Boteco: 10 cervejas nacionais artesanais em lata

por Marcelo Costa

Abrindo uma nova sequencia de cervejas nacionais em lata com a Imperatriz, que nasceu no bairro da Lapa, em São Paulo, em 2002, deu uma pausa em 2011 e agora retorna com planta própria em Sorocaba, no interior, e chega por aqui com duas latas: a primeira é a Hoppy Lager, uma Pale Lager lupulada com Columbus, Citra e Saaz. Na taça, o líquido é amarelo, juicy como um suco, e o creme é branco de boa formação e média alta retenção. No nariz, cítrico e herbal bem suaves, mas destacados numa paleta que prima pela leveza. Na boca, o cítrico surge mais pungente no primeiro toque (abacaxi, laranja e manga) seguido de floral e herbal leves e mais cítrico. O amargor (33 IBUs) é bem comportado numa cerveja refrescante que exibe uma textura leve num conjunto que valoriza a refrescancia, mas capricha no sabor de uma receita que poderia ser uma Session India Pale Lager. No final, secura e cítrico. No retrogosto, mais frutas cítricas do que herbal e floral num conjunto suave e refrescante.

Na sequencia, a segunda da sorocabana mezzo paulistana Imperatriz é a American IPA, uma cerveja de coloração âmbar levemente alaranjada com creme bege de boa formação e média alta retenção. No nariz, uma combinação de lúpulos herbais e malte caramelo exibe o que a coloração já adiantava: eis uma Caramel IPA que promete equilibrar dulçor com derivados da lupulagem. E a promessa é cumprida logo no primeiro toque na boca, com doçura caramelada levemente herbal e cítrica entregando a zona de conforto e seguindo, dai em diante, com a doçura se sobreponto ao leve amargor, cítrico e herbal. A textura é levemente suave com picancia discreta e, dai pra frente, surge um conjunto de Caramel IPA padrão, que entrega o que promete, mas não avança um milímetro em no estilo, algo que a anterior prometia e entregava mais. No final, secura e leve picância. No retrogosto, pinho e caramelo.

De Sorocaba para Várzea Paulista, ainda no interior de São Paulo, com mais duas receitas da linha Nitro da cervejaria Maniacs (a primeira a passar por aqui foi a Nitro IPA), que recebem nitrogênio líquido e uma baixa concentração de CO2 no envase, o que a deixa a espuma mais cremosa e o corpo mais denso. A primeira das duas é a Nitro Stout, uma cerveja de coloração marrom bem escura com creme bege espesso de boa formação e longa retenção. No nariz, caramelo tostado se destaca, mas ainda é possível perceber cereais, sugestão discreta de café e de torrefação. Na boca, doçura suave discreta no primeiro toque tentando a caramelo tostado com, na sequencia, leve aumento de percepção de torra e café. O amargor é baixo (e pode até ser confundido com a torra), a textura fica é quase suave, e dai pra frente segue-se um conjunto que respeita o estilo, com derivados da torra do malte (café, caramelo) se destacando. No final, leve secura e café. No retrogosto, café, caramelo tostado e amargor levezinho.

A segunda Maniacs Nitro da sequencia é a Red, uma Irish Red Ale de coloração âmbar avermelhada e creme bege espesso de boa formação e longa retenção. No nariz, percepção intensa de caramelo com toffee em segundo plano e um leve frutado cítrico remetendo a acerola, uma surpresa até interessante. Na boca, a sensação de frutas remetendo a acerola domina o primeiro toque, depois cede espaço para sugestão de caramelo, mas bem sútil e levemente frutado. O amargor é praticamente inexistente num conjunto que valoriza totalmente o malte. A textura é suave. Dai pra frente, segue-se um conjunto que chama a atenção pelo frutado que acrescenta uma nota interessante a um estilo básico, que surge aqui com doçura comedida, mas facilmente perceptível. No final, doçura frutada bem suave, que se estende ao retrogosto, agradável.

De Várzea Paulista para o bairro de Perdizes, na capital paulista, com mais duas cervejas produzidas e envasadas no taproom da Cervejaria Trilha. A primeira delas é a Mamangava, uma Sour que recebe adição de suco de maracujá. De coloração amarela tal qual um suco e creme branco de baixa formação e média retenção, a Trilha Mamangava exibe um aroma espetacular de maracujá, com sugestão ainda suave de manga. Na boca, é um suco de maracujá sem açúcar no primeiro toque e, também, dai em diante, com a fruta, porém, acrescida de doçura, suavidade e acidez equilibrada. Não se preocupe com a questão “amargor” (eis um estilo cuja acidez é preponderante). Já os 5.3% de álcool estão muito bem inseridos. A textura traz acidez suave no começo, lembrando a fruta, mas que calmamente se comporta na sequencia. Dai pra frente, um delicioso suco de maracujá não adoçado e levemente alcoólico, uma pedida incrível para dias quentes! No final, acidez e até um salgadinho. No retrogosto, maracujá.

A segunda lata da Trilha Cervejaria é uma colaborativa com os cearenses da 5 Elementos, uma New England IPA que ganhou o nome carinhoso de 6º Elemento. Na taça, exibe uma coloração dourada, levemente juicy, de creme branco espesso de ótima formação e média alta retenção. No nariz, uma tigela de frutas cítricas tropicais (abacaxi, manga, laranja) com suave percepção de picância (levedura?) e de doçura. Na boca, doçura cítrica apaixonante no primeiro toque seguida de mais cítrico e de menos doçura, mais picância e praticamente nada dos 8% de álcool, um incrível suco de frutas alcoólico que não deixa o bebedor perceber o álcool. A textura é picante (de levedura!) e também cremosa. Dai pra frente, uma baita American India Pale Ale, classuda, cítrica, doce e alcoólica, que refresca na mesma medida que entorta o bebedor. No final, picância e um leve harsh que traz consigo amargor, suave. No retrogosto, frutas cítricas tropicais, leve harsch e refrescancia alcoólica. Bem boa!

De São Paulo partimos para Porto Alegre, casa da cervejaria Tupiniquim, que está investindo em latas com um formato não muito tradicional no meio artesanal neste momento, as de 350 ml finas e altas. Primeira de duas neste modelo aqui no blog, a Summer IPA é uma Session Ale de coloração dourada e creme branco de boa formação e média retenção. No aroma, notas cítricas tímidas sobre uma base de cereais que sugerem pão, trigo e refrescancia. Na boca, a mesma percepção adiantada pelo aroma bate ponto do primeiro toque (com leve cítrico) ao conjunto subsequente, com leve doçura de cereais e um amargor bem suave e refrescante. A textura apresenta um leve metálico que desaparece logo dando lugar a uma suave cremosidade. Dai para frente segue-se um conjunto levemente cítrico, refrescante e com doçura baixa, mas perceptível. No final, secura e leve cítrico. No retrogosto, cítrico e refrescancia.

A segunda novidade da Tupiniquim é a Coconut Milkshake IPA, uma India Pale Ale que recebe adição de coco, lactose e baunilha! De coloração dourada levemente translucida com creme branco espesso de boa formação e média alta retenção, a Coconut Milkshake IPA exibe muito aroma de coco no nariz acompanhado de doçura de baunilha em segundo plano, mas facilmente perceptível. Na boca, o coco salta à frente e se destaca no primeiro toque, mas logo na sequencia aparecem a baunilha e o perfil India Pale Ale (até então escondido) com seus 45 IBUs acrescentando leve amargor. A textura, porém, entrega o “problema” da cerveja: ela é Coconut, mas não é e nunca será um Milkshake, pois falta corpo (e falta muito corpo). Dai pra frente segue um conjunto bem saboroso com coco, baunilha e a pegada levemente amarga IPA disputando atenção até o final, dominado pelo coco, que também bate ponto no retrogosto (acho que quando acordar amanhã de manhã, ele também estará aqui).

A nona cerveja dessa série de latas é a 1824 Imigração Nitro Juicy IPA, uma cerveja de coloração âmbar alaranjada nada juicy com creme bege claro espesso devido ao nitrogênio adicionado ao conjunto, de bela formação e média alta retenção. No nariz, frutas cítricas (laranja e maracujá) sobre uma base doce intensa que remete a caramelo deixando perceber, ainda, leve herbal. Na boca, o frutado cítrico domina o primeiro toque seguido de doçura caramelada e leve herbal, numa tradução perfeita do que o aroma adianta (e ambos contrários ao que o nome equivocado sugere). O amargor é leve, já a textura começa picante e vai ficando cremosa. Dai pra frente, uma Caramel IPA tradicional, ainda que com mais peso de notas cítricas e herbais do que parte da corrente. No final, doçura, cítrico e adstringência, que invade o retrogosto trazendo consigo maracujá, laranja e caramelo.

Retornando ao bairro de Perdizes, em São Paulo, com a terceira lata da Cervejaria Trilha, a Tangerine, uma Juicy American Pale Ale que recebe adição de suco de tangerina e que foi produzida pela primeira vez em 2017, mas ganhou agora novo lote e versão em lata. De coloração amarela, turva e juicy, e creme branco de média formação e baixa retenção, a Trilha Tangerine apresenta um aroma bastante cítrico, remetendo mais a laranja lima do que a tangerina, e apenas isso. Na boca, doçura cítrica suave no primeiro toque com percepção de suco de laranja na sequencia e amargor bem sutil, quase discreto. A textura é suave com leve picância. Dai pra frente, uma American Pale Ale refrescante e bem cítrica, com a pegada do suco bastante presente, mas tendendo mais a laranja do que tangerina. No final, secura e leve cítrico. No retrogosto, amargor bem sutil, refrescancia e cítrico puxado para laranja.

Balanço
Abrindo muito bem esse passeio por cinco cervejarias com a boa Session IPL da interiorana paulistana Imperatriz, a Hoppy Lager, uma delícia cítrica e refrescante. Já a Imperatriz American IPA é só mais uma Caramel IPA no mercado. Esperava mais. Primeiro de duas Nitro da Maniacs, a Nitro Stout é bacaninha, mas nada que surpreenda tanto. Já a Nitro Irish Red consegue melhorar um estilo bem sem graça. Ponto pra ela. Seguindo com a Trilha Mamangava, que parece realmente um suco de maracujá alcoólico e delicioso. Melhor ainda é a Trilha 6º Elemento, uma ótima NE colaborativa. Do Sul, a Tupiniquim marca presença com uma Summer IPA bem sem graça e uma Coconut Milkshake IPA que entrega coco (e muitos), baunilha e IPA, mas o Milkshake deve ter ficado na panela. Fechando a série, a 1824 Imigração Nitro Juicy IPA é uma grande confusão de conceitos que junta Caramel IPA, nitrogênio num conjunto nada Juicy. Fechando a série com a terceira Trilha deste post, a Tangerine, uma boa APA com adição de suco de tangerina (que parece… laranja). Mas ainda assim, bem boa!

Imperatriz Hoppy Lager
– Produto: Pale Lager
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5.4%
– Nota: 3,35/5

Imperatriz American IPA
– Produto: India Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5.6%
– Nota: 3,00/5

Maniacs Nitro Stout
– Produto: American Stout
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5.1%
– Nota: 3,01/5

Maniacs Nitro Red
– Produto: Irish Red
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5.4%
– Nota: 3,09/5

Trilha Mamangava
– Produto: Sour
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5.3%
– Nota: 3,68/5

Trilha 6º Elemento
– Produto: New England IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 8%
– Nota: 3,89/5

Tupiniquim Summer IPA
– Produto: Session IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 2,99/5

Tupiniquim Coconut Milkshake IPA
– Produto: India Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6.5%
– Nota: 3,35/5

1824 Imigração Nitro Juice IPA
– Produto: India Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6.2%
– Nota: 2,91/5

Trilha Tangerine
– Produto: American Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5.9%
– Nota: 3,43/5

Leia também
– Top 2001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
– Leia sobre outras cervejas (aqui)

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