Homenagem: O Ricardo Spencer do velho testamento que eu conheci

texto de Chico Castro Jr.

No dia 23 de junho último, enquanto quem tem juízo estava batendo coxa nos arraiá da vida, eu me batia com um conhecido site de vendas de passagens aéreas, tentando planejar uma breve viagem de férias. Terminei comprando passagens para São Paulo, onde não pisava desde 2022 – fazer um roteiro cultural e tal – marcadas para o dia 22 de julho.

Na noite do dia 19 (três dias antes de minha chegada, portanto), meu velho amigo Ricardo Spencer morreu aos 49 anos, sozinho em um apartamento alugado no icônico Edifício Copan, no centro da capital paulistana, vítima de um mal súbito. Recebi a notícia por telefone, por volta do meio-dia da segunda-feira, 20, dada pelo meu amigo-irmão Zezão Castro.

Dois dias depois, assim que pouso em São Paulo, por volta das 13h da quarta-feira 22 de julho, minha senhora me mostra no Instagram o anúncio do velório de Spencer: na noite daquele mesmo dia, em um local chamado Funeral Home (ah, os anglicismos paulistanos), no bairro da Bela Vista.

Claro que fiz questão de ir lá me despedir do velho brother, a quem não via há muitos anos. Lá chegando, acompanhado de Carol, minha senhora, mais o casal de amigos em comum Martin Mendonça e Juana Diniz, residente na cidade, e que nos pegou no hotel, encontramos diversas outras caras conhecidas, todos evidentemente muito consternados, incluindo seu irmão e sua mãe – embora demonstrando muita força naquela hora tão dolorosa.

Me dirigi imediatamente ao caixão e lá estava ele: camisa do Esporte Clube Bahia, a barba meio rala, a expressão serena – como se estivesse dormindo e fosse capaz de abrir os olhos a qualquer momento e mandar um “Quolé, Chicão”, como o fez tantas vezes no período em que convivemos muito intensamente em Salvador.

O nó na garganta foi imediato e os soluços, que ainda não tinham vindo, se apresentaram na hora. Me refiz e fui ficar com minha senhora na área externa anexa. Minha cara devia estar péssima, pois mal saí da sala e fui abraçado pelo ator Luis Miranda, que também estava lá – e confesso que nem lembro se algum dia já fomos apresentados. Valeu, prezado.

Olho para as coroas de flores: uma enviada pela Netflix, outra pela Rede Globo, outra pelos amigos de um bar que ele costumava frequentar e mais algumas que não consegui identificar.

Úteros em Fúria na Concha Acústica do TCA, Salvador, 20.11.1994

O Ricardo Spencer que eu conheci ainda não era o celebrado diretor de estrelas para séries da Globo e dos streamings. Era um garoto que tinha imenso orgulho da avó Nilda, que amava indie rock, tocava guitarra em uma banda (Jupiterscope), gostava de beber e dar muita risada.

Apesar de amar o chamado “rock triste” (‘My Bloody Valentine é a banda da minha vida’, me disse ele certa vez), Spencer era uma pessoa muito alegre. Adorava contar causos hilários, coisas absurdas que só aconteciam com ele. Eu chegava a pensar que ele vivia em uma espécie de sitcom da vida real. Gênero que aliás, ele amava.

Entre as muitas coisas que ele me mostrou – e me fez amar junto com ele -, está a série That 70’s Show, que ele gravava em fitas VHS na TV por assinatura e depois me passava para assistir. Quando bebíamos, repetíamos as frases de efeito da série e ríamos desbragadamente, como dois tontos.

Nos conhecemos em 1993, nos shows insanos da Úteros em Fúria, banda formada por meus amigos de adolescência e que tiveram papel fundamental na cena local ao “inaugurar” a marcante geração noventista do rock baiano.

Naquele mesmo ano, ele convidou nossa galera – a “galera da Úteros” – para sua festa de aniversário na casa de sua família em Ondina, subindo ali o Morro do Gato em direção ao Shopping Barra, em Salvador. Desnecessário dizer que foi uma completa bagunça, os malucos se jogando (ou se empurrando) na piscina, entrando molhados pela casa, som alto. Enfim: caos e diversão.

Mas ainda não foi ali que nos tornamos próximos. Isso só aconteceria em 1997, no período que eu informalmente chamo de “Verão do Vícious“. O Vicious foi um bar super moderninho que abriu na Rua Cesar Zama, na Barra, em novembro de 1996.

Os garçons e garçonetes eram todos da cena rockeira local. Imagine, você pedia uma cerveja e Pitty (que aliás, também estava no velório) vinha te servir. Você pedia um drinque e Fábio Cascadura agitava o shaker. Havia uma pista de dança, cujos DJs eram o próprio Spencer, Messias Bandeira (brincando de deus) e outros.

Típico fenômeno de uma estação, o Vicious só durou aquele verão, mas formou casais (conheço um que está junto até hoje) e formou galeras: parte da galera da Úteros se agregou definitivamente ao grupo de Spencer & cia. Entre eles, estava eu. E a conexão com o gordinho foi instantânea.

Logo estávamos trocando mixtapes: eu gravava para ele clássicos obscuros da minha coleção de vinis, ele gravava para mim os lançamentos então mais recentes do indie rock – coisas que hoje são consideradas clássicas. Tenho uma dessas até hoje, que ele intitulou de “Summerless Tape”.

Além do That 70’s Show, ele me fez amar o Stereolab, o Flaming Lips, o Yo La Tengo, o Pulp e os cariocas do PELVs, entre outras grandes bandas. E pasmem: também João Gilberto e Tom Jobim, pelos quais ele era apaixonado.

Entre 1997 e 2004 ou 2005, tomamos inúmeros porres, ouvimos inúmeros discos, vimos um monte de filmes, fomos em muitos shows. Uma vez ele levou a mim, Carol e Zezão para uma sessão da montagem de “Ensina-me a Viver”, com sua avó Nilda como a velhinha pirada do filme clássico, no Teatro do Sesi Rio Vermelho. Depois, ele nos levou para cumprimenta-la no camarim, e ela foi muito doce com todos nós.

Para retribuir, coloquei para ele assistir pela primeira vez um filme da dupla de comediantes maconheiros Cheech & Chong (“Queimando Tudo”, 1978). Eu, ele e Zezão passamos mal de tanto rir, chegamos a incomodar os vizinhos.

De outra vez, participamos de uma guerra de almofadas no aniversário de um outro amigo que não lembro agora. Como estávamos quase sem “munição” em nossa trincheira, fiz uma manobra “arriscada”, rolando pelo chão para resgatar umas três almofadas perdidas no meio campo de batalha, as quais fui arremessando contra o inimigo, enquanto dava cambalhotas no meio da sala. Spencer rolava de rir no chão. “Porra, Chicão foi ninja”! (Nessa época, minha coluna ainda estava intacta).

Quando a banda Stereolab veio ao país pela primeira vez no ano 2000, Spencer a acompanhou em todas as suas apresentações. Como não pude ir, ele me trouxe um autógrafo da nossa musa, a cantora Laetitia Sadier, o qual guardo como um tesouro até hoje, dentro do meu CD preferido desta cultuada banda franco-britânica.

Ao longo dos anos 1990 / início dos anos 2000, Spencer tocou em bandas como a citada Jupiterscope (indie rock raiz) e Guizzzmo (projeto pós-Úteros em Fúria de Vandex e Apu Tude). Quando foi estudar cinema em Los Angeles, integrou a Mutation Lab, junto com os amigos baianos Daniel Wildberger e Liz Bee, que também estavam lá. Quando voltaram à cidade, esta última chegou a fazer alguns shows no saudoso Calypso.

Em 2003/2004, Pitty se mudou definitivamente para São Paulo, iniciando a bem-sucedida carreira no mainstream que segue até hoje. A reboque, ela levou, além dos músicos que a acompanhavam – entre eles, o guitarrista Peu Souza, morto em 2013 -, Ricardo Spencer, para dirigir seus clipes e vídeos de show.

Foi aí que a carreira do gordinho deslanchou e acabamos perdendo contato. Acho que eu não o via desde 2005, ou por volta disso. Nos falamos rapidamente por telefone quando o ator Wilson Melo morreu, em 2010. Amigo parceiro de cena de sua avó, Wilson e Spencer era muito próximos, boêmios incorrigíveis que ambos eram.

Me ressinto do afastamento que tivemos nos últimos vinte anos. Sou péssimo em manter amizades à distância. Sou do tempo em que um único telefonema interurbano poderia te custar um rim – isso deixa marcas.

Foi uma triste coincidência reve-lo apenas no caixão, justamente no dia em que cheguei em São Paulo para curtir as férias. Enquanto contemplava o vazio e tentava lidar com aquela dor, Pitty surgiu entre a pequena multidão de amigos que bebiam cerveja, fumavam e choravam.

Me reconheceu encostado em um canto e me deu um abraço. “Você está morando aqui?”, ela me perguntou.

Expliquei que tinha praticamente descido do avião. “Foi uma triste coincidência”, acrescentei. “Você sabe que dia é hoje?”, ela perguntou.

“22 de julho”? “Pois é, aniversário de Peu Souza. Olha que louco. Lembre disso quando for escrever sobre Spencer”, ela pediu.

Valeu, gordinho. Nosso tempo talvez tenha sido curto, mas valeu cada segundo, pro resto da vida.

PS: Se quiser saber mais sobre o Ricardo Spencer do velho testamento, vá até ao site Bahia Rock e leia este texto de Ricardo Cury, “We’re gonna make a sound”, sobre o tempo em que este último tocava bateria na Jupiterscope.

Texto publicado originalmente no jornal A Tarde, de Salvador

Seleção: 11 clipes dirigidos por Ricardo Spencer

 

Chico Castro Jr. é jornalista e editor do Caderno 2, do jornal A Tarde, de Salvador, Bahia.

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