Adaptação de um dos mais grotescos vilões do Batman, “Cara-de-Barro” investe fundo no espetáculo visual da sanguinolência

texto de João Paulo Barreto

Terceiro filme recente a investir em um desenvolvimento do universo do Batman e sua Gotham City, mas pontuando uma abordagem que visa humanizar seus vilões, “Cara-de-Barro” (“Clayface”, 2026) é tudo o que se espera da adaptação cinematográfica de um personagem tão grotesco visual e fisicamente quanto mentalmente atormentado é o “Coringa” de Joaquin Phoenix e Todd Philips. Colocando os dois personagens em caminhos inversos de ascensão e queda diante da necessidade de se abraçar a loucura e a vingança como modo de sobrevivência em um mundo que os destrói, os dois filmes criam um paralelo no mínimo curioso de se observar quando pensamos nas motivações que movem os vilões tanto dos quadrinhos quanto dos filmes do homem-morcego.

Em “Cara-de-Barro” temos a proposta de trazer a figura trágica do ator Matt Hagen (Tom Rhys Harries) como alguém que perde tudo e encontra na retaliação a forma de lidar com sua própria derrocada. Em um caminho inverso de “Joker”, porém, temos em Hagen alguém que precisa voltar às trevas (diferente de Arthur Fleck que, coitado, nunca saiu de lá), como forma de redenção. Assim, apresentando ao espectador alguém cujo talento dramático, sucesso e reconhecimento artístico são retirados de si em pleno momento de ascensão após anos de luta e trabalho árduo, o roteiro de Mike Flanagan (notório por ótimas adaptações de Stephen King) e Hossein Amini não tarda em buscar um escape baseado na violência gráfica e que encontra paralelos justamente na ideia absurda de um homem deformado por um assassino e sua navalha. É com a mesma brutalidade com a qual destruíram seu rosto que o protagonista vai responder ao mundo que o cerca em sua descida ao inferno.

Disposto a recuperar seu belo rosto a qualquer custo, ele opta por um procedimento estético experimental que, claro, apresentará efeitos colaterais quase fatais para si mesmo. Diante de uma melhora gradativa através de um tratamento apresentado por uma jovem e brilhante médica (Naomi Ackie), Hagen acaba por possuir modos de alterar a própria aparência. Na figura da jovem Dra. Caitlyn Corr surge uma das melhores falas do filme a justificar seu precoce talento: “Nem toda médica usa óculos e rabo-de-cavalo”, afirma a médica de trinta e poucos anos cuja pesquisa com nano robôs em células de restauração, de fato, parece exageradamente precoce para ela ter alcançado em tão pouco tempo de vida acadêmica e profissional.

Após apresentados todos os caminhos de desgraças percorridos por Hagen, caberá ao filme dirigido por James Watkins, do ótimo “Não Fale o Mal” (2024), criar os mais criativos momentos de sanguinolência e impacto gráfico que um longa de classificação indicativa para maiores de 16 anos possa gerar como direito as melhores possibilidades visuais que a grotesca ideia um rosto que se molda como barro podem permitir. E isso vai desde pálpebras que se fecham sem se abrir novamente (a não ser com o uso de uma tesoura a cortá-las) a línguas sendo arrancadas por inteiro de dentro de traquéias humanas com mãos que se moldam àquele espaço limitado, sendo que tais momentos são originados no começo em que uma navalha retalha o rosto do protagonista.

Acrescentando algo de mais lastro em sua narrativa e a essa ideia gráfica de choque visual, “Cara-de-Barro”, curiosamente, aprofunda bem uma análise psicológica do seu personagem para além do simplesmente grotesco. Em uma das melhores cenas do filme, vemos a Dra. Caitlyn Corr descobrir as representações mentais na forma física de seu paciente através de projeções lúdicas oriundas do sono do atormentado rapaz. Assim, quando o espectador atento o vê projetar em seu próprio corpo resultados advindos dos seus sonhos, sejam os mesmos alusões românticas ou violentas, é impossível não sorrir ao lembrar das ideias advindas de Schopenhauer quando o filósofo fala sobre a nossa própria vontade existindo como condutora dos nossos sonhos.

E quando o controle de sua forma física mutável é percebida como um extravasamento mental de seus próprios desejos reprimidos, o personagem de Matt Hagen ganha um impacto narrativo ainda mais forte. Do mesmo modo como com o Coringa, o outro futuro vilão trágico, a violência explode a partir de uma liberação emocional catártica e, aqui, automutiladora. A resposta vingativa do anti-herói em constante e monstruosa mutação é destruir o próprio rosto diante de seu maior algoz. Fica a constatação que, mesmo diante de antagonistas tão rasos, ao menos temos na figura de Hagen um ponto crescente de drama narrativo em ““Cara-de-Barro”.

Ao final, com sua forma grotesca completa e referenciando de maneira sagaz a clássica animação do Batman de 1992 em seu traço oriundo da proposta narrativa de Bruce Timm, roteirista e idealizador do desenho animado que surgiu há pouco mais de três décadas, torna-se evidente a ideia de homenagem a uma das melhores incursões da criação de Bob Kane e Bill Finger fora do quadrinhos. Uma união sagaz para agradar fãs leitores e espectadores amantes do cinema de gênero.

 

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar. 

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