entrevista de Marcelo Costa
Quando o Pequeno Cidadão surgiu, em 2008, a produção musical voltada às crianças ainda era marcada, em grande parte, por projetos de caráter pedagógico ou por produtos derivados da televisão. Formado por músicos já conhecidos da música brasileira, como Arnaldo Antunes, Edgard Scandurra e Taciana Barros, o grupo tinha uma outra proposta: tratar a infância como matéria de criação artística, aproximando guitarras, referências à MPB e letras que recusavam simplificações, sem abrir mão do olhar infantil.
Dezoito anos depois, a banda atravessa uma situação pouco comum. Seu público original cresceu e, em muitos casos, voltou aos shows acompanhado dos próprios filhos. Ao mesmo tempo, novas crianças chegam ao repertório por caminhos que não existiam quando o Pequeno Cidadão foi criado, aquele caminho das plataformas de streaming aos vídeos curtos nas redes sociais. Nesse percurso, “O Sol e a Lua”, lançada originalmente em 2009, deixou de ser apenas uma faixa do repertório do Pequeno Cidadão para se tornar um dos raros casos de canção infantil brasileira capaz de circular amplamente entre diferentes gerações e contextos.
A temporada que o grupo realiza em julho por cinco unidades do Sesc no estado do Rio de Janeiro (11/7 no Centro Cultural Sesc Quitandinha, em Petrópolis; 12/7 no Sesc Teresópolis; 18/7 no Sesc São Gonçalo; 19/7 no Sesc Nova Iguaçu; e 20/7 no Sesc Nova Friburgo – informações de horários e ingressos aqui) oferece um retrato desse momento. A circulação evidencia como um projeto concebido fora do circuito dominante da música infantil consolidou um repertório capaz de atravessar quase duas décadas sem perder sua capacidade de diálogo com novas infâncias.
Às vésperas da turnê fluminense, a cantora e compositora Taciana Barros – que estará acompanhada de Lucio Maia nas guitarras, Luiza Barros nas vozes e bases e Wallace Kyoskys nas acrobacias e malabares – fala ao Scream & Yell sobre a permanência do Pequeno Cidadão, as transformações no consumo de música pelas crianças, o lugar do espetáculo ao vivo em uma cultura cada vez mais mediada pelas telas e o desafio de criar obras que resistam ao tempo sem deixar de conversar com o presente.

Durante muito tempo, a música infantil foi tratada como um gênero menor no Brasil. Você sente que isso mudou ou ainda existe uma expectativa de que a arte feita para crianças precise ser mais simples do que a destinada aos adultos?
Criança ouve de tudo, inclusive música para criança. Toda criança ama Michael Jackson, por exemplo. Mas, falando especificamente sobre produtos infantis, eu sou de 1965 e, desde 1960, começaram a lançar os absurdos disquinhos coloridos do Braguinha com histórias musicadas para as crianças. Ali conheci “A História da Baratinha”, por exemplo, entre tantas outras. Em 1977 eu já tinha 12 anos, mas surgiu “Saltimbancos” (Chico Buarque), que revolucionou minha cabeça com aqueles bichos que lutavam contra a opressão. Muito maravilhoso. Mas, paralelamente, em 1973 saiu o primeiro do Secos e Molhados, que também era revolucionário. A gente vai marcando nossa infância com essas informações. Eu não vejo diferença quando falo de música para criança, porque gosto de som bom, e, se o tema tratar do universo infantil, bacana, a criança vai se ligar, sabe? Tem muito lixo sendo vendido para criança, mas tem muita coisa de qualidade.
As crianças que ouviam o primeiro disco do Pequeno Cidadão hoje já são adultos. O que mudou na relação da banda com esse público que cresceu e continua acompanhando o trabalho?
Essa é a magia de fazer som pra criança. Elas surgem todo ano pequenininhas, novas crianças vêm curtir seu primeiro show todo ano que passa e, paralelamente, as que vão crescendo muitas vezes seguem ouvindo. “O Sol e a Lua” é uma música que, no nosso YouTube, atinge mais de um milhão de views todo mês e percebo, pelos comentários, que muitos vão lá ouvir pela saudade, pelo tanto que a música marcou uma época deles e, pra alguns, ainda marca.
O Pequeno recusa a lógica de tratar a criança como um espectador passivo. Essa postura nasceu de uma convicção artística ou foi sendo construída na prática, diante das reações do público?
Nasceu do nosso meio, de tudo que ouvimos na infância e que, depois, quando viramos pais, colocamos para os nossos filhos pequenos ouvirem.
Vivemos um momento em que boa parte da infância acontece mediada por telas. O palco, nesse contexto, ganha um significado diferente? O que um show presencial ainda é capaz de oferecer que nenhuma plataforma consegue reproduzir?
Sim, poder tirar a criança e também os adultos por uma hora e meia da TV, do telefone etc. pra cantar, dançar, rir e interagir com a gente e com outras crianças é emocionante. Como bem disse Oswald de Andrade: “A ALEGRIA É A PROVA DOS NOVE”
Depois de quase duas décadas de estrada, qual é a pergunta sobre infância que continua movendo o Pequeno Cidadão e que ainda não encontrou uma resposta definitiva?
Porque não priorizamos respeitamos o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente)? Uma sociedade que tem crianças em situação de rua é uma sociedade que falhou. Não adianta falar de PIB, desemprego, nada… enquanto tiver criança nas ruas, falhamos enquanto sociedade.
Levar um espetáculo infantil para cinco cidades fora da capital também é uma forma de ocupação. Você acha que a circulação ainda é um gesto de democratização do acesso à cultura ou esse discurso já não dá conta da realidade brasileira?
Projetos como o Pulsar são fundamentais. Viva o Sesc, viu? Levar cultura para lugares mais inacessíveis, para além das grandes cidades, é uma forma importante demais de evoluirmos como sociedade. A criança se sente acolhida e cidadã. A energia no palco e na plateia é verdadeira e imensa. Cultura salva a alma. E se o Pequeno Cidadão conseguir, nem que seja um pouquinho, estimular as crianças a pensarem, a entenderem que seus dilemas são normais e fazem sentido, e a se perceberem como cidadãs, com seus direitos e deveres, já estou bem feliz.
– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne. A foto que abre o texto é de Pedro Gadia.
