texto de Davi Caro
“O Enigma de Outro Mundo” (“The Thing”) é um dos melhores filmes de todos os tempos. O argumento, pode-se dizer, se sustenta simplesmente por ser tão difícil caracterizar o longa de John Carpenter, lançado em 1982 com recepção impiedosamente negativa. Ficção científica, terror e thriller psicológico se mesclam em uma obra sobre paranóia, alienação e isolamento, travestida de filme de monstro. Mais: o longa, embora revolucionário em sua época e reverenciado em retrospecto a ponto de haver merecido uma prequela medíocre em 2011, tem inspiração direta no conto “Who Goes There?”, escrito por John W. Campbell Jr. e datado de 1938. Assim como a história original, levaria um tempo até que “Enigma” fosse reconhecido pelo trabalho que é, e encontrasse sua sólida base de admiradores – que, como acontece com o restante da filmografia de Carpenter, só cresce a cada ano – responsável por transformar a produção em um clássico cult.
“Moebius”, filme argentino lançado em 1996 sob a direção de Gustavo Mosquera, tem muito em comum com o longa protagonizado por Kurt Russell. Claro que, à primeira vista, a comparação pode parecer incoerente: as paisagens gélidas da Antártida são substituídas pelos claustrofóbicos trilhos do metrô da capital Buenos Aires; o herói de ação sisudo e mal-humorado dá lugar ao cético e estoico topólogo Daniel Pratt (Guillermo Angelelli); e, passando longe de um roteiro focado em criaturas extraterrestres, o enredo se debruça sobre questionamentos filosóficos filtrados pelas lentes da ficção científica moderna. E não por acaso: assim como o longa de Carpenter, “Moebius” também se inspira (mais diretamente do que o filme americano, importante dizer) em uma história anteriormente publicada. Trata-se de “A Subway Named Moebius” (1950), do astrônomo norte-americano Armin Joseph Deutsch. Com a ambientação e os personagens devidamente adaptados, a transposição do conto acabou preservando a ideia original ao mesmo tempo em que resultou em uma obra que fala, e existe, por si.

Em um aparentemente normal dia de Março, um operador do sistema de metrô de Buenos Aires se dá conta de que um trem inteiro, com seus passageiros a bordo, desapareceu no sistema de túneis sob a cidade. A fim de evitar o pânico no caso do sumiço vir a se tornar conhecimento público, os principais responsáveis pelo serviço – chefiados pelo diretor Marcos Blasi (Roberto Carnaghi) – optam por chamar a cavalaria. E ela se apresenta na forma de Pratt, que, apesar do ceticismo daqueles que o convocaram, busca pelos planos originais das vias. Para isso, no entanto, ele precisa recorrer à ajuda de um antigo professor universitário, Hugo Mistein (Jorge Petraglia), que está de posse dos documentos. Esta busca, entretanto, acaba levando Daniel em uma jornada que percorre as minúcias dos estudos do mestre universitário, e revelam um plano que visa reconfigurar não as vias de transporte público – mas aquelas da percepção humana em si.
“Moebius” surpreende por inúmeras razões, e a primeira delas é seu valor de produção: embora contasse com distribuição da obscura Fama Films, o projeto se iniciou como o trabalho inaugural da Universidad del Cine de Buenos Aires. O acréscimo de Mosquera, que já havia colhido devidos frutos graças a seu desempenho em “Lo Que Vendrá” (de 1988, no qual dirigiu o músico Charly García) certamente fez toda a diferença. Muito por causa disso mesmo, o esmero na construção de cenas e ambientações é palpável, de espertos truques de câmera a tomadas que contornam restrições orçamentárias em prol de alimentar a imaginação do espectador. A sonorização, um trabalho de Mariano Nuñez West, é calcado em batidas eletrônicas e em sintetizadores – algo que acaba casando bem com os ruídos rítmicos típicos das locações nas quais muito do filme acaba se passando.
O elenco é outro assunto que merece destaque: mesmo nomes com rápidas aparições acabam transbordando entrega ao enredo, especialmente em se tratando da jovem Abril (Annabella Levy), que acaba dominando as cenas nas quais participa com carisma ímpar. Já o duo central do filme é responsável por algumas das mais impagáveis cenas de antagonismo já vistas em produções do tipo: sério e aparentemente sereno em grande parte das tomadas, o Daniel Pratt de Guillermo Angelelli é o perfeito contraponto do surtado Marcos Blasi vivido por Roberto Carnaghi. Enquanto um entende que a solução para o impenetrável enigma reside em buscar aquilo que, justamente, foge ao óbvio, ao chefe do serviço de trens só resta esbravejar, especialmente frente à platitudes estapafúrdias de ciência. São essas algumas das interações que, ao fim, encaminham a produção em um ritmo até que bastante acelerado para uma trama deste tipo – mesmo que nada se encerre sem soluções, não importando o quão complexas elas sejam.
Em segunda análise, a comparação mais precisa a ser feita com “Moebius” talvez não seja com “Enigma”, e sim com um outro longa que, aliás, é posterior ao dirigido por Gustavo Mosquera: as semelhanças com “Donnie Darko” (de Richard Kelly, 2001) – do forte teor psicológico à cooptação de valores científicos em prol de uma trama ao mesmo tempo coesa e complexa – se tornam cada vez mais evidentes quanto mais se assiste (e se pensa em) “Moebius”. É importante dizer, porém, que o filme argentino se coloca a parte de quaisquer outras referências e reverências, sejam elas diretas (como ao conto original de Joseph Deutsch) ou indiretas. O nível de cuidado investido na produção foi tamanho que muitas das estações de metrô da capital argentina foram utilizadas como locações para outros pontos – de modo que o sistema acaba ganhando uma atmosfera quase distópica, ou surreal, em sua representações.
Ao longo dos anos, “Moebius” acabou angariando para si o mesmo tipo de sucesso cult que tantos de seus antecessores e sucessores terminaram tendo. A única diferença, no caso, está no fato de que tanto “O Enigma de Outro Mundo” quanto “Donnie Darko” estão em streaming, ao mesmo tempo em que o longa de Mosquera nunca sequer recebeu lançamento oficial no Brasil. Atualmente, a boa notícia é que uma versão remasterizada do longa, com um trabalho impressionante de restauração, pipocou recentemente no YouTube. Ainda assim, “Moebius” ainda carrega consigo a lástima de, ainda, não ser tão reconhecido quanto merece – oxalá agora, três décadas após seu lançamento, a produção possa, finalmente, emergir dos subterrâneos frios, cheios de trilhos, em busca da iluminação que sua trama busca, justamente, explorar com tanto êxito.

– Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.
