texto de João Paulo Barreto
Existe em “La La Land” (2016) um direcionamento diferente da energia vista no longa anterior do diretor Damien Chazelle. Não que isso seja um problema, de fato. Afinal, os cortes rápidos da montagem de Tom Cross, agraciado merecidamente com o Oscar pelo trabalho em “Whiplash“, demonstram-se mais contidos nesse revisitar dos grandes clássicos musicais de Hollywood.
Essa mudança de tom se faz presente no modo mais fluído e menos seco (estilo imprescindível para o impacto do longa de 2014) com que a narrativa de “La La Land” nos é apresentada. Um sinal curioso de que Chazelle, que à época, tinha apenas 32 anos, começava a amadurecer de modo louvável em seu modo de direção.

Na história simples, dois aspirantes ao sucesso se apaixonam durante os percalços para provar seus talentos e se estabelecerem naquilo que realmente amam. Ela, uma atriz que ganha a vida como balconista e que tenta encaixar na sua rotina diversos testes para papéis (o fato de trabalhar no Café dentro dos estúdios da Warner ajuda na logística). Ele, um pianista de talento e jazzista de alma e que toca em bares durante o período de Natal, mas vê sua genialidade castrada pela necessidade de tocar exclusivamente músicas comerciais. Ambiciona abrir o próprio bar voltado para o jazz, mas precisará revisitar outros estilos para pagar as contas.
Trata-se de uma obra ingênua, mas cativante. Ryan Gosling cantando e sapateando, claro, não se aproxima de Fred Astaire ou a Gene Kelly, mas, enfim, tem um carisma que chega bem perto dos dois gênios da dança. A já notável inexpressividade de emoções no rosto de um Gosling, aqui, não se torna um demérito. Em sua tristeza comedida diante de tantas frustrações, Gosling traz para seu Sebastian o tom certo para representar as tentativas e erros que os percalços lhe apresentam. Já bastante conhecido pelo apurado timing cômico (vide “Dois Caras Legais”, 2016), aqui, algumas tiradas remetem bem ao modo de atuação do filme de Shane Black.
Em Mia, Emma Stone, com seus (lindos) olhos gigantescos a dominar toda a tela do cinema, representa bem essa ilusória ambição do estrelato que invade diversas jovens a tentar uma carreira em Los Angeles. Ainda bem que o filme não aborda o mal que a cidade e seus predadores podem fazer a esse tipo de ingenuidade. Entre testes e mais testes nos quais nada progride em sua carreira, uma introspecção a faz caminhar pela cidade até se deparar com o clube onde Sebastian arrisca uma última cartada na intenção de quebrar o protocolo imposto pelo dono do lugar que insiste que ele toque apenas medalhões de natal (J.K. Simmons honrando o presente que foi “Whiplash” para sua carreira).
No encontro dos dois, a primeira brincadeira do roteiro de Chazelle, no qual o tal idealizado romance é frustrado logo de cara. Talvez um pressagio para o final adequadamente real que o filme apresenta para aquele relacionamento, que utiliza uma Hollywood atual, mas que, sem os telefones modernos e os carros contemporâneos, poderia muito bem ser a mesma da era de ouro, onde os mesmos musicais repletos de sapateados, cores (algo que, aqui, as paletas das roupas representam muito bem), falas cantadas e ilusões de amores idealizados perpetravam diversas obras.
Essa modernidade é representada de modo curioso pelo jazz que perpassa pela fantástica trilha sonora. Encarado de modo nostálgico pelo personagem de Gosling, alguém que guarda como um troféu um banco onde teria sentado seu herói Hoagy Carmichael. Alguém para quem o estilo é tratado com total preciosismo, mas cujo choque da realidade financeira e do argumento do band leader a lhe oferecer um emprego (o músico John Legend, em eficiente e irônica participação) lhe faz ter segundas opiniões. “Como você vai ser um revolucionário comportando-se como um tradicionalista? Você está tão ligado ao passado que se esquece que o jazz representa o futuro.” Doloroso, mas preciso.
Exibindo ao público duas opções de final em seu desfecho, Chazelle mantém o sabor agridoce de sua história, mas garante a seu público um pouco da ingenuidade mágica que os clássicos que ele soube homenagear tão bem trazem em sua essência. Escolha o seu, mas saiba que o amargo é mais real.
Em tempo: A participação do músico John Legend, inclusive, em uma revisita à obra, remeteu-me à sagaz observação de Zack Galifianakis em sua entrevista debochada com Legend no impagável Between Two Ferns, seu “talk show” entre samambaias ressecadas e maltratadas. Lá, o barbudo pergunta para o músico: “Você diria que seu trabalho em La La Land realmente ajudou a pavimentar o caminho para brancos explicarem jazz para pretos?” Pergunta sagaz e cínica, claro, mas de uma pertinência absurda tantos anos depois da estreia.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.
