entrevista de Alexandre Lopes
Para quem acompanha o underground nacional há algum tempo, a Fuzzly não representa exatamente uma novidade. Formada em Cuiabá (MT) em 2001, o trio percorreu caminhos próprios dentro do rock pesado, atravessando diferentes fases da cena independente, mudanças na formação e transformações na maneira de produzir, distribuir e consumir música.
A formação atual reúne Dark Jordão (guitarra e voz), Rafael Arruda (bateria) e Hugo Falcão (baixo), sendo que Dark e Rafael estão presentes desde o início. Mais de duas décadas de atividade representam uma longevidade bastante incomum para uma banda, especialmente para uma que nasceu longe dos principais centros da indústria musical brasileira.
São cinco lançamentos no currículo: os EPs “Fuzzly” (2003) e “Middle of Nothing” (2004) e os álbuns “Like a Flame of Vulcaine” (2006), “Vol. II” (2014) e “From the Ashes” (2019). Ao longo desse percurso, vieram ainda passagens por festivais como Bananada, Goiânia Noise, DoSol e Abraxas, além de shows na Argentina e no Chile.
Nesta entrevista ao Scream & Yell feita no mês de agosto antes do show da Fuzzly abrindo para o Pentagram no Fabrique Club, em São Paulo, Dark Jordão e Rafael Arruda falam sobre a origem do grupo, as transformações do underground, o que significa manter uma banda independente por mais de duas décadas e a relação com o stoner.
A Fuzzly existe desde 2001 e atravessou diferentes momentos da cena independente brasileira, do underground dos anos 2000 até a consolidação do stoner no país. O que mudou na banda ao longo desse período e o que continua exatamente igual?
Mudou quase tudo ao redor; a cena, as formas de produzir e divulgar música e nós mesmos, como pessoas e músicos. A Fuzzly atravessou formações, discos, turnês e diferentes fases ao longo de mais de duas décadas. O que não mudou foi a vontade de tocar. Desde o início, sempre fizemos nosso próprio caminho, construindo parcerias e seguindo sem saber exatamente onde aquilo nos levaria. Hoje existe mais experiência e outra perspectiva, mas a essência continua a mesma: fazer música juntos e manter a banda em movimento.
Desde “Like a Flame of Vulcaine”, passando por “Vol. II” e “From the Ashes”, a Fuzzly passou por mudanças na formação e algumas nuances diferentes no som, mas sempre com uma relação forte em riffs, psicodelia e peso. O último disco saiu em 2019, mas vocês estão compondo para um próximo disco?
“From the Ashes” saiu em 2019, pouco antes da pandemia, e acabou não tendo a turnê e a divulgação que imaginávamos. Ainda assim, continuamos compondo. Tudo o que vivemos nesses anos, bandas com quem dividimos palco, lugares por onde passamos e novas referências, inevitavelmente tudo entra no nosso som, mas sempre filtrado pela identidade da Fuzzly, como riffs pesados, atmosferas hipnóticas e psicodélicas e uma abordagem distinta. Ainda estamos definindo a forma do próximo trabalho e existe a possibilidade de lançarmos algo no próximo ano.
Vocês começaram quando a internet ainda não tinha o peso que tem hoje. Como era construir uma banda de stoner naquela época, em comparação com a realidade atual?
Nunca tivemos muita preocupação com o rótulo “stoner”. Quando começamos, nossas referências estavam muito ligadas ao grunge, ao punk e ao que circulava ao nosso redor naquele momento. Outras influências foram entrando naturalmente, a partir das bandas, amizades e cenas que encontramos pelo caminho. No início dos anos 2000, uma banda se construía de outra maneira, no boca a boca, shows, zines, fitas, discos, cartazes na rua e no contato direto entre as pessoas. Hoje o acesso é imediato e a quantidade de informação é enorme. A cena continua viva, o que mudou radicalmente foi a forma como a música circula e como as pessoas chegam até ela.
O underground brasileiro vive de ciclos. Vocês sentiram momentos em que parecia impossível manter a banda ativa? O que fez a Fuzzly continuar?
Manter uma banda independente por mais de 20 anos exige insistência. Começamos com 14, 15 anos; enquanto muita gente da nossa idade passava as férias viajando com a família ou de várias outras formas, nós estávamos indo tocar na Argentina. Depois vem trabalho, responsabilidades e todas as pressões da vida adulta. É natural que muita gente pare no caminho. A Fuzzly continuou porque sempre encontramos uma forma de seguir. Enquanto houver vontade de fazer música, a banda vai existir.
O show de vocês abrindo para o Pentagram também pode ser visto como um encontro entre duas gerações de uma mesma linhagem de música pesada. O que vocês gostariam que alguém que nunca ouviu Fuzzly percebesse ao assistir à banda antes do Pentagram?
Antes de qualquer definição, queremos que a pessoa sinta a música. A Fuzzly nunca foi sobre se encaixar em um rótulo, mas sobre construir uma linguagem própria a partir de tudo o que atravessamos nesses mais de 20 anos. Isso aparece nos riffs, na psicodelia, no peso e, principalmente, na energia ao vivo. Se alguém chegar sem conhecer a banda e sair do show querendo ouvir mais, cumprimos nosso papel.
Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br.
