Entrevista: Tatá Aeroplano lança novo álbum solo, “Lendas e Sol”, e revela inspirações e novos projetos nessa conversa

entrevista de Davi Caro

Tatá Aeroplano – nome artístico de Octavio Francisco de Paula Neto, natural de Bragança Paulista – não é estranho àqueles que se dedicaram a acompanhar o melhor que a cena independente brasileira produziu desde meados dos anos 2000. Cantor, compositor, guitarrista, DJ e produtor, Tatá se dedicou a fazer música das maneiras mais diversificadas possíveis, isso desde o começo de sua trajetória com as bandas Cérebro Eletrônico (que lançou seu disco de estreia, “Onda Híbrida Ressonante” em 2003) e Jumbo Elektro (“Freak to Meet You: the Very Best of Jumbo Elektro”, de 2004).

Sua carreira solo, iniciada em 2012, já conta com oito álbuns, e não podemos nos esquecer de seu alter-ego Frito Sampler, fazendo canções em inglês a partir de 2015, e do lindo disco “Vida Ventureira” (2017), junto de Bárbara Eugênia. Nesse percurso musical, Tatá enveredou pela psicodelia, pelo folk, pelo rock, pela MPB, e tudo que existe entre um e outro. Ao mesmo tempo, se firmou como um dos mais versáteis e ativos DJs da noite paulistana, se intercalando com performances intimistas voz-e-violão – o currículo multifacetado de Tatá poderia, enfim, ocupar um livro daqueles que são difíceis de largar.

Nada mais apropriado, então, que conversar sobre tudo isso com o próprio Tatá Aeroplano, que lançou neste mesmo 2026 o reluzente disco “Lendas e Sol” (independente, distribuído pelo selo Trattore). Neste papo com o Scream & Yell, o artista esmiuçou detalhes da produção de seu novo trabalho, mas também se debruçou sobre sua própria trajetória e falou sobre seus projetos do passado, do presente, e – como não? – do futuro (que, pelo visto, guarda muitas surpresas). Sem mais, com vocês: Tatá Aeroplano.

“Lendas e Sol” é o seu primeiro disco desde “Boate Invisível” (2023). Qual é a origem desse nome?
Ele começou com uma canção que eu fiz no hotel em Porto Alegre, quando fui pro (festival) Morrostock. Comecei a compor muitas das músicas assim, de uma maneira muito intuitiva. E eu registro as ideias de canções que tenho, às vezes, filmando. E então fui filmando as músicas e tal. Quando fui selecionando as as músicas, vi que tinha um material que poderia ser um álbum. Quando comecei a gravar, não tinha nome, então levei as músicas para o estúdio Minduca, com o (baterista e produtor) Bruno Buarque e o (guitarrista e produtor) Júnior Boca; eles são meus parceiros desde o começo do meu trabalho como Tatá Aeroplano. E aí veio a canção “Lendas e Sol”. Eu estava conversando com o Dustan [Gallas], com o Bruno e com o Boca, e retirei (o nome) da (letra) música. Não foi um título “pensado”. Estava na canção, e eu falei “poxa, acho que esse é o nome do álbum, ‘Lendas e Sol’”, porque eu acabo falando do sol em várias canções, é uma palavra que se repete.

“Lendas e Sol” foi um disco produzido a oito mãos, assim como o “Boate Invisível”. Você acha que é mais fácil produzir um disco com mais pessoas, tendo diferentes pontos de vista que poderiam destoar uns dos outros, em vez de produzir sozinho?
A gente sempre trabalhou dessa maneira. Meu primeiro disco é de 2012 (“Tatá Aeroplano”) e eu cheguei com as canções, a gente trabalhou os arranjos, e foi seguindo assim até o “Lendas e Sol”. Escrevi as letras e tirei melodias no violão, mas quando vamos para o estúdio, cada um imprime suas próprias características. Chego com o violão, e a gente toca em cima, e acaba sendo um trabalho interessante por ser uma produção coletiva. (Até por isso) As canções acabam sendo assinadas também coletivamente. No “Boate Invisível” foi um outro processo, onde nós criamos as canções no estúdio; não existia nada, não existia uma letra. Foi muito legal esse processo, e o “Lendas e Sol” foi um processo parecido com o do começo do nosso trabalho, onde eu vinha com as canções, apresentava, e a gente toca junto com a canção, um processo super simples. A hora que você vê, a música está pronta! Esse disco foi muito legal porque nós gravamos em dois dias, duas sessões. As músicas já foram gravadas coletivamente. E é muito legal assim, não tem uma situação de embate, sabe? É uma coisa muito natural, e estou aberto sempre para isso. Acho que acaba refletindo no disco, no resultado do álbum.

No “Boate Invisível”, as referências musicais eram um pouco diferentes. Ele trazia bastante uso de beats eletrônicos, de sintetizadores. Eles também estão no novo disco, mas de uma forma distinta. Essa linguagem, esse conceito de disco que você pensou para o “Lendas e Sol” , foi uma coisa consciente para romper com uma estética que você tinha trabalhado no “Boate Invisível”, ou foi uma coisa casual?
Então, isso é uma grande doideira, porque nós temos um disco (inédito) que é uma continuação do “Boate Invisível”, e já foi gravado, inclusive, antes do “Lendas e Sol”. Quando nós fizemos o “Boate Invisível”, foi um processo muito criativo, e super coletivo. Teve a participação da Kika e da Malu [Maria], que fizeram parte do processo, e também teve a Bia Magalhães, que entrou para a banda. Nós fomos para o estúdio num dia muito louco, e aconteceram músicas suficientes para um álbum novo, sucessor do “Boate Invisível”. O “Lendas e Sol” (também) foi feito nesse momento, quando comecei a compor várias músicas em quarto de hotel, ou às vezes em casa mesmo. E pensei: “Poxa, se eu deixar para registrar isso em outro momento, isso vai se perder”. É essa parte mais “cantautor” minha, né? De estar sempre com o violão na mão, sempre compondo alguma coisa. O nosso próximo trabalho é um trabalho coletivo. Por enquanto não tenho nome, mas alguma coisa vai ter a ver com “Sputnik”, é algo que estará no nome desse disco. E ele é todo coletivo, muito, muito interessante, porque as músicas pintaram também lá. Na gravação eu já comecei a ter ideia de letras e melodias, e depois vou inclusive começar a compor junto com Kika, Malu, Bia, Bruno, Dustan e o Boca. A gente vai dar prosseguimento a esse trabalho que vai ser lançado no futuro.

Falando de temáticas, fica a impressão de que o novo repertório fala muito sobre coisas que são mais oníricas, intuitivas – ele fala muito mais de sentimentos, enquanto o repertório do “Boate Invisível” tinha referências um pouco mais “materiais”. Isso tem a ver com esse viés de “cantautor” que você trouxe para esse disco novo?
Cara, eu sou muito ligado às paradas do inconsciente, sabe? Tenho, desde criança, uma relação muito grande com os sonhos. “Guardo” sonhos desde quando tinha três anos de idade. E acontece um negócio muito absurdo: eu vi que “guardar” sonhos era um negócio muito, muito interessante. Então guardei um sonho, guardei frases desse sonho. E quando aprendi a escrever, já fiz a minha primeira canção, fiz letra e melodia, mesmo sem saber tocar nenhum instrumento. E fui fazendo outras canções. Fui fazendo isso até depois de entrar em contato com Jung, com Freud, com as pessoas que começaram a falar sobre sonhos. Isso abriu um portal para mim, porque acho que, quando comecei a ler algumas coisas do Jung, comecei a realmente ter sonhos com começo, meio e fim. E as composições começaram a tomar (um rumo) cada vez mais nesse sentido. Tem músicas, por exemplo, como “Cores no Quarto”, que está no “Alma de Gato” (2018), que eu fiz quando eu acordei, num domingo, depois de discotecar numa Festa do Cinema Nacional. Eu pensei “talvez eu possa aproveitar essa música para um disco”. E era uma música de nove minutos em um gravador! A hora que escutei, falei: “Vou ter que tirar essa música”. Demorei muitos meses, porque a letra era gigante, a melodia era cheia de evoluções. Então o processo do “Lendas e Sol” é um processo muito parecido com o de “Cores no Quarto”, já que são canções que vêm de primeira, que eu registro, e depois tenho que “ir atrás”. Eu curto bastante (esse processo), para mim é um barato trazer algo do plano da inconsciência. Você falou de uma coisa mais intuitiva, mais onírica; nem sei direito de muitas das coisas que estou falando nessas canções, mas depois, no meio do processo, eu vou entendendo.

Pegando algumas faixas do “Lendas e Sol”, como “Lindo Xamã”, ou “Revoada de Naves”, são arranjos bem intrincados, com sintetizadores e camadas de violões. Como foi o trabalho de arranjo dessas faixas? Deve ter dado bastante trabalho, não? [risos]
”Revoada de Naves” é uma canção que ficou bem natural. Foi o Boca quem arranjou, acho. Depois fui fazer os vocais e fiz um registro agudo – inclusive depois pensei se deveríamos mudar. Mas mantivemos. “Lindo Xamã” somos eu, Bruno e Dustan tocando em cima daquele baixo que o Dustan fez. Depois o Bruno veio com aquela levada, e a gente foi até o final. Ela foi feita em um take, ao vivo, praticamente. Foi uma das únicas músicas do disco que não tenho registro em filme. E eu fiz assim logo depois que o José Celso [Martinez Correa] partiu. Fiz justamente pensando muito nele. Acho que levei minha mente para todas as experiências fantásticas que eu tive no Teatro Oficina. Cara, o Zé foi para mim uma pessoa muito importante, em várias situações da minha vida, da minha existência. Então foi um jeito de poder homenageá-lo. Tem uma interpretação que recebi pelo Instagram, de uma artista que fez uma versão dela, muito linda. Fiquei muito feliz. É uma música pela qual eu tenho um carinho imenso. Sobre ”Revoada de Naves”, ela tem essa construção que me remete a umas coisas do Eric Burdon, do Animals. Acho que aquela levada é uma coisa muito atmosférica.

Você já soma quase 20 álbuns entre discos solo, projetos colaborativos e parcerias. É pessoalmente assustador olhar para trás, e pensar na importância que seu trabalho tem na vida de pessoas que te acompanham a tanto tempo?
Como eu comecei a fazer música bem novo, fui criando muita música, e nunca parei, na verdade. Estou sempre fazendo alguma coisa. Se você soltar uma base, eu vou improvisar em cima. Estou pensando em música o tempo todo, e a música me rege em todos os sentidos. Cara, eu discoteco muito também. Adoro cinema, adoro ler. Eu emendo um livro no outro. Isso tudo faz parte de um processo. Então é muita criação ao mesmo tempo, e eu encontrei uma maneira de descarregar retratos nos álbuns. Por isso que são muitos álbuns. Eles são mini-retratos de momentos da existência. Por isso acabo produzindo bastante. Também encontrei uma maneira de produzir os discos depois depois de lançá-los, fazer um rolê de shows, de produzir LPs. A minha vida é meio que pautada por isso. Cara, eu adoro ir ao cinema. Eu me organizo no cotidiano para poder viajar, fazer música, produzir disco, lançar, estar na estrada. Discotecar também, que é uma coisa que eu amo, porque nesse momento você descobre músicas. Você começa a frequentar canções que marcaram as gerações. Faço muitas festas de aniversário, casamentos, festas na noite em São Paulo, discotecando com vinil. É uma coisa que comecei a fazer agora, porque eu sou da época dos CDs e tal. E fico muito feliz do vinil estar ganhando um protagonismo assim. Estive em Manaus duas vezes recentemente, e lá tem uma cena incrível de DJs tocando com vinil. Isso é fantástico!

Muita gente lança discos em vinil pensando no formato mais como modismo. No seu caso, parece haver toda uma intencionalidade em lançar seu trabalho em LP. Como é a sua relação com esse conceito?
Então, cara, eu estou escutando os meus discos que eu tenho de infância, que eu guardei. Eu perdi poucos discos (com o tempo). E sempre tive relação muito, muito grande com a música, porque meus pais sempre gostaram muito de música. Meus irmãos também curtem. E me deixa feliz isso que falei de Manaus: tem uma cena incrível de DJs tocando LPs. (coisas de) Ava Rocha, Ana Frango Elétrico, Letrux, Tulipa [Ruiz]… Hoje você tem uma parada muito legal acontecendo, que são os os artistas contemporâneos produzindo no formato LP e os discos estão aí, estão circulando, estão sendo tocados pela galera. Isso é o que dá ânimo para continuar produzindo LPs, já sei mais ou menos quais são as pessoas que pegam os LPs, que compram os LPs comigo e tudo mais. E tem tido um aumento também de pessoas que compram CDs. Acho super interessante também porque, no fim das contas, não é só a mídia, né? Um CD tem a letra, tem fotos, tem todo um trabalho. Eu faço muitas parcerias com o Luiz Romero, que sempre me fotografa em praticamente todos os discos, a partir do “Step Psicodélico” (2016). Então o disco é toda uma coletividade. Tem o Fernando Maranho, que é meu parceiro de Cérebro Eletrônico, que tem feito a direção de arte dos discos. Então, quando o CD e o LP ficam prontos, eles tem todas as informações técnicas. Nessa ideia de que daqui a, sei lá, 50 anos, alguém vai pegar e ver essas informações que, na plataforma de streaming, ainda não estão todas condensadas. Então o LP e o CD têm essa função…

Você comentou do Fernando Maranho e do Cérebro Eletrônico, e fazem mais de 20 anos desde que saiu o “Onda Híbrida Dissonante” (2003), seu primeiro disco com o Cérebro Eletrônico. Você costuma voltar a escutar a sua estreia?
Eventualmente dou uma escutada. Mas menos, em comparação, por exemplo, com o último (e quarto disco) do Cérebro, “Vamos Para O Quarto” (2013). Mas vira e mexe ouço, é um disco que eu gosto de escutar. Eu tenho a tendência de escutar as coisas que eu eventualmente estou envolvido, produzo e tal, acho que faz parte do processo. Até de quando você está criando um novo trabalho, pra entender como é que todo o processo foi feito. Por exemplo, o “Onda Híbrida Ressonante” é um disco muito “nosso”. A gente estava aprendendo a se “ampliar”, tanto eu quanto Maranho. A gente tinha uma banda chamada Gorpiava, que era uma banda lá de Bragança – até temos um disco gravado que não foi lançado oficialmente. O próximo passo seria vir para São Paulo, e acabou que só eu e o Maranho viemos. Depois, quando eu já estava em São Paulo, e o Maranho também, começamos o Cérebro Eletrônico como dupla. E o “Onda Híbrida Ressonante” é o nosso trabalho de corte e costura. Eu ampliava uma coisa aqui, ele ampliava uma coisa lá, nós nos reuníamos. Ele foi aprendendo a mexer nos softwares, mixou o disco e tal. Então foi, pra mim, super enriquecedor no sentido de entender como produzir música, de (fazer) samples. Coisas que, depois, eu quase nunca mais fiz, e estão só lá, porque depois a gente montou uma banda, banda mesmo. Mas é um processo que, no futuro, dá para voltar a fazer. E vai ser demais, né? Eu estou quase que chegando nesse ponto de voltar ali, e começar a recortar coisas, e criar um disco dessa maneira.

No ano seguinte, aliás, saiu o disco do Jumbo Elektro…
Isso é interessante, porque continuei produzindo. O personagem do Jumbo é o Frito Sampler. Depois fiz discos (solo) do Frito, e estou trabalhando agora em um novo material para lançar também. Ele é como se fosse um heterônimo. Era um personagem que era o vocalista do Jumbo Elektro, e a ideia do Jumbo foi mais ou menos essa, de explorar uma coisa meio alter-ego, as músicas com letras sem sentido e tal.

Interessante, porque o último disco que você lançou como Frito Sampler foi “Telepathique Disorder” (2019), anterior à pandemia.
Sim, estou com dois trabalhos ao mesmo tempo. No ano passado nós fizemos duas sessões no (estúdio) Submarino Fantástico. Foi com o Otávio Carvalho, que é o coprodutor dos discos do Frito junto comigo. Fizemos uma sessão com o Daniel [Setti], que é o baterista do Jumbo, e que mora em Barcelona desde 2006. Ele veio para o Brasil no ano passado, e eu o chamei para fazer uma sessão do Frito. São sete músicas. Depois veio o pessoal do Selvagens À Procura de Lei; os meninos apareceram no Submarino, fizemos uma improvisação com o Setti na bateria e a banda, com duas baterias. Eu e o Gabriel [Aragão], dos Selvagens, criando as músicas do Frito. E a Malu Maria também participou, como a personagem Freak Lauper. E eu pretendo também agora fazer mais uma sessão, porque tem o Hippie Hunters, que é a banda do Frito, né? Então fazer com eles. Daí vou tirando músicas dessas sessões pra fazer um novo álbum do Frito.

Já aconteceu de você ter composto uma música para o Frito, cujas músicas são em Inglês, e depois mudar de ideia, e incorporar ao repertório como Tatá Aeroplano?
No “Delírios Líricos” (2020) aconteceu um negócio. Eu estava com um disco pronto, e ia ser um disco de canções. Aí um dia, uma sexta-feira, um amigo me presenteou com uma garrafa de Pisco, que é um destilado. Comecei a tomar umas doses, e comecei a compor. Fiz a espinha dorsal do “Delírios Líricos”. Fiz “Alucinações”, fiz “O Silêncio das Serpentes” e fiz duas canções em português, mais uma do Frito. Fui dormir, acordei de madrugada, às cinco da manhã, e tinha tido um sonho em que estava fazendo uma música. E aí eu estava cantando a letra de “Amoras na Beira do Rio”. Eu levantei e fui para a sala, peguei o violão. Fiz “Amoras na Beira do Rio” e, na sequência, fiz “Réquiem Para Um Sonho”. E aí essa canção, que era para o Frito, ganhou uma letra em português. Da noite para o dia, as músicas novas deram um “strike” no repertório que tinha antes, e eu nem lembro mais as músicas que eu ia gravar no início; meio que apaguei da minha mente as músicas que tinha antes.

E foi um processo totalmente espontâneo.
Foi muito doido, porque inclusive teve um show que foi em um sábado, ou uma sexta. Eu me levantei às cinco da manhã, fiz as duas músicas, e voltei para dormir. Tinha um show na Casa do Mancha, isso foi em 2019. A gente entrou em agosto para gravar, e isso que contei foi em julho. Menos de um mês depois, essas músicas estavam sendo gravadas em estúdio, cara. Foi um processo muito rápido.

O “Vida Ventureira” (2017), que você fez com a Bárbara Eugênia, foi a única vez na sua discografia onde um disco foi formalmente dividido entre você e outro artista. E ele vai fazer 10 anos no ano que vem. Como aconteceu de vocês colaborarem? Foi algo pensado de antemão, ou aconteceu de maneira espontânea?
A Bárbara vinha falando há muito de fazermos um disco. Aí eu estava fazendo o “Vamos Para o Quarto” (2013) com o Cérebro, e falei: ”Barbarella, deixa eu lançar o do Cérebro (e a gente faz um nosso)”, mas lancei depois, na loucura, o “Step Psicodélico” (2016). O “Aladin Bacunins” é de 2015, e em 2016 ainda teve o “Cosmic Damião”, que é o segundo do Frito no mesmo ano. Pra você ter uma ideia, as canções do “Vida Ventureira”, se não me engano, foram criadas em 2013! Nós fomos para a Fazenda da Serrinha, eu e a Bárbara, e a gente compôs em um, dois dias. A gente começou a compor no final da tarde, ficamos conversando com o Carlão, do Galpão Busca Vida, com o Fábio Duque e com a Veri, que são um casal maravilhoso, e as conversas foram entrando nas composições. Fizemos todas as canções assim, e aí depois vimos que era um álbum. E aí demorou dois, três anos, ou até um pouco mais, para ir para o estúdio registrar. Mas foi nesse esquema que falei. Inclusive foi muito interessante, porque eu e Bárbara nos apresentamos em formato voz e violão numa segunda-feira, no Centro da Terra, em 2017. E aí apresentamos o “Vida Ventureira” na segunda, e na terça formos para o estúdio: eu, Bárbara, e Bruno Boca. As bases foram todas capturadas ali, muita coisa dos vocais, também. E já fomos fazendo porque, enfim, a gente é muito parceiro, muito amigos. Então foi um disco muito natural. Foi muito rápido, o processo. Eu e a Bárbara, pô, a gente tem muitas colaborações. Ela participa dos meus álbuns, eu participo dos dela. E a gente tem uma novidade para o ano que vem, com os 10 anos do disco. Vamos sair com o LP, com o show, e também tem novidades em breve.

Pensando nesse modelo que você trabalhou com a Bárbara, de disco colaborativo: qual você diria, na cena atual ou pensando na música brasileira como um todo, que seria a sua colaboração dos sonhos?
Há muitos nomes, né? Adoro o que está sendo feito hoje. Acompanho muitos artistas contemporâneos e, cara, eu sou muito fã do Vitor [Brauer] e do Jair [Naves]. Adoro eles e adoro o trabalho deles. Escuto a Lupe de Lupe, acompanho a carreira do Jair. São artistas que eu gosto de escutar, como fã. O Irmão Victor (projeto de Marco Antônio Benvegnú) também, é um cara que eu adoro escutar. Adoro a Letrux, adoro a Ava Rocha. Eu estava escutando a Tulipa [Ruiz] hoje, que é uma amiga de muito tempo! Estava escutando o disco dela e do Gustavo [Ruiz], “Habilidades Extraordinárias” (2022), em LP. É uma diferença entre ouvir um LP e escutar no streaming: com o LP, você dá uma mergulhada diferente na música. Eu não sei explicar, mas existe isso. Ou no CD também, que eu escuto muito. Isso me deixa muito empolgado. Tem um disco do Kiko [Dinucci] que acabou de sair (“Medusa”, 2026). Esse ano, o Cidadão [Instigado] lançou um disco. Dá vontade de fazer música com todo mundo [risos].

E como é que estão seus planos para esta reta final de 2026, com a apresentação do “Lendas e Sol” e outros projetos?
Nesse fim de ano, eu vou me organizar para começar a produzir esse material novo, que é o “Sputnik”, vou começar a selecionar as músicas. Já tem coisas que estão gravadas, mais adiantadas. A ideia é deixar esse material pronto para o ano que vem. Tem um disco ao vivo que nós gravamos no Centro da Terra. O Luís Romero dirigiu, filmou com três câmeras e editou. Fomos assistir recentemente, e está incrível. Então é uma coisa para o ano que vem, ou pode ser para daqui dois anos. Mas a ideia é, de repente, lançar esse filme/documentário com um disco também. Eu só não sei a ordem das coisas ainda, como são várias coisas ao mesmo tempo, então vai depender de como a gente vai planejando as coisas para o final do ano. A banda do “Boate Invisível” deve voltar a fazer coisas no final do ano, porque acontece um negócio interessante: como já fizemos vários discos juntos, a gente tem um baile, onde cabem músicas de todos os álbuns. A base é o disco “Boate Invísivel”, e cabem duas ou três músicas do “Lendas e Sol”, por exemplo. E eu faço muita coisa no formato voz e violão, viajando muito, com o Andarilho Urbano, que é um show intimista. Aí toco o faixas do Cérebro Eletrônico, eventualmente também alguma coisa do “Vida Ventureira”, então são várias coisas paralelas que eu vou fazendo. No ano que vem, a ideia é fazer um show do “Vida Ventureira”. A Bárbara está morando em Portugal, mas ano que vem ela vem para cá para a gente fazer esse show e lançar o LP. Gosto de me dedicar aos projetos, né? Então, organicamente, as coisas vão acontecendo.

Capa de “Lendas e Sol”, de Tatá Aeroplano

– Davi Caro é professor, tradutor,  músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.

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