textos de Leandro Luz

“Brasília: Planejamento Urbano”, de Fernando Coni Campos (1964)
No contexto de produção estimulado pelo Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE), o curta-metragem “Brasília: Planejamento Urbano” (1964), de Fernando Coni Campos, que além de cineasta era poeta e artista plástico, se organiza pela via da sistematização de ideias e de conceitos. Brasília como o espelho ideal de uma sociedade moderna aos olhos das décadas de 1950 e 1960. No filme, compreendemos a obsessão com o tráfego desimpedido e com os blocos separando todos os setores da cidade. Assim como acontece em “O Descobrimento do Brasil” (1936), clássico de Humberto Mauro também produzido no INCE, as lacunas são tão ou mais importantes do que o que está incluso na dimensão da obra. Vale uma sessão dupla com “A Cidade É uma Só?” (Adirley Queirós, 2011). Um toque de mestre encerra o filme: nos créditos finais, o design rearranja os símbolos que acabaram por representar Brasília e termina voltando para a cruz, onde tudo havia começado.

“Brasília Segundo Feldman”, de Vladimir Carvalho (1979)
O contraponto perfeito ao filme de Fernando Coni Campos, exibido no primeiro dia do Festival de Brasília 2026. 1964-1979: um gap de 15 anos ajuda a dar a ver complexidades e injustiças. Vladimir Carvalho recupera as imagens feitas durante a construção de Brasília por Eugene Feldman (1921–1975), designer, artista gráfico, fotógrafo e professor estadunidense, e imprime toda a sua verve contestadora na maneira como costura os depoimentos de seus personagens. Athos Bulcão (1918–2008), designer, pintor, escultor e desenhista cujo nome está para sempre ligado à integração entre a arte e a arquitetura no Brasil, surge como personagem levantando preocupações com o ritmo acelerado das obras e péssimas condições de trabalho nas quais os candangos tiveram que enfrentar. O curta-metragem apresenta, sobretudo, o testemunho do operário Luiz Perseghini, que não economiza críticas ao Governo e sua política de rolo compressor. Uma típica narrativa contra-oficial que não tem medo de pisar nas poças de sangue deixadas pela História.

“Adeus, Brasília”, de Moacir Macedo (2026)
Vladimir Carvalho, sob as lentes de Moacir Macedo em “Adeus, Brasília” (2026), estende os seus braços em direção aos processos históricos que constituíram a invenção da cidade. Intensificada pela partida recente do respeitado cineasta, a força demonstrada pelo personagem segura um filme com muitas fragilidades, que passam por questões técnicas e, principalmente, pela dificuldade em tornar visível, por meio dos recursos da linguagem do cinema, esse abismo entre vida e morte, entre presente e legado. Um exemplo dessa dificuldade é a maneira como as cenas do velório de Carvalho, num Cine Brasília lotado de amigos e admiradores, são inseridas no filme: o momento pedia uma câmera que fugisse do registro neutro para se justificar ali. A opção pelas entrevistas, que soam, em vários momentos, meio improvisadas, respeitam (até demais) o testemunho de Carvalho e trazem informações preciosas a respeito de como o cineasta se envolveu com o curso de cinema da UnB e como ele começou a fazer os seus primeiros trabalhos em curta-metragem. Curiosamente, os melhores momentos residem nos fragmentos, um tanto tímidos, de Carvalho articulando ideias para além do cinema, como quando ele discorre sobre as coleções de artesanato – algumas de artesãos, outras feitas por ele próprio.
– Leandro Luz (@leandro_luz) pesquisa e escreve sobre cinema. Coordena a área de audiovisual do Sesc RJ, atuando na curadoria, programação e gestão de projetos em todo o estado do Rio de Janeiro. Exerce atividades de crítica no Scream & Yell e nos podcasts Tudo É Brasil, Plano-Sequência e 1 disco, 1 filme.
