Festival Casarão evolui em Manaus e Casa de Caba, 43duo, Gabi Farias, FBC e Selvagens à Procura de Lei se destacam

texto de Leonardo Vinhas
fotos de Rafael Fialho

Manaus – Almirante Hall – Dia 1

Esse é o segundo ano em que o Festival Casarão tem sua etapa manauara (a estreia, em 2025, você acompanhou aqui). O local novamente é o Almirante Hall, um espaço que tem a seu favor o fato de ser arejado (a estrutura sugere ter sido um estacionamento coberto transformado em local de eventos), com um teto protegendo o palco Petrobras, e o palco secundário ficando ao ar livre. A circulação fica facilitada, e o arejado dos ventos certamente é bem-vindo nos muitos dias de calor amazônico, mas isso também deixa o segundo palco exposto à chuva.

Isso foi quase um problema na noite do dia 5 de junho, a primeira do Casarão 2026 em Manaus após dois dias de shows em Porto Velho. “Quase” porque ela não intimidou quem se deixou levar pela música da local Casa de Caba, transformando o festival em um bailão no sereno. Mas a chuva nada modesta que caiu do fim da tarde até o início da noite certamente contribuiu para que os três primeiros shows tivessem um público muito pequeno, apesar dos 371 ingressos vendidos.

Nauj Jama

Assim, Nauj Jama se apresentou para menos de 20 pessoas, mas, conforme disse o próprio no meio do show, “tá suave, família, ano passado o público foi só eu e o DJ LF”. Oriundo de Tancredo Neves, bairro periférico da Zona Leste de Manaus, Jama veio trazendo letras de resistência, sobrevivência e superação, com uma prosa interessante escondida em um flow com poucas variações. A primeira metade do show vinha influenciada pela escola Racionais MC de graves fortes e bases espartanas, mas de “Tormento” em diante, a coisa foi ganhando mais groove e até alguma leveza.

MC Menor e Dabliu MC

Leveza foi o que deu o tom da Batalha de Exibição entre MC Menor e Dabliu MC, que começou incipiente e com os “árbitros” da contenda abusando da repetição dos bordões do estilo – digamos que, se ganhasse 10 reais a cada “vamo fazê barulhooooo”, eu não precisaria trabalhar até o final do ano. Mas a partir do terceiro round, a coisa esquentou, os dois disputantes assumiram o protagonismo, e tudo virou uma bem-humorada e respeitosa batalha entre a sagacidade deles.

Carlos Mossoró

Tanto a batalha como a apresentação de Carlos Mossoró foram estendidas em sua duração para compensar a ausência de F’Dois, que não conseguiu embarcar no vôo rumo a Manaus devido a questões pessoais. Considerando que ele havia tido problemas tão graves com o som em Porto Velho que precisou encerrar o seu show após a terceira música, podemos dizer que foi uma dupla ausência – o que seria ruim por si só, mas é especialmente triste quando se considera que ele é, dentre os nomes do lineup, o MC com a estética e a sonoridade melhor definidas e mais destacadas.

Carlos Mossoró e convidados

Mossoró foi generoso com o tempo extra que lhe foi dado e chamou nada menos que cinco MCs locais (ao mesmo tempo!) para somar vozes, improvisos e rimas. Assim, na metade final do show, estavam ali Coyote, Monte, Akbar, Pura e Blink, alguns dos quais haviam viajado até Porto Velho para participar mais brevemente da sua apresentação por lá. Em Manaus, não teve a dupla com Sandra Braids, mas o som não o prejudicou como na capital rondoniense, evidenciando o quanto sua sonoridade fica mais interessante à medida que ele abraça sua essência nordestina – e o quanto fica mais genérica à medida que ele se propõe a seguir a cartilha do gênero. Encerrou o show com uma bonita homenagem a F’Dois, deixando uma composição do mano (a bela “Foca na Voz”) rolar na íntegra antes de dar sua apresentação por encerrada.

MC Marechal

O Almirante Hall devia ter pouco mais de 100 pessoas quando Marechal subiu ao palco. Se em Porto Velho ele encontrou a casa cheia e transformou até os que não o conheciam em fãs em poucos minutos, em Manaus ele tinha um pequeno grupo de fãs fiéis, os quais foram embora após o fim da sua apresentação. Nem isso, nem o cansaço da etapa anterior, intimidaram o niteroiense, que entregou outra grande apresentação, e ainda valorizou o trabalho do parceiro local, o também veterano DJ Tubarão. Aliás, ao lembrar que ele mesmo tem 45 anos, e Tubarão 56, aproveitou a deixa para uma fala rápida e contundente sobre etarismo, na cena e fora dela. Convidou também o local Bruno Crazy para uma participação.

Entrando no palco com camiseta do Massive Attack, bermudão dos Chicago Bulls e meias, Mossoró pediu desculpas por ainda não estar 100% recuperado do esforço vocal que a etapa porto-velhense tinha exigido, devido a problemas com o retorno até a primeira metade da apresentação. Ainda assim, a força da sua arte e o seu carisma estavam intactos, e novamente ele operou o feito de converter o público que não o conhecia em admiradores…

43duo

Quem operou um verdadeiro “milagre de conversão”, porém, foi o 43duo. O casal Luana Batista e Hugo Ubaldo mostrou sua psicodelia pesada e abrasileirada ensanduichado entre o público cativo (e um tanto insular, diga-se) do rap, os primeiros fãs do FBC que chegavam à casa e um pequeno contingente banger e punk, ali presente para ver o Matanza Inc. Ou seja: um completo estranho no ninho. Como costuma ser nas apresentação deles, bastaram poucas músicas, o carisma de Hugo e a força visual de Luana – que toca bateria, teclados e faz vocais de apoio ao mesmo tempo – para virar a cabeça até de quem não tem nenhuma referência de música psicodélica. A garoa aumentava, e o público preferia compreensivelmente ficar abrigado sob o teto do palco principal, mas de olhos e ouvidos atentos ao que ali rolava.

43duo

Conforme a apresentação se aproximava do fim, e o peso e a velocidade das canções aumentavam (incluindo algumas novas, que integrarão um vindouro quarto álbum), a banda já tinha se tornado o “talk of the town”, ou o buchicho da noite, para quem prefere honrar o idioma pátrio. Além de consagratório, foi bonito ver muitas meninas cercando Luana e pedindo para tirar fotos com ela após o show (o qual foi iniciado com ela saudando “todas as minas que tocam um instrumento e que fazem rimas”). Vale destacar que Manaus ajudou o 43duo a marcar mais um X no mapa do Brasil, o qual faltam apenas seis Estados para eles zerarem. Se você quer aulas práticas sobre “circulação de artistas”, fale com essa dupla.

Matanza Inc.

O Matanza Inc. veio com um som mais alto do que em Porto Velho – em alguns momentos, um pouquinho alto demais – , mas trouxe rigorosamente o mesmo set, inclusive com as mesmas falas de Daniel Pacheco entre uma música e outra (faz parte, a gente sabe). Continua sendo um show bom e divertido, e sustento tudo que escrevi sobre eles na cobertura da etapa rondoniense, mas é fato que a banda ficou perdida no lineup – não só pela sonoridade mais pesada, mas também porque músicas como “Clube dos Canalhas”, por mais que sejam em tom de galhofa, estão longe de ornar com a sensibilidade e o ethos das demais tribos que transitavam pelo Almirante Hall.

Casa de Caba

E várias tribos estavam representadas na sonoridade da Casa de Caba. Um dos mais recomendados nomes da cena local, a banda conseguiu calibrar as sensibilidades assim que tocou o primeiro acorde. Com sete integrantes (dois guitarristas, dois percussionistas, baterista, baixista e flautista), eles conseguem usar inúmeros elementos da cultura amazônica sem soarem folclóricos ou acadêmicos: é uma mistura orgânica, que engrossa um caldo de MPB e rock (incluindo até mesmo um hardcore endiabrado), e que atinge alto ponto de ebulição já na primeira música e segue sem abaixar a temperatura até o último minuto. Um espetáculo, sem dúvida. Em alguns momentos, você chega a pensar que Alceu Valença teria feito algo assim, tivesse ele nascido no Amazonas em vez do Pernambuco. A única coisa que explica a banda não ser mais conhecida no resto do país são as muitas barreiras – tanto físicas como as invisíveis – que mantêm a produção cultural do Norte apartada do resto do país, especialmente quando ela não obedece ao estereótipo que o Sul e o Sudeste reconhecem.

FBC

O show foi tão impactante que a primeira fala de FBC quando ele subiu ao palco foi elogiando “essa puta sonzeira que tava rolando no outro palco”. O mineiro estava claramente mais solto, disposto e animado que na apresentação de Porto Velho, e embora tivesse recorrido ao mesmo setlist, fez um show mais solto, muito mais próximo da vibe que deu boa fama à sua atuação do que da indiferença blasé que vez ou outra tem exibido por aí nos últimos meses. Aqui, pelo menos rolou “Bandido Bom”, única do último disco a ser executada ao vivo. “Lesa Pátria” teria caído especialmente bem ali, principalmente quando se percebe o bolsonarismo furioso que viceja na cidade, mesmo com o massacre operado pela gestão genocida de Jair Bolsonaro e o Eduardo Pazuello no “combate” à pandemia da Covid-19 (mais justo seria chamar de “massacre”, que ainda contou com a colaboração do prefeito David Almeida). Mas tudo bem: FBC é FBC, e não faltaram palavras de ordem contra o presidiário mais infame do país, e até mesmo uma conclamação por uma memória mais presente e honrosa para os povos originários. Showzão.

Também seria o último momento do clima amazônico dando certa trégua. No dia 6, sábado, a chuva cessaria e a temperatura subiria muito, em todos os sentidos…

Manaus – Almirante Hall – Dia 2

Se você algum dia duvidou da intensidade do calor amazônico, era só chegar no Almirante Hall no sábado para se arrepender do seu ceticismo. Ainda que a combinação de altas temperaturas e umidade possa ser ainda mais desafiadora, a situação não estava para brincadeiras. Porém, esse mormaço intenso é indissociável da identidade local, e logo apareceria, da melhor maneira possível, no palco.

Logos Lunares

Mas não na primeira apresentação. Quem abriu o show foi a Logos Lunares, quinteto da cena shoegaze que veio carregando no noise, na microfonia e no peso contemplativo. A banda tem na voz de Nayara Lopez e no violino de Agnes (também da Orquestra Sinfônica de Manaus) ótimos destaques, e opera com competência dentro dos cânones do estilo, mas se arrisca pouco fora deles. Pelo visto ali em sua breve apresentação, espaço e condições para se arriscar eles têm, falta apenas entender qual é o risco que eles querem correr.

Dus’ Brother

Já o Dus’ Brother se define como “reggae fusion”, e dá pra ver que eles tentam entregar variações mais autóctones ao reggae jamaicano. Quando conseguem – seja pelo uso sagaz da percussão, seja pelos elementos da música local – dão uma instigada e deixam um gosto de “quero mais”, mas quando vão para o lado mais tradicional do gênero, ou para um apelo mais roqueiro, o resultado é apenas correto. A banda ainda não tem nada gravado e está trabalhando em suas composições, então é justo pensar que esse é um momento ainda embrionário, do qual podem emergir com mais coisas boas.

Gabi Farias

Com a casa já bem movimentada, a temperatura esquentou pra valer com Gabi Farias. O seu pop amazônico tem estética, substância e “cheiro de jaraqui frito antes da hora do almoço”, como ela disse em uma entrevista no backstage. Na verdade, a associação aromático-culinária vem da consciência que o música que ela faz é indissociavelmente amazonense. Isso não quer dizer que as canções resvalem em rótulos estereotípicos como “folclórico”, ou pior, “exótico”. É uma música sexy, que faz pensar em um cabaré onde todos os presentes estão encharcados de suor do mormaço, mas nem por isso (ou até por isso) menos sensíveis ou cheios de tesão.

Bruno Matos

Vale destacar o trabalho do baterista Abner Pires e do guitarrista Bruno Matos – esse também alocado na capital paulista, assim como a cantora. Juntos, eles criam um pop bem-elaborado, claro em sua concepção artística, e com soluções engenhosas nos arranjos que combinam o eletrônico e o orgânico em uma equação onde a fronteira entre ambos perde importância. Se alguém não estava dançando e/ou hipnotizado pela presença de palco de Gabi e seus ótimos dois escudeiros, eu não vi – até porque eu também estava dançando AND hipnotizado.

Kurt Sutil

Pena que o show de Kurt Sutil foi um balde de água fria, e não no bem-vindo sentido literal da expressão. O rapaz é um dos principais nomes do hip hop manauara, mas ele se desentendeu com o som na primeira música e deixou o desânimo tomar conta, “contagiando” parte do público, que não prestou muita atenção ao que acontecia ali. Não ajudou sua música ser bastante óbvia e amparada em clichês, e a participação da cantora Luli Braga pouco acrescentou às suas limitadas composições. Nas duas faixas que Luli cantou sozinha, a apresentação teve algum respiro, mas, no cômputo geral, foi o ponto baixo da noite. A maior parte do público foi se posicionar em um local mais favorável para ver a aguardada apresentação dos Selvagens à Procura de Lei, ou encarar uma grande fila para comprar bebidas.

Selvagens à Procura de Lei

No palco Petrobras, mal soou a introdução do show dos Selvagens à Procura de Lei e um clima de euforia se instalou por completo. Aí foi só Gabriel Aragão tocar o riff de “Brasileiro” para o Almirante Hall virar um caldeirão roqueiro. Em termos de setlist, foi outra apresentação que repetiu o set de Porto Velho, mas a energia da banda, o som da casa e a recepção do público estavam muitas notas acima (e já tinha sido suficientemente forte em Rondônia). Se um estrangeiro, ou mesmo um brasileiro alheio ao nosso mercado musical, chegasse ali naquele momento, acreditaria piamente que canções como “Massarrara” e “Um Lugar que te Mereça” são clássicos nacionais do estilo, tamanha a entrega do público.

Selvagens à Procura de Lei

Os celulares ficaram mais nos bolsos e bolsas que nas mãos, de tão ocupado que o público estava em pular – e até soltar um headbanging. No meio do set, a segunda audição da nova “Revoada” confirma a percepção que Gabriel Aragão é um compositor que assimilou naturalmente as melhores lições do rock brasileiro dos anos 80 e do indie da primeira década do século, e que a tensa dissolução da antiga formação lhe liberou para ser uma escrita mais plena em relação ao seu próprio desejo criativo. Também foi um bom momento para constatar a força da atual formação, especialmente nas soluções encontradas pelo guitarrista Plínio Câmara (que tocava com Mateus Fazeno Rock) para garantir que nenhum solo soasse derivativo.

Alaídenegão

Se suar pouco é bobagem, tinha mais fervura na sequência. A banda Alaídenegão fez a ponte entre o “ser manauara” e o peso roqueiro. O fato de terem uma proposta tão diferente de Gabi Farias, e ainda assim ambos soarem tão indiscutivelmente amazonenses, é um testemunho da riqueza musical (e cultural mesmo) da região. O baterista Anastácio Júnior, também integrante de outras agremiações locais (incluindo O Tronxo, que foi destaque em edições anteriores do festival), desce a mão com “fúria metal” (quem lembra dessa expressão?) sob a cama segura e groovada criada pela baixista Trícia Lima. O tecladista Lúcio Bezerra usa recursos melódicos que vão ro classic rock ao tecnobrega para temperar a mistura, que é fervida sobre os riffs de guitarra de Rafael Ângelo, também vocalista (e ainda houve um trompetista contratado especialmente para o show). Em alguns momentos, a sonoridade ameaça ficar “cabeçuda”, mas os quadris e as pernas logo puxam a responsabilidade de volta para si. Um festerê pesado, plural e bonito.

Cícero

Será que, depois de tanta fervura sequenciada, ficaria pequeno para Cícero? Que nada: mesmo com sua música assumidamente mais introspectiva, Cícero estava jogando com e para a torcida. Cada início de canção era ovacionado como se fosse um hit, e é preciso reconhecer que o carioca há muito aprendeu a variar a dinâmica de suas apresentações, e que “Uma Onda em Pedaços”, disco de 2025 de onde saiu a maior parte do repertório, é um disco bem melhor resolvido que seus antecessores (“Pássaro Nave”, que abriu o set, é especialmente boa). Estavam ali os hits, claro (“Açúcar ou Adoçante?”, “Some Lazy Days”, “Tempo de Pipa”), e também o trabalho mais autoral de iluminação de todo o festival (ainda que não seja o aparato “oficial” dessa turnê). Cabe apontar que foi o único show da noite em que o som não esteve impecável – em dados momentos, os graves se distorciam como se fosse uma daquelas deploráveis caixas de som que lojas de varejo usam para anunciar suas ofertas. Os fãs não se incomodaram, e mantiveram uma postura devocional do começo ao fim.

Não Existe Saudade em Inglês

Talvez influenciados/estimulados pela natureza mais plácida e contemplativa da obra de Cícero, o Não Existe Saudade em Inglês apostou nas faixas mais melódicas de seu repertório. Ou teriam sido os problemas que a banda teve na passagem de som? Seja como for, a banda não aproveitou a vibe roqueira do dia e desperdiçou a chance de apostar no lado mais dançante do seu repertório, como havia sido em Porto Velho. Os fãs não arredaram pé, mas o público do Zimbra preferiu se achegar ao palco principal para ver sua banda. Este repórter, por sua vez, estava deixando o Almirante Hall aos primeiros acordes da banda santista. Cinco dias de festival, uma madrugada insone na complexa malha áerea porto-velhense e a fervura manauara cobraram seu preço.  O dia seguinte traria uma programação intensa (não relacionada ao festival), e a prudência recomendava sono.

Zimbra

Um casarão em expansão (e que pode aproveitar para fazer algumas reformas)

Tendo testemunhado boa parte da etapa porto-velhense e a íntegra da etapa manauara, é possível dizer que a edição 2026 do Festival Casarão honrou e reforçou a vocação integradora e valorizadora do festival. É, também, essencial apontar que o festival é um dos poucos que surgiram no início do século que conseguiram se expandir ao mesmo tempo que se mantiveram fiéis à sua proposta. Mas podemos expandir essa análise.

Antes dela, algumas observações. Um ponto importante a se examinar do festival são algumas questões infraestruturais. A acessibilidade deixou a desejar em ambas as sedes visitadas pelo Scream & Yell. No Zé Beer ainda havia alguma adaptação, inclusive com um Espaço PCD designado por um banner. Porém, se um cadeirante tivesse aparecido, teria uma visão limitada do palco a partir do momento que a pista estivesse mais cheia, já que essa área ficava no mesmo nível da pista. Já no Almirante Hall, além do piso acidentado na entrada da casa, não havia banheiros acessíveis (aliás, não havia banheiros em boas condições, nem mesmo nos camarins). E justo na edição manauara havia espectadores cadeirantes. Esse é um ponto importante a ser melhorado.

A questão das filas para o bar também foi problemática em ambas as cidades, assim como a pouca oferta de comida. Vegetarianos literalmente não teriam o que comer no Zé Beer ou na rua José do Patrocínio, e teriam que se contentar com uma (boa) pizza de queijo e tomate no Almirante Hall. Não que carnívoros tivessem muitas opções mais. Para um evento que pode ter até nove artistas por dia, e que adentra a madrugada, seria bom ter opções mais variadas e mais saudáveis.

Feitas essas ressalvas, cabe dizer que o festival corrigiu o problema mais sério das edições anteriores, que era a qualidade irregular de seu sistema de som. Mesmo com os imprevistos enfrentados por Mossoró e, principalmente, por F’Dois na primeira noite do Zé Beer, o resultado geral foi mais que satisfatório – em Manaus, na verdade, foi digno de elogios, em especial no segundo dia.

Porém, o reconhecimento mais necessário é a importância de que um festival desse porte continue existindo em uma região que o Brasil insiste em fazer de conta que não faz parte de sua identidade nacional – a não ser quando mineradoras, empresas do agronegócio e madeireiras se sentem no direito de devastá-la sem benefício para quase ninguém que não sejam seus acionistas e “parceiros”. O Casarão é um evento de arte e integração, que promove diálogos não só entre cenas musicais, mas também com os espaços públicos – pelo menos em Porto Velho. Na última edição, havia sido o Mercado Central, e em 2026 foi o Teatro Banzeiros e a agradável rua José do Patrocínio.

Em Porto Velho, o festival é uma instituição consolidada e aguardada, que impulsiona boa parte da música autoral local. Que o pessoal do hip hop tenha articulado local tantas parcerias para suas apresentações é uma evidência clara da união da cena e do valor que eles atribuem ao Casarão. Já em Manaus, em sua segunda edição própria, ele ainda é uma novidade, e até onde pude apurar, é o primeiro festival na cidade a ter uma curadoria que concilia tantas propostas diferentes na mesma data e local.

O Scream & Yell não conseguiu apurar as etapas de Rio Branco e Brasília, mas reforça o que foi dito na cobertura da etapa porto-velhense: que um festival se disponha a fazer a música autoral circular em uma região de logística extremamente desafiadora e onerosa já seria louvável por si só. Que o faça ao longo de mais de duas décadas, ainda mais notável. E que faça isso trazendo nomes estabelecidos, mas também dando espaço a artistas que ainda estão embrionários, é raro. Afinal, festivais tendem a apostar no que é seguro.

E isso nos leva à última reflexão que o Casarão 2026 proporciona. Como fazer com que festivais de música voltem a ser sobre música, e não sobre postagens em redes sociais ou hypes da vez? Claro que hypes existiram e sempre vão existir, é parte da indústria musical. Mas por anos tivemos festivais que eram menos “industriais” e mais “artesanais”, no que diz respeito ao cuidado com a programação e com o zelo pela identidade artística.

O que vemos hoje é muito festival falando de “inclusão” que não inclui músicos de outras regiões do país, mesmo quando dispõe de condições para tanto. Da mesma forma, vemos artistas que dizem querer “falar para o Brasil”, mas que não conseguem adaptar sua estrutura para estar em regiões onde o custo de produção compromete o espetáculo.

Na verdade, essas questões são parte de uma discussão mais profunda, que não cabe neste texto. Mas se o Casarão teve nomes estabelecidos de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Ceará, foi porque esses artistas entendem as diferentes realidades de um país de dimensões continentais, e se mostram dispostos a adaptar seu show (FBC levando só o DJ em vez da banda, por exemplo) ou suas condições de trabalho. Não estamos falando aqui de trabalhar de graça ou de premissas inocentes como “fazer pela música”, mas é possível, sim, ter um festival onde organização e artistas trabalham juntos, com resultados financeiros digno para ambos os lados, e com um diálogo cultural e musical acontecendo em paralelo.

Tem festivais que apregoam uma suposta “causa” da “música brasileira”, mas não fazem mais do que reforçar um target de mercado se apropriando de um discurso “bonito”. E tem quem meta a mão na massa para tentar fazer essa música ser ouvida e sentida por mais pessoas. O Casarão é um desses festivais, e seu exemplo merece ser olhado de perto – assim como as cenas musicais que ele apresenta.

Que em breve nomes como Casa de Caba, Samuel Béra Band, Gabi Farias e outros listados aqui possam estar se apresentando no frio de Curitiba, no calor do Rio de Janeiro ou no clima acinzentado de São Paulo. Transcrevo o que disse a Vinicius Lemos, organizador da coisa toda, antes de embarcar no vôo de volta: “esse é um dos festivais mais importantes que tive o prazer de conhecer. O Brasil precisa do Norte! Torcendo por um Casarão no Sudeste. Pra ver se a gente para de ser besta aqui”.

Casa de Caba

Os melhores shows do Festival Casarão 2026, por Leonardo Vinhas
1) Casa de Caba (Manaus)
2) Samuel Béra Band (Porto Velho)
3) Marechal (Porto Velho)
4) Selvagens à Procura de Lei (Manaus)
5) 43duo (Manaus)
6) FBC (Manaus)
7) Gabi Farias (Manaus)

Leia sobre a cobertura da etapa de Porto Velho do Festival Casarão 2026

MC Marechal

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) é produtor e autor do livro “O Evangelho Segundo Odair: Censura, Igreja e O Filho de José e Maria“.

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