Entrevista: Manoel Magalhães fala sobre o documentário “Itaperuna Esporte Clube – A Águia do Noroeste”

entrevista de Bruno Capelas
colaborou Marcelo Costa

Quem acompanha o Scream & Yell há tempos talvez já tenha cruzado por aqui com o nome de Manoel Magalhães – que não só colabora bissextamente para o site, mas também divide seu tempo entre a banda Harmada, sua carreira solo, a produção de discos, o jornalismo e, ufa… a direção de filmes sobre histórias muito particulares. Agora, a bola da vez – com o perdão do trocadilho – é o documentário “Itaperuna Esporte Clube – A Águia do Noroeste”, que conta a história do time de futebol da cidade natal de Manoel.

Ativo entre as décadas de 1980 e 1990, o Itaperuna não só teve uma jornada meteórica – “em cinco anos, o time saiu da terceira divisão do Campeonato Carioca e quase chegou à Série A do Brasileirão”, conta Manoel – como também foi responsável por conectar a cidade, a 320km da capital fluminense, ao resto do mundo. “O time e o estádio abriram uma janela da cidade para o resto do Brasil. De repente, era a chance de ver Itaperuna no ‘Fantástico”, relembra o diretor, que cresceu na cidade e viveu de perto dias lendários, como o que o clube venceu o Flamengo de Zico por 3 a 1 – o Galinho de Quintino, inclusive, é um dos entrevistados do longa.

Assinado por Manoel junto ao amigo Bruno Vouzella, “Itaperuna Esporte Clube – A Águia do Noroeste” venceu o prêmio de melhor longa-metragem do Cinefoot 2025, festival dedicado ao cinema de futebol (na foto que abre o texto, Manoel Magalhães, de blusa verde, recebe o prêmio do Cinefoot ao lado de Raphael Dias, diretor de “Botafogo e Seus Heróis Improváveis” e Bernardo Franco e Bernardo Silvino, diretores de “Meu Avô: Campeão do Gelo”). Para quem quiser conferir, o documentário também está disponível no Globoplay. Mais que isso, porém, o longa está agitando a cidade com pouco mais de 100 mil habitantes. “O que eu queria desde sempre era a ideia da cidade se beneficiar do filme”, conta Manoel.

Na entrevista a seguir, o diretor conta mais sobre o longa-metragem, explica como a ideia nasceu e como tem sido a recepção a essa história tão peculiar, mas ao mesmo tempo tão universal. “Meu medo inicial era ficar uma coisa local, mas o que eu percebi é que as pessoas se interessaram porque é uma história de uma comunidade que ama o futebol”, conta. Ele também dá pistas de seus próximos passos atrás das câmeras: para breve, ele promete um novo documentário sobre o Plug, selo da gravadora RCA que catapultou para o mundo nomes como Engenheiros do Hawaii, Defalla, Replicantes, Nenhum de Nós ou Black Future.

Bruno Capelas: “Itaperuna Esporte Clube – Á Aguia do Noroeste”. Como nasceu esse projeto, Manoel?
Manoel Magalhães: Eu morava na frente do estádio do Itaperuna. A bola caía na minha casa, né? Era normal estar acostumado a ver, aquilo foi minha vida. Durante muito tempo, o time era a única ligação que Itaperuna tinha com o mundo. Era uma distância muito grande de qualquer capital, entre o que você via na televisão. Não era como se você visse, sei lá, o Zico, em qualquer lugar. Mas de repente, o time e o estádio abriram uma janela da cidade para o Brasil. Era a chance de ver Itaperuna no “Fantástico”, um negócio inacreditável. E depois que isso passou, ficou a ruína do estádio. Quem nasceu na cidade em 2000 não viu aquilo acontecer, porque o futebol profissional ali terminou em 1999. Quem é dos anos 2000 nem entende o porquê daquela ruína – e o filme conta esse processo. Eu sempre pensava que tinha de ter alguma coisa para explicar que isso aconteceu. Tem um dos personagens do filme que fala isso: nem parece verdade o que aconteceu com o Itaperuna. E é verdade. Aí eu falei que queria fazer o filme, rolou a Lei Paulo Gustavo pela cidade e achei que era uma oportunidade de fazer essa parada. Fizemos o projeto, fomos aprovados e conversamos com a Globo, o que deu outra motivação para fazer. Meu medo inicial era ficar uma coisa muito local. É uma história muito interessante para Itaperuna, mas não sabia se isso ia valer para o resto do mundo. E o que acabou acontecendo, o que eu percebi no Cinefoot, é que as pessoas se interessaram como uma história universal. Uma história de uma comunidade que ama o futebol e que conta o que aquilo representa. Qualquer pessoa se identifica com a história daquela cidade pequena que transformou sua realidade durante um período, né?

Bruno Capelas: É bacana você dizer isso porque eu tenho uma história paralela com o São Caetano. Eu era criança no ABC quando o São Caetano estava no auge. Mas vamos dar um passo atrás: que cidade é Itaperuna e que história é essa que a gente vê no documentário?
Manoel Magalhães: Itaperuna é uma cidade muito pequena, de 100 mil habitantes, no interior do Rio de Janeiro. E ela tem um problema: ela fica muito afastada da cidade do Rio de Janeiro, está praticamente na outra ponta do Estado, quase na divisa com Espírito Santo e Minas Gerais. Tudo é distante. Demora seis, oito horas para chegar na capital, o acesso não é fácil. Agora imagina isso antes da internet: era uma cidade muito restrita, muito fechada em si mesma. Não havia janelas para o mundo. E o que aconteceu de diferente foi que um bicheiro foi para lá. E não sei porquê, ele decidiu investir no futebol do Itaperuna. E em cinco anos, ele conseguiu profissionalizar o time, saindo da terceira divisão do Campeonato Carioca e quase chegando na Série A do Brasileirão. É algo que quase não tem precedente. E uma das questões que o filme debate é isso: Itaperuna teria condição de sediar um jogo da Série A do Brasileirão? Vocês vão ver no filme que tem até uma questão política bizarra, que roubam o Itaperuna num sorteio na CBF, com o Sport Recife. É surreal, porque é um sorteio num pedaço de papel, a Placar repercutiu na época de como era absurdo ter sido feito desse jeito. Mas ao mesmo tempo, você pensa: cara, dava para o Corinthians ou o Grêmio irem para Itaperuna?

Bruno Capelas: É uma discussão parecida com a que a gente tem hoje com o Mirassol, que também é uma cidade pequena.

Marcelo Costa: Mas Mirassol tem mais estrutura do que Itaperuna hoje. Manoel, a gente vai ver fotos do estádio?

Manoel: Não só tem fotos, como tem imagens em movimento do estádio. Tem muita imagem, e isso é uma das coisas mais legais. O que pegou muito o público no Cinefoot é que a gente conseguiu as imagens todas. Se o time vai jogar contra o Remo em Belém, a gente tem as imagens. Tem imagem do alambrado caindo com uma multidão de gente invadindo o campo, tem imagem de um cara caindo de parapente dentro do estádio. E uma das partes mais legais é que o estádio lotava e do lado tinha uma comunidade, o Morro do Castelo. Eles criaram uma torcida alternativa chamada Morro Alegre, que montava uma espécie de camarote em cima do morro vendo o jogo. Tem as imagens da época, dos caras em cima da árvore, na laje, vendo o jogo.

Bruno Capelas: Quantas pessoas cabiam no estádio na época?
Manoel Magalhães: Era umas 5 mil pessoas. O que a gente fala no filme é que às vezes tinha mais gente no morro do que na arquibancada. Vinha gente de fora para ver o Flamengo e ficar no morro. E a gente tem todas essas imagens, além das imagens da demolição, quando tentaram demolir o estádio. E aí pararam no meio da demolição, ficou uma ruína mesmo. Nós gravamos coisas lá dentro, é bem triste. Uma das coisas que muita gente me falou no festival é que o filme é muito melancólico. Tem uma mensagem bonita, de esperança, mas é uma história triste no final das contas. Os jogadores que a gente retrata no filme são aqueles que têm uma relação com a cidade – que nasceram ou que fizeram família por lá. E eles sempre falam que a pior coisa é quando eles passam perto do estádio.

Bruno Capelas: O filme ganhou o Cinefoot, um festival sobre cinema de futebol no Rio de Janeiro. Achei o troféu legal demais, inclusive. Mas como faz para ver o filme?
Manoel Magalhães: Hoje o filme está disponível no Globoplay, disponível para todo mundo. Mas o que eu queria desde sempre era a ideia da cidade se beneficiar do filme. De começo, já teve algo muito legal: por um acaso da vida, o filme passou no Cinefoot numa quinta e no sábado teve sessão em Itaperuna. E foi um sucesso tão grande que abriram uma segunda sessão. Quinhentas pessoas viram o filme num sábado em Itaperuna, foi uma sessão catártica, os jogadores choravam. A cidade parou com essa parada, fizeram projeção do jogo de 1989 contra o Flamengo, o jogo mítico que o Itaperuna ganha de 3 a 1 do Flamengo do Zico. O Zico toma uma caneta (drible em que o jogador passa a bola entre as pernas do adversário), inclusive. Ele está no filme também, é uma das partes mais engraçadas. Mas o que aconteceu é que em Itaperuna já está rolando um movimento de escolas agendando sessão do filme, os adolescentes querem ver, a prefeitura está abraçando pra fazer uma exibição na rua. E em paralelo, vamos disponibilizar para todo mundo. Acho que o filme pode ir longe ainda, passar em algum festival grande. É uma história bem universal, né? E tem uma coisa incrível: só tem jogador doido! O maior artilheiro do Itaperuna, por exemplo: ele ia jogar em Campos, contratado pelo Americano. Mas passou de ônibus por Itaperuna, resolveu descer, pediu para treinar no time e ficou pra sempre na cidade. Acabou fazendo 400 gols. São figuras inacreditáveis, as pessoas saem do filme apaixonadas pelos caras. E tem outra coisa: as pessoas não estão acostumadas a ver gente de Itaperuna falando, tem um acento cômico também.

Bruno Capelas: Você é um homem de mil projetos, Manoel. Em termos de cinema, o que vem depois da Águia do Noroeste?
Manoel Magalhães: Depois do Itaperuna, estou fazendo um documentário sobre o Selo Plug com o Marco Antonio Barbosa, o Bart. Nós entrevistamos todas as bandas do selo, praticamente: Picassos Falsos, Hojerizah, Defalla, Engenheiros do Hawaii, Nenhum de Nós, Garotos da Rua, TNT, Black Future, claro, Replicantes também. Entrevistamos também alguns jornalistas, o Tadeu Valério, que foi quem criou o selo, e alguns produtores como o Maluly e o Reinaldo Barriga. São muitas entrevistas. E a história do Plug, que era um selo da RCA, também é uma história doida. A história é que as bandas de Brasília já estavam na EMI, as de São Paulo na Warner, e a RCA não tinha banda de rock. Eles fizeram um pau-de-sebo para tentar achar alguma banda, que foi o “Rock Grande do Sul“. E o que a gente vai ver no filme é que no fim das contas o Plug conseguiu cumprir o papel dele: ter pelo menos duas bandas no casting da gravadora, que são o Engenheiros e o Nenhum de Nós. Eles atiraram para tudo o quanto é lado, mas deu certo. O mais legal do doc é que a gente conseguiu ter acesso a alguns meandros da indústria bem legais, além de mostrar que, independentemente do resultado que aconteceu, esses discos terem sido gravados já é um registro foda. É algo que a gente quer lançar em 2027. Vamos ver.

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.

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