Três perguntas: Irakytan, uma interessante mescla da MPB, LGBTQ+ e música eletrônica

entrevista por Renan Guerra

De rosto pintado de branco, com lábios e olhos maquiados de forma over, Irakytan é como um curioso encontro entre Elke Maravilha e Ney Matogrosso, isso tudo parido nas pistas esfumaçadas da noite. De Maringá, interior do Paraná, o jovem artista está lançando seu primeiro single autoral, “Caminhar”, em uma interessante mescla da MPB com música eletrônica.

Esse mix sonoro surgiu das experimentações do artista, que costumava performar enquanto discoteva, por isso as bases eletrônicas tomando conta de canções clássicas da MPB. Em 2020, Irakytan desenvolveu o projeto REC:Antar Show, que foi contemplado por um edital emergencial da Secretaria de Cultura de Maringá e que ganhou transmissão on-line pelo YouTube. No repertório, canções com certo espectro combativo e crítico, reforçando a busca por liberdade e pela plena vivência das identidades LGBTQ+.

“Caminhar”, seu single de estreia, foi composto em parceira com a DJ e produtora Chá Di Lirian, sua conterrânea de Maringá. Esse é o primeiro passo de um artista em ebulição, que aponta para caminhos interessantes em suas misturas e experimentações. Para entender um pouco mais sobre quem é Irakytan, o artista respondeu três perguntas do Scream & Yell. Confira abaixo:

Suas performances são extremamente imagéticas e seu visual conversa com o universo das drag queens, por exemplo. Nesse sentido, gostaria que você explicasse um pouco quem é Irakytan e como se desenvolveu sua persona artística. Além disso, quais suas inspirações estéticas?
Sou filho de artistas que trabalham com teatro de formas animadas, nasci praticamente nas coxias dos teatros junto de meus irmãos mais velhos, acredito que tudo começa aqui, foram muitas vivências crescendo e trabalhando na cia Fanto Kids (companhia de teatro de minha mãe). Meus pais sempre incentivaram eu e meus irmãos a explorarem outros nichos artísticos como a música, a dança, as artes plásticas, sempre estávamos envolvidos com o fazer artístico. Comecei a estudar música quando criança através do projeto social “Projeto Guri”, nele eu fazia aulas de coral e clarinete, ao completar a faixa etária máxima para participação do projeto eu continuei buscando me entender mais artisticamente, continuei estudando música fazendo aulas de canto popular particular e iniciei minha formação em Ballet Clássico. Neste tempo tive a oportunidade de ir me conhecendo e me desvinculando aos poucos dos trabalhos de meus pais, buscando o meu fazer artístico e a minha estética, foi quando me envolvi com a música eletrônica, descobri um novo universo de possibilidades, conheci diversas sonoridades e automaticamente fui explorar a performance corporal, que é muito forte aqui no Brasil em festas de música eletrônica, por ter os performers visuais e corporais presentes. Foi exatamente neste período de 2016/17 que eu comecei a entender o meu lugar na cena de minha cidade, fui um dos criadores da festa de rua ÍNSULA, aonde além de fazer a curadoria e produção, também atuei como performer. Nesta fase, envolvidasso com a música eletrônica, eu comecei a fazer aulas de mixagem para atuar como DJ. Foi tocando nas noites como DJ que comecei a desenvolver as lives onde eu ia cantando em cima de beats que eu mesmo ia mixando. Comecei a gostar da idéia e a receber um bom feedback, cantava mais covers, porém comecei a experimentar minhas primeiras rabiscadas nestes sets que me apresentava e começaram a nascer as músicas autorais. Tendo toda esta formação aonde o visual era muito presente, o teatro como escola principal de minha formação acabou me levando para este caminho mais performático, uma busca de uma estética retrô e futurista no intuito de ser atemporal. Minhas inspirações estéticas vem desses lugares de manifestações artísticas aonde se cria com o que se tem, meus figurinos, por exemplo, boa parte executados pelo Danilo Furlan, utilizam muitos materiais inusitados como sacolas, tecidos de descarte, botas velhas, etc. Estes performers de festas undergrounds são grandes referências estéticas para a construção da minha persona junto de outras que cresci assistindo como as divas Donna Summer, Cher, Christina Aguilera, Gal Costa, Elis Regina, recentemente as Drags Sasha Velour, Shea Couleé e outras Drags que acompanho por instagram e, claro, Ney Matogrosso, uma grande referência por influência de minha mãe hehe. Acredito que o universo da moda está muito presente também, pois estas minhas referências estão muito linkadas à moda, gosto de acompanhar desfiles de marcas que exploram mais a arte do que a produção comercial, por exemplo. Vou juntando tudo isto de referência e vou criando minhas leituras destas informações de imagens. Por isso, considero que faço uma montação e não necessariamente uma Drag, acredito que eu não cumpra as demandas de ser de fato uma Drag Queen, que é um universo que tenho muito apreço e respeito, mas gosto de brincar com este visual que questiona o gênero e que é chamativo.

Seu projeto REC:Antar Show buscou resgatar canções de diferentes épocas que tinham esse espectro combativo e crítico. Nesse cenário, queria entender como você se entende e se percebe sendo um artista LGBTIA+ no interior do país e que busca essa arte de enfrentamento. Você sente pressões vindas do preconceito e do conservadorismo?
O Rec:antar Show foi um projeto que eu comecei a desenvolver devido a toda violência acumulada de ser uma figura efeminada em uma cidade do interior, me conectei com músicas que traziam mensagens que eu precisava exteriorizar em forma de melodias e beats para me impor e conhecer de fato a minha voz. Não é fácil, mesmo possuindo privilégios e possibilidades, já aconteceu casos de jogarem bebida em mim enquanto performava. E a gente vai encontrando fazer a melhor leitura destes momentos para nos fortalecer, depois deste episódio, por exemplo, eu entendi que eu precisava fazer isto cada vez mais, e era exatamente estas pessoas que eu precisava atingir para que outras vissem o enfrentamento. Minha cidade é composta por uma classe média alta cis heteronormativa e branca muito grande, tem um esquema higienista aqui muito forte, então participar destes eventos muitas vezes sem estrutura nos proporciona estas experiências, o que venho fazendo e construindo é o que eu gostaria de ver sendo feito: um artista que sobe no palco ou na caixa de som para mostrar que sim existem diversos corpos e que cada um tem o seu caminho e a sua mensagem. O preconceito é presente tanto dentro do universo das artes, pois muitos artistas tendem a ter a cabeça bem fechada, principalmente da música, quanto dos lugares que eu poderia estar ocupando na cidade e sei que não ocupo por um certo medo da minha imagem como aparecer de body em um evento “familiar”, sei que tudo é um processo e aos poucos a gente vai alcançando estes espaços e é nisto que me apego. Busco sempre trazer na minha produção outros artistas LGBTQIA+ para trabalhar comigo, pois assim podemos falar a mesma língua e criamos de nós para nós.

“Caminhar” é um single que também tem esse caráter de combate e reflexão, mas é também uma canção pop, de pista. Seria esse primeiro single um passo para mais lançamentos autorais? Quais os seus planos daqui pra frente?
“Caminhar” é uma composição minha que surgiu com estas experimentações que eu fazia de tocar e ir cantando em cima dos beats. Quando aprovei o projeto Rec:antar Show eu queria que a faixa tivesse um som todo autoral, foi ai que convidei a DJ e produtora sapatão Chá di Lirian, onde a gente trouxe a mensagem que é direta para este universo das pistas. Lirian e eu temos pesquisas sonoras muito próximas e foi uma química muito boa que resultou rapidamente na faixa. A escolha de ser o primeiro single foi justamente por termos atingindo uma sonoridade muito interessante que mistura o house com lambada e brega. Para o clipe já tinhamos imagens das gravações do Rec:antar Show, que foi reeditado pela minha irmã Luara Fagundes, que é minha grande parceira e responsável pelas edições finais de todos meus trabalhos. Meu plano para o futuro é no segundo semestre lançar mais um single autoral que está no processo de produção e gravar meu primeiro EP ano que vem. Estou no processo seletivo de um edital municipal para tentar um incentivo para esta realização. Inclusive, as políticas públicas de cultura são ferramentas extremamente importantes para que nós artistas independentes possamos produzir. Quero poder continuar ampliando esta caminhada e levar a minha arte cada vez mais longe para ser ferramenta de luta e resistência em meio a tanto ódio e violência.

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Também colabora com o Monkeybuzz.

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