entrevista de Diego Albuquerque
Carlos Carvalho tem uma história intimamente ligada à música e a cultura pernambucana dos anos 2000 para cá. Integrou a Lumo Coletivo, braço pernambucano do movimento Fora do Eixo, na primeira década dos anos 2000. Formado em produção fonográfica, fez parte do Estúdio Base, que gravou e produziu diversas bandas e projetos da cena recifense deste século ao longo do tempo de existência.
Como músico, integrou e fundou o trio instrumental Mabombe, que ao longo dos quase 10 anos de existência, lançou dois álbuns, participou do SESC Instrumental e se apresentou em várias cidades do Brasil e da América do Sul. Ainda como músico, tocou com o mítico guitarrista Ivinho (Ave Sangria), na época de sua carreira solo, em eventos como o Macuca.
No meio do caminho, numa dessas reviravoltas da vida, foi diagnosticado com a patologia de Tinitus e hipersensibilidade ao som. “Me vi impossibilitado de fazer o que mais gosto: música. O meu ouvido não aguenta mais a pressão sonora de grandes palcos, estúdios”, explica Carlos. “Foi um período complicado, me afastei da música, passei por um período de depressão”, complementa.
Desse novo momento nasceu Charlos, projeto instrumental solo do artista criado em 2022, quando se afastou da cidade grande e foi morar no litoral sul de Pernambuco, mais longe do barulho caótico de Recife. “O meu trabalho solo nasce disso, dessa reformulação de vida, sonora e artística, dessa possibilidade de tocar sozinho, com menos pressão sonora”, explica. “Resolvi tentar voltar a gravar e tocar de uma forma adaptada à minha condição”, complementa. O primeiro registro foi o compacto “Tempestade / Brisa Buena” (2023). Depois, algumas apresentações em formato pocket e novas ideias sonoras foram surgindo.
Disso nasce “Saliente”, novo single do projeto. O nome faz alusão ao Nordeste brasileiro. O “saliente nordestino” é um termo geográfico para designar a parte da América do Sul mais próxima de África. “Uma homenagem ao Nordeste, ao povo que é mais ‘caloroso’, digamos, e ao forró que é cria da região”, comenta Charlos. Para entender um pouco mais das ideias do artista e sobre o novo single, disponível em seu streaming favorito, Charlos responde a três perguntas:
Charlos é seu projeto solo, então acredito que ele exista quando você precisa se expressar em forma musical, por mais que sei que você viva a música meio que diariamente, então eu queria saber se “Saliente” faz parte de algo maior ou um trabalho pontual. Um single solto que meio que se fecha. É uma evolução no som do Charlos ou apenas um novo caminho, um desvio para um local específico.
Não será um trabalho pontual. Estou com outra ‘forrocktarrada’ no forno. Em pré-produção. Só que como músico independente, é difícil saber quando conseguirei lançar. Mais vai rolar. É um estilo que gosto muito. Talvez depois disso, use outros tipos de ritmos, assim como foi no compacto “Tempestade / Brisa Buena”, porque a ideia é não ficar preso a nenhum estilo específico, na real. O Charlos é a soma de tudo que eu vivo e vivi, e do que eu gosto de escutar.
No mundo dos streamings, como você vê o independente quanto a lançar albuns e EPs, a necessidade de ser lançado e etc. Você vê mudança para qual sentido? Se é que essa mudança existe. Me refiro ao produtor musical mais que ao músico/ projeto musical. Um dia teremos um trabalho mais completo (álbum ou EP) do projeto Charlos?!
Eu acho que é uma necessidade do artista mostrar, lançar, algo palpável, mesmo que seja apenas digital e mesmo que as remunerações dos ditos serviços de streaming sejam mínimas e injustas. O que deveria haver, na minha opinião, é o público se antenar em quais serviços remuneram melhor os artistas e quais tem algum lado mínimo de escrúpulo humano.
Quanto aos formatos, acho que tem espaço para todos os tipos. Tem música que se encaixa mais sozinha, outras em dupla, e outras em conjunto. Ultimamente tenho gravado bastante no meu home studio, já tem um ‘caldo’ bom por aqui. Com certeza irão rolar, ep’s, álbuns no futuro.
“Saliente” mistura ritmos regionais com sons do mundo e remete a faixa ao período que você tocou com o Ivinho. Você prefere olhar pro passado musical ou tentar alterar o presente/ procurar inovações para o futuro?! A tecnologia é uma ferramenta sim, mas e a IA? Um adendo: como funciona seu projeto de composição? Ele é solitário ou coletivo como o ato de gravar um som?
De uma certa forma, é uma olhada pro passado. Sinto que preciso escoar algumas coisas que ficaram guardadas. Mas a cabeça está no presente, estou compondo bastante. Gosto do vintage, do passado, retrô, enfim, mas também admiro tecnologias mais modernas como sampler, beats, colagens, synths, etc. Tendo a não gostar quando é 100% eletrônico, sabe? Tem que ser usado na medida correta, e o fator humano é fundamental no meu trabalho. Não faço uso de IA na minha música e não pretendo fazer. Acho que toda música que fosse feita com IA, teria que ter um selo avisando em algum lugar. Ou então o contrário: “100% humano”.
Sobre o processo de composição, tudo depende. Em outras bandas e projetos era coletivo. No Charlos, até agora é individual, mas nada impede de no futuro fazer parcerias e colaborações. Começa por mim gravando uma ideia, que às vezes vem tocando, às vezes vem de melodias que escuto na minha cabeça. Em “Saliente”, ela veio quando estava tocando em casa, quase que de uma vez só. Na hora de gravar, gosto de direcionar para onde a música tem que ir, mais deixando os músicos bem à vontade para darem ideias e sugestões. Um olhar e ouvido externo são sempre bem vindos. Também não menos importante, é a co-produção musical, que tenho feito com o Wolf Gadelha, na Toca do Lobo Records.
– Diego Albuquerque é o criador do blog Hominis Canidae, um dos maiores repositórios de discos brasileiros da última década. O blog foi criado em 2009, no Recife, e divulga novos artistas e nomes indies da música brasileira, de norte a sul do país. A foto que abre o texto é de Victor Inojosa.