texto de Leandro Luz
O céu azul que marca o primeiro plano de “Rosebush Pruning” (Karim Aïnouz, 2026) causa um estranhamento inicial importante: estaríamos nós à beira-mar numa praia em Fortaleza ou no meio de uma estrada de terra nalgum ponto do sertão nordestino? Ainda assim, a narração em inglês que invade a banda sonora não deixa dúvidas de que esta é uma nova empreitada do cineasta cearense pelo exterior, dando continuidade à carreira internacional que vem estabelecendo já há alguns anos.
Desta vez, Aïnouz desembarca na Espanha para filmar um roteiro do grego Efthimis Filippou, colaborador habitual de seu conterrâneo Yorgos Lanthimos em filmes como “Dente Canino” (2009), “O Lagosta” (2015) e “Tipos de Gentileza” (2024). Rapidamente identificamos a grife, seja pela trama ou pela forma de construir os personagens. Traços de malvadeza e excentricidade são uma constante nas dramaturgias levantadas por Filippou, e esse novo trabalho segue o mesmo percurso.
Cores fortes e saturadas cortam a paisagem nessa sequência inicial, uma lembrança de que estamos diante de um filme de Karim Aïnouz. A narração em primeira pessoa é de Ed, interpretado por Callum Turner, que além de apresentar a si próprio e a sua família ao espectador, também conduz o nosso olhar pela cidade. Estadunidenses milionários vivendo como reis e rainhas perversos. Ed vive como quer e faz questão de reafirmar isso. Por não ter profissão ou qualquer ofício que ocupe o seu tempo – para além de cuidar do jardim florido de sua mansão -, o seu estado quase permanente de ócio permite que ele se torne quase um detetive em função dos mistérios que seu irmão esconde.

Jack é considerado pelos dois irmãos, pela irmã e pelo pai como o mais “puro” da família, o “bom homem” que merece redenção. As suas ambições são relativamente modestas: quer casar com a jovem Martha, mas nem sequer consegue apresentá-la à família possessiva. Quando finalmente toma coragem, o almoço se torna uma sessão de tortura para ela. Comentários machistas e elitistas são disparados a torto e a direito. Elle Fanning organiza bem as emoções de sua personagem em seu rosto, sustentando um olhar de vergonha e indignação, ao passo que preserva um mistério necessário ao seu desenvolvimento, que ficará mais evidente ao final da trama.
O Jack de Jamie Bell ganha contornos similares aos de Martha. Reservado, serve sempre de contraste aos irmãos inescrupulosos, ainda que aqui e ali deixe escapar o seu quinhão de perversidade. O casal tem uma química estranha. As cenas de sexo exalam desejo e uma sensação constante de inadequação que Aïnouz consegue explorar bem. Aliás, é justamente a dimensão do desejo desses personagens que conectam “Rosebush Pruning” ao seu diretor.
Não é raro encontrarmos na filmografia de Karim exemplos de como a forma de representar o sexo no cinema pode desafiar as normas impostas pelos padrões sociais. Em “Praia do Futuro” (2014) e “Motel Destino” (2024), por exemplo, Aïnouz atravessa uma linha tênue que vai do sexo como manifestação de desejos muito íntimos, como demonstração de afeto, como uma maneira de lidar com a solidão até, sobretudo, como instrumento de poder. O sexo em “Rosebush Pruning” também se conecta com todas essas dimensões, mas acaba diluído pela necessidade de orquestração de uma trama frágil de culpa e de vingança.
Toda essa distração fica evidente quando analisamos a participação de Tracy Letts como o patriarca da família. Figura de autoridade absoluta, interpretada com o máximo de abjeção por Letts, o pai mais vegeta em seu covil do que o organiza. Cego em função do acidente que matou a sua esposa – Pamela Anderson, em uma participação inusitada, mas sem grandes momentos -, o homem vil trata os filhos ora como empregados, ora como bibelôs. Logicamente, há também espaço para os abusos morais e sexuais, mas isso é somente um detalhe maléfico para o filme.
O desfecho cínico – poderia haver outro diante desta construção? – só valoriza o que de pior “Rosebush Pruning” tem a dizer. Apesar de alguns bons momentos cômicos – sobretudo pelo texto ácido da narração e pela caricatura divertida que Riley Keough constrói para Anna – a impressão geral é a de que continuamos presos em uma espiral de misantropia. Que a humanidade está perdida, já sabemos, mas será que não temos nada melhor a fazer do que constatar tais fatos neste intervalo precioso de tempo que nos resta até o fim do mundo?

– Leandro Luz (@leandro_luz) escreve e pesquisa sobre cinema desde 2010. Coordena os projetos de audiovisual do Sesc RJ desde 2019 e exerce atividades de crítica nos podcasts Plano-Sequência e 1 disco, 1 filme.
