Entrevista: Apanhador Só (2013)

por Bruno Capelas
Fotos por Liliane Callegari
Colaborou Marcelo Costa

Três anos podem mudar muita coisa na carreira de uma banda. Depois de fazer uma das estreias mais empolgantes da música brasileira na última década (incluindo um terceiro melhor disco nacional de 2010 em votação deste site) e angariar fãs por todo o país com lirismo de iniciante e sonoridade pós-hermânica, os gaúchos do Apanhador Só resolveram despirocar de vez em seu segundo álbum.

O resultado foi “Antes Que Tu Conte Outra”, um disco mordido e preocupado, embebido em ruído e desconforto, influenciado pelas mesmas condições que levaram o país para se encontrar com as ruas no último mês de junho, surpreendendo quem esperava (apenas) mais um par de refrães cativantes.

“A substância permanece a mesma, mas naturalmente, pelo caminho, vão acontecendo coisas”, explica o guitarrista Felipe Zancanaro sobre a evolução do grupo. “Começamos a ter mais visibilidade depois do lançamento do primeiro disco, e com isso, aumentou o nosso poder de escoar informação e a nossa responsabilidade sobre isso. Nesse processo, me voltei mais para fora e me desliguei um pouco do meu hedonismo adolescente”, completa o vocalista Alexandre Kumpinski. A guinada de 180 graus, entretanto, não é espantosa para quem acompanhou a trajetória da banda entre um long play e outro – especialmente pelo trabalho com instrumentos de sucata do EP “Acústico-Sucateiro”, de 2011.

Patrocinado por um crowdfunding que angariou quase R$ 60 mil, com a colaboração de aproximadamente 1300 pessoas, segundo estimativas da própria banda, “Antes Que Tu Conte Outra” foi disponibilizado para download em abril. Um mês depois, o grupo esgotou duas sessões do show de lançamento do álbum em um dos palcos mais tradicionais do Rio Grande do Sul, o Theatro São Pedro. Em agosto, foi a vez de São Paulo.

Na semana que antecedeu o show de lançamento de “Antes Que Tu Conte Outra” na capital paulista, o Scream & Yell recebeu Alexandre, Felipe, o baixista Fernão Agra e o baterista André ‘Foca’ Zinelli para um papo regado a cerveja, tubaína e amendoim. Além de falar do novo álbum, o grupo fez sérias críticas à publicidade, mostrou-se decepcionado com Tom Zé após a polêmica da Coca-Cola, discorreu sobre o Fora do Eixo e apontou a expansão do jabá como “culpado” da realidade musical brasileira dos dias de hoje, além de escolher discos que representam a cara da banda (você confere as respostas nas fotos que ilustram a conversa).

Entretanto, mais que isso, a entrevista a seguir revela uma banda inquieta, criativa, e, acima de tudo, com vontade de arriscar para fazer as coisas acontecerem, levando à risca o significado da palavra independência. “Preferimos colocar o facão no mato a pegar a rodovia pavimentada e pagar um pedágio filho da puta”, diz Felipe. “Somos quatro pessoas dispostas a chafurdar para conseguir fazer com que música dê certo nas nossas vidas”, completa Alexandre. Com a palavra, Apanhador Só.

Bruno: Acho que vocês já devem estar cansados de ouvir essa pergunta, mas…
Alexandre: (interrompe) Por que Apanhador Só?

Marcelo: Essa é a pergunta mais comum? Mesmo? (risos)
Alexandre: Bah, sim. Perguntam muito isso para a banda. Teve uma vez que nós estávamos no meio dos ensaios para o lançamento do disco em Porto Alegre e uma equipe de TV veio nos filmar. Na época, havia várias manifestações na cidade, o clima estava tenso. Pois bem: a equipe veio, preparou a câmera, nós nos perfilamos esperando aquela pergunta cabeluda, e aí… “Por que Apanhador Só?”. Nós nos olhamos e nem sabíamos o que fazer na hora. Foi constrangedor. Sorte que o câmera interviu e começou a sugerir perguntas. Tudo bem, entendo, precisa apresentar a banda, mas começar com essa pergunta…

Bruno: Não (risos), eu queria saber o que aconteceu com a Apanhador Só do primeiro disco. Onde foi parar aquela banda… bonitinha?
Alexandre: Nós cansamos de algumas coisas.

Felipe: De fato, é um pouco isso mesmo.

Marcelo: Quanto tempo separa o primeiro disco do “Antes Que Tu Conte Outra”?
Felipe: Abril de 2010 até abril de 2013. No meio teve o “Acústico-Sucateiro” e o “Paraquedas”.

Alexandre: São três anos. O “Apanhador Só” saiu em abril de 2010, e agora em 2013, também em abril, o “Antes Que Tu Conte Outra”. Só que o primeiro disco começou a ser gravado no meio de 2008, um ano e meio antes. Ou seja, na verdade, são mais de quatro anos de diferença entre os dois trabalhos.

Marcelo: Mas o próprio “Sucateiro” e o EP já são uma caminhada para o disco novo. Não houve uma ruptura tão grande assim, houve?
Felipe: Acho que nós somos os mesmos de antes. A substância permanece a mesma, mas naturalmente, pelo caminho, vão acontecendo coisas. O “Sucateiro” foi uma experiência que acabou nos abrindo um monte de espaços. Ali, plantou-se algo que apareceria no “Antes Que Tu Conte Outra”. O “Paraquedas”, por outro lado, é a mistura do “Sucateiro” com o plugado…

Alexandre: E tem mudanças que não tem a ver com a sonoridade da banda. Foi algo que aconteceu comigo, pelo menos. A partir do momento que o primeiro álbum foi lançado, a banda começou a ter mais visibilidade e, com isso, aumentou o nosso poder de escoar informação para as pessoas. Junto com isso cresceu a nossa responsabilidade sobre o que nós falamos, e, nesse processo, eu comecei a me voltar mais para fora e me desliguei um pouco do meu hedonismo adolescente. Isso também ajudou a despertar coisas novas no nosso trabalho.

Bruno: Isso é algo bastante diferente entre os dois discos. O “Apanhador Só” é muito lírico, muito romântico, fala muito de relacionamentos. O “Antes Que Tu Conte Outra” não, é mais social, mais político, mais posicionado.

Marcelo: O primeiro disco exibe uma vivência de amigo e de amores, enquanto o segundo representa vocês na estrada, enfrentando todos os problemas que o fato de ter uma banda traz, três anos depois.
Alexandre: Acho que não são só os problemas de ter uma banda, mas também os problemas que nós enfrentamos como cidadãos, de maneira geral.

Felipe: Tudo anda muito de mão dada. Viajar muito fez com que a gente começasse a ver muita coisa, e vivenciar situações diferentes nas quais se desperta aquela interrogação: “Opa, peraí, qual é a desse cara? Como as coisas funcionam aqui?”.

Bruno: Quando é que as canções desse disco começaram a ser compostas?
Alexandre: O disco já estava todo composto quando a banda foi para o sítio em Gravataí fazer a pré-produção. Claro, faltava um verso aqui, outro ali, mas estava quase tudo pronto. A maioria das músicas é do meio de 2012, um período que eu parei para compor e me desliguei um pouco das funções da banda, mas há músicas bem antigas, de outra safra, como “Torcicolo”. Ela quase não entrou no disco por não representar essa fase. De qualquer maneira, foi um período bem mais breve que o que eu tive para fazer as canções do “Apanhador Só”, que junta músicas de desde a época que eu tinha 17 anos. Mas é isso: na pré-produção nós nos juntamos para fazer os arranjos, tentar decidir qual seria a cara do disco e que músicas entrariam nele. Foi um recorte complicado: várias músicas que a galera gostava e queria acabaram ficando de fora porque não havia espaço.

Alexandre Kumpinski escolheu “Araçá Azul”, de Caetano Veloso (1973)

Marcelo: Como funciona essa seleção para o repertório que vai para o disco?
Felipe: É dramático. Por um lado, a gente tem o gosto pelo arranjo e pela canção. Pelo outro, havia o contexto do disco. Nós discutimos muito o que nós queríamos dizer nesse álbum.

Alexandre: “Mas Não” (tocada no show de lançamento do disco, em Porto Alegre e São Paulo), por exemplo, era uma música que tinha um arranjo muito legal, e era uma das favoritas de um dos produtores, o Gustavo Lenza. Ele mixou a música muito bem, havia uma experiência sonora muito boa ali, mas a letra não acrescentava em nada ao disco, repetindo um humor que o trabalho já tinha.

Felipe: Outra coisa que nós concordamos foi que o disco não precisava ser muito longo. Ele tinha que ser “pá, pá, pá, pum”.

Marcelo: O que é algo muito bacana. Esse foi o primeiro problema da geração CD: descobrir que podia fazer um disco com 80 minutos. É preciso ser objetivo, conciso. No vinil você tinha 40…
Felipe: Descobri esses dias que o “Antes Que Tu Conte Outra” não cabe no vinil, por muito pouco, porque tem 42 minutos.

Bruno: Como foi o trabalho de escolher a ordem das músicas no disco. Achei engraçado quando li, em um faixa-a-faixa do disco que o Alexandre fez para a MTV, que “Cartão Postal” tinha que ser a última, porque não dava vontade de fazer nada depois de tocá-la…
Felipe: Sim! Nós determinamos há muito tempo que “Mordido” precisava abrir o disco e “Cartão Postal” tinha que fechar, pelo que elas têm a dizer.

André: Foram as duas primeiras músicas a ter o arranjo resolvido, e assim que isso aconteceu ficou claro que elas eram as pontas do disco.

Felipe: Depois nós não sabíamos o que fazer. Na pré-produção, várias músicas foram gravadas por cada canal, bonitinhas, como tem que ser. Muita coisa dessa época ficou no disco – “Cartão Postal”, por exemplo, foi toda feita na pré-produção, só recebendo uma mixagem posterior. Havia uma rotina nessa fase: nós trabalhávamos na música durante o dia, e de noite ficávamos escutando enquanto fazíamos comida – e nesse meio tempo experimentávamos várias ordens. Mesmo quando tudo estava pronto, nós ainda mudamos muito a ordem.

Alexandre: “Torcicolo”, por exemplo, quase foi a terceira do disco. Ela só foi para o final quando eu mostrei o disco para dois amigos meus de Porto Alegre. Nessa ocasião, eu tentei entender o que eles estavam entendendo do disco. “Bah, primeiro abre com ‘Mordido’, que é uma pedrada. Depois vem ‘Vitta, Ian, Cassales’, que é uma música complexa, mas muito mais macia, e depois entra ‘Torcicolo’, uma música afetiva, com um arranjo para cima. Que disco é esse, parece um carnaval!?” Nós nos reunimos de novo e mudamos. A última definição só aconteceu quando a masterização já estava quase pronta.

Marcelo: Costumo defender muito o direito de o artista fazer o que ele quiser com a sua obra. O público paga para ver arte, não para ver o cara tocar a música que você quer no violão. Mesmo assim, o artista tem o compromisso de entregar um objeto para o público, e no caso de vocês, era um objeto que já tinha sido pré-pago. Por isso, me interesso quando vocês falam “daquilo que a gente discutiu, do que a gente queria entregar”… Afinal, que disco vocês queriam entregar para o público?
Alexandre: (hesita)… Nós queríamos entregar algo que mostrasse um pouco do nosso desconforto, das coisas que a gente precisava botar para fora, como uma forma de manifesto. Eu brincava de chamar isso de “estética do vandalismo”, porque logo quando começou a pré-produção do disco, tinha rolado o episódio do Tatu em Porto Alegre.

Bruno: Que episódio foi esse?
Alexandre: É um pouco complicado, mas vou tentar resumir. O Largo Glênio Peres é um espaço democrático que fica no coração do centro da cidade, na frente do Mercado Público, ao lado da Prefeitura. Entretanto, ele começou a ser privatizado nos últimos anos pela prefeitura, com gerenciamento da Opus e da Coca-Cola. Ou seja: virou um espaço da Coca-Cola. Aos sábados e domingos, e também a partir das seis da tarde durante a semana, o lugar virou um estacionamento. Isso foi na contramão do que muita gente em Porto Alegre anda pensando ultimamente, tentando fazer com que a cidade olhasse mais para as pessoas e menos para os carros, dando valor para o espaço público, e não para o privado. Houve muitas manifestações a respeito disso tudo, de maneira que proibiram que se fizessem protestos ali – a menos que você pedisse uma autorização para protestar, o que é ridículo. Ainda por cima, subiram um boneco inflável enorme do Fuleco, o tatu-bola mascote da Copa do Mundo. Foi o último pingo de provocação, e a galera organizou o que se chamou de “Defesa Pública da Alegria”, no dia 4 de outubro de 2012. Um dia antes desse evento, houve um show do Tom Zé no Araújo Viana, um dos principais auditórios da cidade, hoje privatizado para uma parceria entre a Coca-Cola, a Opus e a Oi. Na frente do auditório há um gramado, onde a galera ia para tocar violão, tomar chimarrão, rolar grama abaixo, fumar maconha, fazer o que for. Com a privatização, você não pode sentar na grama, senão o segurança vai e te tira de lá. E colocaram uma lata inflável enorme de Coca-Cola no gramado. Enfim: na saída do show do Tom Zé, a galera removeu o inflável da Coca-Cola do gramado e levou para o meio da [avenida] Oswaldo Aranha, tocaram fogo nele e prometeram: “Amanhã vai ser o tatu!”. No dia seguinte, rolou manifestação de novo, e quando a galera circundou o boneco do tatu-bola, veio a polícia. Foi o primeiro caso, pelo menos que eu me lembre, na nossa geração, de massacre policial. Bateram nos manifestantes, especialmente em quem estava segurando câmeras. Muitos amigos nossos foram espancados e pararam no hospital. Foi algo que nos abalou demais, e foi nesse clima que a gente entrou na pré-produção. Além disso, no noticiário da retransmissora local da TV Globo, o (jornalista) Lasier Martins, que é uma espécie de Arnaldo Jabor de Porto Alegre, chamou os manifestantes de vândalos.

Marcelo: Mais ou menos o que a Folha de São Paulo fez aqui e teve de voltar atrás depois…
Alexandre: Além de chamar os caras de vândalos, ele falou que violência se responde com violência, colocando em paralelo a possível ameaça a um boneco de plástico justificando a violência a corpos de pessoas. Entramos na pré-produção muito abalados, e tinha todo esse papo de vândalos para cá, vândalos para lá. Nisso, resolvemos entre nós mesmos: “Já que é para ser vândalo, vamos estragar os timbres, fazer ruído mesmo”. Essa situação de Porto Alegre, que começou desconectada do país, mas depois se espalhou agora em 2013, foi uma das coisas que motivou o clima geral do disco. Disso, para o disco que a gente queria entregar, a ideia é que não fosse mais um disco apenas “sorrindo e cantando”.

Felipe: Para mim isso não foi um lance tão consciente. Nós entramos [na pré-produção] com essa atmosfera, e conceitos como ruído e textura já vinham de muito antes. Acho que esses acontecimentos só deixaram a parada toda mais forte.

Felipe Zancanaro escolheu “Amnesiac”, do Radiohead e “Tudo ao Mesmo Tempo Agora”, do Titãs

Bruno: Quando vocês lançaram o disco, qual foi a reação das pessoas que participaram do crowdfunding?
Alexandre: Foi surpreendentemente boa. Eu, pelo menos, não vi nenhuma reação negativa explícita, ninguém ficou decepcionado.

Marcelo: Quantas pessoas participaram do projeto?
Alexandre: Oficialmente foram 743, mas muitos dos shows caseiros que a gente fez foram vaquinhas coletivas, de maneira que a gente calcula que seja algo em torno de 1300 pessoas. E a recepção foi muito boa. Nós já tínhamos a impressão de que as pessoas estavam dispostas a serem surpreendidas. Acho que elas preferiam isso a receber mais do mesmo.

Felipe: É bem na linha do que você tinha falado, Marcelo, de que tu defende que o artista tem que fazer a sua arte, sem se importar como vai ser recebido. Acho que é isso que as pessoas esperam.

Alexandre: Lembro que, quando a gente lançou o “Despirocar”, teve gente que agradeceu a banda: “Obrigado por me surpreender”.

Marcelo: Da parte de vocês, rolou um medo do disco não ser bem compreendido?
Felipe: Rolou um receio, ainda mais no meio do processo. Nós pensávamos: “O que é que a gente está fazendo?”. Especialmente porque, quando as coisas não estavam ainda bem mixadas, ficava difícil saber o que realmente ia sair daquilo.

Fernão: Mesmo assim, não colocamos o medo como baliza para gravar. Um dia, durante as gravações, fui interpelado por uma guria na rua, que conhecia a banda. Conversamos um pouco, e a última coisa que ela disse foi: “Não mudem o som de vocês!” (risos). Tarde demais!

Felipe: Durante o processo, é lógico que você entra em um questionamento, mas isso é saudável. Ao mesmo tempo, nós estávamos curtindo muito o que estávamos fazendo, muito concentrados, trabalhando juntos.

Alexandre: Tive esse receio um dia quando estava pensando no disco antes de dormir e percebi que ele não tinha quase nada que as pessoas pudessem cantar junto. É um trabalho que não contém canções com aquela estrutura pequena que já revela a ideia de toda a canção, como uma pílula. Comentei isso com os meninos: “Bah, esse disco está meio sem canção, vai ser difícil para a galera cantar no show”. Aí um de vocês (da banda) disse: “Mas se fosse para nós nos preocuparmos com isso, não teríamos nem começado”. E eu: “É, pode crer!” (risos).

Felipe: No primeiro disco, a galera postava direto no Facebook os versos das músicas junto com os vídeos. O “Antes Que Tu Conte Outra” não tem isso. Vai botar o quê, ruído? O mais legal é que, mesmo assim, a galera posta uns pedaços da letra, em uns recortes muito loucos, coisas que eu não faria.

Marcelo: Tipo: “Pau no cu de quem não quer” (frase que abre “Liquido Preto”)?
Felipe: É! (risos). É um espaço um pouco aberto, e aí você abre a interpretação da música para outros campos. É bem doido.

Alexandre: Acho que o nosso público é interessado, interessante e inteligente. Nós temos que fazer o nosso melhor para surpreendê-los.

Marcelo: É que a mentalidade de gravadora era o contrário. O cara lançava um disco, fazia sucesso, e ficava com medo de mudar um milímetro do som dele para não perder público. Isso é uma das coisas legais do momento que a gente está vivendo na música de hoje. Se vocês estivessem numa gravadora agora e oferecessem esse disco, provavelmente ia acontecer o que aconteceu com o “Bloco do Eu Sozinho”: “Volta para casa e faz outro, porque esse não tem jeito”, ou iam chamar outro produtor para o disco. Ok, vocês não têm o apoio da gravadora para bombar num Fantástico ou num Faustão, mas…
Felipe: É que essa mentalidade empresarial não funciona na arte. Uma marca que não pode mudar para não perder credibilidade. Não, não é isso. Os caras pensam como uma empresa, e eles tem a grana na mão. O artista, mesmo quando está na gravadora, não tem a grana na mão. Ele é refém da gravadora.

Alexandre: É a velha questão da liberdade. Se você não tiver liberdade, não vai criar.

Bruno: Vocês fizeram apenas dois shows com o repertório do “Antes Que Tu Conte Outra”, ambos em Porto Alegre. Como as coisas funcionaram ao vivo?
Felipe: Acho que foram os nossos melhores shows. No palco, somos nós quatro, mais o Lorenzo Flach e o Diego Poloni, que participaram da gravação do disco e seguem com a gente como músicos de apoio.

Alexandre: Para esses primeiros shows, tentamos nos aproximar ao máximo do disco, numas de baixar a cabeça e provar para nós mesmos que éramos capazes de repetir tudo ao vivo. No início, o processo de adaptar o que tinha sido feito no estúdio foi muito difícil. A formação muda em cada música, e nós trocamos de instrumento o tempo todo.

Bruno: Deve dar um baita trabalho microfonar todos os instrumentos de sucata no palco.
Felipe: Até que não é tão difícil. O que é imprescindível é um técnico que conheça e entenda o som da banda, que nosso caso é o Bernardo Pacheco. Ele é muito atencioso, muito inteligente.

Alexandre: O Pacheco fez um trabalho incrível no Theatro São Pedro. E muita gente veio me falar sobre isso: “Pô, parabéns pelo investimento de trazer o cara, porque o negócio foi fino”.

Felipe: O Theatro São Pedro é um teatro histórico e aconchegante, e tocar lá é uma loucura, é um ponto alto na carreira de qualquer artista gaúcho. Nós fizemos duas sessões, e as duas ficaram esgotadas uma semana antes do show. Chegamos lá em êxtase, mesmo com muitas possibilidades de dar problema. Em casa, ensaiando para o show, nós usamos uma mesa de oito canais, e era um caos trocar de música para música, coisa de cinco minutos entre cada uma só para regular o som. Nunca conseguíamos pegar o ritmo de tocar uma atrás da outra.

Fernão: Não dava nem para caminhar dentro da sala, de tanto instrumento que tinha no chão!

Felipe: Muita merda podia acontecer, mas nada deu errado. O som funcionou super bem, e a recepção do público foi lindíssima.

Bruno: Mas as pessoas cantavam junto? Tudo bem, o disco tinha saído faz pouco tempo…
Alexandre: Não teve muito o cantar junto nesse show, mas isso não fez falta.

Bruno: E ontem, na intervenção no Parque do Ibirapuera (o Apanhador Só havia feito uma apresentação aberta nos moldes acústico-sucateiro no dia anterior), o pessoal cantou?
Alexandre: O pessoal estava cantando as músicas do disco, e acompanhando mesmo sem ter refrão.

Felipe: O que eu achei legal é que a galera pediu muito as músicas do disco novo, e até se esqueceu das antigas. E teve uma guria que não escutou o disco, porque queria esperar ter o objeto físico para ouvir as músicas novas. Ela vai ter o baquezinho dela agora (risos).

Fernão Agra escolheu “Loco Live”, do Ramones

Bruno: Esse repertório novo traz uma questão complicada para vocês, pelo menos do ponto de vista da execução do show. É um disco complicado para tocar à noite, e nem todas as cidades que vocês vão tocar têm teatro para acomodar esse som.
Alexandre: É complicado. Vamos ter que adaptar os arranjos.

Felipe: Tem algumas músicas que a gente sabe que não vai conseguir adaptar, por causa de clima. Não dá. Nós testamos “Cartão Postal” antes de lançar o disco, mas não funcionou. As opiniões se dividem, uns gostaram, mas a gente achou, vendo o vídeo depois, que não rolou legal. É uma música silenciosa, delicada, e aí as pessoas estão bebendo, ou conversando…

Alexandre: “Lá em Casa Tá Pegando Fogo” é outra, porque tem muito ruído, e um vocal supergrave. Vai ser difícil.

Marcelo: Vocês pretendem adaptar as canções antigas ao “Antes Que Tu Conte Outra”?
Alexandre: Nós queremos fazer isso, mas ainda não tivemos tempo. É um trabalho que precisa ser feito com muita calma, porque é quase como se você fosse fazer os arranjos para gravar um disco novo.

Felipe: É preciso fazer isso mesmo, até para dar esse “molho único”. Como ainda estamos na fase de lançamento do disco, acabamos por focar no disco novo, e aí no bis, quando a galera pede, vamos lá e tocamos algo antiga. Em Porto Alegre aconteceu isso. Na primeira sessão dos shows no São Pedro, nós ainda colocamos uma música do primeiro disco que tinha um pouco essa ideia do desconforto, que é “Balão de Vira-Mundo”. Entretanto, no meio da música a gente se olhava e pensava: “o que a gente está fazendo tocando essa música?”. Foi estranho.

Bruno: Além do lado artístico, a questão do lugar do show traz outro problema para vocês, que é a grana. Imagino que, como boa parte dos artistas independentes, o show é a principal fonte de renda para a banda. É isso mesmo?
Alexandre: É, é a principal fonte mesmo… mas na real, nós ganhamos muito pouca grana.

Felipe: Passado esse momento de lançar o disco, nosso problema vai ser como abrir nos caminhos para ganhar dinheiro. Não dá para depender de casas noturnas e teatros, apenas. Com esse show, nós precisamos de um técnico, daqui a pouco vamos precisar de um roadie, um cara que nos ajude no palco para afinar um instrumento enquanto a gente toca outro, por exemplo. Aí você tem passagens de avião cada vez mais caras, alimentação cada vez mais cara, tudo fica cada vez mais caro, mas os cachês não mudam muito. Você pode até ganhar um cachê bacana por show. Mas, quando você faz a conta da equipe, o cachê passa a não ser tão bacana porque vai comendo aos pedacinhos e no final sobra uma mixaria. No nosso caso, a loja da banda acaba sendo um complemento ótimo, cada vez mais.

Marcelo: Isso é algo que vocês fazem muito bem, diga-se de passagem. Dá vontade de ter o CD de vocês porque o trabalho gráfico é muito bom.
Alexandre: É algo que a gente pensa desde o nosso primeiro EP. Já que está tudo em MP3 na internet, o objeto tem que ser algo interessante para a pessoa ter.

Bruno: Vocês participam da parte de concepção do projeto gráfico? Como funciona isso?
Alexandre: A gente participa das reuniões e tudo mais, mas o grosso das ideias não é nosso. Normalmente, só falamos: “Faça um troço bem diferente, esquece a caixinha de acrílico”.

Felipe: Essa é uma lei na banda: o CD não pode ter caixinha de acrílico, de maneira alguma.

Alexandre: O Rafa [Rafael Rocha, responsável pelo projeto gráfico] chega sempre com várias referências, muitos livros de design, e então nós debatemos o que pode ser feito ou não, dentro das possibilidades da gráfica e da grana.

Felipe: Mas para esse disco teve uma referência, que é aquele livro que tinha no estúdio! Embora a gente tenha explorado muito mais a ideia de várias coisas diferentes do que exatamente o livro em si. Contrastes: se o disco tem ruído, o projeto gráfico também precisava ter, e acho que as imagens acompanham isso.

Alexandre: Esse livro acompanhou a gente durante a mixagem…

Fernão: Bah, é aquele livro? (risos)

Alexandre: É! Então, haviam vários livros empilhados, e só dava para ver um pedaço do título do livro: “O que importa é a vida – a biografia de…”. Me interessei, “Pô, massa, de quem será a biografia?”. Então tirei o livro da pilha, e vi: “A biografia de uma agência de publicidade” (risos). Meu Deus do céu, que coisa maluca! (mais risos). Nós começamos a pegar para ler, era a biografia da Loducca. “Afinal, o que interessa é a vida, publicidade é o de menos! Nós estamos aqui para sermos humanos”. Nós pegamos o livro e ficamos rindo, um absurdo. Só que tinha uma coisa muito interessante no livro, que era uma série de imagens muito bacanas, de coisas que não tinham muito a ver.

Marcelo: Olha só, a publicidade influenciando a Apanhador Só… (risos)
Alexandre: Bah, é que a parte gráfica era muito bacana! Não eram nem propagandas exatamente: tinha uma foto de uma família, então um pixelado de um jornal, depois…

Marcelo: Quando a publicidade não precisa vender, ela pode ser muito legal (risos)
Alexandre: Esse é um dos problemas! Eles são extremamente competentes, conseguem te emocionar. Mas não é pura e simplesmente emocionar: é emocionar para fazer consumir, o que não gera bem estar, em última análise. É uma transferência de dinheiro, a serviço do patrocinador daquela peça de publicidade. O que a gente está vendo no mundo é que o mundo está entrando em colapso justamente por causa dessa lógica das empresas. Enfim, a gente pegou esse livro e virou uma piada interna entre a gente. No final das contas nós o trouxemos para Porto Alegre, para mostrar (ao Rafael Rocha) algo de interessante.

André ‘Foca’ Zinelli escolheu “Either/Or”, de Elliott Smith

Bruno: E quem é o senhor da capa do “Antes Que Tu Conte Outra”?
Alexandre: É o Zé da Terreira. Ele é ator e fundador da Terreira da Tribo, que é um grupo de teatro de rua de Porto Alegre. Eles estão na ativa há mais de 30 anos, é um trabalho muito foda. É um trabalho social muito importante, porque além de estar na rua, fazendo arte e lidando com as intempéries disso, eles fazem muitas oficinas em periferias. É um trabalho de inclusão, melhoria e bem estar social através da cultura, quase como uma antítese da publicidade. Por um momento a gente ficou na dúvida: “Bah, mas o Zé da Terreira é um artista muito conhecido, já reconhecido e reconhecível, é meio estranho”. Depois nós nos demos de que só somava mais tê-lo na capa, pelo que o disco tem.

Marcelo: E ele é um cara reconhecido localmente. O bacana é que, se você chega em São Paulo, Salvador ou Belém, vão perguntar a mesma coisa. E é legal contar uma história dessas, porque em cada lugar tem um cara igual a esse, que batalha pela cultura. É uma ligação fácil de ser feita.

Alexandre: E o curioso é que agora eu encontro o Zé da Terreira toda semana em Porto Alegre. Nunca via o cara, mas agora ele está em todo lugar! Ele foi ao show de lançamento, mas ele se incomoda com o som alto, e não conseguiu ficar até o final. Ele disse que ouviu o disco em casa depois e gostou. É um cara muito massa, e com a idade que tem, tem uma dignidade incrível. Passa por todas as dificuldades que deve passar, mas está ali firme. Não sei, para mim é o exemplo de alguém a ser admirado e seguido.

Marcelo: (Falando em admiração): “Líquido Preto” é um elogio ou uma tiração? Vocês são confessos admiradores do Tom Zé, e calhou da música sair bem no momento de toda a crítica a ele graças à propaganda da Coca-Cola…
Alexandre: “Líquido Preto” foi composta muito antes dessa polêmica. É muito engraçada essa coincidência de ter sido justamente no show do Tom Zé aquela polêmica que contei da galera queimando a lata de Coca-Cola. Enfim… “Líquido Preto” não é um elogio. Não é exatamente uma tiração, mas é um anti-jingle, se valendo da linguagem da propaganda, dos acordes bonitinhos, com uma melodia para cima. No final, o que estamos dizendo ali é que a Coca-Cola te faz de panaca. Pode parecer uma frase boba, mas é isso: a lógica das grandes empresas. A Coca-Cola é um símbolo, talvez o maior símbolo do imperialismo americano, do capitalismo, e por isso eu acho totalmente válidas as críticas levantadas em relação ao Tom Zé ter feito a propaganda da Coca-Cola. Especialmente por esse momento que nós estamos vivendo, por ser uma propaganda que fala da Copa do Mundo com um discurso de inclusão: “A Copa do Mundo é a Copa de todo mundo, e a Coca-Cola é a bebida de todo mundo”. Nesse contexto, sendo o Tom Zé quem ele é, com o histórico e o discurso dele, fazer uma propaganda para Coca-Cola é uma incoerência fundamental.

Bruno: E o que você acha do “Tribunal do Feicibuqui”?
Alexandre: Não gosto nem um pouco do disco. Achei o texto que ele postou no Facebook totalmente insatisfatório como justificativa. Foi um texto que me deixou até um pouco triste porque senti que o Tom Zé talvez esteja um pouco aquém daquilo que eu esperava ou do que ele tenha sido. Talvez ele não compreenda mais as coisas do mesmo jeito. “Pô, você fez uma propaganda para a Coca-Cola e está sendo publicamente criticado, e é isso o que você tem para dizer? Que se sentiu orgulhoso quando a Natura quis patrocinar o teu disco e que precisava de dinheiro para desenvolver instrumentos diferentes, e a Coca-Cola surgiu como a possibilidade de ganhar esse dinheiro?” É aí que a gente vai parar? Só por causa de dinheiro ele vai deixar para trás tudo aquilo que aquela marca representa? A minha desconfiança começou daí. Esperava muito mais de uma explicação dele, e ficou devendo. E aí veio o “Tribunal do Feicibuqui”, que logo de cara já me deixou abismado. Na primeira faixa, aparece o Emicida e mais alguém… é o cara do Terno, não é?

Marcelo: Não, é Tatá Aeroplano, Marcelo Segreto (Filarmônica de Pasárgada) e Gustavo Galo (Trupe Chá de Boldo) mais o Emicida. O Tim Bernardes, d’O Terno, faz a quarta (“Papa Francisco perdoa Tom Zé”), que tem um verso que acho que explica a política brasileira atual: “A diferença entre esquerda e direita já foi muito clara, hoje não é mais”.
Alexandre: É. Mas me parece um discurso muito descolado do que a gente está vivendo hoje, porque ele chega a falar da turma do Fidel. Não é porque me coloco contra a Coca-Cola que sou da turma do Fidel. Estamos tentando apontar para uma direção, não queremos uma ditadura comunista. Mas, voltando, na primeira música, o Tom Zé arremeda o público que o criticou. Tem uma hora que o Emicida fala: “ah, que que custava morrer de fome só para fazer música?”. Porra, meu, depois de fazer algo bastante questionável você ainda vai questionar o teu público? Ainda bem que hoje o público tem a chance e o poder de questionar o artista através das redes sociais. Isso tem uma função importantíssima. Na ficha técnica do disco, o Tom Zé fala que respeita os dois lados e agradece a todos pelas opiniões, mas o que vejo no disco não é uma postura tão respeitosa assim com quem foi muito crítico com relação à propaganda que ele fez. Não adianta estar nos créditos que há respeito se o conteúdo não faz isso. Depois disso tudo, ele ainda doou a grana para a Orquestra de Irará. Para mim, doar o dinheiro é um atestado que ele fez merda, mas quis se redimir. Foi uma atitude de assumir a bobagem que você fez. Mas vai, assume e não grava o “Tribunal do Feicibuqui”!

Marcelo: O disco ainda tem “Taí”, que é uma música que ele fez para um refrigerante dos anos 70, que era da Coca-Cola...
Alexandre: Não consegui entender onde ele quis chegar nesse ponto do discurso, a não ser o link óbvio com a carreira dele, botar as coisas em contexto. Ouvi muita gente dizendo: “Ah, mas os Mutantes fizeram propaganda para a Shell”. Ok, mas isso foi há quase 50 anos, e talvez naquela época a Shell fosse uma promessa de liberdade e melhoria no mundo. O capitalismo veio como uma salvação, por um provincianismo estranho, ele foi uma libertação cultural. O tropicalismo é todo baseado nisso, na aceitação desse lado que foi redentor em algum momento, mas meio século depois a gente já entendeu que não é por aí. A Shell não é uma empresa que vai salvar o mundo, muito pelo contrário. A Coca-Cola idem. A propaganda para o refrigerante pode ter 40 anos, mas agora há outro contexto, e é preciso saber se posicionar nele.

Marcelo: Tem outra música que ele fala que é a “Coca-Cola fazendo propaganda do Tom Zé”. Na sociedade de hoje, é muito pouca gente que compra e conhece o Tom Zé...
Alexandre: Acho isso uma ingenuidade tremenda. O Tom Zé foi usado, e não valorizado pela Coca-Cola. Pelo contrário: ao fazer o anúncio, ele se contradisse. Não acho que ele vá conseguir chegar às pessoas por esse caminho.

Felipe: Dá muito a sensação de que ele está por fora. O cara que o conhecer pela propaganda da Coca-Cola não vai entender muito bem o que o Tom Zé quer quando ouvir a música que ele xinga o Bush.

Alexandre: Você começa a não levar tão a sério o resto das coisas que ele fez. É um enfraquecimento.

Felipe: A motivação que ele colocou a ideia da grana para poder gerar estrutura para o trampo dele talvez revele muito da possibilidade de estrutura artística hoje, da necessidade de se submeter a certas coisas.

Marcelo: Acho bacana nós tentarmos entender esse dilema na figura do próprio Tom Zé. Ele passou quinze anos na obscuridade, e se não fosse o David Byrne ter comprado o “Estudando o Samba”… Praticamente fazendo uma defesa do cara, teve uma fase que ele comeu o pão que o diabo amassou, e agora ele está aí, sendo apoiado por uma série de empresas, se sentindo valorizado. Eu o admiro muito, tanto quanto vocês, mas sei que ele tem um público reduzido, que não conseguiria encher um teatrinho no interior do país. De repente, ele tem uma oportunidade com grandes empresas… é uma discussão interessante. É mais complexo do que uma banda que está começando, porque o Tom Zé é um cara que já arriscou, ficou treze anos sem poder gravar por causa disso.

Alexandre: Poxa, mas aí você abre mão de tudo. Se não tem problema o Tom Zé fazer uma propaganda para a Coca-Cola, não tem problema ninguém fazer nada no mundo! Não existe resistência, liberou geral!

Felipe: Essa discussão é muito importante e tem que ser levantada independente da motivação de quem faz a crítica. Esse assunto tem que ser falado, mas de fato o buraco é muito mais embaixo. Na mão de quem está o poder para fazer as coisas?

Alexandre: Duvido que o Tom Zé acredite que a Coca-Cola seja a bebida de todo mundo. Ninguém acredita nisso. Quer dizer: tem uma boa parte da população que consegue ser convencida disso, da mesma maneira que todo mundo acredita que a Skol é melhor que a Kaiser, sei lá. Mas sim, ele fez a propaganda por dinheiro. Mas fazer as coisas por dinheiro não é o princípio da crítica toda? Porque se não for, beleza, é cada um por si e capitalismo na veia! Para mim, o Tom Zé representa justamente o contrário. Fico triste quando leio que ele se sente valorizado pelas empresas. Gostaria muito mais que ele se sentisse valorizado pelo público dele, que é fiel e admira o seu trabalho. Começo a me sentir desconectado dele nesse momento. Mas, vá lá: ele precisava de dinheiro. Mas precisa fazer uma propaganda para a Coca-Cola? É a única possibilidade que ele tem? Se ele faz um crowdfunding, em uma semana ele levantaria facilmente os R$80 mil que ganhou da Coca-Cola. E tem outra coisa: ele já lançou um disco pela Natura, e a galera não é xiita de dizer: “qualquer empresa não!”. Ninguém reclamou do disco que ele lançou pela Natura. É algo complexo, porque apesar de ser a mesma coisa, é muito diferente quando você pensa com quem você está se envolvendo.

Felipe: A Coca-Cola representa uma coisa muito mais forte que a Natura. De qualquer maneira, ainda assim o poder está sendo entregue cada vez mais para que as marcas usem os artistas como uma fórmula. E isso é feito com dinheiro público, propiciado pela Lei Rouanet. A forjada incompetência do governo de lidar com dinheiro público para a cultura entrega para as empresas a curadoria e o poder de utilizar os artistas. É dar para as empresas o que elas querem. A hora que, por exemplo, a Oi não quiser mais abrir e manter casas de show, eles simplesmente vão cortar essa linha, e os artistas vão ficar a ver navios de novo.

Alexandre: Eles fazem isso para fortalecer a marca deles. Ninguém está interessado em fortalecer um cenário cultural, esportivo ou qualquer um que seja. Tudo é suporte para a publicidade, de uma maneira muito mais elevada. Não é uma propaganda na TV te dizendo “Compre!”, é um espaço. O artista que você gosta toca com um logo enorme da marca por trás. E você não se toca disso porque você vai lá com os poros abertos, ver alguém que você gosta tocando.

Marcelo: Vou antecipar um tema então, já que ele vai vir bem a calhar aqui: Fora do Eixo. No meio dessa polêmica toda das últimas semanas, muita gente usou “Mordido” e “Por Trás” como recados para a organização, por assim dizer…

Bruno: (interrompe) No faixa-a-faixa do “Antes Que Tu Conte Outra” que o Alexandre escreveu para a MTV, eu senti que havia uma menção bastante clara, ainda que não explícita, à Fora do Eixo na descrição de “Por Trás”. Não só, mas também.

Alexandre: É um pouco por aí. “Por Trás” descreve uma postura que pode se encaixar para a Fora do Eixo e para um monte de outras coisas. Pode ser para a publicidade. É um pouco do que nós estávamos falando. Pode ser para o Tom Zé: afinal, qual Tom Zé que tu é? O que nós acompanhávamos ou o da propaganda da Coca-Cola? Se os dois discursos se chocam, eu quero saber qual é a dele. Com a Fora do Eixo é a mesma coisa. O discurso deles é muito bonito, e é por isso que cola muito. É um discurso libertário, mas com uma prática totalmente oposta a isso. Eles tentam fazer uma hegemonia de poder e um domínio de mercado que é o contrário do que eles dizem.

Bruno: Acaba por ser um eixo também.
Alexandre: Sim. É só outro eixo tentando desbancar o que está aí.

Felipe: E eles abandonaram o que era Fora do Eixo de verdade nos últimos tempos. A ideia de fazer crescer alguma coisa num terreno aparentemente infértil por falta de recursos foi por água abaixo assim que eles abandonaram o interior do país e se focaram no eixo, criando a casa em São Paulo.

Alexandre: O Fora do Eixo usa um discurso de horizontalidade quando nada é verdadeiramente horizontal. “Ah, mas é que a gente precisa estar dentro do eixo para poder jogar”. É tudo muito nebuloso: eles só usaram o cenário independente para lucrar politicamente e financeiramente. Eles já estão dentro da política, já lidam com forças políticas de fato, concretas, com as quais eles não estariam lidando se não tivessem sugado tanta energia do cenário cultural independente em benefício próprio. No final das contas, quem sai ganhando com o Fora do Eixo é só a próprio Fora do Eixo, sempre. O cenário não ganha, nenhum artista ganha. Acredito até que o cenário independente hoje esteja muito entregue às marcas porque teve suas energias sugadas pela Fora do Eixo.

Marcelo: Eles (Fora do Eixo) assumiram a direção da Abrafin no melhor momento dos festivais independentes, um momento muito bacana, com festivais em todo canto do país, e esvaziaram isso. Hoje esses festivais não existem mais. Sobraram só os que já eram estabelecidos antes, como o Porão do Rock, Abril Pro Rock…
Felipe: Era um grande momento para botar lenha na fogueira e criar novas lógicas para o cenário independente, mas eles perderam a oportunidade. Reconheço: no campo das ideias, o projeto deles é lindo.

Alexandre: O problema é que a prática deles não deixa a teoria se realizar.

Bruno: Historicamente, vocês chegaram a ter problemas ou enfrentamento com o Fora do Eixo? Ou o que a gente está discutindo aqui é uma questão de crítica, apenas?
Felipe: Objetivamente, tivemos alguns problemas bem tensos. No início, quase caímos no papo deles. Na prática, depois, fomos entendendo o que significava trabalhar para a Fora do Eixo.

Marcelo: ‘Cês receberam cachê em CuboCard… (risos)
Alexandre: Não, não, mas já não nos quiseram pagar um cachê. “Pô, vocês não vieram aqui e tocaram? O pessoal não curtiu? Não é isso o que interessa? Ah, a arte…”.

Fernão: Vai explicar isso para o cara da van que leva os equipamentos para o show.

Felipe: É isso que eu explicava para eles, nesse dia: “Saindo daqui, eu vou para casa, e tenho algumas contas a pagar, (o cachê) me ajuda a pagar as minhas contas”. Claro que é maravilhoso subir num palco e tocar para muita gente, mas não é só isso que é importante. E aí a discussão foi indo num ponto que a menina parou e concordou comigo. Só que ela não era a cabeça da região, então ela não tinha muito que fazer.

Bruno: Onde foi isso?
Felipe: Acho que era São Carlos, no interior de São Paulo.

Alexandre: Essa é só uma das histórias. Já nos propuseram fazer uma turnê com mais uma banda durante um mês. Prometeram estadia, alimentação, transporte… e só. Era trabalhar um mês para a Fora do Eixo, fazer um monte de show, virar número. Eles falam muito sobre não entrar em questões egoicas, de querer colocar o seu nome nos shows, mas o logotipo da Fora do Eixo está lá, sempre!

Marcelo: É algo que fiquei surpreso na carta da Beatriz Seigner. “Coloca o nosso logo no final do seu filme”. “Mas meu filme já foi feito, e vocês não participaram dele”.
Felipe: Mas essa é a prática comum deles. Tocamos num coletivo que recentemente tinha aderido à Fora do Eixo, que ainda estava com um espírito não totalmente domado pela organização. O trato com eles foi outra coisa, eles se preocuparam em fazer as coisas acontecerem.

Alexandre: Havia um cuidado com o artista. Acho que, se você quer produzir um show, você tem que se preocupar com os detalhes técnicos. E a Fora do Eixo não faz isso, eles só se preocupam em fazer algo virar número nos relatórios deles.

Marcelo: Meu balanço sobre essa questão é que se você quer fazer parte de tudo isso e trabalhar de graça, ótimo, vai lá. É seu direito. É uma causa. Só que um problema surge na hora que você pede para alguém de fora trabalhar de graça por essa causa…
Alexandre: É mais que isso: trabalhe de graça, mas saiba também a serviço do que está o teu trabalho, sabe?

Felipe: Se ninguém estivesse ficando rico, material e politicamente falando, tudo bem. Mas se tem alguém ganhando com o teu trabalho, isso está errado. É a mesma lógica de lucro do capitalismo. Na entrevista do Roda Viva, que era para ser sobre a Mídia NINJA e virou sobre a Fora do Eixo, eles deram uma justificativa sobre o CuboCard que era muito estranha. Eu nunca consegui entender a matemática da conversão de reais para CuboCards. O exemplo deles foi o seguinte: há um cara na Casa FdE que faz assessoria de imprensa para trinta festivais no país. Se ele cobrasse, digamos, R$ 500 para cada festival, isso ia dar uma conta enorme. Entretanto, por morar na casa, ele recebe o mesmo pagamento, mas o que ele produz se reverte em valor simbólico para a rede.

Marcelo: O cara que custa R$ 900 para a rede rende R$ 150 mil. É a lei da mais-valia.
Felipe: O que me surpreendeu de verdade foi a cara de pau deles na justificativa. “É assim, e que legal que é assim!”. Esse cara não tem autonomia nenhuma para escolher o que ele vai comprar com o salário dele. Diz-se que na Casa ninguém tem dinheiro, mas todo mundo tem acesso ao cartão de crédito – e que para cada compra é preciso fazer mil discussões. Cada explicação aprofunda a nebulosidade da coisa, e é difícil entender. Toda vez que ouço o Pablo Capilé falar, vejo que ele é um novo político. Ele fala da velha maneira com jargões novos.

Bruno: Mas ele é um novo político.
Alexandre: Outro dia li uma entrevista com ele, dizendo que assim como o Lula saiu do movimento sindicalista há 30 anos, daqui a 30 anos o presidente do Brasil sairia desse movimento cultural que está acontecendo. Ou seja… o Fora do Eixo. Ou seja, ele mesmo! Ah, vai contar outra! Pelo que imagino, ele deve estar se preparando para uma candidatura ou coisa assim.

Marcelo: O que saiu na reportagem da Carta Capital é que, como Pablo Capilé tem uma rejeição enorme, ele estava preparando o Bruno Torturra, da Mídia NINJA, para ser o candidato a deputado federal “do Fora do Eixo” pela Rede em 2014. O Bruno não tem rejeição nenhuma. Quer dizer: não tinha, agora o cenário mudou. Seja como for, eles queriam ter um representante que, para usar uma palavra deles, não tivesse o lastro de negatividade que o Capilé tem. Eles estão planejando lançar algumas pessoas para disputar cargos públicos para representar a “companhia”. É uma situação complicadíssima, e que a gente pode passar horas aqui discutindo. Vamos para a próxima.

Bruno: Achei muito interessante a maneira como vocês se colocaram contra a publicidade e contra a ideia de colocar a sua música e a sua imagem a favor dela. Entretanto, ao preparar a entrevista, percebi que na página da banda houve uma movimentação muito forte em junho, na época das manifestações que mexeram com o país. Entre outras coisas, vocês fizeram uma lista de cidades onde ocorreriam protestos e divulgaram um vídeo com imagens das ruas trilhado com uma música de vocês, “Reinação”. Queria saber qual é a visão de vocês desse período.
Felipe: Para mim, foi um período estranho. Uma coisa engraçada é que, na época, estavam rolando protestos em vários lugares do mundo, e quando você assistia aos noticiários, havia uma diferença clara. Lá fora eram os manifestantes, mas aqui eram os vândalos que chegavam quebrando tudo. Fala-se do que acontece lá fora, mas quando acontece dentro do seu país a coisa muda muito de figura. Foi confuso para caralho.

Alexandre: No início estava tudo certo, a galera indo para a rua, se manifestando, cheio de palavras lindas. Eu não acreditava que eu fosse ver isso no Brasil.

Felipe: Nem eu. Vinte mil pessoas em Porto Alegre na rua indo lutar contra o aumento da passagem de ônibus. É quase inacreditável.

Alexandre: O problema foi que, depois, quando as coisas começaram a acontecer no Brasil todo, a grande mídia percebeu que não ia conseguir segurar o movimento e passou a pautar o movimento, com uma postura direitista. Isso foi terrível, virou tudo do avesso. Criaram a paranoia de um golpe de estado.

Felipe: Dizem que é paranoia, mas às vezes eu fico paranoico também.

Alexandre: E tem a paranoia do outro lado, que é a galera que acha que quem vai para rua quer um golpe comunista, e os médicos cubanos e…

Felipe: Falamos uma hora hoje sobre a diferença entre a direita e a esquerda, essa coisa bipolar. O mundo nunca foi bipolar, e ninguém nunca é totalmente de esquerda ou de direita. Você simpatiza com ideias que te colocam de um lado ou de outro. Por serem muito plurais, as manifestações evidenciam essa dinâmica. Até pouco tempo atrás, manifestação eram 40 ou 50 indivíduos quebrando o pau na frente da Prefeitura de Porto Alegre contra o aumento da passagem de ônibus, um grupo formado por radicais. Em junho, foi algo que tinha os radicais, mas também a senhorinha e o sujeito que nunca parou para refletir.

Alexandre: Vimos em Porto Alegre vários cartazes pré-prontos para serem vendidos nas manifestações, com discursos de direita. Acho que não podemos cair no lance de que esse é um conceito que não existe mais. Existe, lógico. Nós podemos ter dúvidas de o que é esquerda e o que é direita, mas eu não tenho dúvida de que a Coca-Cola está na direita.

Felipe: Sim. Mas estou falando dos indivíduos, que ajudam a dar essa ideia de nebulosidade. Existem indivíduos na rua. O meu argumento quando alguém critica os atos de “vandalismo” é que são indivíduos na rua que estão manifestando o seu descontentamento, mas não necessariamente o descontentamento do cara que está ao meu lado é semelhante ao meu. Daí vem a história da polícia de responsabilizar a manifestação pelo vandalismo.

Alexandre: É que antes era assim: existiam os vândalos e existiam os cidadãos de bem. Quando os cidadãos foram para as ruas, essa definição não valia mais. Agora, existem os manifestantes de bem e os vândalos. É uma adaptação.

Marcelo: Fazer manifestações é uma coisa muito nova para nós. Isso acontecia em 1961, 1962, e depois que do AI-5, todo mundo parou de se manifestar porque você ia ser preso e morto. Então o povo desaprendeu. Li uma entrevista com o jornalista espanhol Paco Quiroga, durante a Copa das Confederações, em que perguntaram sobre a manifestação que estava rolando na cidade, se ele tinha medo. E ele respondeu que o problema é que a nossa polícia, na visão dele, ainda não está preparada para lidar com estes eventos. Na Espanha, antes mesmo da manifestação, a polícia já sabe quem vai causar. Ela fica naquelas 20 pessoas que podem tumultuar, e aí os outros 2 milhões de pessoas vão poder se manifestar na rua sem problema. Aqui, ainda acham que a massa é o problema.

Bruno: Mas mesmo assim acontecem coisas como as que aconteceram em 2011, quando você mesmo estava lá e a polícia desceu o cacete nos manifestantes.

Marcelo: Sim, mas ali foi um choque de interesses. Os manifestantes estavam na Plaza da Catalunya, que é um lugar tradicional para a torcida do Barcelona, que iria comemor a conquista da Liga dos Campeões. A polícia estava “buscando” evitar o confronto entre manifestantes e torcedores, mas agiu com violência e rapi todo mundo da praça à uma da tarde, de maneira agressiva.
Alexandre: Aí que tá. Isso é bizarro. É o mesmo que dizer que os protestos não poderiam chegar à Avenida Paulista. Como assim não pode? Claro que pode!

Marcelo: Assim como vocês, eu também não esperava ver um movimento dessa proporção acontecer. Eu não estava no Brasil na época, mas na Europa. No meio da viagem, em Delft, uma cidadezinha no interior da Holanda, uma senhorinha chegou do meu lado e disse: “De onde você é?”. “São Paulo, no Brasil”. “Tá tenso lá, né?”. Eu fiquei abismado: “Cacete, as notícias chegaram aqui!”. Ela partiu dizendo: “Acho muito bom quando o povo se revolta”.
Alexandre: Sim, mas foi algo tão confuso que você se pergunta: “Ok, é bom quando o povo se revolta, mas a serviço do quê?”. O quanto o povo que está na rua sabe por que está na rua? Até porque houve uma hora que o povo estava na rua para falar contra… a Dilma, a PEC 37, o Mensalão. Era muito estranho! A Veja estava apoiando as manifestações. A Veja! Tem alguma coisa errada aí!

Marcelo: Mas a Veja está apoiando a briga contra a Fora do Eixo!
Alexandre: Ok. Mas a Veja tem outro interesse nisso. Acho triste que o primeiro momento em que todo mundo começou a abrir a boca contra a Fora do Eixo sirva também para a Veja se dar bem. Preferia que isso tivesse acontecido antes.

Bruno: Essa semana passei pela situação inimaginável de me pegar concordando com um texto do Reinaldo Azevedo. Repito: Reinaldo Azevedo!

Marcelo: Nunca achei que ia ver Carta Capital e Veja juntas em uma causa.

Felipe: Para você ver como a Fora do Eixo conseguiu ser uma bosta… A confusão é tanta que daqui a pouco você vai ver inimigos se aliando, e não dá para saber o que fazer. O Reinaldo Azevedo é um ótimo exemplo disso: odeio esse sujeito, mas agora concordo com ele em algum assunto. Devo dar apoio para ele ou não? Ele vai me lascar depois disso? Afinal, qual é o peixe que ele está vendendo, sabe?

Marcelo: Eu apoiei a Mídia NINJA até saber que ela era partidária. Porque acredito mesmo que nós precisamos de uma mídia independente que consiga olhar o Mensalão do PT e o Trensalão do PSDB do mesmo jeito, e bata nos dois.
Alexandre: Que seria o contrário do que a Veja faz, que também não interessa. A Fora do Eixo conseguiu ser ruim para todo mundo.

Felipe: O que evidencia o amadorismo do projeto deles. A partir do momento que a Fora do Eixo se tornou popular e ficou em evidência, ficou muito fácil para qualquer macaco velho desmascarar e desestabilizar os caras.

Marcelo: Uma coisa interessante é perceber como essas manifestações começaram, pelo menos aqui em São Paulo, a cobrar coisas do [prefeito Fernando] Haddad. Ele não queria revogar o aumento da passagem, e só essa movimentação enorme fez com que ele fizesse isso. Ok, ele precisou se reunir com o Lula para poder fazer as coisas funcionarem, e teve que reduzir impostos para isso…
Felipe: Mas aí é que tá! Os movimentos conseguiram a primeira meta deles, que era revogar o aumento das passagens. Mas a segunda parte da reivindicação, que era investigar as concessões das empresas, não veio. E agora, o governo veio com a proposta de que o imposto sobre a gasolina subsidiaria o preço da passagem: isso não faz sentido. De novo, você está fazendo as pessoas pagarem, e não os empresários. Ninguém mexe com o vespeiro, essa é que é a jogada.

Alexandre: Não tem que reduzir o imposto. Tem que aprender a usar bem o imposto. Ninguém reclamaria do imposto se ele fosse bem aplicado.

Felipe: Mas a reivindicação da classe média de pedir redução de impostos não é completamente absurda. Para quem vive aquela realidade, faz muito sentido, porque tem quem muita grana dá um jeito de não pagar imposto, porque tem poder. Quem tem pouca grana, não paga imposto porque entra na faixa de isenção. No fim das contas, não é que a classe média paga a conta, mas é que raramente ela consegue fugir de pagar esse imposto. Isso é o que irrita.

Alexandre: Só entendi para que servem os impostos quando li um livro do Eduardo Galeano sobre a história da América Latina. Em uma determinada passagem, ele explica que, na Guatemala ou em algum outro país da América Central, o presidente criou um imposto sobre a empresa americana que era dona de quase todo o terreno do país para plantar banana. Com esse imposto, ele conseguiu reter alguma riqueza do que aquela companhia estava utilizando do país dele, e revertendo isso para a população. É nesse sentido que o imposto faz sentido: se eu uso as riquezas, as estradas ou o território de um país, pago uma taxa sobre isso. Mas esse imposto é revertido para mim em benefícios ou serviços. Baixar os impostos, nesse caso, seria reduzir a verba disponível para que esse serviço exista – e fazer com que as empresas ou grupos estrangeiros, por exemplo, paguem menos sobre a utilização do território, gerando riqueza para o seu país, mas nada para o país que está sendo explorado.

Marcelo: Vamos sair um pouco da política e voltar para a música. Recentemente, o Bruno Capelas entrevistou o Wado, e logo na sequência o Leonardo Vinhas entrevistou o João Barone, dos Paralamas do Sucesso. Ambos comentaram sobre o cenário atual. Segundo João Barone, o Brasil nunca foi tão popularesco como ele é hoje.

Felipe: Mas o Barone disse isso pejorativamente?

Marcelo: Sim. Para ele, o cenário está tão popularesco que predomina “coisas de apelo fácil.”

Bruno: Já o Wado nomeia alguns nomes – Tulipa, SILVA, Cícero, Curumin, ele próprio – que deveriam ser os Lulu Santos de hoje, mas que não vão conseguir. Primeiro porque há uma segmentação do mercado, por rádios, TV a cabo, internet. Segundo, porque houve uma mudança econômica no Brasil. Segundo ele, as classes D e E subiram e trouxeram consigo uma música imatura. Foi essa a palavra que ele usou. E a classe média comprou essa música. Sem falar que os dois – Paralamas e Wado –, além de serem artistas de música popular, também lidam com a música popular feita tradicionalmente pelas classes mais baixas. No final dos anos 1980, o Paralamas gravou axé, e o Wado se utiliza muito do funk carioca. Enfim: dentro dos dois cenários, o mainstream e o independente, como é que vocês veem isso?

Alexandre: Mas o que seria o que o Wado apontou como “música imatura”?

Marcelo: Depois da publicação da entrevista, na página pessoal dele no Facebook, ele deu a entender que era sertanejo universitário e o forró de plástico.
Alexandre: Bah, cara, difícil falar sobre isso aí.

Marcelo: Vamos lá, então: como vocês veem o cenário musical brasileiro? Vocês acham que, por exemplo, podem ser mais conhecidos do que vocês são hoje, ou vão ficar presos a um nicho?
Alexandre: Acho que é uma questão estrutural. Antes de dizer que a classe D e E melhorou economicamente, eu diria que a própria indústria vem se armando há décadas para esse cenário. O que interessa é o que vende mais, mais fácil, formulesco e descartável. O Luan Santana, que nem sei mais onde está hoje, é um exemplo disso.

Marcelo: E primeiro vai ser o Luan Santana, depois o Gusttavo Lima e depois o Michel Teló.
Alexandre: E depois disso vai ser o Thiaguinho do Exalta. E agora a gente vai ver várias Anittas surgindo.

Felipe: Sempre houve espaços. A diferença é saber quanto custa esse espaço e quem paga por ele. A existência da Anitta, do Michel Teló ou de quem for não me incomoda. Cada um faz o que acha que tem que fazer. O que me incomoda é o fato de que os espaços que existem e atingem essa classe D e E são justamente os espaços que pedem pedágio para ser utilizados. O que nos faz retornar à pergunta anterior: quem tem a grana? As empresas ou as gravadoras, e elas estão muito vinculadas.

Alexandre: É um jabazão total. O Luan Santana só funcionou porque havia um investimento da Som Livre por trás dele.

Fernão: E quanto mais refrão, melhor. Refrão lucra mais, porque gruda na cabeça das pessoas e faz com que elas queiram ouvir a música de novo.

Felipe: Mas o refrão é algo muito anterior aos dias de hoje, é algo que só evoluiu. O empresário de música não pensa em algo que tem uma proposta bacana. Ele pensa em investir e ter retorno o mais rápido o possível. Nisso, o refrão faz sentido: em dois toques ele cola na tua cabeça, e em dois toques ele já deu retorno para o empresário.

Alexandre: Só que não são só dois toques. São quinze toques por dia, em cada rádio. O jabá existia antes? Sim, mas as coisas não eram tão organizadas. Em Porto Alegre, por exemplo, nós só conseguimos ser tocados na Ipanema, que é uma rádio livre, e na Cultura. E no Brasil inteiro é assim. Foi algo que ficou claro para nós numa reunião que tivemos com a Som Livre. Eles fazem um planejamento financeiro, e lá já tem o jabá – quer dizer… “verba de mídia de rádio”. É a mesma coisa. Há um esquema armado que custa X milhões para tocar nas rádios, ter um clipe que passe em todos os lugares e uma matéria no Fantástico. No nosso caso, talvez não seria o Fantástico, mas o Altas Horas ou algum programa similar. Todos os espaços viraram pagos. Se eles fossem livres, nós poderíamos ter muito mais público. Entretanto, para ter mais público do jeito que a coisa é hoje, nós teríamos que dar as mãos para um sistema podre, o mesmo sistema que não nos deixa ter mais público agora. Nós discutimos muito isso entre nós, e por isso que quisemos fazer o último disco por crowdfunding. É a diferença entre colocar o facão no mato e pegar a rodovia pavimentada e pagar um pedágio filho da puta.

Felipe: Chega uma hora que a discussão para de ser sobre a natureza da sua música. Não sei. Penso na minha mãe, por exemplo, que trabalha em horário comercial e não tem tempo de pesquisar, se informar e ser crítica. Ela assiste ao Fantástico e vem comentar comigo sobre… sei lá, a Anitta.

Alexandre: É uma fábrica de cultura. A grande mídia domina a cultura nacional. Se o Barone acha que é popularesco…

Marcelo: Ele fala que o cenário está muito mais popularesco hoje do que nos anos 1980…
Alexandre: Isso está muito relacionado à educação brasileira, que é uma coisa que vem de muitas décadas.

Bruno: O que eu não consegui entender ainda é a diferença entre os dias de hoje, e sei lá, os anos 1980.

Marcelo: Vamos lá. Anos 1980: o RPM faz uma cover de “London, London” em um show, a Transamérica começa a tocar e fez um baita sucesso. Não tinha jabá ali. Estourou, e aí eles resolveram gravar um disco ao vivo para capitalizar em cima disso. Nos anos 1990, “Refrão de Bolero”, dos Engenheiros, começou a tocar do nada. É uma música do segundo disco deles (1986), e na época eles já estavam no sexto, ou coisa assim, e um dia um cara numa rádio resolveu tocar. De repente, várias rádios começaram a tocar e virou sucesso. “Faroeste Cabloco” só tocou por insistência do público (uma música que ocupa o espaço de três na programação). A questão é que você tinha espaço para arriscar no meio do dial (e pra abrir para o público). É como se um programador tocasse Apanhador Só hoje, que é uma banda “meio estranha” (pra eles), mas ainda assim capaz das pessoas gostarem.
Fernão: A questão é justamente essa: com algum tempo, se percebeu que algumas fórmulas eram mais pegajosas que outras. E em algum momento, no lugar de tocar algo que era afudê, as rádios começaram a filtrar cada vez mais.

Marcelo: Concordo mais com o Alexandre: o dial virou um espaço de publicidade. Das 10h10 às 10h13, paga-se para a música da Anitta, e das 10h13 às 10h16, para a do Luan Santana. Aí sobram, sei lá, dois espaços em apenas uma hora. Nesses espaços, em que antes o programador arriscava (ou atendia um pedido do ouvinte) acontece uma coisa que identifiquei há tempos: se a rádio não insistir que as gravadoras paguem o jabá, ela não vai tocar uma coisa nova. Ela vai tocar… “Patience”, do Guns’n Roses. “Pô, por que eu vou tocar Apanhador Só se os caras não estão me pagando para serem tocados?”

Bruno: Até porque, se estiver tocando “Patience”, o ouvinte médio vai ficar na rádio. Mas se for alguma coisa estranha, corro o risco dele pular para a próxima estação.
Felipe: Quando a Oi abriu uma rádio no Sul, eles foram a serviço da ideia de abrir espaços para a marca na cidade, mas tinham uma programação bastante aberta, com locutores que tinham muita liberdade. Isso mudou: quando a rádio estava perto de fechar, a programação já vinha pronta da central. Foi algo que me tocou muito, porque eu sei que havia ali pessoas inteligentes, capazes de criar uma programação bacana, falando sobre várias coisas… e elas só tinham que dar play.

Alexandre: O programador hoje não tem mais liberdade para botar a música que, na sua opinião, seja algo que o público vá gostar. Com isso, perde-se a chance de que a música se espalhe de maneira natural, criando um diálogo e um desenvolvimento cultural saudável. Quando a indústria começa a impor, por meio da grana, o que tem que ser tocado, o cara que põe o som na rádio não põe o que gosta. O ouvinte, por sua vez, só vai poder gostar de coisas que estão dentro das opções que estão sendo pagas. Aí entra a habilidade musical, porque um hit não se faz só com jabá, mas com algo que seja capaz de “pegar” as pessoas. Mesmo assim, isso vai degringolar em uma lógica na qual a indústria cultural comanda a cultura da nação – que deveria ser determinada pelo gosto das pessoas.

Marcelo: O jabá sempre existiu, mas ele nunca foi tão nocivo quanto agora.
Felipe: Foi algo que começou inofensivamente, para “dar uma força” para as rádios. Mas, quando você percebe, os caras estão te metendo no rabo até o fim, aí começa a doer e você reclama. Essa história das marcas no cenário independente é a mesma coisa. A Fora do Eixo, idem. Nunca é tarde demais, mas às vezes, você perde o ponto. Existem ideias que começam pequenas, mas que depois de dez anos poderiam culminar em algo muito massa. Porém, os caras sempre escolhem o caminho mais obscuro e acabaram levando consigo muita gente boa.

Marcelo: É o ponto que eu sempre questionei dessa popularização do jabá, de você criar fórmulas e vender cópias dessas fórmulas. O público não se educa…
Felipe: A expressão “educar o público” me incomoda um bocado.

Marcelo: Penso na minha mãe, por exemplo: tocar uma coisa estranha na rádio é dar a ela a oportunidade de pensar sobre essa coisa estranha. Mesmo que ela mude o dial, se todas as rádios fizessem isso alguma vez, seria diferente, e o estranho não seria estranho, apenas mais uma forma de se comunicar.
Felipe: É que a ideia de educação, hoje, para mim, já não passa pela ideia de crítica. Eu sei que não é exatamente isso o que você está falando. É preciso dar oportunidade para o povo o material com que ser crítico.

Marcelo: Seria muito legal poder ir para a rua, perguntar para vinte pessoas o que elas acham que é bom, e de repente ouvir alguém mencionar um artista que não tem nada a ver com o que está sendo tocado.
Alexandre: Mas isso só acontece para quem tem a tranquilidade de estar em casa, na internet, podendo pesquisar o assunto.

Felipe: O jabá não passa pelo público da música independente. É um público que tem internet em casa, e com isso, acesso a coisas diferentes. Reconheço que a internet é cada vez mais popular, mas uma coisa são 50 milhões de brasileiros. Outra são os 200 milhões que as rádios e a TV atingem. Pior: na medida em que os 200 milhões de brasileiros puderem ter acesso à internet e puderem escolher, talvez ela também já esteja sendo dominada pelo jabá. O Google já não é mais o que parecia ser. É preciso abrir o olho para essas paradas.

Alexandre: O Facebook já tem o jabazinho deles. Você pode pagar para promover uma postagem. Foi algo introduzido bem na época da campanha para o disco. Postávamos duas vezes por dia para promover a campanha, uma pela manhã e outra à noite, e conseguíamos um alcance bacana. Em duas semanas, o nosso alcance se reduziu pela metade – algo fácil de comparar porque nós tínhamos as estatísticas da página.

Felipe: Parece muito que um sujeito viu que a gente estava alcançando muita gente e resolveu sacanear.

Alexandre: Foi quando nós percebemos que eles criaram as postagens pagas.

Bruno: É um negócio maluco, porque o Facebook não está vendendo algo a mais. Eles reduziram o poder de alcance de qualquer postagem de graça que alguém faz – seja uma pessoa ou uma página.
Felipe: Não sei para vocês, mas para mim é revoltante ver “publicações sugeridas” no meu feed. Escolhi seguir certas coisas, e elas não estão sendo mostradas para mostrar coisas que eu não escolhi seguir. Bah, qual é?!

Alexandre: Se as coisas evoluírem nessa lógica, imagino que as pessoas em breve vão sair do Facebook. Torço para que isso aconteça, porque não gosto dessa lógica de pagar para ter acesso às pessoas, especialmente por um acesso que não era restrito anteriormente. Moralmente, é uma iniciativa que degringolou.

Marcelo: Voltando à banda: André, como é que você se envolveu com esses malucos?
André: Foi uma indicação, na verdade. O diretor do clipe de “Nescafé” é meu amigo há muito tempo, e ele sabia que eu sempre quis tocar com uma banda que levasse as coisas realmente a sério. Eu estava numa viagem aqui em São Paulo e a banda estava aqui para lançar o clipe de “Nescafé”. Ele já tinha comentado com o Alexandre sobre mim, e em um desses dias da viagem o Alexandre veio me abordar.

Marcelo: Mas o (ex-baterista) Martin tinha avisado que iria sair? Como foi esse momento?
Alexandre: Sim, porque ele queria estudar bateria nos Estados Unidos. E ele avisou seis meses antes de ir, para ter um tempo para estudar, conseguir dar aulas e juntar uma grana para se bancar por lá. Daí saímos em busca de um baterista novo.

Felipe: Mas foi com bastante antecedência – ele lançou o “Paraquedas” em São Paulo, e ficamos fazendo shows juntos durante algum tempo, até acharmos alguém.

Alexandre: Fizemos com uma lista de nomes, e aí o Bruno Carboni, que é o diretor de “Nescafé”, tinha comentado do Foca, e coincidentemente a banda e ele estavam em São Paulo, e a gente até achou que aquilo era um sinal. Saímos numa noite, fomos ver um show de jazz, conversamos, combinamos de tirar umas músicas e estamos aí.

Marcelo: E como está a banda agora? Passado o lançamento do disco, do receio de não ser compreendido, e acabar tendo uma boa recepção, como é que vocês veem o futuro?
Alexandre: Nós queremos tentar fazer com que o nosso discurso seja o mais coerente o possível com a nossa prática. Temos isso em comum, algo que para nós é valioso e raro: somos quatro pessoas dispostas a chafurdar para conseguir fazer com que música dê certo nas nossas vidas, e temos ideologias e posturas parecidas. Nosso problema agora é ver como vamos realmente viver de fato.

Marcelo: Vocês quatro vivem da banda?
Alexandre: É muito confuso. Tirando o Felipe, nós ainda moramos na casa dos nossos pais. O Bruno tinha perguntado antes como é que o Alexandre pagava a conta de luz – é a minha mãe quem paga a conta de luz. Pago as minhas contas mais pessoais, e tem meses que a grana entra melhor, ou não, aí você tem que fazer um bico aqui, uma trilha ali.

Bruno: Mas acho que esse é um grande dilema da geração que hoje tem 20 e 30 anos, o “sair da casa dos pais”.
Alexandre: É. E não é porque a gente é músico, vejo pelos meus amigos. São muito poucos os que saíram da casa dos pais para morar sozinhos.

Felipe: Sim. Hoje, por acaso, está fazendo um ano que eu saí de casa para morar com a minha mulher. [Morar sozinho] é valiosíssimo de uma maneira incrível, porque você cria a necessidade de correr atrás das coisas. Você é obrigado a fazer isso, mas parece natural que você tenha que fazer isso, porque existem buracos que precisam ser preenchidos.

Alexandre: Voltando à banda, acho que a nossa busca é por tentar ser ainda mais coerentes do que somos hoje, e sobreviver com isso.

Felipe: É algo que tem mexido muito com a gente ultimamente, essa coisa de abrir o mato com o facão. Nós estamos sendo chatos demais com nós mesmos, nos questionando muito. Para mim, essa conversa que nós estamos tentando ajudou bastante. Falar sobre isso e explicar para outras pessoas o que nós queremos talvez organize melhor a cabeça sobre alguns temas. O que eu sei é que, na época que saiu o primeiro disco, nós ficamos muito eufóricos. Hoje, não: a indefinição que o futuro traz se mescla com certa serenidade. É bom.

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista, escreve para o Scream & Yell desde 2010 e assina o blog Pergunte ao Pop.
– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne
– Liliane Callegari (@licallegari) é arquiteta e fotógrafa. Veja mais fotos do Apanhador Só aqui

Leia também:
– Saiba como foi o show de lançamento de “Antes Que Tu Conte Outra em SP (aqui)
– Antes Que Tu Conte Outra” não é daqueles discos fáceis, sem arestas, por Mac (aqui)
– Apanhador Só: Felipe Zancanaro conta sobre o projeto “Acústico Sucateiro” (aqui)

39 thoughts on “Entrevista: Apanhador Só (2013)

  1. Tão dizendo bastante bobagem sobre o “caso Tom Zé”. Jogou tudo pro alto pq fez uma propaganda? Tom Zé canta jingle do seu disco desde os anos 70 em todos os shows, incentivando que todos comprem e tal… sei lá, tem uma romantização do Tom Zé militante de esquerda que é mais ingênua do que tudo que eles criticam. Enfim, adoro o Tom Zé e, na época, fiquei muito mais triste por ser uma propaganda da Copa do que por ser uma propaganda da Coca-Cola. Mas essa é uma discussão sem fim.

  2. Constrangedora a passagem da entrevista que a banda fala sobre redução de impostos. Um deles precisou ler um livro para entender a motivação de impostos. E fala contra diminuir imposto, mas não lembra que o governo Dilma vem fazendo desonerações de imposto a rodo para os setores empresariais mais amigos. Uma reforma tributária que salve o contribuinte do roubo que vem sendo submetido nunca é cogitada de maneira firme. Melhor se concentrar na música mesmo.

  3. Comecei a ler de manhã a entrevista e fui lendo em partes durante o dia, e ficou muito massa! Eu tinha encanado com o disco, mas agora entendendo o contexto, é perfeito. comecei a ouvir nos intervalos que lia e tô gostando mais. abraço

  4. Gostei da entrevista,mas alguns pontos tem que ser pensados,ou repensados:

    -Tinha criticado o disco,mas agora que contextualizaram ficou mais fácil de pensar sobre.E nesse sentido,o resultado é foda pra caralho.

    – Criticar o Tom Zé e dar uma de fodão porque fez crowfunding é de uma imbecilidade e covardia enormes.Ele não ficou com o dinheiro da propaganda e fez uma coisa nobre,que foi doar para a Orquestra de Irará.Poderia ficar com ele sim,justo.Mas não quis.Agora me vem os felizes ai dizendo,que ele poderia ter conseguido com um crowfunding.Tirar dinheiro dos outros é modinha agora,porque não conseguem recursos proprios?Parem dar o disco de graça,porra.Tom Zé tem um lugar na musica brasileira pra fazer o que quiser,e vocês?

    O primeiro disco foi feito por edital,o segundo por crowfunding.E o terceiro????Vão roubar um banco?

  5. Nunca li tanta babaquice sobre a polêmica do Tom Zé quanto nessa entrevista.
    Mesmo não sendo fã do Apanhador Só, pelo menos eu respeito a banda em termos musicais.
    Contudo, os questionamentos vazios relativos ao disco “Tribunal do Feicibuqui” foram intragáveis.
    Aliás, esse EP foi a melhor coisa surgida em meio aos questionamentos quanto à postura do Tom Zé por fazer propaganda de refrigerante.
    Devolver as críticas estúpidas de certos fãs em forma de música foi magistral.
    O curioso é que esses caras do Apanhador Só demonstraram, ao falar do Fora do Eixo, uma lucidez que lhes faltou ao tratarem do Tom Zé, independentemente do seu passado musical.
    E recorrer ao crowdfunding, embora seja uma das formas mais interessantes de se financiar um projeto cultural, não concede superioridade a ninguém.
    Existem artistas bons e/ou honestos que bancam seus trabalhos por leis de incentivo ou patrocínio de grandes empresas.
    Desmerecer a atitude do Tom Zé, nesse caso, demonstra o nível de maturidade intelectual de uma certa parcela da atual música brasileira.

  6. Uma das melhores entrevistas que li recentemente. Sobre o Tom Zé, achei o contrário do André: o entrevistador questiona várias vezes, e a banda se sai muito bem nas respostas. Não estão desmerecendo o Tom Zé, mas uma atitude questionável que ele teve. Terminei a entrevista concordando com eles. E baixei o disco. Ganharam uma fã.

    bjs

  7. uma criançada q mora com os pais julgando um cara de 70 anos cascudo q “já comeu o pão q o diabo amassou”.

    que piada.

    mas a banda é boa.

    é aquele dilema de diferenciar a arte do artista.

    ô coisa dificil.

  8. Gostei da parte do André:crowfunding não traz mérito a obra de um artista,nem faz o melhor.O Tom Zé chegou num ponto que pode fazer o que quiser com sua obra,inclusive usar o dinheiro de uma multinacional.Eu achei legal o disco e pronto,mais ainda por isso.

    Outra coisa que questiono no Apanhador Só é a direção do disco.Por que querem ser experimentais no segundo disco?Não seria mais legal um disco mais rock pra depois isso?Acho que seria bom?

    Gabriela:Baixando o disco você não fica uma fã,você é apenas uma adoradora temporária.Porque não compra o disco?Aliás,um recado à banda:vocês são hippies?Bora vender o disco na loja logo?

  9. O Bruno resumiu bem a questão toda sobre o Tom Zé na primeira frase do seu comentário.

    Sim, diferenciar a arte do artista é necessário, ainda mais com tanta baboseira em certas entrevistas. E mesmo que eu fosse fã da banda, não conseguiria ignorar essa pisada de bola da parte deles.

    Fernando, o Tom Zé realmente pode fazer o que quiser em sua carreira, especialmente responder quando recebe críticas injustas.

    Gabriela, lendo seu comentário, achei melhor revisar o que escrevi. O que realmente me impressionou foi terem desqualificado o disco do Tom Zé, como se a sua resposta às críticas que recebeu pela propaganda que fez não fosse digna de nota.
    Quem nasceu para “Líquido Preto” nunca chegará a “Tom Zé Mané”.

  10. Tá sendo bacana ver essas bandas tipo Apanhador Só, Cícero, Silva, lançando segundo disco e a galera começando a perceber o vazio estético dessas bandas velado por capinhas bonitinhas e sons redondinhos dos primeiros discos. Não devem durar nem até o terceiro disco. Mas o que gostei mesmo foi da demonização ao Tom Zé. Mulecada que não compra nem o toddynho do café da manhã e vão querer falar de Tom Zé. Sacanagem…

  11. Primeiramente, ótima entrevista, parabéns Marcelo e Bruno. É sempre bom poder ler uma entrevista que escolhe assuntos pertinentes e os esmerilha quase em forma granular, com o entrevistado e o entrevistador desempenhando tão bem seus papéis.

    Agora, fiquei com uma dúvida quando li os comentários. Vejo que o mal que assola em muitas discussões em alta por aqui, o tal de “argumentum ad hominem”. É mais fácil partir pro ataque pessoal do que questionar o argumento que a pessoa apresentou.

    Admiro alguns discos do Tom Zé, seus métodos inventivos de fazer música e sua história desde quando ele era o “menino feio” da Tropicália até seu renascimento. Creio que é um artista ímpar no cenário brasileiro e conhecendo Apanhador Só, sabe-se que é uma influência imediata pra eles, grande o suficiente para virar pauta nessa entrevista.

    Só não ficou claro uma coisa para mim: Alguém pode me explicar por qual causa, motivo, razão ou circunstância o Tom Zé pode tomar qualquer atitude sem poder receber críticas? Existem outros artistas com esse mesmo status?

    Pintam o Tom Zé por aqui como um baluarte da música brasileira, o que deve ser ruim para todos. Sem essas críticas, por exemplo, o próprio artista não se sentiria incomodado para fazer esse último EP. Consequentemente, podemos discutir a ideia por trás da gravação, letras e arranjos, mas não o gosto pessoal.

  12. Christopher, não acho que o Tom Zé esteja à prova de críticas. Aliás, artista nenhum está acima de ninguém.
    Contudo, não sejamos relativistas ao extremo.
    Digamos que o Tom Zé tenha um bocado mais de respaldo, artisticamente inclusive, do que o Apanhador Só.
    E mesmo que assim não fosse, as críticas da banda à atitude do mestre de Irará permaneceriam vazias e até injustas.
    Não se trata de blindar o gosto pessoal alheio, mas sim entender que a liberdade de expressão é uma via de mão dupla. Inclusive para essa banda tão superestimada.

  13. O discurso anti-capitalismo/coca-cola dessa banda está atrasado pelo menos 50 anos…não vejo problema nenhum em fazer propaganda contanto que isto não interfira na obra do artista, ainda mais em se tratando de Tom Ze. Se o dinheiro da propaganda que ele fez for usada para continuar produzindo musica “fora dos padrões”, ele está usando mais o “sistema” do que sendo usado…

  14. o apanhador só com essa entrevista assina seu atestado de idiotia, imaturidade e arrogancia… coitados, que dó.
    mano, o cara tem que ralar muito, mas ralar muuuuuuuuuuito e comer muito arroz e feijão antes de falar bobagens sobre tom zé. que dó, que dó…
    Acham que estão dizendo que o “rei está nu”, mas quem está nu são eles: nus de idéias, de história,
    e olha que nunca nem ouvi a banda, me pergunto se isso se faz necessário agora…

    Daqui a 10 anos a gente volta a conversar e vamos ver se alguém se lembra dessa banda… como é mesmo o nome deles?

  15. Quem diria, Tom Zé tem fãs parecido com os fãs do Cícero. Não pode falar a verdade que eles já ficam todos doloridos. Que isso não macule a sua grande obra. E que o Apanhador Só continue nessa ótima trajetória e, principalmente, não deixe de criticar outro artista apenas pela carreira dele. Até aqueles que nós acreditamos que são gênios, erram.

  16. Não interessa que o Tom Zé conte com fãs “doloridos” ou mesmo a sua superioridade musical em face à Apanhador Só e a essa bisonha nova onda musical brasileira.
    O fato é que as críticas da Apanhador Só foram vazias, quando não estúpidas.
    Afinal, quem são eles para dizer que o Tom Zé não pode usar as babaquices ditas por certos “fãs” para fazer música?
    Repito: quem faz algo do nível de “Líquido Preto” não tem moral para falar de “Tom Zé Mané”.

  17. Mac,não precisa puxar o saco do querido infeliz.A questão é que eles foram infelizes na critica ao Tom Zé,precisam mostrar muito na musica brasileira e deveriam focar naquilo que importa,que é tocar.Se o Tom Zé tem fãs parecidos com o do Cicero?Os do Apanhador estavam caminhando pro mesmo caminho,se não fosse esse disco.Ai teriamos uma discussão parecidissima com essa.Mas os fatos dizem tudo:Apanhador Só apanhou da realidade.

  18. André, questionar o conteúdo das críticas é uma coisa. Eu mesmo fiz isso durante a entrevista em cinco perguntas, e gostei muito do conteúdo das respostas, mesmo não concordando. O interessante de viver em uma democracia e dar as pessoas o direito de cada defender aquilo que acredita, concorde você ou não.

    O argumento mais pedante que alguém pode usar é o famoso “quem”. Quem é o Apanhador Só para falar de Tom Zé? São quatro pessoas com opiniões definidas, balizadas, e qualquer pessoa com opinião argumentada (as respostas estão ai para provar) tem direito a argumentar sobre qualquer coisa: de futebol, ao presidente até o fato de Tom Zé ter feito uma propaganda para Coca-Cola.

    Porque o técnico da seleção, o presidente, o Tom Zé, o Apanhador Só, eu, você, todos nós somos passiveis de crítica, pois vivemos em uma sociedade com direitos e deveres. Essa crítica ao Tom Zé é ainda mais bem-vinda porque o comum desse geração e sair beijando a mão de cânones, como se o fato de terem uma carreira extensa os exime de crítica. Não, todo mundo pode ser criticado. Incluindo o Tom Zé. E o Apanhador Só pode sim fazer isso. E fez, e fez bem.

    Ps. “Tom Zé Mané” não foi escrita pelo Tom Zé.

  19. Fernando, quando você parar de argumentar sobre “se”, a gente conversa.

    Fora isso, não estou pra dizer o que uma banda deve ou não fazer, não tenho essa pretensão. Eles, como qualquer pessoa, deve fazer o que quiser. Ainda somos um país livre. Ainda.

  20. Mac,não precisa puxar o saco do querido infeliz.A questão é que eles foram infelizes na critica ao Tom Zé,precisam mostrar muito na musica brasileira e deveriam focar naquilo que importa,que é tocar. O TOM ZÉ tem fãs parecidos com o do Cicero?Os do Apanhador estavam caminhando pro mesmo caminho,MAS SURGIU esse disco.Ai teriamos uma discussão parecidissima com essa.Mas os fatos dizem tudo:Apanhador Só apanhou da realidade.

    Parei com o se,agora discuta comigo.

  21. Vamos lá, Fernando, mas você terá que argumentar melhor.

    Primeiro, não há puxação de saco, e se você confunde o fato de construir uma opinião sobre algo com puxar o saco, é uma pena. Só posso recomendar que você pare de ler o site, porque confiança é algo que se conquista, e se a minha confiança está sendo colocada em xeque, há muitos outros por ai a serem lidos. Fique à vontade.

    Segundo, reafirmo: não estou pra dizer o que uma banda deve ou não fazer. E nem você. É pretensão demais. Uma banda (e uma pessoa) faz o que ela quiser.

    Terceiro: Deixa eu ver se entendi: O Apanhador Só estava caminhando para ter fãs como Cícero e Tom Zé, mas fez esse disco (que os afastou dos tais fãs, se entendi corretamente), embora os fatos (que fatos?) digam tudo: eles apanharam da realidade (que realidade?)

  22. Marcelo, a liberdade dos caras da Apanhador Só para questionarem o Tom Zé vale mais do que a minha liberdade de achar que a opinião deles é vã, quando não tola?
    A minha opinião não é melhor do que a de ninguém. Tampouco pior.
    Melhor diminuir o meu juízo de valor pelo que ele apresenta por si só, em vez de desfiar o rosário.

    Não precisava dessa pretensa aula sobre democracia.

    Em nenhum momento eu endossei a falácia do argumento de autoridade ou experiência.
    Tom Zé não está livre de erros. Nem a Apanhador Só. Nem eu. Nem você.

    Agora, se acha que argumentos devem ser tratados de forma isolada, desconsiderando totalmente as experiências passadas de quem os emite, seria bom deixar isso claro. Melhor admitir ser plenamente relativista do que nivelar por baixo.

    Aliás, noto boa vontade em demasia com certos nomes da nova música brasileira neste site. Obviamente uma escolha editorial que merece respeito. Contudo, esse excesso de zelo por vezes incomoda.

    Ok, “Tom Zé Mané” não foi feita pelo Tom Zé. Reconheço meu equívoco. Peço licença para reformular a minha comparação.
    A música não é dele, mas sobre ele. O que funciona quase da mesma forma (vide “Vida Louca Vida”, do Lobão com Bernardo Vilhena, porém associada bem mais ao Cazuza, ou mesmo “Sinal Fechado”, de Paulinho da Viola e atribuída até mesmo por professoras de português a Chico Buarque).
    O importante é que a crítica social, a musicalidade, a ironia e todo o ácido dessa canção urgente estão muito acima da pseudocrítica “Líquido Preto”. Mesmo que Tom Zé fosse um verdadeiro mané, sairia ganhando nesse caso.

  23. André, seria uma pretensa aula de democracia se eu não acreditasse nisso, mas acredito – por mais utópico que possa parecer. Ademais, é extremamente válido questionar a opinião deles como vã e tola, ou, como disse outro aqui, 50 anos atrasada. A partir desse ponto estamos criando um linha de raciocínio que, ao meu ponto de vista, acrescenta ideias a discussão, porque não apaga a opinião do outro, apenas a discute.

    Na entrevista, fui bastante enfático na questão Tom Zé (são quatro perguntas seguidas minhas intercalada com uma do Bruno) porque eu queria realmente entender o pensamento deles (e, por conseguinte, o pensamento de muitos que questionaram Tom Zé), e fiquei bastante satisfeito com as respostas, embora não concorde plenamente. Mas há um pensamento ali que não é gratuito, e está balizado racionalmente, e pode ser sim contestado, mas não por um viés maniqueísta e reducionista, como estava sendo feito aqui. Apenas isso.

  24. Lendo os trechos da entrevista,e não são poucos falando dentre outros(como Folha de S.Paulo,numa matéria sobre o disco novo) falando de fãs que fazem videos com as letras do primeiro disco,sobre tatuar as mesmas,tipo o Cicero.Ai penso:teve esse episódio em Porto Alegre,mas e se não tivesse?Será que iriam repetir o primeiro disco?Como será que seria esse “culto” em torno da banda?Eu me baseio nisso,Mac.

    Quanto ao teu site,descobri ele quando se chamava apenas Revoluttion,em agosto de 2007.E gostava das matérias,dos textos,sendo que eu ainda como na época sinto falta de revistas de musica,como a Bizz e a Zero.E eu leio outros sites,e me baseio neles para escrever sobre musica também e entender a musica.Então não vai ser isso que vai me afastar,só que eu,que faço faculdade de jornalismo,mas mesmo antes tenho uma percepção de musica que é isso,tenho meu jeito de ver as coisas.E isso inclui o fato de uma banda promissora como o Apanhador Só fazer um disco perfeito,mas fora de hora na minha opinião.O que pode fuder com tudo,é o que acho.Não misture isso,Marcelo.

  25. Bacana, Fernando. Só não sou eu quem estava misturando. O fato de eu ter uma opinião sobre algo que uma banda falou não quer dizer que estou defendendo-a, e afirmar isso cai numa perigosa acusação de favorecimento, que não existe. Concordo em partes com o discurso deles, mas respeito muito o fato de eles terem um discurso, e conversarem sobre isso. De resto, o que estou buscando aqui é apagar essa visão maniqueísta de que se Tom Zé é bom, quem critica Tom Zé é ruim. O mundo é um pouco mais complicado que isso, e esse reducionismo só tende a atrapalhar.

    Abraço.

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