texto de Davi Caro
Campanhas de marketing para novos filmes nunca foram tão complexas. Hoje em dia, o ato de acompanhar o lançamento de trailers de longa-metragens é um trabalho de gerenciamento de hype: por vezes, as prévias fazem surgir expectativas ora igualadas, ora frustradas, e, ocasionalmente, superadas. Todavia, não são poucos os filmes que, hoje em dia, subvertem completamente qualquer tipo de impressão que o material que o antecede acaba criando. Basta observar a já considerável folha corrida de Jane Schoenbrun, que fez de seu “Eu Vi o Brilho da TV” (2024) uma sensível e pungente dissertação sobre identidade, pertencimento e traumas, disfarçado de thriller adolescente baseado em nostalgia.
“Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo & Morte” (“Teenage Sex & Death at Camp Miasma”, 2026), mais novo projeto de Schoenbrun, é um filme que se debruça sobre temas bastante parecidos. E isso acontece por meio do aprofundamento em questões relacionadas à aceitação, ao questionamento do pré-estabelecido, e à liberdade de existir como se é – ainda que boa parte do público menos atento possa pensar se tratar de um filme de terror slasher como qualquer outro ao ver os trailers. Neste caso, o espectador se vê compelido a fazer uma escolha: a de se deixar levar pelo que o filme aparenta ser, e se frustrar; ou de embarcar na jornada proposta pela direção, e se deixar intrigar pelos desdobramentos e reviravoltas (devidamente temperadas com sangue e grandes sacadas de humor) representadas na tela. E dá para dizer que, ainda que certamente menos pessoas optem pela segunda alternativa, trata-se de uma experiência marcante, e recompensadora por mais de um motivo.

Mas é claro que o arquétipo do cinema de horror oitentista serve seu propósito aqui, e vai além de um simples pano de fundo. Pelo contrário: o roteiro funciona como seu próprio comentário em relação às tradições perpetuadas à exaustão no gênero slasher, do icônico vilão transformado em caricatura, ao impulso capitalista que rege o lucrativo (e preguiçoso) mercado das continuações e reboots, passando pelas regras não-escritas que perpetuam valores ultrapassados e estreitos em sua hiper-sexualização forçada e misoginia mal e porcamente velada. Tudo isso embalado em uma narrativa extasiante, na qual Schoenbrun evita mimar seu espectador em prol de uma viagem imersiva e onírica.
Kris Williams (Hannah Einbinder) é uma jovem cineasta queer que é contratada para dirigir o reboot da franquia “Acampamento Miasma”, que se iniciou nos anos 1980 e que cravou no imaginário popular a figura do personagem Little Death – a despeito de um subtexto descaradamente transfóbico – e que se desgastou ao longo dos anos, à medida que sequências cada vez mais redundantes se acumulavam nos cinemas e nas prateleiras de VHS. Embora tenha total consciência de que sua contratação visa apelar para o gosto de uma geração menos disposta a tolerar um roteiro abertamente discriminatório, Williams possui uma conexão com o longa original que remonta à sua infância. Esta mesma disposição e afeição para com o filme original acabam fazendo com que a jovem busque pela reclusa protagonista (e “final girl”) do primeiro “Acampamento Miasma”: Billy Presley (Gillian Anderson), que agora habita a antiga locação de seu trabalho mais reconhecido, no Pacífico Noroeste dos EUA.
Ao estabelecer contato real com a intérprete da heroína que viu no filme, no entanto, Kris se vê tomada de sentimentos conflitantes: embora Presley, que se distanciou de Hollywood após acontecimentos traumáticos no set de gravação de “Acampamento…”, rejeite o ponto de vista mais “acadêmico” e “problematizador” de Williams, a jovem começa a se convencer de que seu reboot deve contar com o retorno da protagonista original. E, conforme a relação entre as duas começa a se estreitar e novos laços de intimidade se formam, a obsessão longeva de Billy pelo assassino que a perseguiu nas telas (aqui vivido por Jack Haven) se revela à medida que as sangrentas mortes outrora fictícias passam a acontecer na vida real.
Esteticamente falando, “Acampamento Miasma” é um primor visual, alternando-se entre tomadas abertas lindíssimas e takes onde jatos e mais jatos de sangue e vísceras tomam a dianteira. Não são poucos os acenos à acidentada história de franquias como “Halloween” e “Sexta-Feira 13” (a própria caracterização do sanguinário Little Death é claramente baseada na do assassino Jason Voorhees). Esse equilíbrio entre o idílico e o visceral acaba casando muito bem com a natureza oblíqua e passional do roteiro, que provoca reflexões do tipo que permanecem com o espectador muito após o fim da sessão. E mais: trata-se do tipo de filme que vale ser visto várias vezes, tamanha a sutileza de determinados detalhes e o encaminhamento sublime da trama – são quase duas (praticamente imperceptíveis) horas de um enredo que guarda inúmeras surpresas e momentos tocantes, especialmente em seu trecho final.
E muito há de se falar da genial escolha das protagonistas: Hannah Einbinder já havia provado seu talento na premiada série “Hacks”, e, aqui, seu potencial como uma das mais talentosas atrizes de sua geração é reafirmado com glória. Do outro lado do mesmo prisma, Gillian Anderson vive com abandono um papel que, embora bem distante da personagem com a qual a atriz é mais associada – a cética agente Dana Scully, de “Arquivo X” – é conduzido brilhantemente, tratando o arquétipo da sobrevivente final com minúcia e trazendo um nível poucas vezes visto antes de comentário acerca dos modelos seguidos por Hollywood no gênero de horror. Juntas, as duas intérpretes principais esbanjam química, e as diferenças geracionais servem como um indicador das muitas mudanças pelas quais o cinema, mainstream ou underground, ainda há de viver e representar na vida de seu público. E, ainda que os devidos méritos caibam ao elenco de apoio – sobretudo ao ator Kevin McDonald, que interpreta um recepcionista de hotel que rouba as cenas das quais participa – Jack Haven incorpora à perfeição a figura do Little Death, indo além dos flashbacks de sua história de origem e alcançando um admirável nível de redenção.
Jane Schoenbrun claramente mostra ter suas assinaturas como cineasta devidamente concretizadas aqui – vale citar também a trilha sonora, assinada pelo parceiro criativo Alex G (que também é responsável pela sonorização de “Eu Vi o Brilho da TV” e de “We Are All Going to the World’s Fair”, primeiro longa de Schoenbrun). Pode soar clichê dizer que “Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo & Morte” é um filme para sentir, mais além de ser assistido; no entanto, não é cedo demais para dizer que se trata de um dos melhores filmes do ano até agora, totalmente merecedor da ótima recepção que conseguiu mundo afora. Afinal de contas, não é todo dia em que um filme consegue a proeza de aglutinar um elenco tão coeso, uma realização tão rica, e uma história que entrega muito mais do que um título tão direto pode indicar.

– Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.
