entrevista por Pedro Salgado, especial de Lisboa
O projeto Mão reúne, pela primeira vez, Paulo Pedro Gonçalves e Tó Pereira (DJ Vibe), num disco que combina guitarras, sintetizadores e eletrônica. Embora vindos de universos musicais distintos (Paulo Pedro Gonçalves possui uma formação mais orgânica e integrou várias bandas, tais como Os Faíscas , Corpo Diplomático e os míticos Heróis do Mar enquanto DJ Vibe é a figura de maior relevo na música dançante em Portugal, detendo igualmente uma carreira internacional sólida ao nível do clubbing), o caminho dos dois músicos já se tinha cruzado no grupo LX-90, em Lisboa, nos anos 1990. Numa entrevista que decorreu no bairro lisboeta da Ajuda, Paulo falou sobre o álbum homônimo de estreia, lançado a 16 de abril pelo selo Chic Choc Music, que foi fundado por ambos (do qual Paulo retirou o nome que considera “kitsch”, mas igualmente moderno e afetivo, a partir de um antigo Shopping de Lisboa, o Chic-Choc, onde Tó Pereira trabalhou muitos anos na discoteca do pai e deu os seus primeiros passos na música) e abordou diversas questões ligadas ao projeto e outros aspetos relacionados com o seu percurso.
A vontade comum de exploração sonora, que partiu da eletrônica para percorrer vários gêneros, como o pop, blues, ambient e o rock, esteve na base do nascimento do disco que é composto por oito instrumentais e propõe uma viagem que atravessa diferentes latitudes e homenageia a música e os artistas de diversos países. Segundo Paulo Pedro Gonçalves, a escolha do nome do projeto não obedeceu a nenhum critério especial e residiu mais na sua força: “Acho que ‘Mão’ tem imenso significado e é muito importante. Basta dizer que é com as mãos que se cria música e elas servem para tudo, tal como o bem e o mal”.
Globalmente, o trabalho assenta numa dinâmica fluida e cativante, pontuada por boas melodias e numa fusão rigorosa entre o componente orgânico e a eletrônica. Outro aspecto a reter em “Mão” (2026) reside no fato de cada faixa exibir vários ambientes. Um desses exemplos é “Siberian Pianos” que começa com uma marcha do tipo militar, mas, ao mesmo tempo, envereda no estilo Blaxploitation (recordando Isaac Hayes, os sopros e o universo de “Shaft”) e transforma-se em algo bucólico com violinos. O motivo da criação dos contrastes resulta de uma influência antiga. “Isso vem da paixão que eu tinha pelos singles dos Beatles que acabavam de forma completamente diferente. É o caso de ‘Penny Lane’, ‘Strawberry Fields Forever’ e ‘I Am The Walrus’ que terminavam assim. Havia sempre algo interessante. É um brinde para o ouvinte e para quem produz o disco dá prazer”, explica Paulo Pedro Gonçalves.
Merecem também destaque o vibrante single de apresentação do álbum, “Brasil de Janeiro”, a faixa mais dançável do trabalho e que de acordo com Paulo “poderá ser interessante no Brasil pelo seu lado de Carnaval e pelo beat que apresenta” e o mais recente single, “Reeperbahn”, que evoca o famoso bairro de Hamburgo (que foi decisivo para a evolução dos Beatles), cuja batida simula o pulsar da cidade, recolhendo influências dos Kraftwerk e do krautrock dos Can. O lote dos melhores momentos de “Mão” completa-se com a derradeira e envolvente “Yokohama Clouds” que, entre outros aspectos, conjuga a melodia com variações rítmicas sugestivas. “Foi uma música que apareceu espontaneamente com o beat, que é um balanço do qual gosto bastante. Depois foi evoluindo. Faz-me lembrar os Talking Heads, provavelmente pelo som da guitarra. Há esse lado, porque eles têm música para dançar. No entanto, não foi uma homenagem aos Talking Heads e sim ao Japão. Musicalmente, a canção tem diversos elementos sonoros e simultaneamente exibe um componente psicodélico”, conta.
Paulo Pedro Gonçalves, que vive em Londres, conciliou durante muitos anos a atividade musical com a moda, criando roupa vintage para artistas como David Bowie, Blur, Sean Lennon e Lenny Kravitz, entre outros, além de colaborar com o cinema (em diversos filmes, tais como “Velvet Goldmine” e “Star Wars”) e inspirar marcas como Hermès e Prada, atividade que encerrou em maio de 2025. Ainda sob o signo do passado, recordo-lhe que em 2013 os Heróis do Mar anunciaram o regresso aos palcos para um concerto único em Lisboa no Pavilhão Atlântico (atual Meo Arena), que depois foi cancelado, e questiono-o sobre essa possibilidade. “Acho difícil e não há vontade do grupo em voltar. Por um lado, poderá existir devido à nostalgia. Mas, pelo lado artístico, não vejo grande mérito nisso. Seria uma coisa do tipo karaoke e apenas para os fãs. É um pouco duvidoso que fizéssemos algo de diferente. Talvez sim, mas não acredito que aconteça”, afirma. Em marcha encontra-se o tour de apresentação de “Mão” e Paulo confirma que estão a tentar organizar espetáculos no outono. “Quando forem atuações com cache mais pequeno seremos quatro a atuar. Esses concertos terão a participação no teclado do João Gomes, o Ruca Rebordão na percussão, eu nas guitarras e teclados e o Tó Pereira nos teclados. Como o álbum tem cordas e sopros, quando tivermos orçamentos maiores faremos coisas com mais gente”, conclui.
De Lisboa para o Brasil, Paulo Pedro Gonçalves conversou com o Scream & Yell sobre o Mão. Confira:
O vosso primeiro encontro musical remonta aos anos 1990, quando você convidou o Tó Pereira (DJ Vibe) para integrar o grupo LX-90 que editou o álbum “Uma Revolução Por Minuto” (1991) e estabeleceu uma ponte inovadora entre o rock e a música de dança, em Portugal. Nesse sentido, gostaria de saber como nasceu o projeto “Mão”, que vos volta a reunir e explora outras áreas musicais, e como decorreu o processo criativo do trabalho.
Em 2022, nós juntamos os LX-90, outra vez, ao fim de 30 anos. Fizemos um single e um espetáculo no festival Super Bock Super Rock, de 2023, mas não havia muita vontade de continuar. As opiniões divergiam sobre a forma da banda avançar. Mas, a pessoa que eu sentia que tinha a visão pretendida para os LX-90 era o Tó. Entretanto, fui para Londres, onde moro, e um dia ele telefonou-me e perguntou-me o que estava a fazer. De seguida, mandei-lhe os projetos musicais solo que tenho feito fora de Portugal, como o Scarecrow Paulo, CABRA e o segundo disco do Ovelha Negra (“Ilumina”, de 2012). Ele gostou muito e propôs-me fazermos alguma coisa só nós dois e respondi-lhe: “Porque não?”, já que o que gosto de fazer é música de qualquer forma. Tudo decorreu normalmente. Eu vinha a Portugal, estava cá 15 dias e trabalhamos bastante bem juntos. É um processo muito criativo, rápido e interessante. Nenhum de nós é propriamente tecladista, tenho algumas noções, sou mais guitarrista e toco acordeão. Mas, foi uma forma criativa fascinante, por causa das limitações e das possibilidades que essas restrições trazem e moldaram o trabalho.
“Mão” (2026) é um álbum concebido como uma viagem sonora em que cada canção corresponde a vários países, cidades ou ambientes geográficos e presta igualmente um tributo à música e aos artistas desses locais. Porque edificaram o disco e as canções desta forma?
As canções foram feitas na medida que iam surgindo. Algumas lembravam qualquer coisa e começou aí o processo de fazer a viagem. Pensando na Itália, sugeri que criássemos uma música com um baixo à Giorgio Moroder e essa foi a canção italiana (“Acqua Della Medici”). Em Inglaterra, como vivo lá, o começo da faixa era um pouco indie rock e lembrava o som de guitarra dos Killers e depois fizemos uma coisa eletrônica e ocorreu-me o nome “Electricity Will Kill You England”, devido a uma nova revolução que está a acontecer, como foi a do início da era industrial, em que as máquinas e a inteligência artificial estão a tirar trabalho a muita gente. Num certo sentido, o título da música goza um pouco com isso e expressa que se o processo não for feito de uma forma inteligente e humana irá matar-nos a todos. O trajeto da canção inglesa foi bastante natural e orgânico e resultou assim. Depois, achamos que era um bom conceito de inclusividade, englobando o mundo inteiro, povos e culturas diferentes. É algo que nos motiva. Para além de músicos, somos seres humanos e vivemos num planeta em conflito, genocídio e imensas coisas a acontecerem em tantos sítios. Há uma enorme falta de tolerância e ódio pelos emigrantes. Estamos a viver um período muito escuro e é sempre bom mandar uma mensagem positiva e foi o que tentamos fazer. O que pretendíamos transmitir com o disco é que estamos todos neste planeta, por isso temos de nos relacionar, aceitar e tolerar da melhor maneira possível.
O disco tem diversos ambientes e pode ser escutado numa pista de dança ou num sofá. Acredita que estas características, aliadas ao fato do trabalho propor novos caminhos musicais, o poderá tornar apelativo para um público mais vasto e ultrapassar fronteiras?
Espero que sim. Quando faço música é porque gosto e não estou a pensar no público. Acho que é um erro de qualquer artista criar com essa intenção. Uma pessoa faz a música que lhe agrada. Depois, se pegar, muito bem. No entanto, sinto que o álbum tem condições para resultar. Aliás, o Tó mandou o disco para o DJ Harvey na Califórnia. Ele disse que gostou imenso e referiu também que era muito diferente e ia passá-lo bastante. Quando pensamos neste trabalho, não foi nos moldes de poder agradar a alguém. Por isso, o álbum acabará por seguir o seu caminho natural.
Vocês têm um novo disco projetado para breve. Qual vai ser o âmago e a orientação desse trabalho?
Ainda não sabemos quando será lançado porque estamos com este disco, no momento. O próximo álbum vai ser muito diferente. Não sei se isso é bom ou mau, mas foi o que aconteceu. Consiste num trabalho com vozes e algumas personagens interessantes, que viviam numa favela perto do Atira-te ao Rio (restaurante à beira do Rio Tejo) a fazer rap. Eu gravei as vozes deles no telefone. Eles fazem um rap crioulo bastante engraçado que usamos. Depois temos mais músicas cantadas e outra coisa que gravei de um vocalista de dub em Londres. É uma mistura de vários elementos.
Como avalia o panorama musical português e internacional no momento?
Em Portugal conheço muito pouco. Como vivo em Londres, não tenho acompanhado a cena musical. O que vejo, quando venho a Portugal e estou em casa da minha mãe, que está em cadeira de rodas e assiste à emissão de canais de televisão como a SIC, são aqueles artistas que não merecem comentários. Constato que depois dos LX-90 e de eu ir para Inglaterra houve uma grande invasão de música pimba (brega). É inacreditável. Para além disso, existem algumas coisas interessantes como é o caso da Pongo (uma cantora e compositora de kuduro, rap e pop nascida em Angola e criada em Portugal). Lembro-me que na altura dos Heróis do Mar dizia-se que os portugueses não sabiam cantar. Desconheço de onde veio essa ideia porque canta-se muito bem em Portugal e temos grandes cantores. Atualmente também. A única coisa que me parece, e não é só aqui que isso acontece, é a existência de gêneros musicais e toda a gente a soar igual. Tu vais ao Brasil e escutas algo de soul e em Inglaterra ouves uma coisa de soul tal como em Portugal. É tudo igual. Os instrumentos e os sons que eles usam são os mesmos, depois aparece um pouco de rap e uma coisa qualquer. Acho incrível. Quando era miúdo (garoto) escutava a rádio e as bandas eram diferentes. Havia a Motown, tinhas os Beatles e os Doors. Todos faziam um som único. Agora há muita gente a soar da mesma forma. Isso veio desses concursos como The Voice e The X Factor. Eles criaram uma escola de artistas que têm fama durante 15 minutos e depois desaparecem sem que haja uma evolução. As bandas dos anos 60 e 70, pelo contrário, começaram com um determinado som, mas progrediram. Se escutarmos o primeiro e o quinto disco desses grupos verificamos que são completamente distintos. Na atualidade, não existe essa evolução nos artistas. É mesmo muito rara.
Gostaria de deixar uma mensagem para os leitores do Scream & Yell?
A minha mensagem para o Brasil é que vocês têm muito boa música. Os vossos artistas são fantásticos e vão daqui os meus parabéns. Espero que tenham um pequeno espaço para nos escutar no meio disso tudo.
– Pedro Salgado (siga @woorman) é jornalista, reside em Lisboa e colabora com o Scream & Yell desde 2010 contando novidades da música de Portugal. Veja outras entrevistas de Pedro Salgado aqui. A foto que abre o texto é de Kenton Thatcher.
