Três perguntas: Bruno Léo Ribeiro fala sobre o app B-Side Map, que mapeia turismo musical e memória

entrevista de Elsa Villon

Quando se prepara um roteiro de viagem, é bem provável que pontos turísticos relevantes estejam entre os destinos. E para quem gosta de música, mapear pontos históricos nem sempre é uma tarefa fácil, pensando sempre que nem tudo é sinalizado ou nem sempre o que nos é importante, de fato, está mapeado.

Pensando em suas viagens e seu apreço por música, tecnologia e memória, o diretor de arte Bruno Léo Ribeiro desenvolveu o B-Side Map, um aplicativo para web, iOS e Android para descobrir cidades pela música. Sob o lema “Viaje como um fã”, a ferramenta funciona como uma curadoria musical para quem, assim como Bruno, é devoto do turismo musical para além da Abbey Road.

Lançado em junho de 2026, o acervo reúne 700 locais em mais de 12 cidades diferentes pelo mundo. Foram cinco meses entre a ideação e a disponibilização do aplicativo, na qual a curadoria foi o processo mais longo: três meses e meio, segundo o realizador: “Fiz tudo sozinho, desenhando as telas para a experiência do mapa. O processo de aprovação na Apple levou uma semana, já o processo para o Android foi um pouco mais lento devido às exigências de teste do Google”.

E o projeto já angariou usuários: Bruno recebeu o retorno do músico e jornalista Felipe Machado, da banda Viper, que testou o B-Side Map em Londres. E avisa: há pretensões de expandir a curadoria com uma conexão com artistas para contarem quais são seus lugares importantes.

Abaixo, Bruno conta um pouco mais sobre a ideia e quais são os próximos passos:

Como e quando surgiu a ideia do projeto?
Toda vez que viajo sozinho, como na primeira vez para Londres para ver uma exposição do Pink Floyd, no Victoria and Albert Museum, começo a ir atrás das famosas “plaquinhas azuis”. Fui onde era o apartamento do Hendrix, onde o John Lennon morou, e comecei a anotar essas coisas. A sensação de ir nesses lugares é estranha e inexplicável. Toda viagem eu tento encaixar algo: em Nova York refiz a capa do “The Freewheelin’ Bob Dylan”; em São Francisco fui ao Record Plant, onde o Fleetwood Mac gravou o “Rumours”. Recentemente, em Londres, fui ao cemitério de Highgate ver o túmulo do George Michael e, em Los Angeles, fui ao Hollywood Forever me despedir do Chris Cornell. Postei nos stories e comentaram que minhas viagens eram as mais legais. Fiquei com isso na cabeça e pensei em criar um guia desses lugares. Comecei a mapear 12 cidades para começar: Londres, Nova York, Los Angeles, e no Brasil: São Paulo, Rio, Brasília (inspirado na “Rota do Rock” do Philippe Seabra, da Plebe Rude) e BH. Também incluí Liverpool, Manchester e Berlim por causa do Bowie. Tenho planos de expandir para Chicago, Detroit, Paris e Tóquio.

Há algum destino que você queira destacar como favorito?
Londres é o lugar fundamental porque engloba muitos artistas: Hendrix, Oasis, Blur, Beatles. Se alguém fosse fazer sua primeira viagem de turismo musical, Londres seria o lugar. Na pesquisa, descobri que Londres tem mais pontos até agora (112). Mas o app também serve para quem mora na própria cidade; São Paulo, por exemplo, tem 80 pontos que muitos moradores talvez não conheçam. Ainda quero incluir as escolas de samba de São Paulo.

Qual o motivo maior desse projeto existir para você e há pretensões de levar a proposta para a mídia física?
O Brasil é muito ruim de guardar suas memórias e eu quero que esse projeto ajude a não deixar a memória morrer. Tenho medo de que a tecnologia e o apagamento digital matem a história; por exemplo, o Netflix só foca em conteúdo recente. Quero usar a tecnologia para manter a história viva. Todo lugar tem uma história musical, como o apartamento do Adoniran Barbosa ou a parede de madeira onde o Fleetwood Mac gravou o “Rumours”. A música não está só nos discos, está nos lugares. Tenho vontade de, quando o projeto estiver robusto, editar livros específicos por cidade, como um guia de papel para mesa de centro. Quero levar para a mídia física e não deixar que a história se perca.

Bruno em um dos apartamentos em que viveu Jimi Hendrix

– Elsa Villon é jornalista de dados, especialista em Mídia, Informação e Cultura e colecionadora de vinis que está sempre no garimpo nas horas vagas. 

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