entrevista de João Pedro Ramos
Banda de Niterói transforma trabalho, improviso e experimentação em um disco de 16 faixas feito literalmente com as próprias mãos
Fazer um disco independente no Brasil é uma espécie de exercício de teimosia, basicamente. Fazer um disco com 16 faixas, trabalhando de segunda a sábado em escala 6×1 e aproveitando os domingos para gravar na casa de um dos integrantes é levar essa ideia alguns passos adiante. Para Yuri & os Terráqueos, porém, parece ter sido menos uma escolha estética do que o jeito possível de fazer as coisas acontecerem.
“ParaJorge” (2026), segundo álbum da banda de Niterói, nasceu desse processo. As músicas vinham sendo escritas desde a época do primeiro disco, “Estranho Novo Mundo”, de 2023. Quando Yuri Terra (voz e guitarra), Lena (voz), Otavio Brunet (guitarra), Dru (bateria) e Wilson Neto (baixo) finalmente sentaram para decidir o que entraria no novo trabalho, havia 32 músicas disponíveis. Dessas, 16 foram organizadas e divididas em blocos de quatro músicas que conversam entre si.
O próprio Yuri resume o conceito a partir de uma experiência bastante concreta: a vida de quem precisa trabalhar para pagar as contas enquanto tenta, nas horas que sobram, construir uma carreira artística. As letras passam por trabalho, precariedade e pelas situações vividas no cotidiano. E a maneira como o disco foi gravado acaba sendo quase uma extensão natural desse assunto.
Boa parte das gravações aconteceu na casa de Otávio, usando sala, corredor e banheiro como espaços para os amplificadores. A bateria exigiu uma estrutura diferente e contou com a ajuda de outros músicos e de equipamentos da Barricada, associação de artistas e bandas independentes de Niterói da qual eles fazem parte. O resultado é um álbum que não tenta esconder as condições em que foi produzido. Pelo contrário: incorpora essa limitação como parte de sua identidade.
É justamente aí que aparece uma das melhores definições para Yuri & os Terráqueos: “rock de guerrilha”. A banda até tentou partir de referências sonoras específicas, mas percebeu durante o processo que o resultado não apontava para um único lugar. Em vez de perseguir um determinado timbre ou reproduzir uma estética de estúdio, eles foram trabalhando com o que tinham à disposição.
O processo também explica a própria trajetória do grupo. Otávio entrou na banda como fã de Yuri, e hoje fala do compositor como um dos grandes nomes da nova música do Rio de Janeiro. Wilson, que havia participado da formação inicial como baterista, voltou posteriormente para tocar baixo, instrumento que precisou aprender praticamente do zero para acompanhar as novas músicas. Lena também aparece como uma peça importante nessa formação, tanto pela voz quanto pelas ideias que leva para as canções.
Até a capa de “ParaJorge” nasceu de uma combinação de improviso, trabalho braçal e acaso. A ideia desenvolvida com Felipe Araújo, o Flip Mags, era usar uma câmera pública de trânsito de Niterói. Yuri passou um domingo correndo diante da câmera até entender seu atraso de aproximadamente três minutos e conseguir a imagem desejada. Algum tempo depois, a câmera foi roubada.
No fim das contas, talvez seja difícil encontrar uma imagem melhor para o disco. “ParaJorge” é um trabalho construído com tempo apertado, equipamento disponível, deslocamentos, domingos sacrificados e muita insistência. Um disco que se recusou a esperar pelas condições ideais para existir.
A seguir, Yuri Terra e Otávio Brunet falam sobre a construção de “ParaJorge”, a dificuldade de definir o som da banda, a cena independente de Niterói e o prazer e cansaço de fazer música na raça.
O “ParaJorge” é um disco grande para os padrões atuais. São 16 músicas e vocês chegaram a ter 32 para escolher. Como vocês chegaram a essa versão final?
Otávio Brunet: Quando a gente começou a pensar no disco, a gente nem sabia direito qual era o conceito. O Yuri tinha escrito muita coisa e acumulou. Eu lembro que começamos a contar as músicas e tinham 32. Era muita coisa. A gente colocou tudo no papel e se juntou na casa da Helena, que canta com a gente também. Começamos a pensar no que saía, no que entrava. As 16 saíram daquela reunião. Depois veio o trabalho de organizar e pensar em como contar uma história.
Yuri Terra: E a gente pensou também na vida como trabalhador, porque nós somos trabalhadores além de músicos. Tentamos criar histórias que colocassem na cara algumas precariedades que a gente vive e que muita gente vive. Na hora de montar o disco, pensamos por blocos. Se você parar para analisar, cada quatro músicas tem um universo ali dentro, e eles vão se ligando. A gente colocou muito tempo, dinheiro e amor nessa parada. Acho que por isso saiu tão legal.
E é curioso que vocês também não parecem muito preocupados em caber numa definição de gênero. Afinal, que som vocês fazem?
Yuri: Eu também não consigo definir. Quando as pessoas perguntam, costumo falar “rock suave”, mas acho que a gente já não está mais tão suave assim. Então estou me perdendo nas minhas próprias respostas.
Otávio: Eu também estava tentando entender isso durante a gravação. Normalmente, quando você começa um disco, pega referências de som, monta uma playlist e fala: “É isso aqui”. No meio do processo, a gente olhou para o que tinha separado e percebeu que não tinha nada a ver uma coisa com a outra. Acho que fomos para esse caminho porque também não temos recurso específico para fazer aquele som específico. Muito do que a gente faz nesses anos foi aprendendo na raça. Então entendi que a gente abraçou essa guerrilha de não ser tão criterioso. Usamos os equipamentos que tínhamos e fomos timbrando de uma forma que achávamos que ficaria legal. Acho que a gente é um rock alternativo, um rock de guerrilha.
E essa lógica aparece também na gravação. Boa parte do disco foi feita na casa do Otávio. Como foi esse processo?
Otávio: Uma grande parte foi feita aqui nessa sala. Foi caseiro mesmo. Colocamos amplificadores na sala, no corredor, um amplificador no banheiro, puxamos cabo e a técnica ficou aqui. O desafio maior foi a bateria. Tivemos o suporte de uma galera de um espaço cultural de Niterói, com o Hudson e o Bento ajudando na captação. Também gravamos dois dias na Barricada, que é uma associação da qual fazemos parte, uma ocupação que a gente vem construindo e onde conseguimos equipamentos para fazer gravações independentes. Era um desejo nosso fazer tudo com as nossas mãos. Ter essa experiência de aprender fazendo sozinho também.
Yuri: E foi um processo muito louco porque o Otávio mora no Rio e eu moro em Niterói. Eu trabalho de segunda a sábado. Então, várias vezes, todos os meus domingos do mês eu estava indo para a casa do Otávio. Minha única folga era passar o dia inteiro gravando. A gente já tinha produzido bem as músicas, ensaiado e tal. Não tinha pressa para lançar, mas eu estava com pressa porque queria muito lançar essa parada. E são várias bandas envolvidas dentro de uma banda só, então todo mundo precisa dividir o tempo entre projetos e trabalho. Fizemos tudo em seis meses nessa ida e volta para o Rio. Foi duro, difícil, cansativo, mas foi maneiro pra caramba. Depois bate aquela saudade.
Otávio, você entrou na banda como admirador do trabalho dela. Isso muda a maneira como você enxerga as músicas?
Otávio: Totalmente. Eu entrei na banda como fã do Yuri. A vida me apresentou a ele, e acho que ele é um dos melhores compositores que temos aqui no Rio. É muito foda poder trabalhar com uma música que já é muito boa. Você consegue tocar no violão e ela funciona. O Yuri sabe colocar uma imagem muito boa na letra, fazer você imaginar as coisas. Ele também tem umas métricas muito diferentes, junta as palavras de um jeito que eu não sei como faz.
No “ParaJorge” existem músicas que ainda têm uma identidade do Yuri de 2017, 2018, aquele jeito de tocar no violão, uma levada meio Pink Floyd. Mas também dá para perceber a evolução de todo mundo: do baterista, do Yuri como vocalista, compositor e guitarrista.E tem que falar do Wilson. Ele era o baterista no começo, saiu e depois voltou tocando baixo. Ele não sabia tocar as músicas, mas caiu para dentro. A gente estava sem baixista e precisava gravar. Eu gravava os riffs aqui e ele foi aprendendo. Hoje está tocando tudo.
Yuri: Foi uma transformação mesmo.
Otávio: E você vê uns vídeos nossos de 2018 e dá muito orgulho. E tem a Lena também, que para mim é uma das melhores vozes da nova música brasileira. A sensibilidade dela e as ideias que ela dá são muito importantes.

A capa de “ParaJorge” também parece ter essa mesma lógica de fazer com o que está disponível. Como vocês chegaram naquela imagem?
Yuri: A capa foi feita pelo Flip Mags. A gente estava pensando em como seria e ele trouxe a ideia de fazer alguma coisa com câmera de segurança. Eu tinha uma ideia de trabalhar com as câmeras dos ônibus, mas descobrimos que em Niterói existem câmeras públicas que qualquer pessoa pode acessar. Fomos para a rua, escolhemos o melhor ponto e começamos a fazer os testes. Tinha uma coisa engraçada: a câmera tinha um delay de uns três minutos. Então a gente teve que entender isso. Passei um domingo inteiro correndo na rua, na frente de um sinal e de uma câmera de segurança. Depois descobrimos que essa câmera foi roubada. Então a gente conseguiu pegar os últimos momentos dela.
Otávio: A câmera não existe mais.
Yuri: Pois é. A gente até tirou umas fotos dela destroçada. Mas fiquei muito feliz com o resultado. O Felipe mandou muito bem na capa, contracapa e encarte.
Otávio: O processo do Felipe também tem muito a ver com o disco. Ele gosta de se desafiar. Se precisa cortar vários papéis e ter mil pedaços de papel para fazer alguma coisa, ele vai lá e corta. Isso conversa com a ideia de trabalho e com quanto tempo e esforço leva para fazer alguma coisa.
O trabalho independente em Niterói e São Gonçalo também parece ser uma parte importante da identidade da banda.
Otávio: Acho que isso ajudou a reacender alguma chama em São Gonçalo e Niterói nos últimos anos. Tem muita banda boa aqui e muita gente fazendo coisa interessante. A Barricada é uma associação de artistas e bandas independentes. A gente está sempre movimentando um espaço no DCE, fazendo show, evento, ativação artística, oficina. Tem muita coisa pela frente.
Niterói está no mapa.
Yuri: Eu queria muito recomendar bandas de amigos justamente por isso. Tem muita banda boa aqui na cena de Niterói e São Gonçalo. A gente acaba se influenciando e buscando coisas novas. Acho importante também parar de olhar só para as referências de fora. Não é porque você cresceu ouvindo determinado som que precisa ficar preso nele. Você pode pegar a referência, estudar, misturar com outras coisas e criar seu próprio negócio.
E, depois de todo esse processo, o que vocês querem fazer com “ParaJorge” agora?
Yuri: A gente já tocou o disco inteiro ao vivo, na íntegra. Talvez tenha sido a primeira vez em muito tempo que fizemos isso. Mas vamos segurar um pouco porque é um disco muito grande para tocar ao vivo e nem sempre temos todo esse tempo disponível. Agora temos shows em Niterói e Juiz de Fora e outros que ainda vamos divulgar. E a gente também está com merch. No último show tinha camisa, boné, pano de prato e quadros inspirados nas músicas que eu mesmo fiz em casa. O CD também está chegando, agora numa versão bonitinha, com capinha. A gente vai fazendo as coisas assim. Na raça mesmo.
– João Pedro Ramos é jornalista, redator, social media, colecionador de vinis, CDs e música em geral. E é um dos responsáveis pelo podcast Troca Fitas! Ouça aqui.
