Crítica: “A Última Casa” tenta ser várias coisas ao mesmo tempo – e falha em cada uma delas

texto de Davi Caro

“Não dava para esperar muita coisa de um filme feito pela Netflix”. É o que qualquer um poderia dizer após assistir à “A Última Casa” (“The Last House”, 2026). Dirigido por Louis Leterrier, o longa segue o padrão de muitas das produções que já figuraram na lista corrida de títulos cinematográficos realizados pela própria plataforma de streaming: um elenco estelar (aqui, alicerçado no casal de protagonistas, vivido por Wagner Moura e Greta Lee), um argumento dramático amparado em um tema que soa universal (a preservação da unidade familiar sob circunstâncias extremas), uma trama promissora (com um enredo que se estende através do tempo e acompanhando os esforços de cidadãos comuns sobrevivendo a um evento apocalíptico) e efeitos visuais que geram curiosidade e aparentam inventividade (representado por antagonistas que permanecem fora da vista do espectador por grande parte do filme). E, mesmo que a combinação de todos estes elementos pudesse resultar em um filme digno de atenção, existe algo fundamentalmente errado em “A Última Casa”. Juntando tudo em um apanhado displicente e apressado, o resultado final fica mais perto de uma hipotética versão do modorrento “Guerra dos Mundos” de Spielberg (2005), editada para ser vista em um post de rede social.

Jason Delgado (Moura) é um engenheiro desempregado que mora em Seattle com a esposa, Ann (Lee), o casal de filhos Graham (Noah Alexander Sosnowski) e Ruth (Riley Chung), e o cachorro idoso Cassidy. Ao voltar de sua rotineira pescaria, o homem se dá conta de uma forte chuva que começa a cair enquanto se dirige à casa da família. No entanto, quando todos se preparam para cuidar de afazeres rotineiros, percebem que não é possível sair da casa: todas as portas e janelas parecem haver sido lacradas, assim como a conexão eletrônica é subitamente interrompida, conforme a tempestade cai lá fora. Não demora muito para que os Delgado se dêem conta de que não são os únicos à passar por isso – através de comunicação escrita feita com os vizinhos pelas janelas seladas – e de que o estranho fenômeno é claramente relacionado ao pé d’água torrencial que se iniciou. Prisioneiros em seu próprio lar, Jason e Ann precisam se organizar e criar estratégias para preservar a si mesmos e aos jovens rebentos. À medida que o tempo passa, as condições para a sobrevivência dos quatro se tornam cada vez mais extremas, e os pais se vêem forçados à tomar decisões por vezes drásticas, ao mesmo tempo em que tentam desvendar o mistério por trás de seu aprisionamento repentino – e dos responsáveis por ele.

 

É difícil saber qual o principal intuito de “A Última Casa”. É um filme de terror? É um thriller? Ou um conto de ficção científica? É difícil dizer; não são poucos os trabalhos que conseguem combinar aspectos dos dois com êxito muito maior. Tampouco as passagens que se aproximam do survival horror são realmente bem sucedidas, e o drama da convivência entre a família, com um sério déficit de desenvolvimento de personagens, também fracassa em arrebatar a audiência. Em várias passagens, a escolha de reciclar clichês (como o de ocultar as criaturas que representam os principais “vilões” no roteiro) acaba trabalhando mais contra do que a favor do filme como um todo. O mesmo, infelizmente, pode ser dito das sequências mais leves, que idealmente deveriam funcionar como uma espécie de respiro entre momentos de maior tensão – ao invés disso, os dois extremos aparentam ser tão desconjuntados que o único produto desta combinação é a desconexão completa. Pense em “The Last of Us” feito por, e para, pessoas com curta capacidade de concentração.

O mais surpreendente aqui, entretanto, é constatar como a Netflix consegue juntar intérpretes de notável talento em um longa tão sofrível. Claro que, a julgar pelo currículo de Louis Leterrier (que inclui petardos da sétima arte do nível de “Fúria de Titãs”, de 2010, e não um, mas DOIS longas da franquia “Velozes & Furiosos”, o mais descarado placebo da história do cinema de ação), não tinha como ter sido muito diferente, mesmo. Justamente por isso é tão doloroso ter que ver Wagner Moura reduzido à uma performance unidimensional e porcamente conduzida; deve ser interessante assistir a isso logo após ver “O Agente Secreto”, fazendo de conta que são dois atores completamente diferentes. O mesmo pode ser dito de Greta Lee, que brilhou em “Vidas Passadas” (2023) apenas para, aqui, ter que recitar um texto transparente de tão raso. O elenco mirim se sai marginalmente melhor, embora os jovens atores tenham que comer o pão que o Diabo amassou em momentos onde o estereótipo infanto-juvenil é impossível de ignorar.

Como se tudo isso não fosse o suficiente, “A Última Casa” também é um filme muito, muito feio. Se desse para perceber, ao menos, uma tentativa de fazer algo diferente ou inovador, o esforço ainda seria louvável. Ao invés disso, o que se vê na tela é um bingo de tudo que se poderia supor de um thriller pós-apocalíptico, porém menos inspirado e mais entediante. Existem ideias bastante interessantes no cerne do roteiro que, em meio à uma cinematografia xexelenta, acabam se perdendo por completo. E quanto menos se falar nas mal-definidas criaturas a serem enfrentadas (incluindo aí o anti-climático desfecho, risível de tão batido), melhor.

Mas, de novo, é possível levantar o argumento de que, realmente, “não dava para esperar muita coisa de um filme feito pela Netflix”. A plataforma de streaming, que outrora foi responsável por várias produções próprias que, se não eram unanimidade, ao menos angariavam público, parece ter chego a uma espécie de platô. E não é de hoje: vale lembrar que o que foi o carro chefe da marca por anos – a série “Stranger Things” – desagradou muito mais do que agradou em seu final mequetrefe. Mesmo assim, o resultado de “A Última Casa” se supera em sua mediocridade e execução pífia: empregar nomes merecidamente consagrados do cinema alçando-os à posição de personagens principais em uma produção tão triste é um desserviço que deveria ser inafiançável. Há muito se discute se filmes produzidos e lançados diretamente via streaming poderiam, ou não, ser considerados como cinema; por si só, “A Última Casa” parece oferecer uma resposta clara (ainda que bastante desagradável) para este debate.

 Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.

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