entrevista de Jorge Wagner
A menos que haja dinheiro envolvido, já que as contas nunca param de chegar, não gasto meu tempo escrevendo sobre aquilo a que sou indiferente. Prefiro me dedicar àquilo que me empolga, me intriga, me decepciona, me ofende. Talvez por isso tenha passado uma década sem enviar textos para o Scream & Yell — percebi dia desses que havia sido há tanto tempo assim, o último sendo uma pequena entrevista com uma banda que não existe mais, de (então) garotos bem relacionados. Mas agora que leio “Agenda do Impossível“, do Gabriel Soares, penso numa entrevista publicada há dez anos e em como passei uma década sem querer entrevistar qualquer músico, qualquer autor. E percebo que quero entrevistar o Gabriel.
Há livros sobre os quais é muito fácil escrever — sobre o que e como o autor escreve, como o enredo se desenrola e com qual qualidade ou falta dela, etc. E há outros sobre os quais é mais fácil pensar a respeito, buscar entender, mas que demandam mais tempo, mais reflexões, mais conexões para que sejamos capazes de descrever em palavras ordenadas onde, por que e como aquilo te toca, seja empolgando, intrigando, decepcionando, ofendendo.
“Agenda do Impossível”, que foi lançado em junho pela Editora Zain, entra na categoria dos livros sobre os quais se precisa pensar, muito. Talvez pela própria proposta da obra: uma “coleção de aforismos e micronarrativas” sobre trivialidades, literatura, relacionamentos, viagens. Gabriel (que também é vocalista e guitarrista da Atalhos), ao menos aqui, não é surpreendente, mas esse não parece mesmo ser seu objetivo. Sua estrada é a das coisas banais, da rotina balanceada de vinho e musculação, do estranhamento ao notar uma festa infantil no pátio para onde, há pouco, um vizinho mergulhou para a morte.
É sobre essa estrada percorrida ao longo da leitura que conversamos nas próximas linhas, neste pequeno bate-papo, o primeiro que este ser do outro lado da tela se dispõe a fazer depois de um longo período de dez anos.

Comecei a ler “Agenda do Impossível” imediatamente após terminar a coletânea de ficção do Alejandro Zambra, e uma coisa que tanto você quanto ele parecem ter, cada um ao seu modo, é essa capacidade de transformar em matéria literária as coisas que costumam passar despercebidas. Em que momento um acontecimento banal deixa de ser apenas cotidiano e se transforma em literatura?
É muito raro eu passar um dia sem ler, estou quase sempre com um livro. E acho que a literatura meio que impregnou o jeito que eu vivo e encaro as coisas, ou seja, alterou profundamente a maneira como eu observo o mundo. Então, de uma certa forma, pode ser que muitos detalhes e situações banais ou cotidianas ganhem outro tipo de luz na minha perspectiva… porque a literatura é esse espaço onde as coisas fugidias podem durar mais do que na realidade, onde um olhar que tarda um segundo pode ganhar uma reflexão que dura mais de uma hora e dezenas de páginas… é onde o tempo pode ser domesticado, então é natural que essas coisas banais, rápidas e instantâneas que vemos se perder no cotidiano ganhem força duradoura nas mentes que estão impregnadas de literatura.
Muitas passagens do livro sugerem que convivemos diariamente com fantasmas — lembranças, tragédias e ausências que permanecem nos lugares. Você vê a escrita como forma de preservar ou exorcizar essas presenças?
Depende da circunstância e da conveniência. Eu assumo a literatura como um recurso existencial, tento fazer uso ativo dela, como uma arma que pode ser buscada nos momentos de perigo, no enfrentamento da melancolia, nesse “exorcizar” que você comentou. E também posso usá-la quando quero tentar me lembrar de algo, quando quero ter a ilusão de tocar algo que já não existe, quando quero me consolar com a ideia de uma permanência que existe somente na memória… quando escrevemos uma memória temos a ilusão de que estamos vivendo aquilo que recordamos outra vez, mas sempre de uma maneira única e original, porque quando lembramos também estamos inventando. Enquanto seguimos vivo, enquanto “duramos”, como dizia Bergson, nosso passado continua com a gente de forma constante, e o futuro é sempre a criação acumulada de passado que nunca se repete, nunca é idêntico.
O livro reúne “aforismos, anotações e micronarrativas”. Em algum momento você percebeu que certas ideias funcionavam melhor como fragmentos mesmo e não como canções ou narrativas mais longas?
Eu comecei escrevendo alguns pensamentos curtos em forma de aforismo, muito inspirado por Nietzsche e pelas máximas de Chamfort. Só que também sentia necessidade de me aprofundar mais em alguns pensamentos que foram se transformando em narrativas, e ao longo desse processo fui percebendo que o material que eu estava compondo tinha igualmente uma certa coesão e linearidade, ou seja, também se parecia com um romance. No final abracei a ideia de compor um livro com fragmentos numerados que sugerem uma leitura linear, mas que ao mesmo tempo podem ser lidos isoladamente sem prejuízo.

Há uma espécie de equilíbrio entre disciplina e prazer atravessando o livro — musculação e vinho, rotina e deriva, planejamento e acaso. O ato de criar, pra você, é mais método ou disponibilidade para perceber o que está ao redor?
Muito boa essa análise, não tinha pensado muito a respeito disso, mas você tem razão. Acho que eu fico o tempo todo tentando me equilibrar entre um e outro, buscando a linha tênue, porque mesmo para escrever um livro que aparentemente é feito apenas de anotações é preciso muita disciplina, mesmo que eu evite seguir um diário com datas, que não tenha um deadline de um editor ou algum prazo pra cumprir, sem disciplina seria impossível compor esse livro, e conforme ele foi ganhando corpo e cada vez mais páginas, foi se criando uma espécie de compromisso íntimo de mim comigo mesmo, que me estimulou a dar continuidade no trabalho. Portanto é preciso de muito método pra compor e criar, só que método sozinho não compõe nada… por isso eu considero muito mais importante e crucial essa abertura, essa disponibilidade para perceber os detalhes ao redor… muito mais essencial é a sensibilidade para captar a poética do espaço e poder praticar o que Bachelard chamava de “daydreaming”, esse exercício/estado em que o indivíduo está vivendo o cotidiano e o banal, mas ao mesmo tempo está criando (interpretando) essa realidade de forma poética, criativa e imaginativa. Acho que esse equilíbrio que você percebeu é um pouco do que Goethe quis dizer também quando colocou “vida e poesia” como subtítulo da sua autobiografia.
Você afirmou que os textos não receberam datas para afastar a escrita de uma localização temporal rígida. Ainda assim, temos sensação de presente vivido. O que você procura preservar quando registra um instante: o fato em si ou a sensação daquele momento?
Busco preservar a sensação, com certeza. Até porque o fato em si é sempre o que morre e com ele não há nada que possamos fazer. O que permanece – ainda que em formas etéreas como lembrança, música, texto, imagens mentais etc – é sempre a “sensação”. Quando, por exemplo, uma pessoa morre é o fato em si que atesta a sua morte, e não há nada que podemos alterar diante disso… o que ainda pode permanecer é a sensação, a memória que guardamos da pessoa, suas palavras, a melodia da sua voz que ainda ressoa na nossa cabeça, as imagens mentais que se formam quando lembramos dela… então quando rememoro e narro algo, eu estou tentando manter aquele momento vivo dentro de mim, ou, tentando guardar uma recordação fora de mim (na forma de um texto), como uma gaveta que daqui um tempo eu possa abrir e ter a surpresa de me lembrar de algo que estava esquecido pra sempre.

– Jorge Wagner é jornalista, produtor do tributo “Ainda Somos os Mesmos”, ao álbum “Alucinação”, de Belchior, lançado pelo Scream & Yell. Lançou em 2023 o álbum “Toda Forma de Adeus“.
