texto de Leandro Luz
“Dragões” (Miguel Antunes Ramos, 2026) deveria ser um filme sobre o passado. Infelizmente, os novos dragões seguem protagonizando uma imagem nefasta do Brasil e ameaçam tomar novamente o Executivo. Ramos parte da famosa pintura “Independência ou Morte”, criada em óleo sobre tela por Pedro Américo, artista nascido na Província da Paraíba em 1843, para contextualizar a permanência, até os dias de hoje, desta entidade apelidada de Dragões da Independência, que nada mais é do que, oficialmente, o 1º Regimento de Cavalaria de Guardas, uma unidade de elite do Exército Brasileiro responsável pela segurança presidencial e pelo cerimonial militar.
O RCG foi criado por D. João VI em 13 de maio (data de seu próprio aniversário) de 1808, um momento também marcado pela promulgação de dois outros atos: a criação da Impressão Régia, considerada a primeira imprensa oficial brasileira, e a assinatura de uma Carta Régia que declarou guerra aos Botocudos – denominação genérica dada pelos colonizadores portugueses a um conjunto de povos indígenas que ocupavam a região do Rio Doce, em Minas Gerais -, incentivando a ocupação de terras e a escravização de prisioneiros. Voltando à obra de Américo, a composição impressiona pela sua imponência (415 cm x 760 cm) e pela beleza que a impressão de movimento causa. D. Pedro I ao centro empunha uma espada apontada para o céu. A pintura é um dos maiores exemplos de uma tentativa de construção da nossa identidade nacional e, ironicamente, também é uma das imagens mais usadas para explicitar como a linguagem artística pode colaborar na manipulação de um discurso ou mesmo da História.

Dado esse contexto, “Dragões” nos arrasta para o inferno, a saber, o canal de YouTube de Jair Messias Bolsonaro. O diretor parte dos 15 anos de material publicado no canal oficial do político – de 2010 a 2025, ou seja, de Deputado Federal a Presidente do Brasil a presidiário – para analisar com detalhes como a sua imagem foi minuciosamente construída e divulgada durante esse período.
A conexão profunda que o cinema tem com a ideia de entretenimento, construída histórica e socialmente, com frequência faz os seus espectadores menos aguerridos enfrentarem dificuldades com o visionamento de obras que fujam de uma lógica simplesmente escapista. Ramos tem consciência de que o seu filme é indigesto. E é mesmo, por várias razões. Independentemente do momento no qual assistimos a “Dragões” – e este outubro de 2026 definitivamente é o mais desafiador desses momentos – passar quase uma hora e meia tendo que olhar para a cara de Bolsonaro e seus asseclas é desesperador. A tese de Ramos defende que, para entendermos o momento político no qual vivemos e, para verificarmos as formas de manipulação usadas pelos nossos inimigos, é necessário que estejamos bem perto, olhando diretamente para os seus olhos. Ou pelo menos enquanto isso ainda nos é permitido.
Entramos, assim, no ponto crucial de discussão que o documentário propõe. Ao investigar os vídeos publicados por Bolsonaro e sua equipe de mídias digitais, Ramos percebe mudanças de estilo na maneira como a câmera registra os corpos e os acontecimentos que os rondam. No início, o canal publicava apenas vídeos de participações do ainda deputado em programas de entrevistas e matérias de TV em geral. Em seguida, sua equipe assume o controle da câmera e passa a registrar Bolsonaro nos corredores da Câmara dos Deputados, seja proferindo as suas típicas atrocidades para microfones de jornalistas, seja confrontando militantes de esquerda que o abordam – sem que pudessem imaginar o tamanho que o monstro teria no futuro. Ao se projetar nacionalmente como uma alternativa ao Governo Federal, a câmera passa a registrar cenários muito bem compostos – inclusive para parecerem espontâneos -, forma que se consolida, finalmente, quando Bolsonaro é eleito em 2018 e assume o cargo em 2019, realizando as lives semanais e consolidando toda uma estética que, inclusive, continua sendo imitada por sua família e apoiadores.
A última e mais importante mudança na forma como a extrema-direita brasileira passa a registrar a si própria, no entanto, é percebida por Ramos e apresentada para nós na parte final do filme. Ao invés de ter o seu rosto como centro da informação, Bolsonaro assume ainda mais o controle da câmera, girando o seu eixo e mostrando o que ele próprio vê: os novos dragões, ou seja, seu exército de seguidores como um espelho torcido. O documentário revela como, a partir desta operação de estilo, Bolsonaro se retira das imagens, deixando seus apoiadores em primeiro plano. Ramos imediatamente faz um paralelo com Lula, cujas imagens também conscientemente produzidas estão sempre em alta definição, situando o seu corpo no centro do quadro e deixando os apoiadores em segundo plano. A pergunta retórica que o filme faz é: das duas, qual a estratégia mais eficiente? A pergunta desesperada que nós, espectadores e eleitores, fazemos é: como superar a construção de uma imagem, seja ela qual for?
A trilha sonora de Kiko Dinucci comunica bem a atmosfera de desconforto que o documentário transmite, explorando sons eletrônicos que buscam criar tensão e suspense, ao passo que tentam contribuir para a manutenção do ritmo da narrativa, que evita a todo custo cair em tempos mortos. Eventualmente, a repetição do método dialético operado pelo roteiro e pela montagem – analisar imagens, observar movimentos e enquadramentos de câmera, elencar contrapontos e buscar uma síntese – cansa e, eventualmente mostra-se improdutivo, mas é inegável como o filme nos coloca na ponta da cadeira, atentos para pescarmos cada uma das referências e sacadas que a narração de Ramos levanta. A propósito, a implicação da primeira pessoa por parte do cineasta é uma constante. Ademais, eis aqui um diário compartilhado.
Em “Império dos Sonhos” (“Inland Empire”, 2006), último longa-metragem para o cinema dirigido por David Lynch, acompanhamos a jornada de Nikki Grace (Laura Dern), uma atriz cuja personalidade passa a se confundir com a de Susan Blue, sua personagem no filme dentro do filme, caindo em uma espiral de eventos filmados com uma lente surrealista. O pesadelo em “Império dos Sonhos” é marcado, sobretudo, pelo uso inovador da câmera digital orquestrada por Lynch (ainda que ele tenha omitido os seus créditos como diretor de fotografia), no qual valoriza a baixa definição que resulta frequentemente em uma pixelização extrema. O pesadelo de “Dragões” também tem a ver tanto com a ideia dos ruídos da imagem quanto do duplo.
Ramos identifica, em uma das primeiras imagens que analisa do canal de Bolsonaro – os anônimos que seguem um mito escondido na multidão, todos filmados em um plano geral que valoriza a massa e suprime a individualidade -, esse mesmo procedimento que seria sistematicamente usado anos mais tarde. Ainda, a última imagem do documentário traz um Nikolas Ferreira fazendo “arminha com a mão” e gargalhando tal como o seu ídolo. Nesta imagem, um alerta: ao contrário do que o nosso parco otimismo pode sugerir, a mimetização das trevas segue em seu curso diabólico como dragões que destroem as torres dos castelos e queimam vilas inteiras com o poder de suas línguas de fogo.
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– Leandro Luz (@leandro_luz) escreve e pesquisa sobre cinema desde 2010. Coordena os projetos de audiovisual do Sesc RJ desde 2019 e exerce atividades de crítica nos podcasts Plano-Sequência e 1 disco, 1 filme.
