
por André Fiori
A cidade holandesa de Utrecht (a meia hora de trem de Amsterdam) sedia a Record Planet – maior feira de discos do mundo – que acontece duas vezes por ano (uma em cada semestre). Centenas de expositores e lojistas de todo o mundo e milhares de compradores em um evento que se assemelha a uma grande Disneylândia de vinis. Dificilmente você irá ver tantos discos juntos num lugar só em sua vida.

A feira se desenrola em um final de semana, num grande pavilhão de exposições, e se o cara resolver olhar tudo mesmo com atenção, o sábado e o domingo não serão suficientes. Podemos dizer que a proporção é de 85% de vinil para 15% de CDs e DVDs. Em nossa estadia holandesa de sete dias, após o fim de semana dedicado à feira de Utrecht tivemos quatro dias completos para rodar a bela Amsterdam.

Amsterdam é a maior cidade dos Países Baixos (com cerca de dois milhões de habitantes na área metropolitana) e é cercada de pré-conceitos que, na enorme maioria das vezes, relega ao segundo plano a beleza e a personalidade de uma cidade viva, empolgante e belíssima. Localiza-se entre os rios Amstel e Schinkel e é formada por dezenas de pôlders (terras tomadas do mar e drenadas por diques e canais). Não a toa, 20% do total da área urbana é água.

No total são 165 canais que fatiam a região central em pedacinhos (com 1281 pontes) conferindo um charme totalmente especial para a cidade, que ainda utiliza o tram como forma de transporte (uma versão moderna dos bondinhos), mas é dominada realmente pelas bicicletas, milhares delas.

Na busca por lojas de vinis, percebi que a sorte nos acompanhava no momento em que entramos na primeira loja, no primeiro dia. Era a Second Life, e o cara de lá, ao perceber que eu era brasileiro, perguntou se eu conhecia alguma outra loja da cidade:
– Tenho os nomes e os endereços, vou tentar achá-las.
Ele prontamente pegou um mapa de Amsterdam, e anotou nele os nomes das principais lojas da cidade, bem como sua localização exata, além das principais características de cada uma. Isso é o que se pode chamar de “caminho das pedras”. Fico pensando o que esse mapa me poupou de tempo e de caminhada. Este é um pequeno guia com algumas delas. Informação importante: a grande maioria das lojas costumam fechar às 18 horas. Sem choro.

CONCERTO
Se você tiver pouco tempo disponível e puder ir somente a uma loja na cidade, escolha essa. Vários ambientes com CDs novo, CDs usados, LPs novos, LPs usados, boxes, DVDs, etc. etc. A Utrechtsestraat é a rua que passa por um dos lados da Praça Rembrandt, fácil de achar (além de ser a mesma rua da loja oficial do time do Ajax).
Endereço: Utrechtsestraat 52-60
Site para referência: http://www.nlstreets.nl/EN/shop/concerto–music-amsterdam/

RECORDFRIEND
Novos e usados, principalmente LPs. Boas ofertas
Endereço: Sint Antoniesbreestraat 64
Site para referência: http://www.recordjunkie.com/stores/view/471

SECOND LIFE
Somente usados, meio bagunçada, mas os atendentes bem simpáticos. Dê preferência à parte de baixo da loja do que à parte de cima. Bons preços, e se você comprar certa quantidade pode pedir um desconto que eles darão.
Endereço: Prinsengracht, 366
Site para referência: http://www.secondlifemusic.nl/

RECORD PALACE
Principalmente LPs, alguma coisa de CD. Fica praticamente em frente à mítica casa de shows Paradiso, uma antiga igreja que, depois de desativada, passou a receber concertos. Os Stones gravaram parte de seu disco acústico “Stripped” aqui e consta que Ian Curtis, do Joy Division, conheceu Annick aqui. Além de ir a loja, confira a agenda de shows da casa.
Na Record Palace, ao perceber que eu era brasileiro, Ian, o dono, soltou essa: “O Ed Motta vem sempre aqui”. Ian, que já veio algumas vezes para o Brasil, também quis saber a pronúncia certa de “Jorge Ben”, e depois comentou: “Ele é Jorge Benjor agora, né?”. Disse a ele para se esquecer disso, já que ninguém gosta de chamar o cara assim.

No detalhe, um painel temático na parede da loja, com várias capas de disco com gente pintada. Bela decoração.
Endereço: Weteringschans 33
Site para referência: http://www.recordjunkie.com/stores/view/616

VELVET
Sim, lá também tem uma. LPs e CDs, novos e usados
Endereço: Rozengracht 40
Site para referência: http://velvetmusic.nl/

DISTORTION
Somente LPs. Muito boa em termos de material, com punk hardcore, indie, heavy metal e anos 80, mas terrível em organização. Muitos discos pelo chão, sujeira e bagunça. Contra indicada a quem sofre de bronquite.
Endereço: Westerstraat 244
Site para referência: http://www.distortion.nl/

RECORD MANIA
Usados – LPs e CDs. Vale a pena ir, nem que seja para conhecer a decoração. É a loja mais bonita da cidade. Fica a dois quarteirões da Avenida Stadhouderskade, bem próxima à loja museu da Heineken – que, para que não sabe, foi fundada por Gerard Adriaan Heineken em Amsterdam, em 1863.
O dono, ao perceber o sotaque português, tirou um disco de baixo do balcão, e mandou:
– Então você conhece esse cantor?
Era um compacto 7 polegadas do Dorival Caymmi, original dos anos 60, da música “Eu Não Tenho Onde Morar”. Comecei a cantar: “Eu não tenho onde morar, é por isso que eu moro na areia…”
O cara ficou radiante, abriu um sorriso enorme, e perguntou:
– O que significa?
– “I Don’t Have Where To Live”, eu disse.
Ele quis saber exatamente o que era cada palavra, e botou pra tocar o disquinho. Então foi isso: nós numa loja de discos em plena Holanda, ouvindo Dorival Caymmi no talo. Surreal.
Endereço: Ferdinand Bolstraat 30
Site para referência: http://www.recordmania.nl/location-opening-hours/


– André Fiori é colaborador de primeira hora do Scream & Yell e capo da loja Velvet SP. Todas as fotos por André Fiori, exceto as fotos 2, 3, 6, 7 e 12 (Reprodução Facebook Oficial)
Leia também:
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– Duas (ou três) vezes PJ Harvey: assista “Sky Lit Up” ao vivo no Paradiso (aqui)
– Ao vivo: PJ Harvey quebra o protocolo da turnê em Amsterdam, por Mac (aqui)
Ótimo post, vou dar uma passada por todas elas.
Você chegou a trazer algum vinil com você? Como funcionou a tributação?
Post muito bom, anotadas todas as dicas!!
gostaria de receber informações sobre essa feira de vinil em amsterdan.
Nesta feira você até encontrava música brasileira (na verdade encontrava praticamente de tudo que existe) mas não muito. O que é mais valorizado é Tropicália e afins…
Da Polônia não sei a respeito, melhor apelar para o google….
Em breve irei para a Polônia. Alguma dica de lojas de discos por lá?
Muito bom, mas teria sido emblemático se fosse o Luiz Gonzaga – pelas raízes holandesas em Recife.
Embora Caymmi, claro, seja tão gênio quanto.
Interessante como os gringos consomem o melhor de nossa música, enquanto os brasileiros fazem o contrário.
Quer dizer, apaga, me lembrei do sucesso mundial do Teló.
Na verdade consome boa música quem lhe dá valor além do trivial.
PS: Nessa big feira tinha muitos discos brasileiros? E de qual ordem de artistas?
Eu ia passar o sábado e o domingo enterrado nesse centro de convenções. rsrsrs