texto de Leandro Luz
“Gente quer comer, gente quer ser feliz / gente quer respirar ar pelo nariz”. Em “Gente”, canção-manifesto pelo Brasil como tantas outras escritas por Caetano Veloso, podemos enxergar mais do que um espelho do país: descortina-se um desejo de nação, uma febre de esperança que mira o hoje e o amanhã. 1977 é o ano de lançamento de “Bicho”, disco no qual Veloso experimentou novos sons influenciados pela Jùjú nigeriana e pela disco music que dominava o mundo naquele período. Partindo desse contexto, há dois assuntos incontornáveis para se falar de “Alucinação”, disco lançado por Belchior um ano antes de “Bicho”: Caetano Veloso e o Brasil; e é satisfatório perceber que o documentário homônimo não se esquiva de nenhum dos dois.
“Alucinação” (Renato Terra, Marcos Caetano e Leo Caettano, 2026) parte das canções de Belchior – todas elas tocadas na íntegra, seguindo a ordem do álbum, no decorrer de quase duas horas de filme – para vislumbrar um país em toda a sua beleza e contradição. “O Brasil é grande”, afirma Belchior no programa “MPB Especial” da TV Cultura, criado e dirigido por Fernando Faro, que havia começado anteriormente na TV Tupi sob a alcunha de “Ensaio”. O documentário utiliza-se largamente – um acerto por reconhecer o brilhantismo do registro, porém um erro por se estruturar excessivamente em torno de um material amplamente conhecido – desta participação do artista no episódio lançado em 1974, ou seja, mesmo ano de lançamento de seu disco autointitulado e dois anos antes de “Alucinação”, sua obra-prima resgatada pelo público brasileiro (e homenageado em tributo aqui no Scream & Yell) nesta última década.
Essa obsessão por cantar as grandezas do Brasil pode ser percebida em inúmeras músicas de Belchior, mais objetivamente em “Monólogo das Grandezas do Brasil”, faixa do pouco conhecido “Paraíso”, álbum lançado em 1982. O trio de diretores se aproveita dessa conexão entre o artista e o seu povo para construir uma narrativa pautada em imagens de arquivo que revelam principalmente o cotidiano de trabalhadores anônimos brasileiros. São materiais oriundos de diversos acervos e de perfis heterogêneos nos quais a montadora Jordana Berg trabalhou arduamente para estabelecer alguma ordem, elegendo blocos temáticos que frequentemente são disparados pelas próprias canções ou, eventualmente, pelo discurso de Belchior, que também aparece falando e cantando por meio do material escolhido. A abordagem é mais rica como comentário social do que como biografia, uma escolha consciente dos realizadores.

Embora Belchior tenha cantado e refletido sobre o seu país em todos os discos que lançou no decorrer de uma carreira longeva em estúdio e nos palcos, apesar das dificuldades que enfrentou a partir dos anos 1990, foi mesmo em “Alucinação” que ele conseguiu reunir o maior número de canções que se comunicavam diretamente com a ideia de “gente” defendida por Caetano Veloso e apresentada no início deste texto.
Discorrer a respeito do cantor baiano para falar sobre o cearense natural de Sobral é relevante porque não existiria Antônio Carlos Belchior sem Caetano Emanuel Viana Teles Veloso. Mais ainda: não existiria aquele sem que este carregasse em sua produção lírica e musical uma série de valores e códigos de linguagem, já consolidados em meados dos anos 1970, nos quais serviram como ímpeto para uma ruptura declarada. “E o passado é uma roupa que não nos serve mais”, canta Belchior em “Velha Roupa Colorida”. A ironia também está presente no disco, como em “Apenas um Rapaz Latino-Americano”, na citação a “Divino Maravilhoso”: “nada é divino, nada é maravilhoso”. Na dylanesca “Fotografia 3×4”, Belchior implica abertamente com o seu “antagonista”: “Veloso, o sol não é tão bonito pra quem vem do Norte e vai viver na rua”.
Qualquer análise medíocre acerca dessa relação conturbada entre os dois artistas ficaria apenas na superfície, concentrada nos conflitos mais rasteiros. No entanto, a maior força da música de Belchior está em suas contradições e em suas aproximações com a música popular brasileira e internacional consagrada daquele período. Belchior e Caetano Veloso têm muito mais afinidades do que discordâncias, e isso fica evidente pela sonoridade do disco de 1976 e pelo uso constante de referências estrangeiras nas letras. Um ano depois, no disco seguinte, “Coração Selvagem”, a música homônima de abertura nos diz: “Meu bem, meu bem, meu bem / que outros cantores chamam baby”. Essa crítica recorrente de Belchior glosa da relação que Caetano Veloso e a Tropicália instituíram com os Estados Unidos, mas a sua própria música mesmo tem muito dessa conexão.
Ainda sobra tempo para que “Alucinação”, o filme, estabeleça um ponto de contato com o presente político brasileiro. Quando os primeiros versos de “Não Leve Flores” explodem nas caixas de som do cinema, fica impossível não pensar, por exemplo, nas eleições que enfrentamos neste exato mês de outubro. “Não cante vitória muito cedo, não”, aconselha Belchior. Aos jovens de ontem e de hoje, Belchior dá um recado muito nítido: permaneçamos sempre atentos e não deixemos nossos cigarros se apagarem pela tristeza.
Ouça e baixe “Ainda Somos os Mesmos”, tributo ao álbum “Alucinação”, de Belchior

– Leandro Luz (@leandro_luz) escreve e pesquisa sobre cinema desde 2010. Coordena os projetos de audiovisual do Sesc RJ desde 2019 e exerce atividades de crítica nos podcasts Plano-Sequência e 1 disco, 1 filme.
