texto de Gabriel Marotti
Lançado em 22 de setembro nas plataformas digitais, “Vice-Versa” é o primeiro álbum gravado em conjunto por Arnaldo Antunes e Adriana Calcanhotto e consolida uma feliz parceria entre dois grandes compositores e intérpretes da MPB. Neste trabalho totalmente de canções inéditas, à exceção de uma regravação (“Sorriso Livro”, do Timbalada, parceria de Carlinhos Brown, Denny e Edmundo Carôso), os dois artistas reiteram o encanto com a palavra e o rigor na combinação entre melodia, letra e ritmo, qualidades comuns à obra de ambos. Apesar de tantos pontos de contato em suas produções e estilos, além de terem dividido palco em algumas situações, havia, até então, apenas uma parceria entre os compositores: “Para lá”, indicada ao Grammy Latino de Melhor Canção em Língua Portuguesa – presente no álbum “Qualquer” (2006), de Arnaldo, e em “Maré” (2008), de Adriana.

“Vice-Versa” insiste na canção como um espaço de reflexão sobre os dilemas do mundo. A ideia já aparece na arte da capa, que exibe, em diferentes enquadramentos fotográficos, os olhos, bocas, narizes e ouvidos dos artistas, como representações dos sentidos que atravessam a obra como um todo. As canções seguem o mesmo caminho ao traduzir a experiência do observador que vê tudo mudar rápido demais. Em “Também capaz”, por exemplo, a letra diz “… você é capaz / De olhar pra dentro / Por um momento só / Estar consigo a sós / Fechar os olhos / E respirar / Experimentar a paz”; já em “As bancas de jornais”, o narrador nota uma mudança radical na configuração do objeto que nomina a canção, quase que como um retrato social: “As bancas de jornais / já não vendem mais jornais / As bancas de revistas / Não vendem mais revistas”.
Quem ouve “Na minha carne viva” logo percebe a marca de Marisa Monte, que além de assinar a parceria da composição, também toca guitarra na gravação (completando a presença do trio Triubalistas no registro). O álbum é curto, possui apenas trinta e cinco minutos (algo que conversa com a urgência dos temas abordados e, paralelamente, delimita o tempo adequado para um registro em vinil), mas a variedade dos estilos musicais que compõem as onze faixas (passando pelo rock, samba-reggae, maracatu, baião e samba, entre outras variações) contribui para a sensação de uma escuta “fácil” e agradável, que não cansa o ouvinte casual, ao mesmo tempo que agrada o ouvinte mais exigente. Em geral, os temas atravessam problemas como individualismo, caos urbano, vida cotidiana, mudanças sociais e temporais, deixando o amor romântico em segundo plano.
Se uma das marcas do nosso tempo é a sensação de que tudo acontece aceleradamente, a música “Contemplando a folia” expressa a capacidade que os compositores possuem de nos transportar a uma outra experiência temporal, que não se dá no tempo veloz do mundo, mas no ritmo compassado da canção: “Devagar divago / de lembrar alumbro / de vazar deságuo / de falar afundo / de caber acabo / de inundar o mundo”.
Com produção musical assinada por Pupillo (ex-integrante da Nação Zumbi, que também toca bateria e percussão no disco e é coautor das faixas “Se for pra ser agora” e “Contemplando a folia”), a combinação das duas vozes, entre o timbre marcante de Arnaldo Antunes ocupando a região mais grave e a leveza vocal de Adriana Calcanhotto, contribui para o resultado estético do trabalho, enquanto os arranjos e aspectos timbrísticos reforçam a sua contemporaneidade, fazendo com que os artistas soem atuais, sem se prenderem a uma sonoridade que vigorou entre os anos 1990 e 2000.
Com o título sonoro e provocativo, que já indica o jogo de palavras e sentidos que marcam a trajetória dos artistas, “Vice-Versa” reforça, na contemporaneidade, um dos pilares da canção brasileira construído a várias mãos e múltiplas vozes ao longo do tempo: da palavra cantada enquanto expressão potente e singular do encontro entre música e poesia, canto e fala, literatura e oralidade. Disponível nas principais plataformas de streaming, “Vice-Versa” já tem data para estrear ao vivo: em março de 2027, o projeto passará por seis cidades brasileiras (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre e Curitiba). Esteja atento.
– Gabriel Marotti é músico e pesquisador, mestre em Estudos Culturais (USP) e doutorando em Filosofia (UNIFESP).
