texto de Renan Guerra
Fernanda Abreu é uma estrela pop nacional e foi um dos nomes mais importantes da nossa música nos anos 90, porém seu silêncio entre os anos 2000 e 2010 provocou uma espécie de gap geracional. Em 2016, quando do lançamento do disco “Amor geral”, escrevemos que “esse hiato, atrelado a sua não presença virtual, tornaram a cantora uma ilustre desconhecida para toda a geração ‘internet’. Algumas pessoas até sabem que ela era uma das vozes da Blitz ou lembram-se de ‘Rio 40 Graus’, mas os mais novos não tem noção de que Fernanda é pioneira no uso de samples, nem que ela era uma das estrelas fundamentais de qualquer coisa que pudéssemos chamar de “música pop” no Brasil do começo dos anos 90”.
A partir de 2016 a artista fez um movimento de republicar seus discos digitalmente e um trabalho importante de disponibilizar seu acervo audiovisual na internet. Isso foi fundamental para que a obra de Fernanda vivesse uma espécie de “renascença”: seus trabalhos iniciais passaram a ser objeto de culto, especialmente seu disco de estreia, “Sla Radical Dance Disco Club”, lançado em 1990 – que ganhou reprensagem em vinil em 2020 pela Noize Record Club, em comemoração aos 30 anos de lançamento.

De todo modo, esse movimento de redescoberta não foi muito além de “Sla Radical Dance Disco Club”, as pessoas mal chegam ao “SLA 2 Be Sample”, de 1992. Num movimento inteligente, Fernanda Abreu investiu no hype de seu disco de estreia, mas aproveitou para criar uma narrativa em torno dos 30 anos de seu terceiro disco, o “Da Lata”, lançado em 1995. Musicalmente inventivo, esse trabalho mescla pop, MPB, R&B, samba, música eletrônica e o pulsante funk carioca, numa salada de tempero único: aqui se consolida uma “sonoridade Fernanda Abreu”, uma estrutura e uma logística que só ela conseguiu dominar, uma possibilidade rítmica que vai do pop chiclete ao ritmo narrativo-poético-espiralar de Fausto Fawcett, tudo de forma fluida, transformando canções complexas, dúbias e potentes em hits radiofônicos. Um disco com “Veneno da Lata” e versões de “Babilônia Rock” e “A tua presença morena”; com “Garota Sangue Bom”, que se tornaria um epíteto de Fernanda, a nossa “Garota carioca / Suingue sangue bom”; disco eleito o melhor álbum latino-americano de 1995 pela Billboard, um projeto que levou Fernando Abreu a se tornar uma estrela cult no exterior.
Disco que agora se transforma no filme “Fernanda Abreu – Da Lata 30 Anos”, de Paulo Severo, em exibição no festival In-Edit. E se uma parcela do público celebra a inventividade e pioneirismo de Fernanda Abreu com seu “Sla Radical Dance Disco Club”, ela basicamente vira e diz “pois olhem aqui, tem mais!”. Se anteriormente ela havia experimentado com samples e recortes, casando MPB e música eletrônica, abrindo caminhos novos para o pop e a música de pista, aqui, em “Da Lata”, ela expande essas pesquisas e cria casamentos rítmicos que seriam moda nos anos 2000. R&B com poesia brasileira, samba com funk e pop rock com tempero eletrônico, tudo sedutoramente amarrado. Nesse disco está a gênesis do que cantoras brasileiras e internacionais desenvolveram na virada do século.
E a magia de “Fernanda Abreu – Da Lata 30 Anos” está no fato de que Fernanda tem um acervo audiovisual invejável. Clipes, fotos, figurinos, entrevistas, recortes de jornal, tudo reunido e bem amarrado em uma narrativa que sustenta a importância de um trabalho que alinha inovação, criatividade e carisma. E quando dizemos carisma queremos falar sobre esse “je ne sais quoi”, esse charme que alguns artistas têm – e aí ou têm ou não têm; muitos artistas talentosíssimos não o têm. Fernanda é interessante, instigante, suas histórias e inspirações são envolventes e sua figura nos convida a mergulhar em seu universo artístico. E, por consequência, ela nos convida para papear com seus parceiros, em um diálogo com nomes que vão de Herbert Vianna e Fausto Fawcett até o fotógrafo Walter Carvalho e o londrino Soul II Soul.
De algum modo, o cenário brasileiro dos anos 90 parece algo ainda pouco revisitado, por isso é uma alegria ver um filme com um material de arquivo tão vibrante e tão bem aproveitado. As entrevistas e os relatos aqui são pano de fundo para uma série de imagens pulsantes e vibrantes que reposicionam Fernanda Abreu em seu posto de estrela pop nacional. “Fernanda Abreu – Da Lata 30 Anos” é registro essencial para amantes da música pop, para quem pensa a música brasileira e para quem se interessa por um Brasil que vai além do óbvio.

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava.
