Ao vivo: Los Mirlos hiptoniza plateia em São Paulo em noite de ingressos esgotados

texto de Leonardo Vinhas

Em muitos sentidos, Los Mirlos são uma entidade: uma identidade musical maior que os músicos que a executam, que é passada de geração em geração e se sustenta tanto no imaginário dos ouvintes quanto na identidade coletiva como uma espécie de força motriz da cumbia psicodélica, se não o maior referente mundial desse gênero ainda em atividade. Os mais cínicos podem dizer também que é uma banda que funciona como uma “firma”, mantendo seu nome apesar das inúmeras mudanças de formação. A rigor, nenhuma das duas visões estaria errada. O que não se pode dizer é que seu show não é impressionante e envolvente, como atestou um Cine Jóia com lotação esgotada no dia 30 de outubro.

Na verdade, se cabe usar um adjetivo para descrever o show, esse seria “hipnótico”. Os riffs construídos com duas guitarras (de Danny Johnston e Jorge Luís Rodríguez Pérez) garantem a dança até de quem “não sabe” dançar, ao mesmo tempo que convidam à expansão da consciência. Sim, a psicodelia aqui não é daquela que se perde em digressões, e sim construída a partir da repetição de camadas rítmicas (e muitíssimo bem complementada pelas projeções de motivos amazônicos, que compunham um belo visual nas paredes abobadadas do Cine Jóia).

Essas guitarras ficam sob a responsabilidade de Jorge Luíz Rodríguez Perez (também tecladista) e Danny Johnston. Esse último é um dos dois únicos remanescentes da formação original, e é o responsável pela maior parte dos riffs que, até hoje, são o cartão de visita da sonoridade dos Mirlos. O outro integrante que segue na ativa desde 1973 é Jorge Rodríguez Grández, idealizador da banda e hoje seu diretor musical. Grández já deixou a guitarra de lado há anos, mas segue como uma espécie de mestre de cerimônias, tocando um pouco de percussão aqui, fazendo uns vocais ali, e conclamando o público à dança com rápidas palavras de ordem, mensagens ecológicas e alguns bordões já clássicos (“¡sabor a selva!”, “¡sonido amazónico!”).

Quando a canção pede uma voz com mais alcance e resistência pulmonar, quem segura a bronca é o percussionista Yván Marcos Loyola. Mas ele não é o único a batucar: além dele e dos chocalhos e maracas de Grández, há ainda os bongôs e as congas de Carlos Fernando Rengifo, que mais criam texturas que conduzem o ritmo. Essa condução fica a cargo do baterista Genderson Pinedo, que impressiona com batidas e compassos bem pouco comuns à música brasileira – o que não é dizer pouco, já que o território nacional tem uma variedade rítmica incomum. Pinedo é um dos grandes destaques do show, e até recebe os holofotes nos poucos e breves solos que faz ao longo das quase duas horas de show. Mas com pouquíssimo tempo já estava claro que, apesar de todo o destaque dado às guitarras, a bateria é um componente indispensável da sonoridade dos peruanos, devidamente amparada pelos graves do baixista Abel Ramírez.

O setlist é uma espécie de “chicha’s greatest hits” (o outro nome dado à cumbia psicodélica peruana), com os sucessos popularizados pelos Mirlos (como “La Danza de Los Mirlos”, “Sonido Amazónico” e “Eres Mentirosa”, cantada aos berros pelo público) e outros que ficaram mais conhecidos com outros artistas de diferentes eras, como Juaneco y Su Combo ou Bareto (“Ya Se Muerto Mi Abuelo”, “Cariñito”, etc), algumas apresentadas na íntegra, outras em pout-pourris. Considerando essa escolha de canções e o fato de que a banda já mudou tantas vezes de formação, podemos dizer sem medo de errar que Los Mirlos são, sim, uma banda de baile – mas uma banda de baile que ajudou a formar uma sonoridade que influenciou artistas em toda a América Latina, bateu forte nas bases da guitarrada e do carimbó aqui no Brasil, e há anos ajuda a moldar o som de várias bandas anglo-saxãs contemporâneas, de Khruangbin a Los Bichos.

E que essa banda tenha vindo para São Paulo fazer um bailão é um fato a ser celebrado. Foi mais um golaço na programação do circuito de shows MUCHO! Ciudad Sonora. A turnê brasileira incluiria ainda uma apresentação em Porto Alegre e outra no festival Rock The Mountain (Itaipava, RJ),e é provável que gaúchos e cariocas tenham testemunhado a mesma usina dançante psicodélica no palco. Vale dizer que neste ano eles estrearam no Coachella, tendo sido os primeiros artistas peruanos a tocar no festival. Mais um feito na expansão da “firma” ou a merecida consagração de uma criação musical singular e atemporal? Novamente, as duas afirmações estão corretas.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) é produtor e autor do livro “O Evangelho Segundo Odair: Censura, Igreja e O Filho de José e Maria“.

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