introdução de Diego Albuquerque
faixa a faixa por Sérgio Camargo
V3SP3RO é um projeto de um homem só, concebido pelo músico, quadrinista e compositor paulista Sérgio Camargo, que transita entre a melancolia romântica e a crítica social ácida. “São pequenos obituários de personagens que a vida esmagou, mas que ainda resistem na poeira”, explica o artista. Na sua primeira apresentação, no Neto Skate Bar, na cidade de Americana, ele ouviu do próprio do dono do estabelecimento: “E essa música de corno aqui no meu bar?”. A partir disso, e do apreço por Marília Mendonça, surgiu a estética da música de corno, com o artista cantando histórias de amores falidos, cidades fantasmas e personagens à beira do colapso, sempre mantendo um humor autodestrutivo de quem ri da própria desgraça.
“A música de corno é um mote para chamar atenção pra algo maior e mais profundo. É mais do que qualquer tag, é um tabu social gigantesco que gera mortes de talaricos, cornos e infiéis. É urgentemente necessário banalizar o chifre”, explica Sérgio. O nome do projeto vem disso também, dessa necessidade de tocar nesses temas, “para os rockeiros pararem de se matar depois de levar chifre, inclusive”, complementa. A abordagem do tema também abre espaço para dialogar com mais gente para além do underground.
Assim surge “Seria cômico se não fosse comigo” (2026), primeiro álbum do projeto. São 16 faixas, todas canções mínimas, nas quais Sérgio Camargo está acompanhado apenas pelo seu violão desafinado e o lamento de um kazoo. Utilizando o humor ácido e o “deboche do chifre” de forma consciente, Sérgio entrelaça dor de cotovelo crônica com as mazelas e a alienação sofridas pelo operariado urbano contemporâneo. Para além das faixas em todos os streamings, “Seria cômico se não fosse comigo” é multiarte, com 16 clipes feitos para as canções (todos disponíveis abaixo), transformando o projeto em transmídia. Dá o play no álbum no seu streaming preferido e leia o faixa a faixa abaixo.

01. Você Não É Especial – Fala sobre um sujeito específico de uma ocupação anarquista que não entregava nada de fato, mas fazia questão de ser o centro das atenções. Com o tempo, virou um cara bem punitivista. É sobre esse vício de se sentir superior aos outros dentro da militância, agindo feito um patrão num lugar onde ninguém está ganhando um tostão para estar ali.
02. Gargalhada – É sobre encarar o humor como algo revolucionário. Parte da premissa de que o humor é o novo rock e que a revolução vai ser na gargalhada: vai ser rindo ou não será possível. Mostra como a gente, por medo da piada, vive escondendo o próprio sorriso.
03. Arrependimento – Trata de um relacionamento e de uma mulher que acabou saindo com um amigo meu. Isso estragou a amizade. É sobre esse desgaste inevitável que acontece quando você sai com uma pessoa e a coisa acaba não dando certo.
04. Migalhas – A mensagem é bem clara: não estou a fim de migalhas e não me contento com pouco. Posso até ser amigo, mas nada de “amigo colorido”. É sobre tentar separar as coisas, não ser mais um parceiro e cortar o tesão para não aceitar o resto.
05. Amiga Invisível – Sobre uma pessoa incrível que fez parte da minha vida por muito tempo e que, até hoje, mesmo distante, é a referência para quem perguntou: “o que ela faria?”. É sobre aprender a amar quem é diferente. O fato é que somos muito diferentes; dá para se amar bastante, mas sabendo que existe um teto.
06. Era do Perfil – Sobre ser invejado e colecionar inimigos ao se expor nas redes. É essa necessidade ridícula de ter que expor o café da manhã e o almoço só para buscar a inveja alheia.
07. Penitências – Fala abertamente sobre falar palavrão no sexo e os detalhes do prazer. É uma declaração de amor com tom bem latino, resgatando a bagagem cristã que carrego: misturo as penitências, 20 Ave-Marias e 10 Pai-Nossos com o uso de drogas ao mesmo tempo.
08. Infinitivo – Uma declaração de amor profunda e incondicional. Não importa o que aconteça ou o que a pessoa faça, a escolha é continuar amando, numa entrega parecida com a de um cachorro pelo tutor. Daí também surgiu a ideia do clipe com o meu cão.
09. Paixonietzsche – O nome brinca com o sufixo de “paixonite” e com Nietzsche, na ideia do amor fati. Não é sobre não acreditar em nada, mas sobre abraçar a incerteza sem garantias: é preciso botar fogo e gás, vivendo a coisa com intensidade bem ao estilo do cara do bigodão, mesmo sabendo que é só uma paixãozinha.
10. Amigos Indecentes – A história de dois amigos que não eram só amigos e que estavam claramente comprometidos. Não eram amigos incríveis ou próximos; no fundo, eram amigos indecentes. E tá tudo bem, é o que é. Mas sabendo que, às vezes, amigos indecentes podem sorrir e perder os dentes.
11. Bastilha – Surgiu de uma conversa sobre saudade em que citei a Revolução Francesa e falei sobre “perder a cabeça”. Hoje ganha um tom mais profundo: o que você faria se fosse a sua cabeça a estar a prêmio? Cito Robespierre, que guilhotinou todo mundo e acabou guilhotinado, para questionar o punitivismo e se valeu a pena. É também uma identificação pessoal, por já ter tido minha cabeça cortada em vários lugares e situações.
12. Outro Cigarro – Abertura sincera sobre a dor de cotovelo real: encarar o término e ainda ter que assistir à outra pessoa visivelmente mais feliz do que você. É aquela música que traz a certeza de que o problema na relação era você, não ela.
13. Velório Vivo – Veio de um resultado de um exame médico com uma notícia pesada sobre a saúde da minha companheira na época. Diante do medo da perda e das reflexões que tenho sobre a morte, a ideia é o “velório vivo”: celebrar, prestar homenagens e aproveitar a presença da pessoa enquanto estamos vivos.
14. Desistência – Uma ode à depressão profunda e à falta de vontade de fazer qualquer coisa. Retrata aquele estado de negar o convite de alguém com quem você gostaria de sair simplesmente porque, naquele dia, você não quer nada. Não quer porra nenhuma.
15. Cringe – História de uma pessoa que flertou comigo a noite toda em um bar onde toquei. Quando achei que tinha abertura, ela deu um passo para trás e avisou que tinha namorado. A letra traz a frase sobre “não meter a colher”, mas rebato dizendo que nado até não dar pé e vou meter a colher sempre.
16. Além do Acorde – Trata do fim de amizades e de quando romper o laço é a única opção que resta. Uma reflexão triste, mas realista: um dia, toda poesia vai ter o fim da rima.
– Diego Albuquerque é o criador do blog Hominis Canidae, um dos maiores repositórios de discos brasileiros da última década. O blog foi criado em 2009, no Recife, e divulga novos artistas e nomes indies da música brasileira, de norte a sul do país.
