Entrevista: Circa Survive

entrevista por Bruno Lisboa

Com carreira iniciada em 2004 o Circa Survive surgiu na Filadélfia em meio a efervescente cena post-hardcore da época ao lado de bandas com o Thrice. Formada por Anthony Green (vocais), Colin Frangicetto (guitarra), Brendan Ekstrom (guitarra), Nick Beard (baixo) e Steve Clifford (bateria) a banda tem em sua discografia seis álbuns de estúdio, que se alternam entre selos indies (Equal Vision, Hopeless e Sumerian Records) e a mainstream Atlantic, que lançou o “Blue Sky Noise and Appendage” (2010) – alcançando a 11ª posição no ranking da Billboard.

Desde o álbum de estreia, “Juturna” (2005), que o Circa Survive vem apostando numa sonoridade que vai do indie rock ao post-hardcore com letras sentimentais carregadas de pessoalidade por parte de Anthony Green. O mais recente trabalho do grupo é “The Amulet” (2017) e pode ser interpretado como uma ode aos EUA e a desastrosa era Trump: “Meu filho mais novo nasceu e na sequência a eleição aconteceu e o resultado foi como se fosse o fim do mundo. Então o álbum acaba por refletir meus pensamentos da época”, reflete Anthony.

Num bate papo por telefone, Anthony Green fala sobre o processo de criação do novo disco, das lembranças da primeira turnê da banda na América do Sul (“Foi como ter um sonho realizado”), sobre trabalhar com gravadoras independentes e majors, a era Trump (“Me sinto envergonhado de ser associado ao Trump de qualquer forma”), a diferença entre escrever e estar no palco (“Escrever uma música é como escrever uma carta para alguém, mas uma apresentação é algo mais profundo e poderoso”), sobre paternidade e muito mais.

O Circa Survive toca em São Paulo neste sábado (no Fabrique, 15/09)
e no domingo em Curitiba (no Basement Cultural, 16/09)

“The Amulet” é um belo disco sobre renascer, sobre ser alguém diferente. Como foi o processo de criação do álbum?
Bem, eu tinha gravado um disco com a minha antiga banda (Saosin) e feito uma longa turnê em 2016. Então voltei para casa para passar alguns dias e comecei a criar algumas canções para o álbum. E meu filho mais novo nasceu. Mas, na sequência, a eleição aconteceu e o resultado foi como se fosse o fim do mundo. Então o álbum acaba por refletir meus pensamentos da época.

Entrevistei Riley (do Thrice) mês passado e ele revelou o quão decepcionado está com a era Donald Trump. Como cidadão americano, o que você pensa sobre essa situação?
É uma tragédia. Eu me sinto envergonhado de ser associado ao Trump de qualquer forma. Mas acredito que esta situação é pendular, pois fomos para o fundo do poço, mas futuramente as coisas voltarão ao normal. Pensar positivo é a única maneira de encarar este momento.

A banda começou há quase 15 anos atrás. Como você vê o mercado da música hoje?
As coisas mudaram bastante e nos afetaram, mas por outro lado hoje está mais fácil fazermos turnês e gravarmos. A internet também permitiu que mais pessoas conhecessem nosso trabalho e nos aproximou dos nossos fãs.

O Circa Survive lançou seis álbuns. Alguns de forma independente outros por uma grande gravadora. Qual a diferença de trabalhar nas duas esferas?
Seja no modo como negociamos nossos contratos, desde o começo da banda, ou decidimos com quem trabalhar, procuramos manter a nossa criatividade, em grupo ou individualmente. Então quando uma gravadora vem para escolher qual música eles gostaram ou quais eles irão escolher, eu e o Colin (Frangicetto) já decidimos qual caminho seguir. Nós nos conhecemos bem e sabemos o que queremos fazer. Então acho que não há diferença entre ambas.

Em entrevista ao Scream & Yell, Sergio Vega (Quicksand) disse que adorou trabalhar com o produtor Will Yip. Vocês já gravaram com ele por duas vezes (inclusive no novo, “The Amulet”). Quais as contribuições ele trouxe a banda?
Ele é ótimo. Nos ajuda bastante a organizar nossas melodias e ideias. Ele nos pressiona a darmos o nosso melhor e pensar no que fazer.

O Circa Survive é famoso por ser uma banda muito intensa no palco. Os shows são a melhor maneira de se conectar com as pessoas?
Acredito que esta não seja a melhor, mas a maneira mais verdadeira de se conectar com as pessoas. Escrever uma música é como escrever uma carta para alguém, mas uma apresentação é algo mais profundo e poderoso. É como estar com alguém e beijá-la.

Esta é a segunda vez que a banda vem ao Brasil. Quais memórias você tem da primeira turnê?
Lembro-me de que a primeira turnê foi incrível. Nós nunca tínhamos estado aqui então imaginávamos que talvez não tivéssemos muito fãs por aí. E as pessoas vieram nos ver e foi divertido. Foi como ter um sonho realizado. É gratificante vir do outro lado do mundo através de nossa música e poder estar com pessoas conhecendo culturas que nunca tivemos contato.

Bullet Bane (São Paulo) e o Oceania (Belo Horizonte) são algumas das bandas responsáveis pela abertura desta nova turnê nacional. O que você conhece sobre música brasileira?
O Bullet Bane tocou com a gente na turnê passada e os acho incríveis. The Tape Disaster, banda que abriu para gente em Porto Alegre, é muito boa também. Eu sei que a cena musical brasileira é incrível, mas não a conheço muito.

Como você, também sou pai e estou muito preocupado com o mundo hoje. Como podemos consertar o mundo que vivemos e construir um futuro melhor para nossas crianças?
Vivemos tempos difíceis, mas é preciso transparência para com nossos filhos, afinal nós cometemos erros no passado que não podem se repetir. Em tempos onde o ódio prevalece procuro ensinar a eles que devemos tratar bem uns aos outros. Este é o principal fundamento que dá equilíbrio a vida.

– Bruno Lisboa (@brunorplisboa) é redator/colunista do Pigner e do O Poder do Resumão. Escreve no Scream & Yell desde 2014.

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