No Ibirapuera, C6 no Rock faz espetáculo da nostalgia do rock nacional com Titãs, Blitz, Ira!, Plebe, Marina, Paralamas e “Legião”

texto de Bruno Capelas
fotos de Belmilson Santos / Scream & Yell

Qualquer fã de rock brasileiro sabe que 1986 foi um ano e tanto, marcado por álbuns como “Selvagem?”, “Dois”, “Cabeça Dinossauro” e “Vivendo e Não Aprendendo”, só para citar alguns. Mais do que apenas serem grandes discos, todos esses trabalhos têm canções que não só seguem tocando nas rádios, como também costumam (ou costumavam) ser a espinha dorsal dos repertórios de shows das bandas que os criaram. São músicas que vão ecoar por onde quer que seus artistas passem – e em muitos casos, vários desses grupos ainda andam em bando, tocando nos mesmos palcos, festivais, casas de show e festas de prefeituras Brasil afora.

Sendo assim, não dá para dizer que o C6 no Rock, realizado nos dias 22 e 23 de agosto no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, tenha lá uma proposta inovadora. Ainda que traga certo verniz curatorial, ao pedir que artistas como Paralamas, Blitz, Plebe Rude ou Marina Lima toquem seus discos clássicos na íntegra (ou quase), a ideia não fica lá tão distante de muitos festivais retrô espalhados pelo País. O mesmo vale para a ideia de reunir diferentes artistas num mesmo palco para tributos a nomes como Cazuza ou Rita Lee. A sensação de estranheza com a iniciativa geral aumenta ao se considerar que a dobradinha por trás do festival (a produtora Dueto e o banco C6) é a mesma que hoje organiza um dos eventos mais interessantes do calendário atual – o C6 Fest.

No gramado do Parque do Ibirapuera, porém, foi fácil entender o motivo da empreitada: a nostalgia, essa pantera, vende que é uma beleza. Se o C6 Fest ganha pontos (e clientes) pela novidade e pelo status, o C6 no Rock parece cair como uma luva na estratégia do banco para cativar um público mais velho, mais rico e… saudoso das descobertas da juventude. Estratégias de negócio à parte, fato é que os dois dias do festival tiveram excelente adesão de público desde suas primeiras horas – algo que o C6 Fest nem sempre costuma ter. Com a originalidade como fator fora de questão, restava então saber se o que aconteceria no palco faria jus às lembranças do tempo.

C6 no Rock – Dia 1 (Sábado)

No sábado, 22, quem abriu os trabalhos debaixo de sol forte foi a Plebe Rude. Motivada pelo relançamento em vinil de “O Concreto Já Rachou” (com direito a um compacto extra com faixas demo), a autointitulada “mais punk das bandas de Brasília” teve a missão de reviver seu álbum de estreia no palco do Ibirapuera. De todos os grupos, foi quem teve o “maior desafio” – vale lembrar que, originalmente, “Concreto” era um mini-LP com apenas sete faixas. “Johnny Vai à Guerra”, “Sexo e Karatê” e “Seu Jogo” deram o tom inicial da apresentação, com a já clássica divisão de vocais entre o membro fundador Philippe Seabra e o Inocentes Clemente (que desde 2004 substitui outro membro fundador, Jander “Ameba” Bilaphra), mais que recuperado. “Ele (não é da formação original, mas) estava lá no Napalm em 1983!”, lembrou Seabra, ao elogiar o passado punk do companheiro.

Plebe Rude

Na sequência, um pequeno interregno por canções de outros álbuns – caso de “Censura”, de “Nunca Fomos Tão Brasileiros” (1987), ou de “Pressão Social”, lembrada como “a primeira música do primeiro ensaio” da Plebe. Em “Este Ano”, ao mostrar que os punks também amam, Seabra desafinou bonito – mas compensou com a presença ao vir até a grade em “Proteção”. Também fizeram bonito os hits “Minha Renda” e “Até Quando Esperar”, a despeito de terem sido esticados ao máximo para ajudar o grupo a preencher sua hora de show. Além disso, cansou um bocado a insistência do grupo em se afirmar perante os colegas de geração – “a gente é punk”, disse Seabra, ignorando o fato de se apresentar num festival patrocinado por um banco.

Paulo Ricardo

Se a Plebe falhou ao tentar provar coerência, se deu melhor quem nem se deu a esse trabalho. Vestindo sobretudo de couro verde, calça justa e óculos escuros, Paulo Ricardo Medeiros subiu ao palco cheio de marra para relembrar os tempos de “Rádio Pirata Ao Vivo”, um dos (cinco) discos mais vendidos da história da música brasileira. Por questões legais, o show não pode ser anunciado com o nome de sua antiga banda – mas os arranjos estavam todos lá, com timbres de teclado feito papel carbono e um repertório deliciosamente anacrônico. Paulo até tentou atualizar algumas letras (“um monte de gente corrupta envolvida”, cantou em “Alvorada Voraz”, que apareceu logo depois da abertura com “Revoluções Por Minuto”), mas o público parecia mais interessado mesmo em cantar tudo como se ainda fosse 1986.

Paulo Ricardo

Com o sol inclemente, o figurino de Paulo já provocava risos – e a situação ficou ainda mais cômica com a dupla “Estação do Inferno” e “Sob a Luz do Sol”. “Nossa geração cresceu na ditadura militar. Quando chegamos à maioridade, queríamos viver tudo. Éramos vampiros urbanos, tudo que a gente não queria era estar sob a luz do sol”, chegou a dizer o cantor. “Naquela época, chamavam isso de… dark!”, emendou PRM, antes de atacar “Pr’esse Vício” e “Juvenília”, ambas do álbum de estreia “Revoluções Por Minuto” (1985). Foi uma boa saída: ao longo de sua hora, a banda acabou executando os dois primeiros discos na íntegra, aproveitando a sobreposição do repertório.

Poderia dar bastante errado, é fato, mas de tão cafona – e tão dedicado à nostalgia –, o espetáculo de Paulo Ricardo acaba dando a volta e se tornando divertido. O ápice desse sentimento surge não só na versão de “London London” (“É graças a essa música que o disco ‘Rádio Pirata’ existe”, lembrou o vocalista, já que uma versão pirata da canção, tocada na Rádio Transamérica, virou um sucesso tão grande que praticamente obrigou a banda a lançar o segundo disco…. ao vivo), mas também na execução de “Flores Astrais”, em que PRM relembra os “iê iô” de Freddie Mercury, ou na lembrança do tema prog “Naja”, no qual a ausência de vocais dá espaço para o vocalista usar e abusar dos trejeitos de rockstar. Para fechar, sem qualquer desperdício, ainda teve “Olhar 43”, com repetidos gritos de “tesão”, e uma versão jukebox de “Rádio Pirata”, com direito a citações de Doors, Beatles e Rolling Stones. Marty McFly não faria melhor.

Meia hora depois, com o clima já mais ameno, quem subiu ao palco foram os Titãs – ou melhor, o que sobrou deles após quatro décadas. Única banda do festival a executar seu disco na ordem e na íntegra, o agora trio paulistano repetiu mais uma vez a homenagem a “Cabeça Dinossauro” – como fez em 2011, em 2016 e também já vinha fazendo nos palcos neste mesmo ano (como já lido aqui mesmo no Scream & Yell em abril). Foi uma apresentação de altos e baixos. De um lado, houve Tony Bellotto esquecendo a letra de “Família” e tendo performances vocais claudicantes em “Igreja” e “Estado Violência”, num claro exemplo de acúmulo de função. Ah, o capitalismo selvagem.

Titãs

Do outro, a voz rouca de Branco Mello após inúmeras questões de saúde passou longe de soar como defeito, dando ênfase e perspicácia às mensagens da faixa-título, de “Dívidas” e de “Tô Cansado”. Entre os dois, Sérgio Britto tomou para si o lugar de protagonista da banda, reservando-se o trabalho de ir à beira do palco para incentivar o público em “AA UU”, “Polícia” ou “Porrada”. Coube a ele também o desafio de cantar o trava-línguas de “A Face do Destruidor”, uma canção TikTok avant la lettre. Outro lado-B do disco, “O Que”, acabou sendo um dos melhores momentos do show: executada numa versão suingada que ressaltou sua função dançante, a faixa concretista acabou sendo uma das mais cantadas pelo público. Pena que o efeito teve duração rápida: após a canção, o grupo se despediu do palco, voltou só com muita insistência para cantar “Flores” e deixou a ribalta com ainda 10 minutos disponíveis de show. Anticlimático.

Os Paralamas do Sucesso

Com a noite já começando e o telão do Auditório Ibirapuera funcionando direitinho, os Paralamas do Sucesso chegaram na capital para celebrar “Selvagem?”. O começo do show teve gosto de dèja-vú. Afinal, há menos de três meses, Herbert, Bi e Barone estavam diante deste mesmo gramado, num festival patrocinado pelo mesmo banco, com curadoria do mesmo irmão de Herbert, tocando canções como “A Novidade”, “Selvagem” ou “Alagados” – todas pertencentes ao repertório do álbum de 1986. Aos poucos, porém, o gosto estranho se transformou num sorriso. Para os fãs de carteirinha, o show valeu pela chance raríssima de ver o grupo tocar lados-Z como “O Homem”, “A Dama e o Vagabundo” ou “There’s a Party”, pouquíssimo executadas nas últimas três décadas, ou mesmo os semi-hits “Melô do Marinheiro” e “Teerã”, também costumeiramente subestimadas nos setlists do trio. Pena que nem todo mundo aproveitou: nas faixas menos conhecidas, boa parte do público preferiu colocar a fofoca em dia.

Os Paralamas do Sucesso

Ao longo de meia hora, todas as faixas de “Selvagem?” apareceram no show – exceção feita às versões dub presentes no disco original, variações sobre os mesmos temas. Para completar a meia hora, seria interessante se o grupo decidisse enveredar apenas por outras canções da época. Não foi o que aconteceu: no tempo que sobrou, Herbert, Bi e Barone resolveram aproveitar o greatest hits que já andam tocando na turnê “Paralamas Clássicos”. De novo, déjà-vu – mas é difícil reclamar de uma banda com a entrega que o grupo tem em números como “Lanterna dos Afogados” (com belo solo de Herbert), “O Beco” (tour de force instrumental), “Uma Brasileira” ou “Lourinha Bombril” (do álbum “9 Luas“). Para encerrar, duas pérolas pop direto de 1984, com direito ao telão aproveitando as belas fotos de Maurício Valladares: “Óculos” e “Meu Erro”, sacramentando o melhor show do festival.

Beto Lee e Fernanda Abreu

Para encerrar o sábado, a curadoria do C6 no Rock apostou num tributo a Rita Lee, juntando novos e velhos nomes. Liderada pelo herdeiro Beto Lee, a banda de apoio impunha lá certo respeito, com direito a Michelle Abu na percussão e o veteraníssimo Lee Marcucci, do Tutti-Frutti, no baixo. Como acontece na maioria dos tributos, porém, os resultados foram mistos – ainda mais ao se considerar a missão de representar uma obra cheia de diferentes faces como a de Rita.

Michelle Abu e Lee Marcucci

Quem se deu melhor foi Fernanda Abreu: responsável por três números, a cantora vestiu Rita em três modelitos diferentes – cada um estampando uma foto da homenageada em uma fase capilar diversa. Esbanjando carisma, a garota sangue bom fez bonito em “Saúde”, “Mamãe Natureza” e no dueto de “Agora Só Falta Você” dividido com Alice Caymmi. A sobrinha de Nana foi outro destaque positivo, dando charme a “Flagra” e compartilhando a significativa “Ovelha Negra” com Catto, com direito até a selinho na amiga. Já a gaúcha fez boa presença em “Coisas da Vida”. Quem também apareceu bem foi Letrux, com o espírito alinhado à libertinagem de “Luz del Fuego”.

Catto e Alice Caymmi

Presença mais aguardada da noite pelos fotógrafos, Marina Sena fez performances tímidas em “Doce Vampiro” e “Amor e Sexo”, enquanto Miranda Kassin deu interpretações corretas a “Esse Tal de Roque Enrow” e “Todas as Mulheres do Mundo” – esta última, usada por Beto Lee para pedir por igualdade. “Quero que essa homenagem não fique hoje só nas palavras, mas no respeito e nas oportunidades que cada uma de vocês merecem”, comentou o artista. Ele aproveitou também para cantar sozinho “Papai Me Empresta o Carro”, dedicada a Roberto de Carvalho.

Marina Sena

A veterana Sandra Sá (agora sem o “de”) teve altos e baixos: teatral, ela tentou impor uma leitura diferente para “Nem Luxo, Nem Lixo”, mas teve a performance afetada pelo canto do público, seguindo o andamento original. Em “Orra Meu”, sua carioquice destoou do espírito paulista da música – a ponto de emendar um “coé maluco” para “traduzir” o refrão, em resultado bem-humorado. Sandra também foi bem ao emendar “funkeiro também” à clássica tirada “roqueiro brasileiro tem cara de bandido”.

Sandra Sá

Baby do Brasil foi só decepção: suas interpretações para “Ando Meio Desligado”, “Caso Sério”, “Jardins da Babilônia” e “Alô Alô Marciano” foram fracas, mais declamadas do que cantadas, passando longe do potencial da novabaiana – evidenciando até certa falta de ensaio. O mesmo valeu para o não tão grand finale, em que todas as cantoras voltaram ao palco para cantar “Lança Perfume”. A animação estava lá em cima, mas o desencontro na hora de cantar os versos fez a coisa parecer mais bagunça do que festa.

Miranda Kassin, Catto, Letrux, Baby do Brasil e Fernanda Abreu

C6 no Rock – Dia 2 (Domingo)

Assim como no sábado, o segundo dia de C6 no Rock também começou com muito sol, o que não intimidou o Ira! em nenhuma medida. Jogando em casa, também pudera: afinal, o Parque do Ibirapuera não fica lá muito longe do colégio Brasílio Machado, na Vila Mariana, onde Nasi e Edgard Scandurra se conheceram no final dos anos 1970. Com muito punch, os dois atacaram “Vivendo e Não Aprendendo” na ordem original. Na prática, isso significou abrir a apresentação com petardos como “Envelheço na Cidade”, “Casa de Papel” e “Dias de Luta” – a primeira foi celebrada pelo público como hino de São Paulo, enquanto a terceira teve como destaque Nasi provocando a plateia a cantar o clássico virundum “porra caralho, cadê meu baseado”.

Ira!

Outro hit, “Flores em Você”, também apareceu em uma bela versão com Edgard ao violão, no melhor espírito “Smithers-Jones”. Mas foi nos lados-B que o Ira! encontrou o ápice de sua apresentação: pouco tocadas pela banda nos últimos anos, faixas como “Vitrine Viva”, “Tanto Quanto Eu” e “Nas Ruas” soaram fresquíssimas, fazendo muita gente balançar enquanto torrava no gramado. Nasi comemorou com uma tirada: “1986 foi um ano especial pra música brasileira, parece que foi o cometa Halley que passou”. Para a festa ficar completa, só faltava mesmo o grupo quebrar uma tradição antiga e tocar “Pobre Paulista”. Não rolou: sem dar chance para um coro popular, Edgard praticamente emendou “Gritos na Multidão” com outra canção cujo título foi particularmente simbólico daquele momento: “Tarde Vazia”.

Ira!

Sucesso nos anos 2000, graças à presença no “Acústico MTV”, a canção apareceu em arranjo mais próximo à versão original de “Clandestino”. O mesmo aconteceu com “Eu Quero Sempre Mais”, que surgiu em roupagem karaokê, levada por Edgard na guitarra. Ainda houve tempo para “Flerte Fatal” e “Rubro Zorro” (do clássico terceiro disco, “Psicoacústica“), escolhas que frustraram a expectativa de quem achou que ouviria mais do IRA! dos primórdios – ainda mais pela perda de vigor nos vocais de Nasi nos momentos finais do show. Para compensar, a banda ao menos encerrou com um clássico do início de carreira: “Núcleo Base”, com direito até a Edgard usando a mítica Giannini verde. Até a galera no vizinho Círculo Militar curtiu.

Apesar de ser responsável pelo estopim do chamado BRock, a Blitz talvez não fosse a primeira escolha óbvia para um festival dedicado a celebrar os discos de 1986 – até porque, àquela altura, a banda já tinha partido pra bem longe no trenó do Papai Noel do Maracanãzinho. Por outro lado, não dá para dizer que a presença do grupo carioca não seria justa, ainda mais com a possibilidade do reencontro do grupo com Fernanda Abreu. Assim, a trupe de Evandro Mesquita ganhou uma colher de chá e pode se dedicar ao repertório de “As Aventuras da Blitz” – algo que não fazia há muito tempo.

Blitz

“A gente não toca essas músicas desde 1582”, confessou Evandro a certa altura do show. Deu pra notar: a primeira metade do espetáculo passou em marcha-lenta, seja pela execução claudicante de canções como “Vítima do Amor” ou porque muitas das piadas do grupo – literais (“O Romance da Universitária Otária”) ou musicais (“Cruel cruel, esquizofrenético blues”) – perderam parte da graça com o tempo. Certa dose da culpa também se deve a uma escolha racional: de forma esperta, a Blitz decidiu guardar o melhor de seu repertório para quando Fernanda Abreu chegasse à festa.

Fernanda Abreu e Evandro Mesquita

Mais do que o greatest hits, porém, Abreu trouxe aura ao espetáculo: com o mesmo charme demonstrado na noite anterior, ela ajudou os antigos parceiros (além de Evandro, a formação ainda tem Billy Forghieri no teclado e Juba na bateria) a entrar em buena onda com “Mais Uma de Amor (Geme Geme)”, “Betty Frígida” e “Weekend”. No final, aproveitando o domingão ensolarado, Evandro jogou uma bola amarela pro público se divertir (tal qual fez no Rock in Rio de 1985) enquanto atacava os dois maiores hits do grupo: “A Dois Passos do Paraíso” e… claro, “Você Não Soube Me Amar”, que encerrou o show em tão alto astral que teve até quem pediu bis. Não rolou.

Dado Villa-Lobos

Pouco depois de Evandro e seus amigos dizerem “bye bye”, a temperatura caiu bruscamente no Ibirapuera. Clima sob medida, portanto, para Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá homenagearem “Dois”, o segundo álbum da Legião Urbana. Já na abertura, uma surpresa. Ao lado de André Frateschi (vocais), Lucas Vasconcelos (guitarra e violão), Mauro Berman (baixo) e Pedro Augusto (teclado), a dupla entrou no palco ao som de um tema muito conhecido pelos fãs, mas nunca lançado oficialmente pela banda: a releitura de “Juízo Final” (Nelson Cavaquinho), originalmente prevista para aparecer no disco de 1986, mas substituída aos 45 minutos do segundo tempo por “‘Índios’”. No gramado, incautos legionários levantaram a sobrancelha: “ué, quem deixou?”.

Marcelo Bonfá

Antes de qualquer resposta, André Frateschi atacou com “Daniel na Cova dos Leões”, dando a senha para o coral do público. De todos os shows do final de semana, o da “Legião” foi o mais cantado não só nos hits, mas também nas faixas menos conhecidas, como “Acrilic on Canvas”. Sendo assim, surpresa nenhuma que o Ibirapuera tenha se tornado um gigante karaokê em “Eduardo e Mônica” e “Tempo Perdido”, que apareceram coladinhas – única de “Dois” a não ser executada no show, a gravação de “Central do Brasil” apareceu no final, criando o clima para a banda deixar o palco. Para além da força das canções, é preciso dizer que há um componente especial nos shows desta banda-tributo. Se Dado e Bonfá seguem no papel de coadjuvantes a que se acostumaram, André Frateschi toma para si com dignidade a tarefa de se conectar com o público. De maneira sábia, ele sabe que não é Renato Russo, nem tenta ser. Frateschi prefere servir como um elo de ligação muito respeitoso entre banda e plateia – enérgico em “Metrópole”, irônico em “Música Urbana 2”, emocionado em “Fábrica”. É também ele um legionário dos mais fiéis, a ponto de se arriscar a citar outro lado-Z do grupo, “A Canção do Senhor da Guerra”, em meio a “Plantas Embaixo do Aquário”.

André Frateschi

Tendo finalizado o repertório de “Dois” com ainda dez minutos para tocar, o grupo escolheu dois hits significativos para encerrar o show. O primeiro é uma daquelas canções sem refrão que todo fã da Legião sabe cantar de cor: “Há Tempos”, hino depressivo comemorado como um gol no Ibirapuera, ainda mais em meio a um bonito pôr do sol. O segundo foi “Pais e Filhos”, trilha mais que sugestiva para um festival em que a vasta maioria dos menores de 30 anos acompanhava os progenitores. Ao final, a grande notícia do show não veio em música, mas em discurso. Antes de “Há Tempos”, André explicou que a ocasião era especial: “Pela primeira vez em muito tempo, estão no mesmo palco os três representantes da Legião: Dado, Marcelo e Giuliano Manfredini” – o filho de Renato Russo que, durante anos, barrou projetos de relançamentos e homenagens à banda. Mudaram as estações? Vamos torcer e esperar as cenas dos próximos capítulos…

Marina Lima

Por falar em cena, na sequência o palco foi ocupado pelo show mais teatral e super produzido da noite: Marina Lima. Com co-direção de Monique Gardenberg (cofundadora da Dueto) e projeções especialmente feitas para ocupar a parede do Auditório Ibirapuera, Marina também ganhou licença poética para não revisitar 1986, podendo recordar o repertório do álbum “Fullgás” – um dos mais incensados na redescoberta da cantora pelas novas gerações. A escolha também serviu como desculpa para dois aguardados reencontros com Liminha (que tocou belamente a linha de baixo da canção-título, já na abertura) e Lobão (tocando bateria em “Me Chama” e teclado em “Nosso Estilo”).

Liminha e Lobão

Um terceiro “convidado” acompanhou tudo de longe: morto no final de 2024, Antônio Cícero foi lembrado diversas vezes no show. Sua voz surgiu em dois instantes – no início, recitando o texto do encarte do disco, lembrando que “o novo vem de onde menos se espera”, e na metade, declamando os versos de “Cícero e Marina”. Irmão e parceiro mais constante de Marina, Cícero também foi o compositor mais executado no show, mas não o único. Outro bonito momento, um pouco afetado por seguidos erros de execução, foi a leitura de “Mesmo Que Seja Eu”, com o telão lembrando tanto Erasmo Carlos quanto o charmoso ensaio nu da cantora para a revista Playboy em 1999.

Laura Diaz e Marina Lima

Visivelmente emocionada, Marina cantou bem o show inteiro, num dos melhores registros possíveis para a voz que tem hoje. O resultado do espetáculo, porém, foi morno: o público prestou atenção sobretudo aos sucessos, enquanto as demais faixas surtiram pouco efeito. Resultado melhor talvez acontecesse caso a cantora tivesse escolhido “Todas ao Vivo”, este sim de 1986 e quase em ritmo de coletânea. Outra escolha a se lamentar foi a decisão de repetir “Fullgás” no bis, desnecessário para quem tinha tantos petardos a disparar. Interessado em festa, o público pouco se importou. No final, houve ainda dois motivos para sorrir: “Ainda é Cedo”, com direito a Lobão em emocionado backing vocal, e “Uma Noite e ½”, com Marina virando sereia ao lado de Laura Diaz, do Teto Preto, toda de bundinha de fora.

Maria Gadu e Arnaldo Antunes

Antes que o domingo acabasse, ainda havia tempo para um segundo tributo: “Todo Amor Que Houver Nessa Vida”, dedicado a Cazuza. A formação de apoio tinha certo pedigree, com Milton Guedes nos sopros, Davi Moraes na guitarra e o indefectível João Barone na bateria. Ao contrário da noite anterior, porém, a apresentação foi dividida em blocos, com cada solista tendo espaço para duas ou três músicas em sequência. Eterno titã, Arnaldo Antunes abriu os trabalhos com uma bela releitura para “O Tempo Não Para” – já a versão de “Malandragem”, como se dizia lá nos anos 1980, ficou meio “chacundum”.

Lobão

Na sequência, Lobão voltou ao palco para cantar a sua “Vida Louca Vida”, sem grandes surpresas, e “Ideologia”, com boa execução a despeito da escolha de repertório curiosa – à Folha de S.Paulo, dias antes do festival, o cantor disse que foi um pedido da curadoria. Única mulher do tributo, Maria Gadú fez interpretações corretas para “O Nosso Amor A Gente Inventa” e “Quase Um Segundo” – ainda que esta última, composta por Herbert Vianna (e presente no álbum “Burguesia”, de Cazuza), talvez nem precisasse estar no setlist.

João Barone, Leo Jaime e Johnny Hooker

Gadu também dividiu um dueto de “Codinome Beija-Flor” com Johnny Hooker, no momento mais baixo do espetáculo, seja pela interpretação brega do cantor ou pelo arranjo piegas dado à canção, com direito à flauta de Milton Guedes imitando o passarinho do título. Trajado como um cosplay de Cazuza, Hooker também trouxe mais marra do que voz nas interpretações de “Por Que A Gente É Assim?” e “Bete Balanço” – esta, dividida com Leo Jaime – amigo de primeira hora de Cazuza, foi Leo Jaime quem recomendou Cazuza para o Barão Vermelho. Mais comedido que seu antecessor, Leo fez uma versão divertida para “Maior Abandonado”, além de emocionar na justa medida com “Eu Preciso Dizer Que Te Amo”, felizmente num arranjo distante da MPB de barzinho.

Leoni

Outro antigo camarada de Cazuza, Leoni enfrentou com carisma o maior entrave técnico do festival: ao cantar a também sua “Exagerado”, o microfone falhou seguidas vezes. O charme do carioca, porém, fez o público levar a canção no gogó, num belo momento do festival. O eterno Kid Abelha também leu “Solidão Que Nada” com parcimônia, fazendo cama confortável para que Roberto Frejat viesse ao palco. “Tenho certeza que o Cazuza estaria sorrindo”, garantiu o guitarrista.

Frejat

Mais importante parceiro de Cazuza, Frejat brilhou em dois momentos. Primeiro, nos bons solos de “Blues da Piedade”, prato cheio para seu estilo no instrumento que o consagrou. Depois, ao apresentar uma versão climática para o que chamou de “a mais especial das nossas parcerias”: “Todo Amor Que Houver Nessa Vida”. “É muito difícil imaginar uma pessoa de 22 anos escrevendo isso tudo”, comentou o guitarrista. A maior surpresa, porém, ficaria para o final, quando todos vieram ao palco para cantar “Brasil” – e sim, caro leitor, isso incluiu até mesmo um emocionado Lobão mostrando sua cara.

Playlist de vídeos de todo o fim de semana do C6 no Rock, por Bruno Capelas

Às 21h30 do domingo, a última imagem do C6 no Rock pode servir como bom símbolo de um final de semana multicolorido, como um caleidoscópio de memórias. Nesse jogo das contas de vidro, poucos talvez sejam capazes de sobreviver ao teste da coerência por quatro décadas, sem contradições. Para muita gente, isso talvez nem importe. A pantera da nostalgia mostrou mais uma vez que suas garras sabem vender – e as milhares de pessoas emocionadas ao final do domingo, pedindo mais uma dose no tributo de Cazuza, são prova disso. Mas, nesses dias tão estranhos, quem pode culpá-las? Afinal, foi lá em 1986 que alguém recuperou um velho filósofo francês numa letra de canção popular: “quem irá dizer que não existe razão nas coisas feitas pelo coração / e quem irá dizer que não existe razão?”

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.
– Belmilson Santos é fotógrafo. Acompanhe seu trabalho em https://www.instagram.com/bel.santosfotografia/

2 thoughts on “No Ibirapuera, C6 no Rock faz espetáculo da nostalgia do rock nacional com Titãs, Blitz, Ira!, Plebe, Marina, Paralamas e “Legião”

  1. Deixa eu te explicar com calma, Ismael: o U2 nunca fez show do “Achtung, Baby”, só do “Joshua Tree”, e foi uma turnê comemorativa que se diferencia de caça-niqueis pq a banda continua na ativa, criando material novo, e não apenas se apoiando no material antigo. Você levantou uma hipótese: “Se o U2 vier tocar”. E se o U2 vier tocar o “Achtung, Baby”, a gente analisa.

    Para efeito de comparação, recomendo que você leia esse texto sobre o show caça-niqueis do Interpol, publicado aqui em 2024:

    https://screamyell.com.br/site/2024/06/12/tres-shows-em-sao-paulo-selton-interpol-e-wry/

    Voltando ao C6 no Rock, a maioria das bandas que estavam nesse festival se refestelam de nostalgia por um motivo: se você se concentrar nos últimos 10 anos de cada uma delas, elas praticamente não existem. Elas não sobreviveriam com esse material (até pq muitas deles nem lançaram nada). E muitas delas desistiram de tentar o novo, ou aquelas que insistem, só lançam discos ruins. Os Stones, com 60 anos de carreira, são mais ativos e criativos musicalmente que todas elas (e, nos shows, sempre colocam cinco ou seis músicas novas no set list).

    Quanto a comparação com artistas novos, isso é tudo questão de opinião. Eu vi o mesmo show da Sophia que você, tem resenha do festival Se Rasgum aqui no Scream & Yell, e eu não achei nem um pouco constrangedor. E mais, Sophia se conecta com os jovens da época dela, que estavam lá cantando junto. Quando Clash, Sex Pistols e Ramones surgiram, os fãs de “rock de verdade antigo” também achavam que a música deles era constrangedora. Então é entendível que você se agarre ao que as bandas da sua geração fizeram e desmereça o novo. Mas, como diria outro muito melhor que eu, o novo sempre vem. Ainda bem!

  2. Existem algumas questões que me fizeram pensar. Aqui se fala apenas em nostalgia. Lá fora se fala em clássicos. Se U2 vier tocar achtung, baby, faz parte de uma história. Aqui é só caça níquel. Outra coisa. Já vi show de Marina sena, Sophia chablau, já saquei Ana frango elétrico em vídeos de shows e outros hypados e incensados. Quando a gente compara canções e presença de palco, dá pra entender porque a galera prefere os antigos
    Vi um show da Sophia aqui no se rasgum e foi uma apresentação constrangedora de desatinos e presença nula no palco. É complicado.

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