João Jardel encerra trilogia com “megaPOP” e comenta o novo EP faixa a faixa

introdução de Diego Albuquerque
faixa a faixa por João Jardel

João Jardel é um produtor, experimentador, cantor e compositor de Itabira, interior de Minas Gerais, que vem explorando suas fronteiras musicais e lançando sons solos desde 2020 somando uma série de singles, registros ao vivos, bons EPs e um álbum cheio, sempre misturabdi sonoridades ligadas à diáspora sonora brasileira, mundial e regional com elementos sonoros mais pesados.

Agora, João Jardel apresenta o EP “megaPOP” (2026), trabalho que encerra uma trilogia explorando o universo da música pop relacionada a sons afro diaspóricos. O projeto teve início com o EP “Pop” (2024), seguiu com o álbum “Anti-POP” (2025) e agora chega em seu capítulo final com “megaPOP“, trabalho lançado em parceria com o blog de música brasileira Hominis Canidae e pelo selo virtual HC REC.

Esse novo trabalho conta com quatro faixas feitas durante o processo dos EPs anteriores, mas que ficaram de fora dos outros trabalhos. Para a versão do Bandcamp e no full álbum no canais do Youtube do João Jardel e Hominis Canidae, o trabalho ganha uma faixa bônus: “megaPOP 5” é da época do EP “POP”, mas só veio ter letra em 2025 e em meio a beats, samples e synths ela é meio auto explicativa, inclusive sobre toda essa trilogia e também sobre a música pop nos tempos atuais. Para entender mais sobre os intentos de João com essa trilogia de EPS, ele comenta o novo lançamento abaixo, faixa a faixa.

01) “megaPOP 1” – A primeira faixa foi, também, cronologicamente, a primeira música composta. Começou como um synthpop lá em 2020, quando eu estava compondo as faixas do disco “BRANCO” (2021). Sua letra relata uma experiência em que vi uma pessoa sofrer um colapso e cair parecendo um morto vivo, numa energia meio Ian Curtis. A estrutura que girava em torno de sintetizadores, num primeiro momento, foi mudada para um faixa mais minimalista, etérea, onde escolhi deixar buracos, não colocar loops ou samples de bateria, com um vocal mais metálico pra dar a impressão de que a experiência de ouvir a música acontece dentro de um “sonho” (ou pesadelo).

02) “megaPOP 2” – Quando comecei a compor o “ANTI-POP”, queria que o disco não tivesse instrumentos harmônicos (sintetizadores, teclados, guitarras etc) e eventualmente não queria baixos, que eu substituiria por sons modificados de bumbo digitais ou peças de baterias com efeitos distorcidos. “megaPOP2” foi uma das primeiras músicas, juntas com “O Agogô” e “O Amor” que compus pensando num disco, mas sempre senti falta de algo. A música era mais rápida, a letra que eu fiz pra ela, virou “O Agogô” e eu a achava muito vazia. Abandonei-a quando eu e R.Honório fechamos as faixas do “ANTI-POP” e então resolvi alterar o tempo da música, incluir o BPM, mas a letra não saía. Acabei conseguindo no início de 2025 ter um esboço de letra e gravei, pensando em deixar isso para algo depois do “ANTI-POP”, no que seria um novo ciclo, mas tanto a letra, quanto a construção me lembravam aquele momento, por isso fazia sentido estar num lugar onde estivessem faixas que eu tenho algum carinho e ficaram de fora dos trabalhos anteriores.

03) “MUSSUM INTERLÚDIO” – Composta depois do “BRANCO”, foi a primeira faixa que fiz aprendendo a manipular os cortes de bateria que eu usava em alguns loops. Queria tê-la lançado como single depois do “BRANCO”, mas eu não tinha uma letra boa e só depois de ver “Os Saltimbancos Trapalhões” (1981) que achei algo que coubesse na música, que seria a minha primeira faixa instrumental. Assim como “megaPOP 2”, ela é focada apenas em uso de cortes de baterias, no caso loops de trap, techno e IBM, pra criar esse som de bateria sem muito sentido, mas querendo realmente embaralhar e criar meu primeiro som industrial.

04) “megaPOP 3” – Compus essa faixa depois de ler sobre a música techno da cidade de Detroit e ainda na onda do que tinha feito no “POP”. Era uma fase em que eu estava tentando explorar sons mais eletrônicos e rápidos, pensando na possibilidade de ter que tocar sozinho e ter faixas no meu repertório que pudessem ser “pesadas” e curtas, como se fosse nos shows de hardcore. A letra se inspira no trabalho do artista DO INFERNO, mais especificamente sobre as “Almas Sebosas”, que são tanto aquelas que ele expõe no trabalho dele, quanto nas pessoas que são encostos na nossa vida e a gente precisa devolver pro mar, pra nos dar sossego.

05) “megaPOP 4” – Na mesma pegada de “megaPOP 3”, mas escrita como continuação da minha letra para “banquete dos ratos”, essa faixa surgiu depois que conheci Nelson Cavaquinho em 2019 (SIM! EU NÃO SABIA DELE! EU ERA MUITO ROQUERRRR) e ter ficado muito impactado pela letra de “Quando me chamar Saudade”. Então é isso: pandemia comendo solta, eu lendo sobre Xangô no livro “A Mitologia dos Orixás” (livro de Reginaldo Prandi, 2001) e o luto pela morte da minha avó no final de 2019 geraram essa letra, que acabou entrando para uma música que eu compus depois do “BRANCO” em 2021, tentando emular algo como se fosse uma música do BNegão e os Seletores de Frequência: BPM mais rápido e ritmo suingado, apareceu então o refrão, que é meio que um mantra que eu fiz para me lembrar de me afastar da arte, porque arte é ambiente de droga. Primeira faixa que incorporei elementos da música brasileira, chegou a entrar para uma coletânea que nunca saiu, por isso que soltar no mundo, porque eu acho que é das melhores coisas que já fiz.

– Diego Albuquerque é o criador do blog Hominis Canidae, um dos maiores repositórios de discos brasileiros da última década. O blog foi criado em 2009, no Recife, e divulga novos artistas e nomes indies da música brasileira, de norte a sul do país.

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