Vanguart em São José do Rio Preto

por Eduardo Martinez

Meados de 2006. A MTV exibia todas às segundas-feiras a noite o Banda Antes MTV. Apresentado por Rafael Losso, o programa trazia a cada edição uma banda nova, independente, que respondia algumas perguntas da plateia e tocava três músicas. Muita gente boa passou por lá: de Ludovic a Curumin, de Ecos Falsos a Volver.

O Vanguart se apresentou em um dos primeiros programas. Cinco rapazes de Cuiabá. Bem alinhados e aparentemente inseguros. De cara, e mesmo sem saber se a intenção era essa, o nome pretensioso não causou boa impressão, uma suposta associação com as palavras vanguarda e arte. Nomes de bandas, entretanto, não importam lá tanta coisa, especialmente se pensarmos que a maior banda da história se chamava Besouros.

A primeira que tocaram foi “Cachaça”, com Hélio Flanders surrando seu violão e cantando com a embriaguês que a música sugere. Depois vieram “Last Express Blues” e “Semáforo”. O que aconteceu com cada uma dessas músicas você já sabe. A primeira e a última entraram no disco de estréia da banda, o clipe de “Cachaça” foi indicado a melhor clipe independente no VMB 2006 e “Semáforo” se tornou o cartão de visitas do quinteto.

Do, já longínquo, ano de 2006 até hoje, muita coisa aconteceu com o grupo de Cuiabá. Lançaram o disco, homônimo, de estréia em 2007, fizeram shows em diversos lugares do País (e alguns fora), foram assunto de inúmeros blogs e sites, tocaram em festivais, em programas de Rede Globo, deram entrevista ao Jô Soares (com Hélio Flanders operando a proeza de falar bem mais que o Jô), assinaram com a Universal, mas ainda não lançaram o segundo disco, que possivelmente sai em 2011.

No meio desse percurso, o Vanguart deu início ao projeto VangBeats, onde o repertório é, como o nome sugere, composto só de músicas dos Beatles. Recentemente a banda começou a fazer uma espécie de rodada dupla nos shows, sets reduzidos com metade Vanguart, metade Beatles. E nesse formato a banda realizou sua apresentação de despedida de 2010 num sábado (18/12) em São José do Rio Preto, no bar Vila Dionísio.

O primeiro set começou com “Cachaça”. O público, que enchia a casa, ainda estava um pouco disperso, deixando transparecer que muitos estavam ali pelo local (um bom bar) e não pela banda. No entanto, conforme as músicas, bem executadas, iam se sucedendo, a atenção das pessoas aumentava.

Já com o público ganho, o final foi certeiro, com a cavalaria “Hey Yo Silver “seguida de “Semáforo.” No refrão da última, cantado em coro pelo público, a cara de satisfação de Hélio Flanders era nítida – como alguém que tem a certeza de que aquela é uma música definitiva de sua banda.

Depois de um curto intervalo, o quinteto volta ao palco, agora como VangBeats. O repertório é certeiro e sem firulas: “All My Loving”, “Help”, “She Loves You” e vários outros clássicos. As versões trazem algumas peculiaridades, como o início de “Help”, só no violão, mas tudo com o devido respeito à tradição, sem desfigurar nenhuma canção.

A divisão da voz principal entre Flanders, Reginaldo Lincoln (baixista) e David Dafré (guitarrista) resulta em uma ótima dinâmica na apresentação. Dafré, o mais discreto no palco, é o dono do maior alcance vocal, e berrou insanamente em “Helter Skelter”, já na fase final do show – sem alterar a expressão facial.

Hélio anunciou uma que, segundo ele, não estava no repertório. E veio “Hey Jude”. Considerando que até o mais leigo em música sabe cantarolar o “lalalala” no fim da música, a casa veio abaixo. Naquela altura da noite, aliada ao fato do bar contar com um vasto cardápio de cervejas, todos já estavam no momento de olhar para o amigo e mandara clássica “te considero pra caralho”.

O repertório ainda teve, entre tantos outros bons momentos, ‘Nowhere Man”, “Blackbird”, com Lincoln no violão, “Sgt Peppers Lonely Hearts Club Band/With a Little Help From My Friends” e o final potente com “Don’t Let Me Down”. Show findo, casa vazia, e a impressão de que a o Vanguart/VangBeats conseguiu virar o jogo e conquistar o público com uma grande apresentação.

Talvez não dê para cravar que a banda fechou o ano com chave de ouro, pois o disco novo ainda não veio, e, em tempos de internet, três anos de hiato na discografia é uma eternidade, especialmente em começo de carreira. Mas duas faixas inéditas deram as caras na noite: a bela “Desmentindo a Despedida” e a contagiante “Mi Vida Eres Tu”, com a latinidade aflorada em meio a um clima de Jovem Guarda.

Na longa entrevista que Hélio Flanders concedeu para o Scream & Yell em maio (2010), o músico comentou sobre uma possível mudança de rumos do som da banda para o futuro. As duas novas tocadas, apesar de boas, não apontam essa guinada, lembrando o repertório inicial. De toda forma, as músicas novas vão dando as caras, aos poucos. Ainda não dá para saber como será o próximo disco, mas as expectativas são boas. Que venha 2011.

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Eduardo Martinez é jornalista e assina o blog A Ilha dos Mendigos

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Leia também:
– Entrevistão: Hélio Flanders abre o coração para a equipe Scream & Yell (leia aqui)

9 thoughts on “Vanguart em São José do Rio Preto

  1. É impressionante como O Vanguart, que foi uma das bandas independentes mais importantes do país, perdeu completamente o bonde da história. Ao criar uma banda cover de Beatles e mesclar isso ao seu repertório autoral, o Vanguart está regredindo e indo contra toda uma história que vem sendo construída por milhares de banda autorais no Brasil, que lutam diariamente para se tornarem sustentáveis tocando apenas músicas próprias. E isso porque eles tinham tudo para estar no mesmo patamar em que hoje se encontram o Móveis Coloniais, por exemplo. E o pior de tudo é o Hélio se sentir o musico revolucionário e incompreendido, como nos faz crer no entrevistão concedido ao Scream & Yell. Se continuar assim, os sites e blogs especializados em música vão começar a cobrir show de banda cover de buteco toda semana.

  2. Fernando Bones, é muito triste constatar que seu comentário está coberto de razão. Quando descobri o som da Vanguart, em 2007, fiquei positivamente surpreso com a qualidade de suas músicas. Fiquei apreensivo com o DVD ao vivo pelo Multishow, mas ainda esperava pelo grande salto que a banda faria. Ainda foi possível aguentar as justificativas do Hélio na entrevista a este site. Agora, montar repertório mezzo Beatles, mezzo Vanguart, a essa altura dos fatos? Se ao menos a banda tivesse uma trajetória mais sólida, até seria tolerável ver a Vanguart bancando a banda cover. É como o Fernando disse: com tanta banda pretendendo criar um repertório autoral, a Vanguart desmerece o próprio nome.

  3. pô, assino embaixo. eu achava vanguart infernal mesmo, de repente.. como teremos uma nova música brasileira desse jeito? Só posso dizer como admirador dos primeiros tempos, que com certeza eles são melhores que isso e vão superar a seca criativa ou o que quer que seja que a banda esteja passando nestes últimos anos. Mas com certeza, não é tocando All my loving que isso vai mudar. Abre o olho galera!

  4. Qual é a de vocês com essa obsessão por uma nova música brasileira? E, pior: onde o Vanguart sinalizava com isso?

  5. Boa, Gabriel!
    Na verdade, para mim, nem seria “Semáforo”. Várias outras músicas da Vanguart me fizeram crer que algo novo e estimulante havia surgido na música brasileira.

    Yuri, não se trata de “obsessão por uma nova música brasileira”. Não sou um Lúcio Ribeiro da vida, que vive eternamente em busca da última novidade do pop. Apenas penso que esse negócio de fazer show com metade de repertório alheio, para uma banda que ainda não firmou sua marca de forma definitiva, é um retrocesso. Se bem que haverá novidades da Vanguart para breve, portanto ainda há esperança.

    É claro que nem todo artista ou banda tem a obrigação de esperar um longo tempo para pagar tributo às suas referências. Basta saber que Nick Cave & The Bad Seeds, no terceiro álbum, gravou apenas covers. Mas eram de artistas fundamentais para saber de onde surgiu o som do conjunto. E dá-lhe músicas de Johnny Cash, Lou Reed, John Lee Hooker, Jim Webb, Roy Orbison e outros tantos. Logo depois, Nick Cave se consagraria como um dos melhores cantores/compositores de sua geração.
    Há um lado bom em ver o Hélio sem aquela obsessão de certos artistas de lançar qualquer coisa a qualquer custo, apenas para que não o tomem por desaparecido.
    Porém, um pouco mais de preocupação com o legado da Vanguart para o futuro não custa nada.

    Esperar é o caso.

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