Crítica: Relançado em edição expandida, “The Rhythmatist”, de Stewart Copeland, é um mapa das raízes rítmicas do pop

texto de Davi Caro

Em 1984, em uma época na qual o idealismo punk começava a se afastar no retrovisor e onde os ditames que futuramente definiriam a década ainda não haviam se consolidado por completo, o Police era a maior banda do mundo. O sucesso do trio, no entanto, não havia se materializado sem uma boa dose de desgaste: durante a turnê do multiplatinado “Synchronicity” (1983), as tensões em meio aos membros – e, sobretudo, entre Sting e Stewart Copeland – chegaram a um ponto insustentável. Após o último show da turnê, na Austrália, em março de 1984, o futuro do Police era obscuro. Não havia anúncio, e nem mesmo a real intenção, de acabar com a banda. Mas tanto o baixista e vocalista quanto o baterista (sem contar o guitarrista Andy Summers) sabiam que, daquele jeito, não daria para continuar.

Summers aproveitou o hiato para gravar, junto do parceiro de longa data Robert Fripp (do King Crimson), “Bewitched” (1984). Sting, por sua vez, arregimentou um time matador de músicos – que incluíam o saxofonista Branford Marsalis, o pianista Kenny Kirkland, e o baixista Daryl Jones (hoje com os Rolling Stones) – para fazer um polido, radiofônico e bonito álbum cheio de inspirações (ou seriam aspirações?) jazzísticas. Lançado em 1985, “The Dream Of The Blue Turtles” era repleto de canções pop que poderiam (em sua maioria) ter aparecido em “Zenyatta Mondatta” (1980). Em suma, o mesmo tipo de som que poderia fazer com sua ex-banda e que, claramente, não queria.

O mesmo caminho não foi seguido por Stewart Copeland. Enquanto seu colega e nêmesis se reunia com seus músicos em uma mansão na França para estrear sua turnê solo (um processo registrado no bom documentário “Bring on the Night”, bem como no disco ao vivo homônimo), o baterista resolveu embarcar em uma viagem ao continente africano para um projeto ambicioso, e que, quase sem querer, daria o tom para muito do que seus contemporâneos fariam: em uma busca pelas “verdadeiras raízes” dos sons que se escutavam nas rádios dos EUA e do Reino Unido havia décadas, Copeland captaria sons de comunidades originárias, testemunharia e interagiria com tradições musicais da cultura local, apenas para, depois, adicionar suas próprias composições e talentos instrumentais aos sons gravados in loco. A tentativa de Copeland era a de reaproximar as tradições mais ancestrais com o débito que a modernidade de então evidentemente tinha com seus antepassados. Chegando às lojas pela primeira vez em 1985 acompanhado de um filme de mesmo nome, “The Rhythmatist” é o registro de uma multitude de ritmos e costumes intricados e fascinantes, elaborado por um músico que se especializou em criar música, justamente, tão intricada quanto fascinante – “The Rhythmatist” está sendo relançado em edição remasterizada e expandida, e disponível pela primeira vez em streaming.

“The Rhythmatist” não era a primeira aventura solo do músico: antes mesmo que o Police estreasse nas paradas com “Roxanne”, em 1977, Copeland já havia registrado suas composições, gravando todos os instrumentos e se lançando, com êxito, sob o pseudônimo Klark Kent. A estreia sob seu próprio nome, porém, foi com a trilha sonora de “O Selvagem da Motocicleta”, de Francis Ford Coppola, em 1983. Entretanto, embora tivesse um hit radiofônico (“Don’t Box Me In”, com Stan Ridgeway, do Wall of Voodoo), o grupo de canções que Stewart procurava encontrar em sua expedição à África era muito diferente. Embarcando em uma jornada por regiões da Tanzânia, Quênia, Burundi, Congo e Zaire (a atual República Democrática do Congo) com um time de três pessoas, seu instrumento e equipamentos compactos de gravação de última geração, Stewart esteve em contato com mais de cinco tribos, e lá também estabeleceu uma parceria com o cantor Ray Lema, do Burundi. Após coletar as gravações, Copeland passou a identificar os padrões rítmicos que conectavam aquela cultura com a música contemporânea. O baterista não era estranho a incorporar influências externas em sua própria, inimitável, musicalidade: “Driven to Tears” e “Wrapped Around Your Finger”, por exemplo, são fortemente influenciadas pelos rítmos aos quais Stewart, quando criança, foi exposto no Líbano, onde seu pai (um dos fundadores da CIA) trabalhava em nome dos EUA.

Desde o início do álbum, com “Koteja (Oh Bolilla)”, Copeland já mostra ter conseguido acessar um nível de conexão muito além das experimentações pelas quais era conhecido junto a seu grupo. Única faixa de “The Rhythmatist” a não creditar o músico na composição (atribuída integralmente à Ray Lema), a canção já demonstra o raciocínio que Stewart utilizou ao trabalhar em cima de ritmos tão distintos. Incorporando bateria, guitarras, baixo, e teclados sobre as bases que havia registrado, é surpreendente como o arranjo acaba reconfigurando elementos tão tradicionais e “insulares” em algo totalmente pop – caso também de “Liberté” e “Kemba” (na qual Copeland divide os créditos também com Ray Lema), no lado A, e “Samburu Sunset” e “African Dream”, no lado B.

Em outros casos, no entanto, o que marca a audição do disco está no potencial das melodias nativas em criar ambientes propícios a jam sessions nervosas. “Coco” e “Gong Rock” são as mais intensas de todo o trabalho, ao mesmo tempo em que “Brazzaville” acaba preferindo um clima mais esparso, e “Serengeti Long Walk” é o mais próximo do psicodélico que “The Rhythmatist” chega. E também é importante mencionar “Franco”, talvez o mais perfeito exemplo do que o próprio Stewart chama, no encarte do álbum, de “ritmatismo” (ou “rhythmatism”, no original:

“’Ritmatismo’ é o estudo dos padrões que definem o tecido da vida. Com esta especulação em mente, uma figura vestida de preto segue seu caminho cruzando o popularmente chamado ‘continente escuro’. Ele encontra-se com leões, guerreiros, pigmeus e selvas antes de tropeçar diante d’A Rocha.”

A capa original do disco nas Américas e a capa original europeia

Desta maneira, fica mais do que evidente o real intento do artista ao conceitualizar uma obra como “The Rhythmatist”: a percepção da música africana como uma espécie de pedra angular, embora pudesse ser lido como um claro sinal de pensamento imperialista (o forasteiro que chega para se apropriar da cultura originária apenas para reempacotá-la) aqui se mostra diferente. Longe do interesse cultural predatório, o que transparece no repertório do disco é sincero fascínio e profundo respeito pelas culturas que acabaram possibilitando que, apesar de tamanha ambição, a conclusão do projeto como acabou ocorrendo.

A nova reedição de “The Rhythmatist”, lançada com nova arte em vinil, CD e streaming (nos dois últimos formatos acrescida das versões single de “Koteja” e “Gong Rock” – mais cinco versões para a última), curiosamente, não inclui um relançamento do filme, dirigido por Jean-Pierre Dutilleux, que reúne as canções do álbum. Não é preciso pensar muito para imaginar o porquê: embora conte com algumas passagens memoráveis – tal como a cena que tem o baterista solando em seu instrumento, no meio de uma savana, dentro de uma jaula cercada por leões em polvorosa – e siga a mesma trilha ambiciosa do disco (com uma narrativa pseudo-ficcional que serve como pano de fundo para as experimentações de campo de Copeland), “The Rhythmatist”, o filme, é, hoje em dia, uma produção facilmente “problematizável”. Isso devido ao mesmo subtexto imperialista referido antes. Não espanta que seu principal realizador prefira, atualmente, se focar na música que construiu (no entanto, o filme está disponível, em quatro vídeos, no final do texto).

Após o fim decretado do Police, em 1986, Stewart Copeland se dedicaria, em grande parte, à composição de trilhas sonoras para produções cinematográficas que variavam do notável (“Wall Street”, de 1987) ao esquecível (“Highlander II”, 1991) – uma exceção, no caso, seria a ótima trilha sonora que realizou para o videogame “Spyro” (1996). Como colaborador musical, entretanto, sua folha corrida só fez aumentar: fosse com o Animal Logic, com o Oysterhead, com o Gizmodrome, ou mesmo com o próprio Police, reunido em 2007, o fato é que Stewart Copeland tem se mantido tão ocupado quanto sempre esteve. Seja realizando Q&As em seu canal do YouTube, ou desconstruindo seus próprios hits com o projeto “Police Deranged” (no qual toca acompanhado de uma orquestra), o músico nunca escondeu sua inquietude em tudo o que faz – e tampouco o espírito explorador que demonstrou em uma de suas obras mais relevantes e importantes. Uma obra que, agora, tem de novo o potencial de iluminar qualquer ouvinte que se disponha a ouvir as raízes e os pilares de muito do que se tem como conhecido hoje em dia – e que João Barone, baterista d’Os Paralamas, definiu como “masterpiece” em comentário no Instagram de Copeland. “Ritmatismo” pode ser um conceito complexo demais para se explicar, então, melhor focar no ouvir – e no sentir.

 Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.

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