entrevista de Danilo Souza
Pensar em Renan Benini, principalmente dentro do contexto da música alternativa brasileira, é quase que inevitavelmente pensar na Lupe de Lupe, banda mineira formada em 2009, atualmente composta por Vitor Brauer, Gustavo Scholz e Jonathan Tadeu, além do Renan, e conhecida no cenário por sua vertente do “rock triste”. Se os ouvintes esperam que o primeiro disco da carreira solo do baixista da Lupe seja uma extensão do que faz com a banda, é melhor ir sem expectativas.
Lançado no início de junho, o disco “São Francisco, 31” (2026) reúne 10 canções que podem ser ouvidas e interpretadas como um fragmento de memórias vividas pelo compositor entre os 13 e 24 anos. As canções, que surgiram entre a fase adolescente e o início da vida adulta até serem lançadas por um já estabelecido Renan, aos 36 anos, contam histórias pessoais que perpassam familiares, amigos, relacionamentos e até Muriaé, na Zona da Mata Mineira, a cerca de 370 km a sudeste da capital, Belo Horizonte.
Na conversa abaixo, Renan comenta as diferenças entre seu disco solo e o que ajudou a construir em 17 anos de Lupe de Lupe, define “São Francisco, 31” como “uma história com um trajeto” e pontua: “Acabou que tem menos barulho e menos volume. É um trabalho sobre o Renan”. Ele ainda conta que manteve muitas linhas melódicas de canções que compôs na adolescência, mas se sentiu livre para mudar outras, avisa que quer sair em turnê solo com uma guitarra nas costas e conta que, ano que vem, tem disco novo da Lupe de Lupe. Ouça o disco abaixo e leia a entrevista!
Quando e como você percebeu que as músicas guardadas por tantos anos finalmente estavam prontas para virar um álbum?
Cara, foram músicas que fui aglutinando com os anos. Componho há muito tempo e tem músicas que fiz com 13 ou 14 anos de idade, tipo a última faixa do disco [“São Francisco, 31”, que dá nome ao álbum e que é uma canção de dez minutos], que fiz toda a parte de piano com 14 anos.
O que aconteceu foi que tinha essas músicas e aí, durante muito tempo, eu não tocava em nenhuma banda, só fui entrar na Lupe de Lupe quando eu já tinha 20 anos, e quando fui tocar com os meninos, a gente acabou encontrando uma estética, que era guitarras altas e toda essa coisa. Então… uma música com piano!? Achei que nunca caberia [no repertório da Lupe de Lupe], entendeu?
Mas, ao mesmo tempo, eu tinha carinho por elas. Então fui juntando essas músicas que não funcionavam com a banda até que cheguei a um compilado ali de umas 15 músicas. Inicialmente até pensei em fazer as quinze, mas depois falei: “Não quero começar [a carreira solo] com um disco gigante…”. Escolhi as dez que melhor funcionavam entre si e acho que foi o melhor resultado.
Você falou brevemente sobre isso, mas vou voltar nessa questão pra pegar mais detalhes. O público já conhece seu trabalho na banda Lupe de Lupe. O que “São Francisco, 31” mostra sobre você que talvez não apareça na banda? Podemos dizer que no trabalho solo você é mais “livre”?
É uma estética bem diferente, não só uma questão de volume de instrumentos e essas coisas. “[No trabalho solo] o Renan está tocando voz e violão, como assim?! Tocando o instrumento de um jeito bonitinho?!” Na Lupe, temos uma estética definida, que é isso de trazer impulso nas músicas e tal. Naturalmente, já existiam coisas antes e depois da banda, então continuei desenvolvendo com as músicas e fui entendendo o que funcionava ou não com a Lupe. A gente tem uma dinâmica e eu sei o que o Vitor gosta, das coisas que Gustavo gosta… sei como é que funciona a cabeça de todo mundo, por isso que estamos tocando há 17 anos. Há um entendimento empírico em relação [não apenas] à banda e ao que a gente já produziu, mas também em relação ao que eu estou produzindo agora e principalmente isso de fazer um disco sólido com início, meio e fim. É uma história com um trajeto. Acho que isso tem muito mais a ver com as escolhas, simplesmente. Acabou que tem menos barulho e menos volume. O que [os ouvintes da Lupe] podem esperar desse disco?! [Esperem que] é um trabalho sobre o Renan.
Como foi revisitar composições escritas por um Renan adolescente e jovem adulto anos depois?
Na maior parte das músicas, eu tinha a melodia mas não tinha letra. Quando as escolhi para começar a gravar, tive que revisitar todas em dois sentidos; o primeiro foi criar uma letra dentro daquela melodia que já tinha elaborado muitos anos antes, e o segundo é que não queria fazer uma coisa que fosse completamente aquém do momento que eu fiz as músicas, isso foi uma preocupação que tive. Quando fui fazer a última música, sabia que seria alguma coisa sobre mim e sobre a minha vida, porque é uma música que fiz ainda adolescente e fui maturando durante muitos anos, fui criando fases. Foi numa época que eu ouvia muita coisa experimental, então eu queria pôr umas coisas diferentes.
Por isso que o disco é todo assim. A capa do disco é a foto da minha avó. A minha ideia, se um dia eu lançar isso fisicamente, é que cada música vai ter uma capa que é um retrato do que eu quero passar com aquele sentimento relacionado à música. Tentei fazer com que o disco inteiro conversasse nesse sentido e eu propositalmente tento escapar desse negócio de alegoria, de lirismo, de visão romântica, que muitas vezes gosto muito de falar, mas tentei fazer uma coisa mais sólida nesse sentido, sabe? Voltei para casa dos meus pais um ano atrás e foi legal revisitar muitas coisas, foi forte para mim.
A convivência familiar aparece como um tema importante e quase central no disco. Como essas relações influenciaram sua escrita, principalmente nesse contexto de que as letras e as melodias foram feitas em fases diferentes da sua vida?
Acho que isso faz parte inerentemente da arte, que é um exercício de reflexão humana. Aqui a gente pode falar que o que existe de mais humano em alguém é a arte que ele produz, seja em qualquer momento histórico ou cultural, e isso é legal demais, é uma das coisas que mais me empolga ao produzir.
Em relação a isso da família, acho fantástico que exista essa língua universal que não depende de muitos fatores, a não ser o próprio fator artístico, né? Por exemplo, na capa sou eu com minha avó, e talvez isso possa fazer com que o ouvinte se lembre da avó dele e tenha um carinho por isso.
Gosto muito desse negócio de família, que é amar muito, mas ao mesmo tempo brigar… essas coisas que acontecem em todas as famílias funcionais e disfuncionais (risos). Uma das coisas que mais gosto de vivenciar é esse diálogo, uma coisa artística que te leva a pensar em alguma coisa e te inspira, essa é uma das trocas que mais gosto.

É legal, pois, de certa forma, as pessoas da sua família se tornam meio que personagens dentro da história do disco. Chegou a mostrar as canções para eles? É como foi a reação?
[A reação foi] legal, meio curiosa, porque as pessoas não sabem como reagir. Minha irmã, por exemplo, teve a cara dela na capa de um dos singles [o “Valsa de um Bolero”, lançado em abril de 2026], numa foto em que estamos ela e eu. Minha família me apoia muito nesse sentido artístico. Sou meio envergonhado com isso e não gosto de mostrar [as músicas], odeio sentar perto dos outros se estiverem escutando alguma música minha, fico parecendo uma avestruz querendo enfiar a cabeça na terra (risos).
Sobre isso que você falou, das pessoas e coisas “virarem um personagem” para uma música, tem a “Muriaé”, que é a cidade onde fui criado [um município de Minas Gerais, localizado a cerca de 300km de distância da capital, Belo Horizonte] e onde estão as coisas que vivi. Eu pulava o cemitério, saía pra beber de madrugada, ir na pracinha, essas coisas. A cidade é um personagem e tem meus familiares, os amigos, pares românticos, enfim, as pessoas que cresceram comigo. É um compilado muito grande de vivências que aconteceram e tentei fazer encaixar isso da melhor forma possível.
O disco reúne músicas compostas entre os 13 e os vinte e poucos anos. O que mudou para você, enquanto artista e também na sua vida pessoal, ao longo desse intervalo entre composição e lançamento?
Muita coisa! Agora estou com 36 anos, e no disco tem música de 15, 16, 18, 19 anos… o Renan mudou completamente em termos de personalidade. Tem aquela sensação que a gente nunca sai da infância, vamos só prolongando ela, então, sim, tem alguns traços que você nunca perde e também aquela identificação do seu eu: por mais que se torne diferente, você ainda é aquela pessoa.
Artisticamente, percebi que tinha muitas linhas que eu tinha feito e hoje não faria de jeito nenhum! Em algumas das músicas, meio que optei por preservar o que já tinha pra poder tentar trazer esse resultado da forma que já pensava do que pegar e refazer coisas para “melhorar”, entende? Tentei manter essas coisas. Mas a gente muda, nós começamos a ouvir outras coisas, outras referências culturais, outras referências artísticas, ainda mais quando você vai ficando mais velho, e isso vai agregando muita coisa. É uma questão que é tirar de si mesmo uma ideia e pôr para fora, o que também tem a ver com essa evolução e essa construção que nós somos.
Disco lançado, e com isso vem aquela pergunta de sempre depois disso… tá pensando em levar pra estrada? E como vai ser conciliar a agenda com a Lupe?
Cara, vai ter turnê solo, ao que tudo indica, ali por outubro, novembro e dezembro, se Deus quiser. E eu quero bastante show! Pode me mandar para tocar num boteco lá em Rondônia com cinco pessoas vendo que eu vou, véi! Tanto é que estou pensando muito em fazer uma parte da turnê só eu e o violão, bem intimista mesmo, porque tem muitas músicas que dá para poder tocar. Ao mesmo tempo, sei que tem algumas que não vai ter como, tipo a “São Francisco, 31”, só se eu contratar uma orquestra para tocar no show (risos). Depois, pode ser que tenha uma segunda parte com banda e aí a gente vai dar os nossos pulos, mas em resumo, por enquanto, é isso; eu com uma guitarra no ombro por aí e depois um formato mais tradicional para shows maiores.
Sobre conciliar agenda com a banda, a Lupe vai ter shows ano que vem, a gente faz turnê de dois em dois anos e deve ter um disco também. Mas isso é tranquilo de conciliar porque é isso que eu gosto, mano. Eu adoro! Se eu puder ficar na estrada o ano inteiro com três shows por dia, pode contar comigo que estarei lá.
Danilo: Por último, uma pergunta meio “Marília Gabriela” (risos). “São Francisco, 31” em uma frase por Renan Benini?
Pô, uma frase só?! Cara, é o trabalho de uma vida inteira.

– Danilo Souza é estudante de jornalismo da UESB (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia). Acompanhe seu trabalho em instagram.com/danilosouza.jornalismo/; A foto que abre o texto é de Taylor Celestino
