2010, ano do blockbuster brasileiro

por André Azenha

No fim de semana do Natal, “Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro” ultrapassou em renda “Avatar” no Brasil, com R$ 102 milhões arrecadados. Outro recorde para o cinema nacional em 2010, que já tinha ultrapassado 2003 como o melhor ano da nossa produção, com quase 25 milhões de espectadores, contra 22 milhões daquela temporada que teve “Os Normais”, “Lisbela e o Prisioneiro” e “Carandiru”.

O site Filme B, que semanalmente apresenta os números das bilheterias no País, divulgou a lista com os filmes brasileiros de maior público este ano. Pela primeira vez, após a Retomada, três longas tupiniquins venderam mais de três milhões de ingressos cada. Além de “Tropa 2”, “Chico Xavier – O Filme” e “Nosso Lar” conseguiram o feito. Anteriormente, apenas dois filmes alcançaram tal marca em um mesmo ano: “Carandiru” e “Lisbela” (2003) e “Cazuza” e “Olga” (2004).

Os recordes comprovam: nos últimos 12 meses, o público brasileiro aceitou seu próprio blockbuster. Não o blockbuster hollywoodiano, o “filme de verão” como os gringos chamam, repleto de ação e efeitos especiais – ainda que “Nosso Lar” tenha efeitos bastante competentes e “Tropa 2” boas cenas de ação. Mas obras que fizeram o brasileiro identificar, nelas, sua realidade. Não apenas a da pobreza e violência, como alguns ainda insistem em rotular nosso cinema. Mas o cotidiano do brasileiro médio.  Nossas paixões, esperanças, relações, fé, nossa política.

“Chico Xavier” e “Nosso Lar”, por exemplo, tornaram-se sucessos em virtude da crença brasileira. Independente da religião, o público nacional, em sua maioria, tem muita fé. E esses dois filmes, que retratam o espiritismo, possuem mensagem universal, que transcende qualquer barreira religiosa: a evolução através do aprendizado e do bem. A esperança de que algo melhor nos espera. Somos um povo otimista, mesmo com todas as dificuldades do dia-a-dia. Além deles, outros trabalhos do gênero foram lançados, como “As Cartas Psicografas de Chico Xavier”, um documentário, e por isso mesmo destinado a uma plateia reduzida, e “Aparecida, O Milagre”, talvez a grande decepção no gênero, já que aborda o catolicismo, religião com mais seguidores no país. Esperavam-se milhões de espectadores. Pouco mais de 120 mil foram às salas de projeção ver o longa até o momento.

Cena de “Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo”

“Tropa de Elite 2” virou febre pela temática social e por mostrar aquilo que sabíamos, mas até então ninguém tivera coragem de abordar com tanta força: a podridão em nosso sistema político-social. Seu sucesso não é surpresa. “Tropa de Elite”, o primeiro, já fora um fenômeno – visto por milhões antes de seu lançamento oficial. A continuação, que teve esquema de segurança forte para evitar a pirataria, expandiu o conceito do anterior e fez história. O filme do ano no Brasil. Um dos grandes da sétima arte no País.

“Lula, O Filho do Brasil” pagou pela pretensão de seus realizadores. O longa fracassou nas bilheterias apesar da bonita trajetória de vida do protagonista e de seu grande orçamento, Pegou mal lançar um filme sobre o então presidente em ano de eleição. E erroneamente a obra foi escolhida para representar o Brasil na disputa por uma indicação ao Oscar de filme estrangeiro. Fato que remeteu ao cinema de propaganda alemão durante o nazismo. Pior foi o acidente sofrido pelo diretor Fábio Barreto.

Vale destacar positivamente a variedade de gêneros que o cinema nacional apresentou em 2010. Além da religião e do social, tivemos policial (“Federal”), comédia (“Muita Calma Nessa Hora”, “De Pernas Pro Ar”), documentário (“Uma Noite em 67”), drama adolescente (“As Melhores Coisas do Mundo”), drama adulto (“5 x Favela”), drama de temática homossexual (“Como Esquecer”), esporte (“Todo Poderoso”, “Soberano”), apenas para citar alguns exemplos. A produção foi relativamente boa.

Algumas dessas obras foram apresentadas em festivais internacionais. Porém, o que falta ainda por aqui é um mercado sólido para as produções independentes ou de pouco orçamento. Se produtores descobriram como fazer nossos blockbusters, e o público está aprendendo a prestigiá-los, aquelas obras que não conseguem milhões de reais do BNDES ou não contam com o apoio da Globo Filmes ainda enfrentam grande dificuldade para entrarem no circuito.

Cena de “Reflexões de um Liquificador”

Investimento é um tema delicado e complexo. Poderíamos falar sobre incentivos estatais, que já acontecem, bem ou não. Mas num país como o Brasil, de tantos problemas sociais, pedir grandes investimentos do governo no cinema seria, ao menos na atual conjuntura, um desrespeito à sociedade. Educação, saúde e segurança são e sempre serão prioridades. Valeria investir, em larga escala, no cinema enquanto educação. Com cursos e oficinas gratuitas. Na capacitação de profissionais. Afinal, não temos uma indústria formada. Gerar novos profissionais. Renovação sempre é bem-vinda. Os consagrados já possuem seu lugar no céu.

Mas a semente está plantada. O ano que chega ao fim é o ponto de partida para uma década que tem tudo para ser “a década” do cinema brasileiro. Temos profissionais talentosos, o interesse do público pelo produto nacional vai ressurgindo. Os problemas podem ser solucionados. Resta torcer e continuar comprando ingressos para prestigiar o filme nacional. Abaixo, o ranking com 85 dos cerca de cem filmes brasileiros ou coproduções nacionais que chegaram aos nossos cinemas em 2010 (número de ingressos vendidos). Alguns surgem fora de ordem porque foram, primeiramente, listados seguindo seus resultados de bilheteria. A fonte é o Filme B.

1. Tropa de Elite 2 – 11.081.199
2. Nosso Lar – 4.060.000
3. Chico Xavier – 3.414.900
4. Muita Calma Nessa Hora – 1.283.391
5. Xuxa em O Mistério de Feiurinha – 1.299.044
6. O Bem Amado – 966.519
7. Lula, O Filho do Brasil – 852.212
8. As Melhores Coisas do Mundo – 310.029
9. Quincas Berro d’Água – 281.173
10. A Suprema Felicidade – 218.124
11. High School Musical – O Desafio – 292.932
12. 5X Favela – Agora por Nós Mesmos – 158.433
13. 400 Contra 1 – A História do Comando Vermelho – 142.534
14. Aparecida, O Milagre – 120.093
15. Federal – 111.695
16. Do Começo ao Fim – 89.258
17. Uma Noite em 67 – 80.766
18. Eu e meu Guarda-Chuva – 97.950
19. Soberano – Seis Vezes São Paulo – 45.434
20. Amor por Acaso – 47.607
21. Como Esquecer – 33.066
22. Segurança Nacional – 37.169
23. José e Pilar – 27.767
24. Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo – 26.361
25. Dzi Croquettes – 23.528
26. Em Teu Nome – 53.721
27. Antes que o Mundo Acabe – 28.390
28. Sonhos Roubados – 23.573
29. Reflexões de um Liquidificador – 23.664
30. O Homem que Engarrafava Nuvens – 19.324
31. Olhos Azuis – 16.193
32. É Proibido Fumar – 15.385
33. Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos – 11.208
34. Cabeça a Prêmio – 10.608
35. A Casa Verde – 24.588
36. Os Inquilinos – 9.813
37. Os Famosos e os Duendes da Morte – 8.406
38. Utopia e Barbárie – 9.909
39. As Cartas Psicografadas por Chico Xavier – 7.336
40. Caro Francis – 5.033
41. Só Dez Por Cento É Mentira – 6.150
42. Rita Cadillac – A Lady do Povo – 4.103
43. O Amor Segundo B. Schianberg – 4.390
44. No Meu Lugar – 5.829
45. Vida Sobre Rodas – 3.491
46. Pachamama – 4.217
47. Todo Poderoso: O Filme – 2.423
48. Cidadão Boilesen – 8.448
49. Quanto Dura o Amor? – 6.212
50. Besouro – 7.388
51. O Sol do Meio-Dia – 2.811
52. Programa Casé – 2.644
53. Praça Saens Peña – 2.138
54. Insolação – 2.235
55. Terra Deu, Terra Come – 2.530
56. Netto e o Domador de Cavalos – 2.170
57. A Guerra dos Vizinhos – 1.829
58. Jards Macalé – 1.805
59. Bellini e o Demônio – 1.933
60. O Grão – 1.976
61. Léo e Bia – 1.367
62. Noel, Poeta da Vila – 4.348
63. Um Lugar ao Sol – 1.806
64. Solo – 992
65. O Abraço Corporativo – 1.001
66. Elevado 3,5 – 900
67. Cildo – 850
68. Veias e Vinhos – 2.500
69. Embarque Imediato – 1.155
70. Topografia de um Desnudo – 1.202
71. Terras – 662
72. Supremacia Vermelha – 568
73. B1 – Tenório em Pequim – 536
74. Ouro Negro – 680
75. Diário de Sintra – 584
76. Meu Mundo em Perigo – 541
77. Plastic City – 426
78. Grêmio 10X0 – 392
79. A Falta que Me Faz – 388
80. A Alma do Osso – 344
81. Fluidos – 274
82. Acácio – 258
83. Alô Alô Terezinha – 378
84. Elza – 248
85. Luto como Mãe – 328

Cena de “Uma Noite em 67”

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– André Azenha (@cinezen) é jornalista e editor do site CineZen Cultural

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Leia também:
– “Tropa de Elite 2” é uma pedalada na nuca, por Marcelo Costa (aqui)
– “As Melhores Coisas do Mundo” acerta bastante e surpreende, por Bruno Capelas (aqui)
– “5X Favela” é indicado para alienados, fascistas e gringos, por Tiago Trigo (aqui)
– “Uma Noite em 67”, baixe o podcast #6 do Scream & Yell na Rádio Levis (aqui)
– “Viajo porque preciso, volto porque te amo”, um filme corajoso, por Tiago Trigo (aqui)
– Trilha sonora de “O Bem Amado” tem Mallu Magalhães, Caetano e Zélia Duncan (aqui)
– “Todo Poderoso, O Filme”, a melhor obra cinematográfica sobre o Corinthians (aqui)

5 thoughts on “2010, ano do blockbuster brasileiro

  1. Texto consistente do André Azenha, como de costume. Concordo muito com a premissa “o que falta ainda por aqui é um mercado sólido para as produções independentes ou de pouco orçamento”. É torcer para melhorar.

  2. Os Famosos e Os Duendes da Morte é, disparado, o melhor filme do – já – ano passado.

    A colocação sobre a cinebiografia do Lula foi pertinente… Essa comissão que escolhe o representante do Oscar é patética.

  3. NÃO SEI se concordo com isso. “Mas num país como o Brasil, de tantos problemas sociais, pedir grandes investimentos do governo no cinema seria, ao menos na atual conjuntura, um desrespeito à sociedade. Educação, saúde e segurança são e sempre serão prioridades”. Uma coisa não anula a outra. quando se investe em cinema, se criam empregos em todas as pontas. estimula-se um mercado. e isso vale para o esporte, para arte, para quase tudo. beneficiam-se indiretamente a educação, a saúde e a segurança.

  4. Ismael, quando filmes brasileiros são produzidos, a maioria dos profissionais são os mesmos. Novos profissionais têm dificuldade em conseguir uma chance. E geralmente são trabalhos temporários. Assim que o filme é finalizado, os caras voltam para o mercado. O Brasil é um país que precisa de prioridades e, entre investir milhões na produção de um filme, e milhões em alimentação, saúde, educação e segurança, as prioridades são essas últimas. A discussão vai muito além do investimento público no cinema. Sofremos por não ter uma indústria, por não ter dinheiro privado para investir em filmes e o brasileiro da classe D e E não tem dinheiro para ir ao cinema. Não dá pra esperar que os problemas da indústria cinematográfica sejam resolvidos só com incentivos estatais. O dia que tivermos um país sem os problemas que temos atualmente, ou ao menos em bem menor escala, quem sabe surja uma industria sólida e os produtores não dependam exclusivamente da grana do BNDES ou dos governos estaduais, municipais, etc. Caso os investimentos públicos tenham que ser feitos de qualquer maneira, que sejam na capacitação de profissionais, oficinas, escolas públicas de áudio visual, em programas que contribuam para o desenvolvimento do cidadão. Grande abraços, André Azenha

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