Literatura: “Roberto Carlos: Por isso essa voz tamanha”, de Jotabê Medeiros

Texto por Daniel Abreu

Roberto Carlos completou 80 anos no último dia 19 de abril. Para comemorar a data, diversos famosos homenagearam o artista em suas redes sociais, casos de Caetano Veloso, Gal Costa, Djavan, Marisa Orth e Tata Werneck, entre outros. O reality show Big Brother Brasil também prestou homenagens. Os participantes responderam perguntas inspiradas nas músicas do cantor, além de terem assistido ao especial de 80 anos do Rei, feito com imagens de arquivo. O Jornal Nacional, outro programa da Rede Globo, emissora na qual Roberto possui um contrato de exclusividade, exibiu uma entrevista com o aniversariante por telefone. Roberto falou sobre os cuidados que tem tomado durante a pandemia, como ela afetou seus projetos, que incluía um show de aniversário em Cachoeiro de Itapemirim, sua terra natal, além de como é chegar aos 80 anos de idade. “Eu acho que eu sou um cara de 30, 40 com experiência de 80. É assim que eu me vejo”, contou o artista para o repórter Pedro Bassan.

Outro fato que marcou essa data tão importante foi o lançamento de alguns livros que falam sobre a vida e obra do aniversariante. Um deles foi escrito pelo jornalista Jotabê Medeiros. Editor de cultura da revista Carta Capital, “Roberto Carlos: Por isso essa voz tamanha” (2021, Editora Todavia) é a terceira biografia escrita por Jotabê, que antes já havia biografado outros dois astros da música brasileira, Belchior e Raul Seixas. Com quase 500 páginas, Jotabê tenta traçar a história desse artista tão singular na história da música brasileira e na vida de todos os brasileiros.

Com mais de 60 anos de carreira, o capixaba já vendeu mais de 140 milhões de discos e se tornou um dos artistas mais bem sucedidos do Brasil. Jotabê mostra no livro que um dos motivos para essa trajetória de sucesso ter dado tão certo é que o Rei se cercou, e continua se cercando, das pessoas certas. Uma dessas pessoas é Erasmo Carlos.

O autor fala que a princípio os dois não tinham nada a ver. Alto e fisicamente ágil, Erasmo tinha a sabedoria e malandragem das ruas. Filho de mãe solteira, cresceu pelas ruas do Rio de Janeiro e antes de se aventurar na música passou por diversos empregos, como ajudante de pedreiro e office-boy. Com um temperamento impulsivo e pouco diplomata, duas qualidades que não fazem parte do perfil de Roberto, foi o gosto musical que uniu os dois jovens rapazes. “Eram o côncavo e o convexo, mas os santos miraculosamente bateram: logo depois do primeiro contato, tornaram-se inseparáveis. Havia em Erasmo uma versatilidade que maravilhava Roberto, um faro inato para o novo, para a vertigem. Foi Erasmo, por exemplo, quem descobriu o teclado para a música moderna brasileira, o Roberto foi um dos primeiros a usufruir da descoberta”, conta o jornalista.

Os dois fizeram parte da Jovem Guarda, movimento cultural que surgiu no começo da década de 60 e que misturava música, principalmente o (então jovem) rock and roll, comportamento e moda. Jotabê conta no livro que esse movimento pode ter surgido graças a uma banal infidelidade conjugal. Na época, a TV Record perdeu os direitos de transmissão do futebol paulista aos domingos. Durante a transmissão de uma partida, as câmeras flagraram o então presidente da Federação Paulista de Futebol na tribuna com uma mulher que não era a dele, dando a maior confusão. Paulo Machado de Carvalho, dono da TV Record, se viu pressionado a colocar um programa-tampão no lugar. Esse programa, no qual o mandatário já pensava que deveria ter como foco a juventude do iê-iê-iê, seria a “Jovem Guarda”.

A amizade de Roberto e Erasmo também rendeu alguns dos principais sucessos da nossa música, como “O Calhambeque”. O autor conta que a canção surgiu a partir de uma música do compositor norte-americano John D. Loudermilk. Assinada por ele e pela mulher, Gwen Ludermilk, “Road Hog” serviu de base para “O Calhambeque”. Erasmo, que era mestre em descobrir grandes canções e já tinha curtido uma outra composição de Loudermilk de 1961, ouviu a música e decidiu fazer a sua versão, bem mais livre. “Roberto Carlos, seu parceiro, adorou e gravou, mimetizando até os vrrrummms, barulhos de gravação (feitos, no original, por um amigo de Loudermilk, Norro Wilson) e gargalhada do cantor em sua interpretação original”, conta Jotabê.

Infelizmente a carreira do Rei não foi feita apenas de sucessos. Ao longo dessas seis décadas de reinado, Roberto Carlos também se envolveu em uma série de polêmicas. Talvez a mais conhecida seja sobre a biografia escrita por Paulo Cesar de Araújo, “Roberto Carlos em Detalhes” (2006). Irritado com o lançamento, Roberto conseguiu na justiça que o livro fosse proibido e retirado das lojas, atitude que gera críticas a ele até hoje (e que rendeu um segundo livro de Paulo Cesar de Araújo, “O Réu e o Rei”, sobre os tramites do processo). Mas essa não foi a primeira biografia que o cantor conseguiu fazer “sumir do mapa”.

Jotabê conta em seu livro que no final dos anos 70, o ex-mordomo do músico, Nichollas Mariano, decidiu escrever sobre sua experiência com o cantor em alguns cadernos de anotações e até em sacos de padaria. Essas anotações caíram nas mãos do editor Roberto Goldkorn, da pequena Ediplan, que na época estava buscando algo de impacto para publicar. “Quando soube da intenção do ex-mordomo de publicar memórias com ele como centro de tudo, Roberto Carlos enviou seus advogados para pedir uma cópia do livro. Queriam ler antes da publicação,” conta o autor. Roberto não gostou das “revelações” do ex-funcionário e, em plena ditadura, conseguiu na justiça o embargo da venda e distribuição de “O Rei e eu: Minha vida com Roberto Carlos”, que hoje pode ser encontrado no Mercado Livre por no mínimo R$ 250,00.

Mas talvez uma das partes mais interessantes desse livro, e que o torna único, seja o fato de que, em alguns momentos, Jotabê conta algumas de suas experiências cobrindo a trajetória de Roberto. Como muitos dos brasileiros, a música do Rei também fez, e continua fazendo parte da vida do jornalista. O autor conta que quando estava começando a sua carreira, em 1986, no jornal Folha de Londrina, foi escalado para fazer uma entrevista com o cantor no hotel que ele estava hospedado na cidade. Durante a caminhada de duas quadras entre a redação e o hotel do cantor, Jotabê começou a cantarolar músicas do Rei na sua cabeça. “Assombrosamente, eu conhecia um Roberto Carlos para cada situação sentimental da minha vida, conhecia as canções ecológicas, as moteleiras, e brincava com o coro de crianças de uma das mais famosas fazendo coro de criancinha, jocosamente,” conta ele.

“Roberto Carlos: Por isso essa voz tamanha” é uma ótima biografia, principalmente para aqueles que estão começando a adentrar ao universo desse artista tão transversal, que surfou nas ondas do rock, apaixonou uma geração de fãs com seu jeito de amante a moda antiga e acendeu o fogo da black music no final dos anos 60. Além disso, coloca Jotabê Medeiros como um dos principais biógrafos do nosso cancioneiro popular.

– Daniel Abreu é jornalista responsável pelo Geleia Mecânica e colaborador do Scream & Yell e do Whiplash.

Leia também:
– Em Fortaleza: Como é grande o amor do público por Roberto Carlos (aqui)
– Dezembro de 2006:  Roberto Carlos mostra seus defeitos ao vivo (aqui)
– Setembro de 2011: O quanto o Rei se tornou uma figura caricata (aqui)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.