Entrevista: O diretor Marcus Curvelo fala sobre dor, luto e reconstrução pessoal com “Reparação”, seu primeiro longa solo

entrevista de João Paulo Barreto

A perda de qualquer vaidade e a entrega de uma análise pessoal e psicológica diante da inevitabilidade da morte costuma levar o público a refletir sobre tais aspectos em suas próprias vidas. Na criação artística, tais ações denotam atitudes louváveis de coragem e resiliência. Dono de uma filmografia repleta de curtas metragens e de um longa no qual o humor e a crítica social se evidenciam de maneira sempre ácida e brilhante, o cineasta Marcus Curvelo apresenta na 15ª edição do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Cinema de Curitiba, “Reparação”, seu primeiro longa-metragem solo na direção. E é justamente a percepção desse despir de vaidades e uma entrega sincera de sentimentos que invade o espectador após a sessão.

Após o não menos engraçado e repleto de crítica social, “Eu, Empresa” (2021), longa dirigido ao lado do cineasta Leon Sampaio, o diretor de curtas notórios como “Joderismo” (2019), “Mamata” (2017) e “Ótimo Amarelo” (2016) seguiu um caminho diferente em seu novo trabalho no formato longa-metragem. A dor da perda de se pai, Joel, que faleceu em dezembro de 2021, foi que o levou, inicialmente, para o processo de criação seu novo filme, cuja fagulha residia em um resgate da relação entre eles dois.

Com a proposta de falar postumamente desse relacionamento, “Reparação” já tinha desde seu rascunho uma abordagem que ia, obviamente, para além de qualquer ideia cômica já vista antes e tão marcante nos trabalhos de Curvelo. Junto a essa comicidade, no entanto, uma aproximação auto-ficcional sempre foi algo, também, presente em sua filmografia. Aqui, ela se faz ainda mais evidente, mas a partir de um olhar documental e real. Dolorosamente real.

Em determinado momento do filme, Marcus registra sua mãe, Sônia, enquanto ela joga as cinzas de Joel ao mar. As cinzas voam ao vento marinho, misturam ao salitre e este se torna um elemento fundamental de análise em “Reparação”. Ali, as metáforas atreladas à deterioração causada pelo oxidar advindo do oceano, que Marcus ilustra em diversos momentos, criam no espectador essa percepção de que algo para além de objetos também está sendo deteriorado. Mas, diante de seu título, o filme de Curvelo serve como maneira de se reconstruir.

A proposta inicial do longa tinha como foco uma relação paterna. Porém, subitamente, isso mudou com a passagem de sua mãe, após uma breve doença, o que o levou a ficar indefinido durante muito tempo. Em determinado momento, quando dona Sônia testou positivo para covid, Marcus e ela tiveram que ficar isolados em um quarto durante muito tempo. O diretor que, à época, escrevia uma dissertação de mestrado, levou seu computador e perguntou à mãe o que ela achava de ocupar aquele tempo. “Como um processo para mim e para ela, sugeri que fizéssemos alguma coisa. Pra gente não enlouquecer. Para poder lidar com aquilo de uma forma menos dolorosa, sabe? E aí eu falei com ela que ia levar a câmera para pode continuar aquele filme que comecei a fazer sobre meu pai. Falei para ela que ia ser um filme sobre o processo de cura dela. Que íamos filmar esse desafio inteiro aqui”, pontua o diretor ao falar sobre como sua mãe acabou adentrando no filme de forma mais direta.

Funcionando como uma maneira de trazer sanidade e leveza para ambos, além de uma forma de tirar o foco da gravidade de todos aqueles acontecimentos, as imagens captadas por Marcus demonstram muito do cuidado de um filho para com sua mãe. Nas conversas, dona Sônia sorri, fala sobre sua força em ainda conseguir subir escadas em um dia no qual teve alta hospitalar. Mas, além disso, ao se propor trazer aquele foco para sua mãe, Marcus acabou encontrando um modo de se ligar ainda mais a ela em um reconhecimento que ia além do afeto.

Após a partida de sua mãe, em fevereiro de 2024, Marcus não mexeu naquelas imagens por um ano e quatro meses. Foi somente em junho de 2025, ao lado do diretor de fotografia Danilo Umbelino e da produtora Luiza Maciel que Curvelo conseguiu se debruçar sobre o que tinha guardado em sua câmera e filmou outros trechos do longa que constroem mais profundamente todo simbolismo da produção. Nesse processo, muito de sua saúde mental foi colocado em análise própria. O cinema funcionando como um modo de cura. Do lado de cá, também nos sentimos contemplados. Neste papo com o Scream & Yell, Marcus Curvelo aprofunda esse processo de reparação.]

“Reparação” é o primeiro longa qeu você dirige sozinho. Fiquei surpreso ao perceber uma abordagem mais dramática e bem diferente dos seus outros trabalhos, que tinham um apelo mais cômico. Como foi essa mudança?
Acho que sempre teve esse caráter de auto-ficção nos meus filmes, mesmo nos mais cômicos. Mesmo sendo feitas com pouco recurso e tentando trazer para a linguagem, para a estética do filme, uma estética de um cinema híbrido e documental, “Mamata” e “Joderismo” eram, ainda assim, uma ficção. E desde ali tinha essa coisa de me colocar, de atuar, de trazer questões minhas. Tinha/tem, porque nunca mais usei ele, mas era o personagem que eu chamo de Joder que está no “Eu, Empresa”, no “Mamata”, no “Joderismo”, e que não deixava de ser esse alter ego. Só que fui indo mais pro documentário. Acho que por questões também de experimentar, de entender que o que eu queria fazer estava mais para um lugar documental. Mas ainda ficcional, por isso híbrido. Mas mais para o documentário, em termos de formato e de linguagem. Então parei de usar o Joder, comecei a não mais usar nome nos meus personagens. Às vezes, eu me chamava de Marcus, às vezes de um outro nome mais genérico. Enfim, não estava mais nesse campo da ficção exclusiva. E estava fazendo uma coisa mais próxima de mim, uma coisa mais próxima da gente, de nós mesmos, mais para o documentário. Acho que a gente tenta ser mais… não sei se transparente é a palavra. Ser mais direto, talvez. Não tem ali uma cortina da ficção para embaçar muito. Quando estou fazendo ficção, às vezes a comédia vem para exagerar certos aspectos meus que são ridículos. Para exagerá-los e fazer rir. Só que estava caindo num lugar que não era muito eu, sabe? Eu estava vendo uma coisa meio caricata de mim mesmo. Dai eu quis me tirar desse centro da encenação. Do centro da história. Não quero que seja um filme sobre o personagem Joder ou sobre o personagem Marcus. Eu vou ser um veículo para contar essa história aqui. E aí vieram alguns curtas, como “A Destruição do Planeta Live”, que passou em Tiradentes e também no Panorama em 2021. O “Qual é a grandeza?”,” O Mediador” e, agora, o “Reparação”.

Com um tema tão pessoal em relação a sua família com a perda de seus pais, “Reparação” traz essa mudança em sua forma de fazer cinema e se torna um trabalho muito franco e revelador de sua própria vida pessoal. Como se deram essas escolhas? Como esse filme lhe ajudou a lidar com todo esse processo do luto?
O que aconteceu foi que nesse período que falei, desse caminho que é mais narrativo, mais racional do ponto de vista do que eu quero fazer em relação ao cinema, foi que a vida foi ficando mais grave. Quando lancei “Planeta Live” e os curtas seguintes, foi bem no contexto de pandemia. Foi nesse período que meu pai morreu. Ele teve uma queda muito grande de saúde por causa da pandemia, foi diagnosticado com demência e ficou muito isolado. Teve uma mudança muito grande, muito brusca, muito rápida. Porque, apesar da idade avançada, ele era muito saudável. Tinha uma cognição muito boa. Mas nos últimos meses de vida, ele já estava com um início de Alzheimer, o que resultou em uma mudança grande na minha relação com meus pais. Eu voltei para casa, também. Estava morando fora e voltei para Salvador por dificuldade financeira na época da pandemia. Voltei para passar um tempo com eles para me reestruturar. E nesse período que eu voltei, ele estava nesse processo de Alzheimer. E em um ano, praticamente, após eu ter voltado a morar com eles, a saúde dele foi ficando mais frágil. Ele morreu em dezembro de 2021. Bem nesse período que eu estava fazendo esses filmes. Eu gravei, ainda logo depois que ele morreu, dois curtas: “Garotos Ingleses” e o “Qual é a Grandeza?”. E comecei a gravar “Reparação” nesse momento. E eu estava, também, escrevendo uma dissertação para um mestrado que eu estava fazendo na Faculdade de Comunicação da UFBA, que eu tinha entrado em 2020 e, com uma semana de aula, foi suspenso por conta da pandemia. Em 2021, eu estava retomando esse processo, começando a escrever a dissertação que começou sendo sobre filmes de rituais de morte, e se transformou para outra coisa. Virou “Filmar para não morrer”, “Criatividade Existencial”. O cinema, a arte, como esse alicerce/meio de atravessar desafios existenciais, seja a morte, seja doença, depressão, separação, guerra, exílio, enfim. Me debrucei sobre cineastas que usavam o cinema para atravessar momentos difíceis da vida, para contar suas histórias. E um dos filmes que analisei foi um da Chantal Akerman, “No Home Movie” (2015), quando ela filma os últimos momentos da mãe dela, que foi uma figura muito presente no seu cinema. Então, eu estava muito dentro desse clima, com essas coisas na cabeça, essa dificuldade pós-pandemia, com meu pai morrendo, com esse mestrado que tinha sido suspenso e estava voltando. E eu estava começando a escrever esses textos, indo para esse lugar mais documental, menos debochado, tentando ser mais direto nas representações, mais cru. E comecei a filmar o “Reparação” nesse contexto. Lembro que a primeira cena que filmei foi no meu aniversário de 35 anos. A primeira imagem que tenho é a da minha mãe, estava fazendo três meses que meu pai tinha morrido. A gente não tinha jogado as cinzas dele ainda. E eu e minha mãe tínhamos feito um pacto de não demorar muito para espalhar essas cinzas em algum lugar. Ela tinha as crenças dela de que não era bom ficar guardando por muito tempo as cinzas em casa, que era bom logo se desfazer. E naquele dia, falei com ela que ia fazer umas imagens da gente fazendo isso e que iria começar gravando no meu aniversário. E tem a imagem de eu soprando a vela e cantando parabéns com ela. Filmamos essas primeiras imagens nesse contexto. Então, só para fechar o que você perguntou primeiro, esse contexto de ir para um lugar mais sério, cara, acho que foi isso. Uma motivação criativa de sair um pouco da ficção e ir mais para o documentário. Ir mais para um lugar de antropologia visual, de imagem mais performática, e me colocar mais à margem da história, não ser mais o centro. Não ser uma coisa tão identitária. E o momento que eu estava vivendo ali, que era um momento de pós-pandemia, de morte do meu pai. De estar fazendo um mestrado que não era algo exatamente muito confortável para mim, e do tema do meu mestrado ser um tema que falava disso. Enfim, acho que foi por tudo isso que fui para esse lugar, e foi ficando uma coisa mais menos cômica tanto na atuação e quanto nos filmes.

Inicialmente, a ideia era falar da relação com seu pai que faleceu em 2021. Como foi essa mudança para uma abordagem voltada, também, para sua mãe?
No começo, o roteiro era muito sobre minha relação com o meu pai. Exclusivamente sobre isso. E já tinha esse nome de “Reparação”. Porque nesse processo eu estava vivendo esses momentos mais difíceis, e que se agravaram muito nesse período de 2020 e 2021. Eu estava fazendo uma grande revisão da minha vida, sabe? Existencial. Querendo, de alguma forma, também, me reparar. E fazendo até uma analogia com essa coisa da reparação histórica, do que a gente precisa enquanto humanidade, enquanto sociedade, reparar para poder sermos melhores. E, claro, fiz essa relação inicial com essa questão da masculinidade, do pai e do filho. Do que ficava, do que eu reproduzia. Tinha já esses elementos da fumaça, das cinzas. Não era salitre ainda, era fumaça. Do que se desfazia para criar um novo. Cinzas para destruir para criar um novo. Era meio que esse lugar assim de estar renascendo. Tem o lugar da morte, que é a do meu pai, mas também quero que morra em mim um Marcus que eu não gosto mais, enfim. A história ia para esse lugar das melhores coisas e das piores coisas da minha relação com ele, do que eu via, do que a gente tinha em comum. Tinha esse lugar, sabe, de herança, de melhorar, de renovação. Era mais nesse lugar. E quando minha mãe entrava no filme comigo, ela estava muito mais à margem. Muito mais coadjuvante para mais contextualizar a relação dela com o meu pai, a vinda dele para Salvador, quem ele era. Ela não tinha muito protagonismo nesse curta, que era o formato inicial. Só que não deu muita liga. Eu estava montando o filme com muita dificuldade. Cheguei a fazer uma versão de quinze minutos e a mostrar para algumas poucas pessoas, mas não estava muito feliz com ele. Provavelmente, eu ia ficar mexendo e ia acabar lançando como curta, mesmo. E talvez tivesse seu valor como curta, também.

Foi nesse momento que sua mãe adoeceu?
Sim. Só que quando ela adoeceu, inicialmente eu não estava pensando em filmar. Obviamente, nem passou pela minha a cabeça continuar o filme. Só que quando ela começou a ficar muito tempo em hospitais, teve um momento que ela começou a ter internações muito longas. E eu ia para o hospital (com ela). Sou filho único, os irmãos dela são todos idosos e meu pai tinha morrido. Então, a nossa rede (de apoio) era muito pequena. Tinha uma tia minha que ficava mais com ela, mas ela também é idosa. E a gente não tinha dinheiro para contratar cuidadora, enfermeira, essas coisas. Então, eu passava praticamente muito tempo no hospital com ela. Tipo, muito tempo mesmo. Foi pouco tempo do diagnóstico até a morte dela, mas eu devo ter ficado, somando tudo, uns três meses dentro de hospital com ela. E comecei a levar meu computador para escrever a dissertação. Porque, enfim, era muito tempo ocioso. A gente está ali o tempo todo mais para uma companhia e, claro, também para cuidados e ajudar nas coisas. Mas na maior parte do tempo, ficamos muito ociosos. Então comecei a escrever. E para ela era bom também que ela via que eu estava ali, também, ocupado. Então, ela, de alguma forma, ficava mais à vontade. Porque não havia necessidade de justificar minha presença ali ou de sentir que eu estava passando muito tempo com ela, sentir que havia alguma espécie de sobrecarga sobre mim. Claro que não tinha. Mas, enfim, ela era muito preocupada com essas coisas, também. Ela dizia: ‘”Ah, que bom que você está trabalhando, também. É ótimo. Você não vai deixar de fazer suas coisas, né?” Tinha essa preocupação dela. E foi passando o tempo e teve uma internação mais longa. Durou um mês e foi a última internação dela. E eu, nessa minha pesquisa da escrita da dissertação, sobre essa questão existencial de filmar para não morrer, sobre o cinema como ferramenta para enfrentar desafios existenciais e todo esse tipo de coisa, me veio essa ideia: ‘Puxa, eu devia, talvez, estar filmando isso aqui. Devia estar dando continuidade ao filme que falava do meu pai, falava da morte dele. Minha mãe estava muito mais nesse processo e, talvez, ela tenha que ser protagonista, talvez ela tenha que entrar no filme. Talvez, enfim, seja bom para gente”. Eu pensava assim. Teve um momento em que ela ficou numa semi-UTI individual, porque ela, devido às internações, teve covid num determinado momento. Por conta do contato hospitalar. E teve que ficar isolada na UTI e foi o momento em que estávamos só eu e ela. E eu também não podia sair do quarto, porque eu também peguei covid, talvez. Não sei. Eu fiz um teste depois que deu negativo, mas claramente peguei porque estava no quarto isolado com ela. Tipo, coisa de cinco ou seis dias sem sair de um quarto. Tomando banho dentro do quarto, fazendo tudo dentro do quarto. Eu não podia sair pelo corredor do hospital. E então, como um processo para mim e para ela, sugeri que fizéssemos alguma coisa pra gente não enlouquecer. Para poder lidar com aquilo de uma forma menos dolorosa, sabe? No dia que tive uma janela para sair do hospital, falei para ela que ia voltar com a câmera para pode continuar aquele filme que comecei a fazer sobre meu pai. E falei para ela que ia ser um filme sobre o processo de cura dela. Falei que gente ia filmar esse desafio inteiro aqui. Porque tinha essa coisa que a gente falava muito sobre momentos de muito sofrimento, de muita luta, sabe? De estar naquele dia muito mal com efeitos muito graves da quimioterapia. E falar daquela força: “Estamos passando por um momento difícil, aqui. Mas a gente vai chegar lá”. Era como registrar isso para mostrar pelo o que passamos. Mostrar que sobrevivemos.

Como ela reagiu à proposta?
Eu disse a ela tudo isso e ela deu uma risada. Achou inusitado, e falou: “Tá bom”. Eu perguntei: “Você se incomoda de eu filmar você nesse estado no hospital? Você não acha estranho, bizarro, ridículo ou invasivo?” Ela respondeu: “Não, porque é o seu trabalho. Você está fazendo o que você precisa fazer. Vamos nessa.” Foi inclusive uma frase muito bonita e que me marcou muito: “Não, porque é o seu trabalho”. Ah, essa frase, para mim, foi a maior validação que eu já tive na vida sobre fazer cinema. E também a maior autorização que ela podia ter dado para filmar. Filmei as primeiras imagens dela no hospital nesse momento. Foram poucas imagens que fiz no hospital, sempre nesse esquema de documentário direto, de observação e tal. Filmei, também, quando ela teve alta e voltou pra casa. Porque era um momento também importante para ela, pois estava com muita dificuldade de subir as escadas da casa quando voltou dessa última internação. E a gente mora no terceiro andar num prédio de escadas. Então, ela estava praticando muito na fisioterapia antes de voltar pra casa. Estava muito preocupada com esse momento. E eu a filmei subindo as escadas e, para ela, foi uma coisa muito empoderadora conseguir subir, sabe? Ela pediu para ver as imagens e para mandar as imagens para a irmã dela. “Olha como eu consegui subir!”, ela disse para minha tia. Nesse lugar de superação que a gente estava conversando. As última imagens que tenho dela, logo depois que ela sobe as escadas, ela está dentro de casa, conversamos um pouco, e ela fala sobre isso. “Você viu como subi, como mandei bem?” Ela empolgada e comentando: “Agora só amanhã que vou fazer outra coisa. Vou descansar no final de semana. E aí, depois, ela arrumando as roupas que estavam sobre a cama. Depois ela foi tomar um banho. Essas imagens são as últimas que fiz dela. Foram essas do hospital nessa última internação, e essa volta pra casa. Duas semanas depois, ela morreu. Porque apesar dela estar nesse momento, de ter alta e estar se sentindo melhor, a doença já estava em um estágio muito avançado. E ela teve um mal súbito em casa e não conseguiu chegar ao hospital. Morreu na ambulância. Mas foi nesse processo. Defendi o meu mestrado um mês depois que ela morreu e fiquei com essas imagens dela sem saber muito o que fazer. E sem coragem de voltar para elas, também.

O filme trabalha esses símbolos de morte, de vida, de superação. Como foi essa criação da parte mais performática para ligar esses elementos?
Eu estava com essas imagens de documentário direto, mas precisava dar uma forma, um rumo para elas. Estava faltando alguma uma coisa. Faltava uma camada que, justamente, colocasse esses elementos todos que estavam presentes ali de morte, de destruição, salitre, coisas quebradas, necessidade de renascimento. Ao mesmo tempo que enquanto algo definha, algo nasce. Enfim, tinham esses temas todos. E eu estava com esse tema da fumaça na cabeça, porque quando minha mãe e minha irmã jogam as cinzas do meu pai na praia, eu via essas cinzas voltando por causa do vento e elas pareciam fumaça. E essa fumaça parecia salitre e tudo se misturava. Eu estava com essas ideias na cabeça e esse grande tema da reparação, dessa morte, dessa coisa que se destrói, que se acaba. Do que fica disso, enfim. Dessa destruição, desse final. Foi nesse momento que vieram duas colaborações muito importantes, que foi o Danilo Umbelino, fotógrafo de praticamente todos os meus filmes. Porque tem essa coisa de que muitas vezes eu filmei só, mas de muitos anos para cá, venho filmando com o Danilo, nesse processo de mudança. Podemos falar, também, de maturidade enquanto diretor, de maturidade narrativa. Enfim, de estar com essa parceria com o Danilo e gente conseguir elaborar de forma mais trabalhada e mais pensada a imagem, enfim. E outra pessoa também que entrou no processo é a Luiza Maciel  que fez um curta que estava agora em Tiradentes e no Panorama, o “Agulha”, e que produziu “Jamex”, o longa do Ramon (Coutinho). Para pensar em como transformar esses elementos todos em performance visual. Então, com eles dois, pensamos nessa coisa de realmente ter fumaça no filme. Então, aquela primeira cena que tem a fumaça saindo do mar foi o que a Luiza trouxe. Tinha essa coisa do salitre que você falou, por exemplo. Eu queria condensar, vamos dizer assim. O mar, esse lugar onde eu joguei as cinza dos meus pais. Esse lugar que, ao mesmo tempo, traz esse salitre que destrói as coisas aqui de casa. Esse sempre foi um tema aqui em casa. Desde que eu era criança. Moramos perto da praia aqui no Costa Azul (bairro da orla marítima de Salvador). Tudo quebrava por causa do salitre. Aparelho eletrônico ficava com defeito, computador ficava com defeito. O meu carro enferrujou inteiro. As paredes ficavam com problema por conta do salitre. Isso sempre foi uma questão. E aí vem esse meu lugar de querer ser uma pessoa melhor; de querer deixar para trás velhos hábitos; de querer ser mais funcional; de querer manter as coisas consertadas, funcionando, vamos dizer assim. De querer estudar, querer pesquisar, entender esse salitre. De onde vem essa destruição? E, ao mesmo tempo, esse lugar de onde vem a destruição é onde estão meus pais, onde está essa vida. Então, tem esse mistério. Tem esse lugar e, de alguma maneira, se conecta com ele. Se conecta com esse lugar que tem a morte, que tem a destruição, mas também que tem memória. E aí, para poder de alguma forma, arredondar, encapsular e trazer simbologia para todas essas ideias que eu estava tendo, para essas imagens de documentário direto, senti a necessidade de fazer essas imagens mais performáticas no mar e com esse objeto que pode ser um captador, pode ser um objeto de pesquisa, de estudo. Pode ser um objeto de realismo fantástico. Porque me interessava muito essa coisa do cientista que vai no lugar que está contaminado, mas é muito importante para ele estar ali em termos de curiosidade, de pesquisa. É importante, cientificamente falando, que ele esteja ali. Por mais que, ao estar ali, ele possa se contaminar com aquele ambiente. Ele possa até morrer também. É, por exemplo, as pessoas que vão até hoje em Chernobyl fazer pesquisa, essa sequência inteira imaginei assim, sabe? Tipo, estou indo ali, nesse lugar que tem essa destruição, mas eu preciso estar aqui, preciso olhar para isso, preciso conhecer isso aqui, preciso tocar. Então, teve essa coisa, esse momento. E essas imagens vêm dessa parceria com o Danilo e com a Luiza. A gente fez isso juntos e é o que fecha o filme. São as últimas imagens que eu faço. E a partir dessas imagens, todas que tem fumaça, que tem salitre, que tem máscara, que tem essa coisa que eu pesquisei e descobri que tem uma forma caseira de tirar a salitre das coisas, que era vinagre com amido de milho. Goma, né? Para você fazer aquela pasta. Essa ideia de passar no rosto veio, também, da Luiza. Então, a partir desse momento que consigo, vamos dizer assim, condensar todos esses símbolos de morte, de reparação, de cinza, de fumaça, de salitre. Desse mar que destrói e também, acolhe um lugar de vida e de pós-vida dos meus pais. Tem um lugar, também, vamos dizer, de carinho por esse lugar. É o lugar que, também, preserva de alguma forma os meus pais e os restos mortais deles. É desse mar, também, que vem destruição. E essa destruição que é muito simbólica para mim. Acho que agora expliquei demais o filme talvez (risos)

Foi nesse ponto que você percebeu que tinha um material que poderia ir além de um curta-metragem?
Sim. A minha mãe morreu em fevereiro de 2024 e fiquei parado de fevereiro de 2024 até maio, junho de 2025, que foi quando chamei o Danilo e a Luiza e a gente finalizou o filme a partir dessas performances, dessas imagens. Foi quando comecei a montar para o longa. Aí eu comecei a ver um filme e entendi que dava para ser um longa-metragem. Porque, até então, estavam essas imagens do meu pai, as imagens da minha mãe, mas o que é que conectava? Qual era a camada para não ser só uma história sobre meus pais? Para não ser uma história caseira de alguém que filmou os pais para guardar de lembrança. O que poderia trazer de uma reflexão maior? Isso veio nesse momento a partir dessas parcerias com Danilo e com Luiza. E montei o filme durante o segundo semestre inteiro de 2025. e finalizei no começo de 2026 o filme.

Você se coloca no filme sem qualquer reserva ou vaidades ao falar de questões de saúde mental. Como isso se encaixou no filme e em que momento você decidiu abordar essas questões ?
Eu achei que era importante me mostrar em um lugar de vulnerabilidade física e emocional, pois tem ali os meus pais, especialmente minha mãe, também em um momento de vulnerabilidade, mas não somente isso. Tem um momento de vulnerabilidade dela física. Estávamos juntos nesse processo. Eu acho que, também, não tinha como fazer um filme sobre a morte dos meus pais e como isso me afetou e qual era minha relação com eles, se eu não fosse, também, de forma muito radical, muito honesto. E até para de alguma forma me lembrar, lembrar para mim mesmo porque que eu fiz esse filme e porque que eu cheguei, também, nesses lugares, sabe? Eu acho que era importante eu me mostrar também, sim. Já que eu falo de reparação, porque eu preciso ser reparado? O que eu preciso reparar? Enfim, acho que era importante fazer isso. Não segurar. Ser muito honesto, muito vulnerável.

Quase como um expurgo?
Mais do que um expurgo, também, eu acho uma coisa sobre lidar frontalmente com a tristeza, lidar frontalmente com luto. Lidar frontalmente com essas questões para, justamente, elas não virarem sintomas piores. Como essa coisa do corte. Eu acho que se a gente consegue lidar com as coisas de frente, além, claro, de fazer terapia e cuidar da cabeça, acho que é esse lugar de encarar, mesmo, o luto. De encarar a tristeza. De ser vulnerável e mostrar isso. Enfim, para poder elaborar mesmo, né? Mas, para mim, foi mais um lugar de elaboração de muita coisa que estava dentro de mim. Do que significou esse período de perda dos meus pais, do que significou esse período de pandemia, esse período de mestrado que atrasou. Esse período de muitas dúvidas e de não estar vivendo a vida que eu queria levar. De querer ter mais dinheiro, querer ter mais organização, querer ser uma pessoa melhor. É entender porque, então, você não é o que você queria ser? Acho que tem que se olhar muito frontalmente, assim. E já que eu estou fazendo um filme sobre isso, acho que tem que banca esse lugar de mostrar, de não ter vergonha. Acho que tem que mostrar. Acho que, também, é o que pode se conectar com as pessoas. Acho que é o que pode, de alguma forma, fazer com que as pessoas se conectem, também. Por verem essa vulnerabilidade, não sei. Talvez.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.

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