entrevista de Fabio Machado
“As pessoas estão sendo enganadas a partir do momento que elas se apaixonam pelos sons de um computador pensando que foi um ser humano que fez a música, e mais tarde descobrem que a expressão que pensaram ter recebido não era algo real.” À primeira vista, a análise de Adrian Younge pode parecer animosidade em contraponto às novas tecnologias que alteram constantemente as nossas vidas, e mais especificamente, a indústria da música por meio da Inteligência Artificial Generativa.
Mas a fala deste norte-americano de coração brasileiro é pausada e tranquila, no fluxo de consciência inglês/português que lhe é costumeiro. Younge está calmo e em seu habitat: uma loja de discos na Galeria Nova Barão, em São Paulo. E mais do que ser um antagonista, ele busca trazer de volta algo que já está começando a se perder: a presença humana. “(A IA) está arruinando muito da música e acabando com a expressão humana por meio do som”, comenta o produtor, compositor e multi-instrumentista nascido em Los Angeles ao falar sobre o tema durante entrevista ao Scream & Yell.
Ao perceber um cenário que prejudica cada vez mais outros músicos, produtores e profissionais da música no mundo todo, Younge se posicionou e, por meio da sua gravadora Jazz is Dead, lançou a iniciativa “Played By Humans”: uma ferramenta que consegue identificar se uma canção foi ou não produzida por IA, dessa forma funcionando como uma verdadeira “autenticação de humanidade”. Iniciativas semelhantes têm sido replicada por outras organizações, como o AI Watchdog do site The Atlantic (que informa se uma música ou texto foram usados para treinar datasets de IA). Entre as plataformas de streaming, a Deezer também apresentou um identificador de músicas criadas por IA generativa em sua base e o TIDAL já avisou que não irá pagar royalties por streamings de canções feitas por IA.

Essa movimentação na indústria prova que Younge está correto em continuar apostando no humano dentro da música. Esse tem sido seu mote por praticamente toda a vida, dos primórdios indo atrás de vinis antigos em lojas para garimpar samples (o que também o fez descobrir a riqueza da música brasileira, elemento que foi essencial mais adiante na carreira) aos processos de criação em seu estúdio com equipamentos totalmente analógicos como os gravadores de fita que registraram de grandes jazzistas a orquestras monumentais no século XX.
Toda essa bagagem também o direcionou para lançar discos como “Younge” (2026, Linear Labs/Jazz is Dead), seu primeiro trabalho totalmente instrumental e dedicado a mostrar para novas gerações influências de compositores diversos como Lalo Schifrin, Ennio Morricone, David Axelrod ou até mesmo Geoff Darrow – que apresentou a Younge algumas dessas mesmas influências nos discos do Portishead.
Dessa forma, cada faixa é uma pequena homenagem às trilhas sonoras e temas que fizeram a cabeça de Younge, funcionando também como um presente para as futuras gerações: “Eu espero que façam mais samples no futuro, porque o sampling tem o poder de reapresentar músicas do passado para o futuro”. Younge segue com um olho no presente e outro no futuro: além do disco instrumental recém-lançado, já tem outro trabalho planejado para julho deste ano (“Afro Disco Makossa”) além de uma agenda constante de gravações, lançamentos e apresentações envolvendo a Jazz is Dead. Na entrevista a seguir, ele fala um pouco mais sobre como administra os vários projetos, responsabilidades e iniciativas que orbitam o seu universo analógico (e 100% feito por humanos).
Bem, já faz algum tempo desde que conversamos sobre seu álbum anterior (“Something about April 3”, lançado em 2025), certo? Como foi o processo de um trabalho com muita influência brasileira para algo mais global e orquestral em “Younge”?
“Younge” é um disco que eu sempre quis fazer. Sempre, sempre, sempre. Mas tenho outros álbuns que também quero lançar. Só que “Younge” é um trabalho muito complexo, porque precisei de muito tempo para estudar composições e outras coisas para realizá-lo. Tive que estudar tantas músicas, e mesmo quando estava fazendo o “Something about April 3”, já estava pensando nesse outro disco.
Então, é algo que tomou bastante tempo até que eu estivesse realmente no estado mental certo. Ainda estava finalizando vários dos lançamentos da Jazz is Dead e outros projetos. Por isso, eu queria finalizar as coisas que já tinha iniciado e só aí começar este, que é o meu primeiro disco instrumental.
É interessante saber disso, porque você usa vários “chapéus” diferentes no dia-a-dia: não só como artista, orquestrador e produtor de si mesmo, mas também fazendo diversos álbuns para o Jazz is Dead, como você mesmo mencionou. E além disso, também é responsável pelo lado gerencial dessas coisas todas. Como você consegue lidar com tanta coisa diferente ao mesmo tempo?
Todo dia é um novo dia. Então, hoje eu faço isso, amanhã eu faço aquilo e outro dia eu faço alguma outra coisa. Eu tenho um foco muito específico, sou uma pessoa muito disciplinada. Depois de anos e anos sendo alguém disciplinado, fica mais fácil porque eu não fico perdido tentando descobrir o que vou fazer a seguir. Eu já sei qual vai ser o que virá na sequência. Então, todas essas coisas acabam se alinhando.
Ainda falando sobre “Younge”, pelo que entendi, você concebeu esse álbum para que fosse descoberto pelas gerações futuras de DJs e produtores, certo? No entanto, o processo de descoberta e uso dos samples já não é mais o mesmo em comparação àqueles primeiros anos do hip hop, ou mesmo quando você estava começando a carreira. Hoje em dia, há mais proteção e burocracia por parte das gravadoras. Pensando nisso, como você vê o futuro do sampling pelas mãos das gerações mais novas?
Bem, isso é interessante. Porque, na minha geração, você basicamente fazia o sampling a partir dos álbuns (de vinil). Era possível samplear a partir de CDs ou fitas, mas na maioria das vezes seria do disco. E hoje em dia, as pessoas podem samplear do YouTube, Spotify ou Apple Music, então elas nem têm que sair das próprias casas para encontrar álbuns ou músicas. Elas podem apenas usar seus celulares ou computadores para encontrar canções para samplear.
Eu espero que façam mais samples no futuro, porque o sampling tem o poder de reapresentar músicas do passado para o futuro. Mas não sei o que vai acontecer, uma vez que o hip hop está sempre em evolução.
Agora, com o surgimento da Inteligência Artificial – e com as pessoas usando IA – muita gente pode apenas falar para o computador gerar um som, e isso é tudo o que fazem. Então, isso meio que está arruinando muito da música e acabando com a expressão humana por meio do som. Mas vamos ver o que vai acontecer. Mas como atualmente é muito fácil encontrar samples, eu espero que isso continue.
Falando em IA, é ótimo ouvir discos como o seu porque eles sempre têm o elemento humano em evidência. Tudo feito de forma analógica, praticamente na direção oposta de como a música tem sido feita atualmente. E eu também sei que você lançou uma nova iniciativa chamada “Played by Humans” que também vai de encontro a esses valores. Pode falar um pouco mais sobre isso?
Isso. “Played by Humans” (Tocado por humanos) é uma iniciativa da Jazz is Dead, juntamente com meu parceiro Ali Shaheed Muhammad (baixista, produtor e membro do A Tribe Called Quest) onde nós criamos um website que você pode acessar através da página da Jazz is Dead. Lá, você pode fazer o upload de uma música para descobrir se ela foi 100% criada ou não por IA.
E isso é algo que precisamos, porque as pessoas estão sendo enganadas a partir do momento que elas se apaixonam pelos sons de um computador pensando que foi um ser humano que fez a música, e mais tarde descobrem que a expressão que pensaram ter recebido não era algo real.
Além disso, queremos proteger o valor da arte, já que a maioria dos artistas não estão sendo pagos [nota do redator: vale lembrar que a IA generativa, em sua maior parte, foi treinada a partir de músicas e outras formas de expressão artística sem o consentimento dos criadores dessas formas de expressão].
E mesmo olhando para outras coisas além da música… jornalistas, cara. A IA está deixando o trabalho dos jornalistas mais difícil. Isso se aplica a tanta coisa. Então, se trata de proteger a nossa habilidade de fazer a nossa arte.
Também gostaria de te perguntar sobre as referências e influências na gravação de “Younge”. Você poderia selecionar três discos, dentro dessa vibe instrumental e orquestral, que te influenciaram? Podem ser referências quando você estava começando ou específicas para este projeto.
Bem, a trilha sonora “Revolver”, de Ennio Morricone (de 1973) foi a primeira trilha que me apresentou essa sonoridade orquestral soul, um soul cinematográfico. Então, essa seria a primeira influência (nota: no Brasil, esse filme de Sergio Sollima ganhou o nome de “Os Sequestradores em Ação”).
Uma segunda referência é uma canção de Lalo Schifrin chamada “Danube”[nota: “Danube Incident”, que faz parte da trilha sonora “More Mission: Impossible” de 1969, para a série homônima de TV] e sampleada posteriormente pelo Portishead em “Sour Times” no álbum “Dummy” (1994). Essa foi uma grande inspiração. E eu compus uma música chamada “Portschute”, que abre o disco, como uma dedicatória.
Também posso citar a música de David Axelrod. Não apenas um disco, mas “Songs of Experience” (1969) e outros álbuns dele. O som de Axelrod é apaixonadamente jazzy e cheio de alma. E você também pode notar a improvisação na música. Minha canção “Human Absence” (outra faixa de “Younge”) é inspirada pela obra dele, principalmente uma música chamada “The Human Abstract”.
Estou prestando homenagens a muitos desses compositores que vieram antes de nós e que acabaram sendo, mesmo sem saber, a fundação do hip hop. E estou retribuindo a eles, mas também tentando levar o hip hop adiante com esse disco instrumental.
Para finalizar, tive a sorte de ver você fazer uma apresentação especial com orquestra e vários convidados no lançamento do “Something About April 3” em São Paulo. Foi um grande momento, então gostaria de saber se os fãs brasileiros também terão a chance de conferir as músicas desse disco mais recente ao vivo com uma orquestra.
Cara, seria um sonho apresentar isso aqui com uma orquestra. Se eu souber que as pessoas estão dispostas a sair de casa para prestigiar, eu farei isso num piscar de olhos. Então, é algo que quero fazer. A questão é que a gravação ou apresentação com uma orquestra completa é algo caro. Então, enquanto houver pessoas que estejam dispostas a comprar ingressos para isso, elas irão tornar realidade meu sonho de apresentar essas canções ao vivo. E isso é o que eu quero fazer.
– Fabio Machado é músico e jornalista (não necessariamente nessa ordem). Baixista na Falsos Conejos, Mevoi, Thrills & the Chase e outros projetos.
