texto de Davi Caro
É claro que um filme como “Obsessão” (“Obsession”, 2026) ressoaria com audiências da forma como ressoou. O longa de Curry Barker (em seu segundo trabalho como diretor, após “Milk & Serial”, de 2024) reverbera como uma rocha atirada a um lago em um mundo repleto de relações humanas adornadas, com requintes de idealização e busca por conexão em meio à dependência crônica de nossos dispositivos móveis. Mais do que isso: “Obsessão” é um longa sobre as partes mais repugnantes da psiquê humana – o tipo de dependência emocional que tantos se recusam a reconhecer, ou questionar. Com produção do estúdio Blumhouse, e distribuição da Universal Pictures, a produção chegou aos cinemas brasileiros ao final de maio, e seu sucesso se deve, não por acaso, a uma trama ágil, que faz uso de um núcleo seleto de intérpretes para contar uma história horripilante, insana e, ao mesmo tempo, realista até demais. Uma produção grande, com vibe de cinema indie, acaba resultando em um novo clássico do horror contemporâneo.
Baron Bailey (Michael Johnston) é um jovem com um emprego em uma loja de instrumentos musicais, uma história familiar complicada, e um segredo não muito bem guardado: uma paixão incessante pela colega de trabalho e amiga Nikki Freeman (Inde Navarrette), que se sobrepuja mesmo à súbita perda de seu animal de estimação. Apesar de contar com o apoio e os conselhos dos amigos Ian (Cooper Tomlinson) e Sarah (Megan Lawless), o apaixonado rapaz se prepara para revelar seus sentimentos à moça amada. Quando a tentativa fracassa, Baron (que Nikki chama carinhosamente de “Bear”, típico apelido em Inglês usado entre casais) apela para o imaginário: fazendo uso de um brinquedo chamado “One Wish Willow”, que consiste em quebrar um pequeno objeto ao mesmo tempo em que se faz um pedido, Bailey lança ao universo seu desejo de que Nikki o ame mais do que qualquer coisa no mundo.

Contrariando possíveis expectativas, a estratégia imediatamente parece dar certo, e Baron passa a viver a vida que sempre sonhou, tendo para si a indisputável atenção e carinho da pessoa que mais ama. Até, claro, que as coisas parecem sair de controle. Atitudes bizarras – como observar o namorado dormindo, desenterrar o pet morto para montar um memorial, se revoltar com pedidos por mais espaço pessoal – acabam dando lugar a eventos cada vez mais perturbadores e sangrentos, à medida em que, desesperado, o jovem busca uma forma de reverter o pedido, aparentemente mágico, que realizou. E, quando o sangue começa a respingar em pessoas alheias à relação, o que se dá é uma saga pela própria vida – ainda que o preço para isso seja muito, muito caro.
Pode parecer supérfluo, em um filme como este, falar sobre cinematografia. No caso de “Obsessão”, todavia, o trabalho de Taylor Clemons (e do próprio diretor, responsável pela edição) acaba tornando a experiência de assistir a um filme como este no cinema uma vivência ímpar. O uso do espaço como gerador de tensão, brincando com a percepção do espectador, é fundamental para o êxito no encaminhamento de uma trama que, subvertendo clichês em prol de sustos bem-dados, acaba inovando em um gênero que, por sorte, hoje em dia busca fugir da obviedade. Tudo isso, claro, sem contar a trilha sonora arrepiante de Rock Burwell, que concilia instrumentação esparsa em momentos chave com passagens catárticas, tal qual no impactante clímax.
Já o elenco é a outra grande carta na manga de “Obsessão”. Isso se dá por não haver, em momento algum, qualquer distração do duo principal do filme: Michael Johnston e Inde Navarette carregam um tipo impressionante de química – do tipo que, mesmo em momentos mais conflituosos, seja muito difícil saber por quem torcer. Enquanto Baron conquista a simpatia do espectador apenas para, gradativamente, se mostrar um indíviduo desprovido de qualquer fibra ou amor próprio, a Nikki de Navarette é um fenômeno do tipo que não se vê todo dia. Sua interpretação chama para si os holofotes graças ao magnetismo mórbido da personagem, que, em trechos pontuais, é o principal responsável por suscitar muitas das questões atuais que o longa busca, ainda que de maneira sutil, pontuar. Seja a partir das ótimas performances do elenco coadjuvante – como figuras condizentes a um comportamento indiscutivelmente tóxico – seja em momentos no qual o protagonista se encontra acuado frente ao terror que atravessa, há um subtexto de responsabilização: em momento nenhum a filme conduz a trama como se o espectador devesse sentir pena de Bailey, que criou seu próprio inferno particular em busca de sua satisfação pessoal – mesmo que em detrimento da existência de outra pessoa.
Naturalmente, há quem diga que filmes como “Obsessão” não buscam nada além de lacração e problematização extrema (se bem que não dá para levar tão a sério assim alguém que usa a palavra “lacração” de forma séria em 2026). Tal ponto de vista, por outro lado, pode muito bem proceder do sentimento de desconforto que brota quando pessoas normais se vêem diante de alguns dos mais grotescos aspectos da personalidade de qualquer um, projetados em uma tela enorme. E esse, dá para aferir, é o objetivo de “Obsessão” desde o primeiro momento: o de escancarar o que há mais inóspito e hostil em algo tão prosaico quanto uma paixão intensa, apenas para estender, obsessivamente (sem trocadilho) diante do espectador aquilo que há de mais desconfortável – e que, nem por isso, torna-se menos admirável. Ou necessário.

– Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.
