dívida do jovem perante ele.
Nessa jornada, Deodato e Neta seguem nortes diferentes, mas com ambos levando a destinos cuja tragicidades se assemelham. Enquanto um almeja reencontrar sua filha para participar de um momento de comunhão com aquela que não vê desde sua fuga amaldiçoada por uma jura de morte, a jovem Neta segue por uma estrada em busca de uma vingança que o espectador vai descobrindo aos poucos. O primeiro segue passos que já considera, conscientemente, serem seus últimos, uma vez sabe que sua jornada tem um destino suicida diante do que vai encontrar nessa busca por rever seu rebento que deixou para trás em uma fuga por sua vida. Já a segunda, em sua gana por vingança, ainda não sabe o que vai encontrar e, em certo momento, desvia de sua rota quase como em um pedido interno de redenção.
Em um filme que aborda com tanta clareza a ideia que o peso de uma morte pode ou não afetar tanto aqueles que a causam quanto os que sofrem com aquela perda, “Tempo à Faca” tem em sua essência essa relação com a fugacidade da vida e as marcas da tragicidade que a interrupção súbita da mesma pode causar. “Poeticamente, carregamos nossos mortos conosco na vida. Ninguém morre. O que morre é só a carne. A gente carrega seja nas histórias ou nas lembranças. Independente de religião ou não. A gente sempre carrega nossos mortos. O filme é um debate filosófico temporal”, afirma Diogo. Nada mais pertinente e exato. Confira o papo completo com o diretor.
Você já tem experiências anteriores de parcerias em roteiro com o Ruy Guerra. Como surgiu a proposta inicial para a direção de “Tempo à Faca”?
Escrevi junto com ele o roteiro, sendo uma ideia original dele. Começamos a escrever esse roteiro em 2009. Trabalhamos um ano no roteiro nessa época. O projeto ficou pausado por um bom tempo até a Vânia Lima, produtora da Tem Dendê Produções, pegar o projeto e o fazer desabrochar e acontecer. Com o Ruy dando carta branca, reescrevi umas partes, fiz essa adaptação e chegamos ao resultado de agora. O filme é um debate filosófico temporal. Poeticamente, carregamos nossos mortos conosco na vida. Ninguém morre. O que morre é só a carne. A gente carrega seja nas histórias ou nas lembranças. Independente de religião ou não. A gente sempre carrega nossos mortos. Eu e Ruy nos conhecemos há muito tempo. Uns vinte anos. Ficamos muito próximos tanto profissionalmente quanto na vida pessoal. Nos tornamos grandes amigos. Ele, inclusive, representou meu pai na cerimônia de meu casamento. Ficamos bem próximos, mesmo. O Ruy, apesar de ser bem mais velho (completou 95 anos em agosto), de uma outra geração, é um cara muito antenado em relação à linguagem do cinema. É sempre muito inovador. Sempre foi alguém que buscou romper fronteiras, ultrapassar as possibilidades. Ruy é mais jovem do que muita gente nesse sentido. É sempre uma inspiração não somente de aprendizado com as coisas acumuladas dele, mas, também, um aprendizado comportamental. Sempre se permitir ser ousado, se arriscar, sabe? O Ruy sempre arriscou muito. Sempre foi muito corajoso. Então, sempre me inspirou a me arriscar, também, na vida. Isso no bom sentido da palavra. Então, o Ruy, nesse sentido, é um farol. Nesse e em vários sentidos. Para mim, é o maior representante cinema do brasileiro de todos os tempos. E trabalhar com ele é sempre um privilégio. É um cara muito moderno. Você vai conversar com ele e até hoje ele quer saber das novidades em relação ao cinema. As novidades do que realmente interessa, não dessa tecnologia barata de IA, nada disso. Ele quer saber do que importa. De quem filmou de alguma forma diferente, ele está sempre interessado. Não é um cara fechado. Está sempre aberto para as novidades. Novidades que interessam, obviamente. Portanto dirigir um filme de uma história original dele é um sonho lúcido.
Ao assistir a “Tempo à Faca” e ver a presença de Julio Adrião e de Vertin Moura, foi inevitável não pensar em “Sertânia” (2020), filme de Geraldo Sarno. O trabalho desse outro veterano te influenciou de algum modo?
O roteiro de “Tempo à Faca” é anterior a “Sertânia” (lançado em 2020), Júlio inclusive foi chamado por nós já nessa época (2009). Eu já tinha trabalhado com ele no “O Homem Que Matou John Wayne” (2015). Vertin, ao contrário, entrou já na reta final, por eu ter gostado muito dele no filme de Geraldo. E acho que os dois filmes, “Tempo à Faca” e “Sertânia”, são bem distintos, com essa dupla de atores nos dois. Os filmes são primos de segundo grau, mas que se gostam muito (risos). Eu adoro “Sertânia”. Na minha opinião, é um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos. É ousado, poético, alarga as fronteiras do cinema…

Chamou a minha atenção a direção de fotografia assinada por Cláudio Antônio, principalmente nas cenas noturnas com o fogo e a dessaturação. Como foi esse processo e diálogo com ele?
A ideia que eu tinha sempre da fotografia do filme era de mostrar o sertão de outro jeito. Uma atmosfera melancólica, fria e dessaturada. Na pós fizemos um blooming nas altas luzes, para quebrar o aspecto realista e ir para uma observação mais onírica. Para esse mundo do filme, com essas múltiplas realidades possíveis e a questão temporal, eu queria uma coisa diferente esteticamente. E eu conheço o Cláudio há muitos anos. Há uns 15 anos, talvez. Já trabalhamos juntos antes. Fizemos série e um curta antes do filme. Então, a gente se conhece bastante. E nos conhecemos como amigos também. Trabalhamos muito bem juntos. Foi um dos meus grandes parceiros meus criativos no filme e na vida. Era o cara para toda hora. Muito antes do filme, conseguimos conversar, procurar, desde a escolha de lente, de tudo. Fizemos uma pesquisa profunda de qual lente a gente ia usar, quais eram os filtros, fizemos os testes na pré produção. É muito bom trabalhar com ele. Continuarei trabalhando. Ele é um fotógrafo brilhante.
E como foi a construção da personagem da Agatha Moreira, Neta, e sua desconstrução gradativa naquele busca por vingança?
Uma das mudanças que fiz no roteiro inicial era que o personagem principal era um homem. Como disse antes, Ruy me deu carta branca pra alterar o roteiro, e eu acreditava que essa caminhada precisava da força da mulher. E de ver as mulheres em situações que só os homens ocupavam no cinema. O cinema já avançou nisso, mas ainda falta muito para o ideal. E ela é uma personagem dura e justa. Por conta da dureza de sua vida tem seus sentimentos incubados. Mas vez ou outra transbordam. Ela vai descascando aos poucos. A personagem dela carrega muitas tensões vindas do passado. E também temos Uiliana Lima como Solange, uma personagem com muitas camadas e um certo mistério, que ajuda a aprofundar as questões debatidas no filme.
Sendo um roteiro oriundo do Sudeste, mas gravado no Nordeste, como você chegou à produtora Vânia Lima, da Tem Dendê Produções?
O Ruy conheceu a Vania primeiro e eu logo depois. Após um tempo desse primeiro encontro não tivemos dúvida. E deu certo. Tanto que a gente já se conhece há 15 anos. E nos tornamos todos grandes amigos e já realizamos vários trabalhos juntos. Vania é uma produtora excepcional que além de conseguir reunir os recursos financeiros para o projeto, ela me dá toda liberdade artística e não mede esforços para que tudo acontecesse da forma mais bonita.

A produção chama muito a atenção por conta do elenco com grandes nomes, também.
Sim, verdade. Todos os atores foram escolhidos a dedo por mim. Desde quando eu estava na pré-produção, fazendo a seleção de elenco, eu já sabia um por um quem eu queria. Falei para a produção que era muito importante conseguir todos eles, que era importante que fossem eles. E a produção concordou e fez acontecer. O filme é um road movie. Então, tem quatro personagens que se deslocam, que são os dois e as duas que estão em movimento. Os outros estão nos lugares por onde eles passam. Por isso, era muito importante que fossem pessoas marcantes. Atores que conseguissem imprimir personagens muito marcantes para quem está assistindo ao filme. A gente conseguiu, para mim, o suprassumo do cinema brasileiro. Nomes como Luiz Carlos Vasconcelos, Irandhir Santos, Carlos Betão, Everaldo Pontes, Lúcio Tranchesi, Marcelo Flores. Imagina isso. É um luxo.
Sim. Grande elenco. A presença do Irandhir me chamou muito a atenção. Como foi o trabalho com ele?
O Irandhir é um acontecimento artístico. É impressionante. A cena dele do palhaço foi uma coisa impressionante nos dias em que ele gravou. Ele tem uma postura solene em relação ao set. Por exemplo, ele fica concentrado, ele não conversa com ninguém, sabe? Fica sempre no personagem. Sempre vestido com o figurino. Não pega celular, não pega nada. Fica atuando. E vai, concentra, volta, e não erra nada. Está sempre atuando. E é uma atuação fora do normal. É um poder, assim, vulcânico de atuação. O cara é impressionante. É uma entidade da atuação brasileira. É emocionante. O Irandhir é uma pedra preciosa. E uma pessoa muito especial. Foi uma honra muito grande trabalhar com ele. E com os outros também. Era um dia melhor que o outro nas trocas com esse elenco. E você que escreve para um jornal da Bahia (A Tarde), fique atento à Nina Andrade, que faz a personagem da mãe. É uma menina jovem, que saiu do teatro agora. Para mim, ela será a grande revelação do cinema brasileiro dos próximos anos. Tenho certeza absoluta que o pessoal vai descobri-la. E outra atriz que o filme revela é a Vanessa Cunha, que está na cena do bar, quando ela canta aquela música no momento em que a Agatha está lá. É quando a Neta desvia de sua rota. É a única vez em que a Neta desvia de sua rota e faz aquela pausa em sua vingança. Ela faz essa pausa e é quando ela decide seguir em frente com o plano. Ela sabe que não vai deixar de se vingar, mas sabe que fará esse desvio de rota por conta dela. Então, a cena e a música sintetiza o filme todo porque a letra pergunta: “Quem sou eu? O que é meu?”.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.
