texto de Bruno Capelas
fotos de Fernando Yokota
Não é de hoje que o fenômeno acontece, mas talvez seja cada vez mais difícil negar: o shoegaze está na moda. É o que explica porque algumas centenas de pessoas ocuparam o Cine Joia em plena terça-feira à noite, 29 de setembro, para ouvir as guitarras ruidosas de Chapterhouse e terraplana em altíssimo volume. Expor os ouvidos a um som repleto de camadas a mais de 100 decibeis talvez não seja o programa mais típico para a maioria das pessoas – ainda mais numa data que oferecia debates para governador e a final do 13º Masterchef Amadores na TV –, mas foi o que muita gente decidiu fazer com seu tempo na capital paulista.
Entre adolescentes que descobriram o gênero nas redes sociais a grisalhos que testemunharam seu auge, a casa de shows no centro de São Paulo já registrava bom público quando os paranaenses do terraplana subiram ao palco, por volta das 20h15. Talvez o principal nome do shoegaze nacional na atualidade, o grupo tem acumulado cancha não só em turnês pelo Brasil ou mundo afora, mas também servindo como banda de abertura padrão quando representantes do gênero vêm ao País – o que já aconteceu com Slowdive, Deafheaven, Horse Jumper of Love e Turnover e não gerou surpresa ao se repetir com a vinda dos pioneiros ingleses, em meio à comemoração de 35 anos do álbum “Whirlpool”.

Curiosamente, tal experiência na estrada não se reflete numa comunicação ativa com o público. Sob os holofotes do Joia, o terraplana não dá muito espaço para conversa e emenda uma música na outra, no máximo falando um “obrigado” ou se enrolando nas palavras para divulgar a banca de merch. A interação com a plateia, porém, não deixa de acontecer, mas se dá pela capacidade da banda de construir boas canções em camadas de guitarra em alto volume, como se vê em “Salto no Escuro” ou “Desaparecendo”, dois temas do álbum “Natural”, de 2025.
Até mesmo quando emenda por uma veia pop – flertando com os refrãos do loud-quiet-loud, no mais pop que o shoegaze pode ser –, o terraplana não abre mão do peso e do alto volume. É o que fica claro em canções como “SNC”, “hear a whisper” ou “charlie”, por exemplo, em que a voz da baixista Stephani Heuczuk paira sobre as guitarras dos colegas Vinícius Lourenço e Cassiano Kruchelski, enquanto o baterista Wendeu Silvério faz uma cama de forte sustentação para o conjunto.

Ao longo de quarenta minutos, o que o terraplana produz é um bonito show, já capaz de deixar algum zumbido pairando nos ouvidos de quem estava no antigo cinema do bairro da Liberdade. Liricamente, o grupo também ofereceu algumas respostas para quem tenta entender o porquê do shoegaze ressoar tanto nos dias de hoje: em meio ao ruído, muitas das letras dos paranaenses falam em fugas, sussurros, memórias e esquecimentos, como uma espécie de reação lógica a uma realidade cada vez mais difusa e complexa. É algo que ecoa o que o próprio Stephen Patman, do Chapterhouse, disse numa entrevista recente ao Programa de Indie: “faz sentido que muita gente queira escutar música que queira tirar o ouvinte da realidade e colocá-lo em um lugar mais bonito.”
A Inglaterra dos anos 1980, quando o Chapterhouse foi formado, também não era exatamente um lugar bonito. O país vivia o final dos anos Thatcher, numa combinação de destruição do estado de bem-estar social, neoliberalismo e desindustrialização que fazia o futuro soar nebuloso – o que explica o surgimento de bandas como Slowdive, Ride e My Bloody Valentine. É também o caso do grupo de Reading, cujo som nunca propriamente alcançou as paradas de sucesso, mas se tornou fenômeno de culto com a revalorização contemporânea do shoegaze.

É bom que se diga que o Chapterhouse também nunca foi exatamente uma banda “só” de shoegaze. A fuga ao estereótipo já começa a ser provada antes mesmo do grupo adentrar o palco, o que aconteceria só por volta das 21h30: ainda testando o som, o baterista Ashley Bates já começa a interagir com a plateia, enviando até mesmo uma cópia do setlist da noite como aviãozinho-spoiler para a pista. Ao longo do show, Bates seria o mais empolgado do quinteto inglês, convidando o público para bater palmas e gritar. “É difícil colocar em palavras o que estamos sentindo por causa de vocês hoje. Vocês são incríveis”, diria ele ao fim do espetáculo.
Em seus primeiros números, o Chapterhouse também escapa ao clichê: apesar de estarem soterradas em camadas das três guitarras executadas por Andrew Sheriff, Stephen Patman e Joe Light, não são poucas as canções do grupo que têm um caráter mais dançante do que a média do estilo. Logo no início, quando eles executam os dois maiores hits de “Whirlpool” – “Pearl” e “Breather” –, não são poucos os presentes que se arriscam em elaborados passos de dança na pista do Cine Joia, indo muito além dos pulos roqueiros ou da simples contemplação de sapatos.

Ao mesmo tempo, o repertório do disco celebrado em São Paulo na íntegra também guarda belas melodias e declarações de amor – caso de “If You Want Me”, um dos momentos mais bonitos do show, reforçando o caráter “flutuante” da noite. Mais do que o caráter doce de algumas canções, porém, o que se ouve mesmo é um som ensurdecedor: seguindo um padrão do gênero, o Chapterhouse toca alto. Muito alto: na maior parte do concerto, a média de volume gira em torno dos 95 decibeis, alcançando picos de 105 dB e 110 dB – acima de uma britadeira, uma motocicleta ou um cortador de grama, por exemplo.
Não é o tipo de coisa que acontece em qualquer show, ou mesmo em qualquer lugar. Mas talvez esteja justamente nela uma camada de apreciação que faz muita gente se interessar pelo shoegaze: ver uma banda do gênero ao vivo é uma experiência quase impossível de se reproduzir na sala de casa, a menos que se trate de um audiófilo sem vizinhos sensíveis. É algo ainda mais salutar em tempos de fones de ouvido, caixinhas JBL e toda sorte de audição individualizada de música.

Alguns podem achar que é masoquismo submeter os tímpanos a tão alto volume. Talvez seja – e, vá lá, esse estímulo também pode fazer parte do apelo moderno do shoegaze. Mas, em meio ao ruído, é possível encontrar algo de sublime no que o Chapterhouse oferece ao longo dos primeiros 45 minutos do show, numa sensação que vai além da beleza valorizada pelos melômanos. O impacto poderia até ter sido maior, não fosse a falta de educação do público: da metade para trás da pista do Cine Joia, não foram poucos os que tentaram botar a conversa em dia por cima do glorioso barulho da banda inglesa, num esforço tão vão quanto incômodo para os convivas.
Finalizado o repertório de “Whirlpool”, o Chapterhouse desce ao camarim para uma rápida pausa, sob muitos aplausos. No retorno, é a vez do grupo se dedicar ao repertório do disco “Blood Music”, lançado em 1993 e já um bocado distante das paredes de guitarras da estreia. Mais suingadas, as canções por vezes deixam entrever as ligações com outros monumentos do rock britânico – caso do Stone Roses ou até mesmo dos Smiths, numa influência que pode ser sentida tanto nas ambiências de guitarra à la Johnny Marr quanto no vocal lamentoso de Patman, por vezes soando como um Morrissey com menos afetação. Já nos sete minutos de “Love Forever”, que deu fim ao segundo set do show, o paralelo é com outros contemporâneos dos ingleses: o Primal Scream em sua fase “Screamadelica”.

Para muita gente, parecia o fim. Afinal, as luzes mudaram de tom, os alto-falantes começaram a tocar música e houve quem se direcionasse para a porta. Até que Ashley Bates subiu de novo ao palco, provocando os presentes. “Quem pôs essa porra de música?”, questionou na sequência Stephen Patman, dando a senha para a banda executar um lado-B mais que apreciado: “Mesmerise”. Para terminar, o momento mais ruidoso da noite. “Vamos fechar com uma das nossas primeiras músicas. É crua, mas é ‘fucking great!”, disse Sheriff, antes de atacar com “Need (Somebody)”, uma barulheira do cacete que explica por que os Stooges são listados pelo quinteto inglês como uma de suas bandas favoritas.
Foi um grande final para um belo show – e também para a maratona de concertos promovida pela Balaclava Records na capital paulista, entre o Balaclava Fest e espetáculos solo de nomes variados como Sharp Pins, Bar Italia, Sudan Archives ou High Vis. Para quem se dispôs a acompanhar parte ou toda a empreitada, o zumbido nos ouvidos e as dores na lombar e nas pernas talvez sejam grandes. Não maiores, contudo, do que o sorriso no rosto de poder testemunhar esse fenômeno tão raro chamado “música boa sendo feita ao vivo”. Mas fica o aviso: se persistirem os sintomas, consulte um médico.
– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br/
