texto de Marcelo Costa
faixa a faixa de Maglore
A Maglore está de volta… sem nunca ter realmente ido. A turnê de “V”, álbum de 2022 que ampliou o séquito de fãs da banda (e foi eleito o segundo melhor disco daquele ano em votação aqui no Scream & Yell), se juntou com a turnê do disco “Acústico” (2024), o que manteve o quarteto na estrada ativamente por quatro anos – com algumas brechas para que Lucas Gonçalves lançasse “Câmara Escura”, seu terceiro disco solo, em 2023, e Teago Oliveira colocasse no mundo “Canções do Velho Mundo”, seu segundo disco, em 2025.
“Fluxo Natural” (2026), o sexto rebento da Maglore, já antecipa um pouco de seu “caminho filosófico”, segundo Teago, no próprio título do álbum: “Significa que os obstáculos da vida são matéria prima para algo maior. Não é só sobre aceitação e sim sobre escolhas”, pontua. “O recado mais profundo do disco é do amor como algo que permanece. Não apenas de um jeito romântico, e mesmo com muitas imagens densas – impérios caindo, corpos modificados, chuva de concreto, pesadelos – o amor surge como âncora, como elo central.”
Se “V” olhava para o passado e Teago listava influências de Luiz Melodia, Jorge Ben, Lennon e Wilco aqui mesmo, “Fluxo Natural” é, para ele, “um disco de rock brasileiro. Tem forte sensorialidade corporal e geográfica, fala-se muito sobre rio, mar, luar, outono, chuva, sol. Mas também fala de sonhar, de fé, infância, futuro possível, malandragem, de transformar a lama em banquete. Existe um microuniverso do pensamento brasileiro que talvez estejamos perdendo, mas que escolhemos trazer pra esse disco”,
Com lançamento pela LOCO Records, “Fluxo Natural” começou a ser rascunhado em intervalos de turnês em 2024, sendo registrado entre maio e abril de 2026 no Estúdio Kapa, na casa de Teago, vocalista e guitarrista do grupo que ainda conta com Lelo Brandão (guitarra e teclado), Lucas Gonçalves (baixo e voz) e Felipe Dieder (bateria). “Filosoficamente, o álbum escapa do niilismo porque recusa o vazio de sentido. Em vez de concluir que nada importa, ele encontra sentido justamente no fluxo, nessa coisa que vai nos levando”, diz Teago. Abaixo, a banda comenta todas as canções de “Fluxo Natural”.
Ouça o álbum na integra abaixo
01) SULAMERICANO (Lucas Gonçalves e Carime Elmor) – “Foi inspirada na história de Ney Matogrosso e tem como tema a coragem, sobretudo em tempos gris. É sobre um sul-americano que luta para perder o medo de sonhar e busca força na própria história para ganhar o mundo, apesar das adversidades.”
02) FAROL (Teago Oliveira) – “É a temática central do álbum. Apresenta a filosofia completa de ‘deixar perder, deixar estar’ e também faz um convite para ‘deixar o menino sonhar’. Serve como guia conceitual para vários outros momentos do disco.”
03) PALESTINA NOS SEUS OLHOS (Teago Oliveira) – “É uma das faixas mais densas. Contrasta guerra, impérios e destruição com o amor que permanece. Tem momentos íntimos (café, ninar) e um tom de resistência emocional. Retrata o sentimento de quem vive em meio a uma guerra injusta, como o massacre da Palestina, ao tempo que lança esperança de dias melhores se baseando no afeto cotidiano.”
04) SONHO REAL (Teago Oliveira) – “Mergulho no amor como portal para outra realidade. Questiona a fronteira entre fantasia e vida real (Eu não sei se quero acordar / Ou me perder num sonho real). Traz uma lírica onírica e romântica.”
05) RAIO DE SOL (Lucas Gonçalves) – “Uma balada romântica sobre a possibilidade de viver um amor para sempre, fazendo uma metáfora com os movimentos de rotação da terra, como nos dias em que é possível ver a lua diurna dividindo o céu com o sol.”
06) O RIO E O MAR (Teago Oliveira) – “Uma reflexão sobre o tempo, memória, saudade e o reencontro inevitável. O encontro predestinado pela pessoa amada, mesmo tendo que esperar uma vida inteira, e um amor que continua mesmo depois da ausência.”
07) AMOR SCI-FI (Teago Oliveira) – “Clímax de transformação. Fala dos tempos atuais de maneira fictícia, onde a pessoa perde tudo: casa, corpo, história, e descobre libertação no risco e no momento presente. Ao mesmo tempo tem uma atmosfera futurista, é também carnal e possui um arco de redenção.”
08) PARA LÔ (Lucas Gonçalves e Carime Elmor) – “Trata-se de um poema abstrato conduzido por versos de contraste lírico, em que aparece a frase ‘pôr do sol que vai num trem azul’, homenageando os compositores Lô e Márcio Borges. No disco, a música ganhou um arranjo inspirado na fase anos 80 de Caetano Veloso.”
09) TUDO BEM (Teago Oliveira) – ‘Fala de aceitar as fases ruins e oferece conforto em meio a um mundo complicado. É uma balada oitentista de autocompaixão, para ouvir quando se está de saco cheio de tudo.”
10) CURVA DE TRIVELA (Teago Oliveira) – “Metáfora sobre futebol e as dificuldades da vida. Celebração da boa malandragem, da vida como jogo. Transformação da lama em algo grandioso, frutífero. Uma música que fala sobre correr por fora em tempos de holofotes escassos, um comportamento cotidiano para o brasileiro.”
11) CARAVELAS (Lucas Gonçalves e Gustavo Galo) – “Música de Lucas Gonçalves e letra em parceria com Gustavo Galo, da Trupe Chá de Boldo. O poema, iniciado por Galo, descreve a paisagem de um dia de verão nas praias da Bahia, boiando na baía ou em alto mar, vendo as ondas se formarem como montanhas feitas de água.”
CAPA
Contrastando a ideia fluida do título do álbum com a rigidez dos formatos geométricos, a capa de Fluxo Natural é assinada por Teago Oliveira. “O fundo preto, a sensação de espaço, o vazio, o cosmos, até as quatro cores, que são os raios de luz, emoções, temos a energia do mais quente ao mais frio”, conceitua o artista. “Mas também pode representar os quatro integrantes da banda como construção do tempo, quatro linhas contínuas e paralelas, cada uma com sua própria cor”, conclui.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne. A foto que abre o texto é de Elisa Imperial
