texto de Guilherme Lage
Surgido na efervescência indie da Nova York dos anos 2000, o Interpol é, talvez, a banda mais constante no que diz respeito à identidade na música surgida naquela década na Cidade Que Nunca Dorme. Ao decorrer de sete discos, a banda manteve um reconhecimento musical instantâneo a quem ouvia suas músicas desde o primeiro acorde.

Passados quase 25 anos de “Turn On The Bright Lights”, o Interpol dos anos 2020 é bem diferente daquele do início do século e essa familiaridade é desafiada, mesmo que de forma sutil, em “This Mirror Weighs a Ton” (2026), oitavo álbum da banda. O disco nasce em um momento de cisão, seja na forma de elaborar as canções, quanto à colaboração com um novo selo, a Partisan, o primeiro da banda fora da Matador Records desde “Our Love To Admire” (2007).
A melancolia e o existencialismo característicos da banda permanecem ali, mas de forma diferente. Desta vez os amores acabados causam menos frio na barriga e noites insones. Afinal de contas, uma das pedras fundamentais da maturidade é enxergar o mundo e se ver parte dele, não há blindagem ou distanciamento emocional que nos privem da sentença de existir. Em “This Mirror Weighs a Ton” o Interpol segura um espelho próximo ao rosto e mira o reflexo que aparece no vidro, abrindo espaço para contemplação e é desta vulnerabilidade que pode nascer também uma leve esperança, se permitir ser parte de algo, contentamento.
A faixa título, que abre o disco, mantém o ouvinte um pouco distante, em uma espessa fumaça de Camel Light ou uma densa neblina pré-chuva. As guitarras seguram o ritmo da bateria de Sam Fogarino e o piano de forma quase sensual e misteriosa, são presentes, mas funcionam mais como ambientação do que como protagonistas.
Já “See Out Loud”, primeiro single do álbum e tocada pela primeira vez no Brasil, em março de 2026, é uma música que se aproxima do Interpol tradicional, com um ritmo que faria qualquer defunto se levantar para dançar em uma festa indie dos anos 2010. A faixa traz o guitarrista Daniel Kessler dividindo os vocais com Paul Banks pela primeira vez desde “PDA”, em “Turn On The Bright Lights”, com um ritmo que não se chega a ser nostálgico, mas resgata com gosto a identidade da banda, e que caberia facilmente em “Marauder” (2018).
Em “Iron City”, Paul Banks canta sobre estar sozinho no Central Park. O guitarrista e vocalista da banda mora em Berlim, mas o disco, gravado em Nova York, traz à tona novamente sua indissociável conexão com a cidade. Talvez a produção de Andrew Wyatt, um nova-iorquino convicto, tenha ajudado a reacender este amor. O refrão conta com piano suave, junto a camadas de acordes de Kessler e a bateria característica de Fogarino, que mostram que o Interpol pode até experimentar, mas continua uma banda inconfundível. Sobra até um pouquinho para comparar com o trabalho solo de Paul Banks, talvez uma pontinha de “Young Again”?
“Wounded Soldier” é uma música que traz as guitarras de volta aos holofotes. Com um riff simples, que parece surgir do puro ar, característica de Kessler, Paul Banks confessa “I dream violence” e “wounded soul, wounded soldier”, talvez sobre uma necessidade de continuar seguindo em frente. A percepção não passa de um chute, uma vez que é quase impossível decifrar o que o cara quer dizer em suas letras. A guitarra continua a dar o tom da faixa, entre dedilhados e power chords suaves, que levam a música a um crescendo antes do fim.
“Wings On Fire”, começa com a inconfundível pegada de Sam Fogarino. A faixa é preenchida pelos riffs intercalados de Banks e Kessler, pra matar bastante a saudade da dupla tocando junta. Além de poderosa e indiscutivelmente Interpol, a música traz ainda as muito bem-vindas linhas do recém-contratado baixista Brad Traux, que tira as quatro cordas das mãos de Banks desde “El Pintor” (2014), quando assumiu o instrumento pós-saída de Carlos Dengler em 2010.
“Ever The Actor” começa com um riff minimalista acompanhado da bateria de Fogarino, dando o tom perfeito de uma música para se ouvir num dia chuvoso. Na letra, o estado do mundo é confrontado em frases que contemplam quebras de expectativa e desilusões. Mas como o próprio título sugere, sempre um ator, há frases que quebram o cinismo, como “I Feel Fine” e “I’ll be there for you”, despejando um pouco de luz. Esse jogo do contente é encerrado com um trecho final feito inteiramente por violinos, inédito na discografia da banda. Bonito e extremamente eficiente.
Outro arranjo inédito acontece em “So Rides The Reindeer”. Apesar do uso eterno de uma Epiphone semi-acústica em suas faixas, essa é a primeira vez que o Interpol utiliza um violão em uma música. As cordas de nylon aparecem logo depois de uma introdução com elementos eletrônicos. Na faixa, a banda abraça o post-rock em uma música em que as guitarras funcionam com camadas vezes gélidas, vezes reconfortantes, que fazem pensar se a banda já ouviu falar em grupo sueco chamado Magna Carta Cartel.
“Darling Thoughts” começa com um riff barítono de Kessler acompanhado da voz de Banks antes de ser engolida pela bateria inconfundível de Fogarino. A bateria, inclusive, que utiliza um simples, mas matador jogo de caixa,faz lembrar os tempos áureos do movimento Madchester, que tomou a Inglaterra no fim dos anos 80 e algo que te faz pensar nos Stone Roses só pode ser muito bem-vindo. Já o refrão traz um Paul Banks cantando rápido, com versos que se atropelam, que mostram seu já conhecido gosto por Americana (o gênero musical, não a nacionalidade), forte em storytelling.
Em “Wake Up” Kessler aparece novamente, abrindo a faixa com um riff que, apesar de ser indiscutivelmente a sua cara, pode criar um paralelo rápido com os Smiths. Esse tipo de riff que sempre levanta a impressão: é interessante como esses caras conseguem compor em torno de um riff assim, algo presente em músicas como “Same Town, New Story” e “My Desire”, ambas de “El Pintor”. A parte percussiva também chama bastante a atenção, com Fogarino dando uma interpretação quase jazzística à faixa, fora o uso de outro instrumento inédito: o bongô, trazendo algo levemente festiva à faixa.
A décima música “Enemy”, traz uma melodia melancólica ao piano aliada às linhas vocais de Banks. Aqui temos uma das faixas mais corajosas do disco, senão da carreira da banda. Paul tem sua voz adornada por vocais femininos, o dueto traz uma clara influência de R&B e tem nos arranjos de guitarra e piano um trunfo belíssimo, permeado pela bateria que, ao fundo, serve para cadenciar as vozes. Imperdível!

“Bird and The Serpent” começa com um riff que pode levar o ouvinte, no início, aos tempos do álbum “Interpol” (2010). A parte referencial, no entanto, termina rápido, bastante rápido. Com os vocais arrastados e a bateria sutil, a música tem em seu refrão um dos pontos altos do disco. Aqui, Paul Banks canta alto e com intensidade, tendo a guitarra com efeito de Kessler como base para entregar uma de suas melhores performances vocais a frente do Interpol.
O encerramento “Sudden” é uma faixa que faz pensar que em tempos idos, o Interpol a utilizaria como abertura. A música, tratada por piano e um clima melancólico característico das introduções da banda no início da carreira. Isso não tira, de forma alguma, o brilho da música. Nesse disco é realmente um momento de tentar e mudar, fazer diferente do que se espera. A voz quase mântrica de Banks enquanto repete “This is not sudden to me” é o fechamento ideal para um disco que não veio para corresponder a expectativas.
A palavra experimental é, muitas vezes, jogada por aí, portanto, não vamos desperdiçá-la por aqui. Há sim tentativas, experimentação, uso de novos instrumentos, mas continua sendo música pop pensada, arranjada e feita com cuidado e isso faz com que o resultado seja muito bom, mostrando que ousar também é uma forma de inconformismo. Vindo de uma banda que sabe quem é e o que se espera dela, com “This Mirror Weighs a Ton”, o Interpol mostra que em um mundo inescapável, a vida é muito mais do que caminhar olhando pra trás.
Leia mais sobre o Interpol no Scream & Yell
– Guilherme Lage (fb.com/lage.guilherme66) é jornalista e mora em Vila Velha, ES. Leia outras entrevistas dele!
