Três livros: “Do Vinil ao Download”, “Devil in a Coma”, “Fé, Esperança e Carnificina”

texto de Marcelo Costa

“Do Vinil ao Download”, André Midani (Editora Nova Fronteira)
Falecido em 2019 aos 86 anos, André Haidar Midani é um nome incontornável da música brasileira. Um dos profissionais mais importantes da indústria fonográfica brasileira e da América Latina desde os anos 1960, Midani lançou este livro em 2008 com o título de “Música, Ídolos e Poder”, mas o volume foi retirado das lojas pela Justiça a pedido da família de um ex-diretor de gravadora, diminuído por Midani na publicação por não ter “capacidade nem seriedade profissional para acompanhar a carreira de um profissional do calibre de Chico Buarque”. A solução imediata encontrada por Midani foi uma traquinagem: já que não podia vender seu livro, decidiu distribui-lo gratuitamente colocando inicialmente cada capítulo em um blog, e depois o livro todo para download em seu site oficial. Sete anos depois, em 2015, Midani lançou essa edição ampliada (com dois capítulos novos, um deles, imperdível, sobre sua relação com o New Order), revisada (sem a “ofensa” ao colega de outra gravadora) e extremamente recomendável na esteira de um especial de TV produzido pela GNT (e que se transformou em um documentário delicioso). Como resumiu uma oficial de imigração no México certa vez, “uma pessoa nascida na Síria, com passaporte brasileiro, que mora em Nova York, que vem de Medellin e passa pelo México dizendo trabalhar com música e que fala espanhol com sotaque francês não pode ser uma pessoa confiável”, mas Midani conquistou a amizade e confiança de alguns dos maiores nomes de nossa música. De certa forma, Midani divide muitas coincidências de vida com o produtor Bill Graham: ambos fugiram da guerra na Europa. Graham foi pros Estados Unidos e construiu um império de música ao vivo; Midani veio para o Brasil e mudou radicalmente o rumo da música brasileira. A biografia de Bill Graham, “Minha vida dentro e fora do rock” (2008), é espetacular. A do Midani é excelente, mas não chega ao mesmo nível porque André decidiu escrever ele mesmo sua história, sem um jornalista por perto com faro para resgatar histórias e forçar temas que o autor preferisse ignorar. Ainda assim, “Do Vinil ao Download” é obrigatória não apenas por revelar histórias imperdíveis de bastidores da música brasileira e mundial, mas também por ser uma radiografia da indústria da música por um profissional que viveu intensamente o cotidiano das gravadoras, e estava lá quando a pirataria tomou o setor e os tecnocratas chegaram com pastas, números e nenhum conhecimento e paixão sobre música. Uma aula imperdível.


“Devil in a Coma”, de Mark Lanegan (Terreno Estranho)
Sabe aquela historinha do filminho que passa diante de nossos olhos quando a morte se aproxima? Mark Lanegan o assistiu diversas vezes, e ainda que o filme de sua vida pudesse ser catalogado como um drama tenso envolvendo família, polícia, drogas, paixões e rock and roll, Lanegan era o primeiro a não romantizar seus fracassos, uma tendencia no estrelato rock and roll. Optando pela via contrária, Mark Lanegan usava e abusava da auto-depreciação e da ironia para contar as desventuras de um moleque fodido odiado pela mãe que se transformou num rock star famoso com uma voz abençoada. Uma grande parte de sua vida junkie e sombria foi relatada por ele em “Sing Backwards and Weep” (2020), uma daquelas obras em que a Morte sempre parece que irá surgir na página seguinte, não a espera de uma partida de xadrez, mas de um pico fatal, que, no caso de Lanegan, surpreendentemente nunca vem – amigos e paixões, entre eles Kurt Cobain e Layne Staley, não tiveram a mesma sorte. Se a overdose fatal não o abençoou, o karma, acredita Lanegan, surgiu na forma da Covid-19. Ele admitiu abertamente (e inicialmente) acreditar em diversas teorias da conspiração sobre a Covid, mas quando um jornalista foi entrevista-lo em Kerry, na Irlanda (terra de seu tataravô), local em que ele se refugiou para fugir da doença em 2021, e tragicamente transmitiu a doença para ele, Lanegan mudou completamente de opinião após passar por toda experiência de entubamento, coma induzido, falta de ar, dores violentas no peito e observação atenta (e, muitas vezes, alucinada) de seus vizinhos de ambulatório enquanto o passado voltava para atormentá-lo. O resultado de sua epopeia hospitalar no Condado de Kerry é “Devil in a Coma” (2021), um livro (traduzido por Carlos Messias) que combina prosa delirante, fragmentos de poemas sem rima, febre, surdez, hemodiálise, alucinação, insônia e memórias. Ao mesmo tempo em que a equipe do hospital (que ele não cansará de elogiar) fica abismada com a resistência recordista do homem, sua mulher cuida para que a volta do inferno não seja ainda mais dolorosa, negando aos médicos a realização de uma traqueostomia que iria acabar com sua voz e, consequentemente, com sua carreira. Não espere refresco, não há. O que há é um relato de um homem dolorosamente doente e que tenta sobreviver a si mesmo e ao seu passado… mais uma vez… nem que fosse por alguns meses. O resultado é um livro curto, mas pesado, doloroso, sombrio e triste… como a vida.


“Fé, Esperança e Carnificina”, de Nick Cave e Sean O’Hagan (Terreno Estranho)
Lançado em 2023, o documentário “Mutiny in Heaven: The Birthday Party” contava não apenas dos primórdios dessa banda absolutamente selvagem que se desintegrou em 1983 após ultrapassar todos os seus limites durante cinco anos, mas também lançava luz sobre Nick Cave, um delinquente juvenil que, de maneira surpreendente, sobreviveu a adolescência, a si mesmo e ao fim de uma das bandas “mais gloriosas” daquela época, segundo Lydia Luch. Como aquele garoto completamente desajustado que adorava flertar com o caos se transformou em um ser-humano sereno e atento é uma das coisas que mais chama a atenção em “Fé, Esperança e Carnificina” (“Faith, Hope and Carnage”), o fantástico livro (traduzido por Carlos Messias) que surge como resultado de uma grande entrevista que durou quase dois anos de pandemia (do começo de 2020 ao final de 2021). O jornalista Seán O’Hagan, do jornal britânico Observer, conhecia Nick Cave a mais de 30 anos quando propôs a ele uma longa entrevista. Cave tinha parado de dar entrevistas após a morte trágica de Arthur, seu filho, em 2015, pois havia chegado a conclusão de que odiava a natureza comercial do negócio todo, em que um artista tem que falar sempre sobre algo que está vendendo (um disco, uma turnê, um filme, um livro), e conforme responde sempre as mesmas perguntas, se vê preso em um tedioso circulo vicioso. Mas Cave adora conversar… sobre qualquer assunto, e esse é o método seguido neste livro: Seán ligava para Cave e os dois começavam uma conversa que poderia durar cinco minutos ou duas horas. Nas mais de 300 páginas de “Fé, Esperança e Carnificina”, Nick Cave irá rememorar o passado, principalmente motivado pela partida de sua mãe e da amiga Anita Lane, falecidas durante o processo do livro, versará sobre a utilidade da fé, mergulhará no desgastante e por vezes mágico processo criativo de um disco, irá filosofar sobre vida, morte e religião, fará um acerto de contas com sua cidade natal e com antigos integrantes dos Bad Seeds, tangenciará seu relacionamento com Polly Jean Harvey e, claro, como não poderia deixar de ser, lidará com o luto da perda do filho, um tema que ronda grande parte das páginas, e será enfrentado de frente por Nick em certa altura da conversa. O que mais surpreende em “Fé, Esperança e Carnificina”, porém, é a serenidade comovente de Nick Cave, que aceita que não têm todas as respostas do mundo, e que talvez nem precise delas realmente, pois acreditar, mesmo às cegas, basta. Pode parecer pouco, mas colocado em retrospecto, principalmente entre o jovem e junkie Nick Cave do Birthday Party com o velho e experiente Nick Cave dos dias atuais, é algo que vai além da lógica, mas demonstra, por a+b, como o ser-humano pode, sim, evoluir, num daqueles livros (para serem lidos e relidos) que renovam a nossa fé na humanidade.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

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