texto de Leandro Luz
Os momentos mais verdadeiramente frescos de “Drops de Anis” (Rodrigo de Janeiro e Samuel Lobo, 2026) residem nas falas de pessoas a quem as salas de cinema foram negadas após o desmonte do circuito exibidor brasileiro na década de 1980. Pessoas comuns, interpeladas no bom e velho estilo vox populi. Há nas frases soltas dessas personagens, picotadas pela montagem frenética de Felipe Bibian em conjunto com os próprios diretores, um verdadeiro retrato das contradições do circuito e do lugar que o nosso cinema ainda ocupa no imaginário da população.
De acordo com estudiosos da área, como a professora e pesquisadora Talitha Ferraz – aliás, um nome que poderia muito bem constar no hall de entrevistadas do longa-metragem -, o fechamento em massa das salas de cinema de rua (em seus vários formatos: palácios, poeiras, salas de galeria) no Brasil fez parte de uma transição cultural e econômica que mudou significativamente a maneira como os brasileiros se relacionam com a espectatorialidade fílmica. A grosso modo, os multiplex e salas de shopping invadiram o circuito exibidor, diminuindo a diversidade de programação e aumentando o valor dos ingressos.
As salas fechadas se transformaram em lojas de departamento, igrejas e farmácias. Adaílton Medeiros, idealizador e gestor do Ponto Cine, em Guadalupe, Zona Norte do Rio de Janeiro, concede uma boa entrevista contextualizando a importância de uma sala como essa na periferia do Rio. Em outro filme, “Tempo de Projeção” (Tiago Monteiro, 2014), que conversa muito com “Drops de Anis”, Medeiros também é personagem e fala sobre o assunto, ilustrando bem a complexidade da coisa a partir de uma analogia mordaz: “eu acho que cinema é qualidade de vida, então, se nós tivéssemos mais cinemas, provavelmente teríamos menos farmácias”.
Este é um cenário muito mais labiríntico do que “Drops de Anis” está disposto a lidar. Embora não entre, a fundo, em questões sociopolíticas e não se voluntarie a trazer estatísticas e dados consolidados, o filme também logra algo muito importante que é acolher visões e opiniões díspares acerca da produção cinematográfica nacional. Filme brasileiro é só sexo, violência e palavrão? O suposto som ruim – dos filmes? dos sistemas de som das salas? – ainda afasta os frequentadores? O similar nacional tem o poder de fazer a cabeça das pessoas? Todas essas questões são abordadas com leveza e graça por trabalhadores e trabalhadoras que circulam pelas ruas do Rio de Janeiro, de Recife, de Belém, entre outras metrópoles brasileiras. Preconceitos antigos, alguns infundados e anacrônicos, outros perenes e ainda pertinentes saem justamente das conversas na rua, as quais trazem momentos muito ricos por exporem as ideias de quem está fora da bolha cinéfila ou de quem não está vinculado ao ofício cinematográfico.
A espontaneidade dos relatos está diretamente ligada à forma como os diretores e a sua pequena equipe (no melhor dos cenários, envolveu cerca de quatro pessoas durante as filmagens) encampou a produção. No melhor estilo cinema de guerrilha, os cineastas foram cavando entrevista por entrevista até conquistarem um corpo forte o suficiente para resultar em um longa-metragem. Fora os anônimos, o filme também passa por grandes diretoras e diretores, veteranos ou mais novos, como Neville D’Almeida, André Novais Oliveira, Carla Camurati, Affonso Uchoa, Emílio Domingos, Katia Mesel, Guto Parente, Safira Moreira, Marcelo Gomes, Cavi Borges, Vitã, Renata Pinheiro, entre muitos outros. A atriz Flora Camolese e o ator Wilson Rabelo recebem a incumbência de costurar os relatos com performances que olham nos olhos do espectador.
Quatro depoimentos se destacam, cada um a seu modo e por um motivo distinto: Andrea Ormond é a estrela do filme, com sua performance sedutora a frente de um cenário de biblioteca ao fundo, elaborando tanto com as palavras como em diálogo com a mise-en-scène; Adirley Queirós tem o discurso mais lúcido do país hoje, e afirma que todo cinema tem seu público; Adélia Sampaio nos conta de sua trajetória e de como o seu sonho em trabalhar com cinema começou como secretária em uma produtora cinematográfica, convivendo com Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e Joaquim Pedro de Andrade, posteriormente fazendo seus filmes com sobras de negativos do pessoal do cinema novo; por fim, Allan Ribeiro, cineasta carioca, celebra o acesso das pessoas às ferramentas do cinema nos dias de hoje e aponta a câmera para os próprios cineastas (“eu posso começar a fazer um filme agora” – o vídeo de Ribeiro é usado na montagem do filme, revelando o dispositivo da câmera e do som, e os sorrisos de seus operadores).
No fim, a própria sinopse de “Drops de Anis” apresenta o seu maior trunfo: “uma conversa entre quem faz, quem vê e quem não vê filmes brasileiros”. Nomes como Jairo Ferreira, Paulo Emílio Sales Gomes, Ana Carolina e Eduardo Coutinho são reverenciados pelo tema e pela forma com os quais o filme se constrói.
Uma escolha curiosa chama a atenção. O filme se utiliza de legendas com os nomes dos entrevistados; no caso dos diretores, elege-se um filme para representar toda a sua obra, com o seu ano de lançamento ao lado: “A Dama no Lotação” (1978), para Neville D’Almeida ou “Amor Maldito” (1984), para Adélia Sampaio, por exemplo. Quando o nome de Afranio Vital – cineasta com o qual de Janeiro e Lobo fizeram o seu filme anterior, “Dois Nilos” (2024) – aparece na tela, vemos uma legenda que indica o seu próximo filme, a ser lançado apenas em 2027. Rodrigo de Janeiro e Samuel Lobo podem se dar por satisfeitos: um novo capítulo para o futuro da memória do cinema brasileiro foi escrito.

– Leandro Luz (@leandro_luz) pesquisa e escreve sobre cinema. Coordena a área de audiovisual do Sesc RJ, atuando na curadoria, programação e gestão de projetos em todo o estado do Rio de Janeiro. Exerce atividades de crítica no Scream & Yell e nos podcasts Tudo É Brasil, Plano-Sequência e 1 disco, 1 filme.
