
por Vladimir Cunha
Eu e DJ Maluquinho, um dos inventores do tecnobrega, começamos a encher a cara desde cedo. Daí o nosso estado precário quando a Banda Uó subiu ao palco para encerrar o primeiro Eletronika Belém.
O sujeito estava começando a ficar meio perigoso, quase sem conseguir andar direito, tropeçando nas próprias pernas, mas esperto o suficiente para roubar umas latas de cerveja da área vip do festival quando se ligou que o bar ia fechar e perigava da birita já não rolar tão fácil.
Mas nada que o impedisse de entrar de bicão na discotecagem de Rodrigo Gorky, o gordinho nerd que descobriu que podia ser alguém quando inventou o Bonde do Rolê e embalou o funk carioca para o resto do mundo.
Bonde do Rolê, Banda Uó… diversas encarnações da obsessão de Gorky em dialogar com a música da periferia brasileira. Primeiro o funk. Depois o tecnobrega de camisas xadrez, bonés de grife e bigodes propositalmente cafonas, como se tudo o que a música de massa brasileira já produziu terminasse em ironia.
O show acaba, mas ninguém sai do palco. A discotecagem de Gorky começa. Depois de um tempo sumido, Maluquinho dá as caras novamente. Olho para o sujeito e penso “caralho, esse filho da puta tá tão doido que se mijou todo”.
“Que porra foi essa, rapá?”, pergunto.
“O que?”.
“Isso aí na tua calça”.
“Ah, porra, é que deu merda”.
Pra minha surpresa, ele mete a mão no bolso e tira uma lata de cerveja toda amassada, que havia acabado de estourar dentro das suas calças. Ele ri, bebe um resto que havia ficado no fundo e joga a lata no chão.
Maluquinho pode até ser meio doido, mas não é burro. Fica parado um tempo observando Gorky discotecar e me pergunta de onde ele é. Digo que não sei. Maluquinho fica quieto. “Mila”, hit dos meus tempos de axé no bloco do Shopping Picanha, causa uma comoção inesperada e transforma a pista do Eletronika em uma micareta hipster.
“Porra, Vladimir, tu sabe qual é o problema desses DJs da burguesia?”, me pergunta Maluquinho já emendando a resposta, “O problema deles é que eles não falam no meio da música. Eles não mexem com a galera, não mandam abraço, não pedem palmas, não sabem interagir”.
“Então vai lá em cima e pega o microfone, porra”, respondo.
Mal termino a frase e Maluquinho já está no palco. Dago Donato faz a ponte e logo parece que Maluquinho e Gorky são parceiros de longa data. O que era apenas uma discotecagem vira um acontecimento que dificilmente será esquecido por quem foi à primeira noite do Eletronika Belém.
Porra, Maluquinho é puta velha e sabe de trás para frente todos os truques que fazem a massa se remexer. Gorky entra na onda e manda umas bases espertas na medida para Maluquinho improvisar uns tecnobregas, mandar abraços pras meninas, pros casados, pros solteiros, para as bichas e para as vadias. A rapaziada aprova a presepada e invade o palco. A temperatura sobe e a inibição diminui. Meninas rebolam, um rapaz tira a roupa e fica só de cuecas. House vagabundo, Alceu Valença, Chiclete com Banana, funk carioca e tecnobrega. Gorky e Maluquinho no comando da sacanagem. É hora de gritar “vai, vai, vai”. É hora de rolar o treme-treme. É hora do sexo e da safadeza. “Pega fogo cabaré”, grita Maluquinho relembrando uma expressão antiga dos puteiros da zona boêmia de Belém. Dá certo. O cabaré pega fogo e a festa vira uma zona. Eu roubo uma cerveja de Gorky e encontro André Paste emocionado por finalmente ver um astro tecnobrega em ação. Dago ensaia uns passos de dança. Um casal se joga no chão e simula uma cena de sexo. Bonde do Rolê e Banda Uó dançam. Todas as conexões possíveis que um festival como o Eletronika poderia supor sendo estabelecidas ali, naquele momento. Do palco, localizado de frente para a Baía do Guajará, vejo a zona portuária da cidade, o berço de todas as interseções culturais de Belém desde o final dos anos 50, quando os primeiros discos de merengue e os primeiros rádios solid state chegaram à cidade através da rota de contrabando estabelecida a partir do Caribe e das guianas.
Ninguém agüenta mais. Mentira, as pessoas agüentariam sim. Só que a festa precisa acabar. Maluquinho quer beber mais, puxa um bolo de notas de cem do bolso e sai perguntando onde dá pra comprar uísque. Roubo a chave da sua moto e mando ele pegar um táxi, já meio preocupado que aquela noite termine em tragédia, afinal ninguém quer assistir ainda ao nascimento do James Dean tecnobrega. O salão se esvazia aos poucos. Ir embora pra que? Mas já deu, daqui o pouco é outro dia.
São seis da manhã no mercado do Ver-O-Peso. Na Barraca da Carioca, espero ela fritar um filé de dourada enquanto bebo a última cerveja da noite e a primeira da manhã. Os raios de sol começam a aparecer por detrás dos casarões antigos do centro comercial de Belém quando uma discussão atrai a minha atenção. Dois feirantes brigam. O negócio fica feio, o clima pesa. Um feirante puxa uma faca peixeira e parte pra cima. Eu, que já me preparava para sangue, tragédia e um corpo no local, respiro aliviado quando tudo o que rola é bate-boca, ânimos apaziguados e a turma do deixa disso.
O clima volta ao normal e enquanto como o filé de dourada com uma providencial coca-cola fico pensando na noite de hoje e em uma frase que Marcos Maderito, principal MC da Gang do Eletro, havia falado horas antes enquanto debatíamos o futuro do tecnobrega. “A galera tem que se tocar que o futuro já está acontecendo”, disse ele quando perguntado sobre a importância do estilo hoje. Caralho, eu jamais achei que fosse viver para ver Marcos Maderito e William Gibson alinhados em uma mesma corrente de pensamento. Afinal foi o escritor canadense de ficção científica quem disse, em 1993, que “o futuro já chegou”.
Na volta pra casa, largado no banco de trás do táxi, fico ruminando a frase de Maderito. Penso nas implicações do futuro ser agora, da possibilidade de apropriação de uma revolução tecnológica e apolínea na construção de uma nova configuração de realidade mais dionisíaca e interessante. Volto ao Ver-Peso, à imagem de dois feirantes que comiam ao meu lado enquanto trocavam os últimos lançamentos do tecnobrega via Bluetooth. É um novo momento: malandro, sagaz e otimista, como Maluquinho e Maderito, e não pessimista e angustiado, como Bruce Sterling e William Gibson. O táxi percorre as ruas do centro comercial de Belém. Vou levar pelo menos uns 40 minutos para chegar em casa. Mesmo bêbado e cansado, ainda consigo me sentir feliz, com a certeza de que o futuro não é mais como era antigamente.

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– Vladimir Cunha (@vcunha) é jornalista, assina o blog Tudo Jóia e é um dos diretores do documentário “Brega S/A”
O relato pode ser bonito, tem um quê de utopia na parada – o futuro, ah, o futuro. Mas a gente já sabe que só poesia não faz revolução. E, claro, putaria pode ser um negócio gostoso à beça, mas não é, necessariamente, liberdade. (E nem bota comida no prato da galera).
kkkkkkkk texto estilo mamãe-quero-ser-alcoólatra
porra, vlad! acho do caralho a tua capacidade de lembrar de tudo e ainda escrever sobre. as noites do eletronika foram fodas!
fica falando em dionisico e apolinário, só quer se amostrar.
isso nao vai dar grana, só os bregueiro é q tao ganhando haha otario.
maderito, mc sei lá, eles nao gostam de melody, nem de tecnobrega, nem de nada. Eles só acham melhor q vender pasta.
Quem gosta dessa merda é intelectual, playboy e antenado.
Como eu nao sou de periferia, nem playboy, nem intelectual (nojo), tb nao quero me misturar com nada, nem quero saber de brega nenhum, isso é lá na periferia, aqui é outra vibe dionisica apolinária.
Já ganho minha grana, já dei meu jeito, vcs que são fracassados vão atrás de melody.
Ismael Machado, eu moro em Goiânia. Portanto, em termos musicais, numa sucursal do inferno. Tá, existem opções musicais alternativas por aqui, o S&Y as conhece muito bem. Mas quando ponho o pé na rua, o que toca é sertanejo. Quero descansar no sábado e o que é que toca no mezzanino do prédio? Sertanejo. E quando procuro alguma rádio enquanto dirijo, que não tenha pregação religiosa, o que toca? Sertanejo!
(as rádios “adultas” são, na verdade, defuntas)
É interessante o seu ponto de vista, pois para os ouvidos de fora pode parecer interessante o que se toca na nossa terra. Mas ficar com essa dieta musical indefinidamente tira o humor de qualquer criatura.
De que adianta dizerem que Goiânia é (ou foi) a Seattle brasileira se, nos alto-falantes populares, quase sempre só toca o mesmo tipo de som?
Gueto musical por gueto musical, sou mais o meu quarto.
Bom, Vlad, o texto é sempre perfeito. Mas o conteúdo…isso de ‘novos caminhos para o pop brasileiro’…se o pop brasileiro tiver que se sustentar nos tecnomelody, tecnobregas da vida..a música pop vai estar mais fudida do que tá hoje, na boa. Eu convido a todos a vir morar em Belém e residir, como eu já passei por isso, a menos de meio quarteirão de um local onde role festa de aparelhagem. Com duas semanas, todo o encanto pelas variações do tecnomelody e congêneres se esvairiam. Ou mesmo, peguem ônibus lotados com algum camarada tocando isso a todo volume no percurso. Se há algo mais parecido que o inferno, só se fosse pagode ou sertanejo.
Dessa galera do Pará eu curto os Mestres da Guitarrada.
Tem dois cds bem bom deles.
Muito bom o relato. Obrigado por publicar.