Para entender… KT Tunstall

Texto por Fernando Yokota

Prestes a retornar ao Brasil em junho, quando acompanhará a cantora inglesa Joss Stone, KT Tunstall trará mais uma vez ao país seu show no estilo “one woman band” que a projetou no cenário musical mundial no início dos anos 2000. Com o seu álbum de estreia, “Eye To The Telescope”, pronto para ser lançado, a cantora havia recebido uma ligação da produção do famoso programa Later… With Jools Holland pois o rapper Nas havia acabado de cancelar sua participação e havia surgido uma vaga.

Dos minúsculos cafés da costa leste da Escócia para as salas de estar de todo o Reino Unido, Tunstall transformou-se num fenômeno instantâneo ao evocar o ritmo de Bo Diddley com um violão e um pedal de loop em “Black Horse And The Cherry Tree”. A música, que não constava no tracklist original do disco, teve que ser incluída às pressas na master final de “Eye To The Telescope” devido ao sucesso no programa da BBC.

“Pediram-me para me apresentar (no Later… With Jools Holland) 24 horas antes (devido ao cancelamento do Nas) como uma cantora desconhecida e, ainda que eu estivesse na estrada tentando chegar a algum lugar com minha música havia mais de 10 anos, considero essa performance o equivalente aos sucessos que acontecem do dia pra noite”, contou KT nessa entrevista.

O sucesso da cantora atravessou o oceano mas, curiosamente, o maior hit de Tunstall nos Estados Unidos foi o single “Suddenly I See”, que chegou a ser usada como jingle da pré-campanha à presidência de Hillary Clinton em 2008 (e até num comercial da Claro aqui no Brasil posteriormente). Nas ilhas britânicas, o surgimento de Tunstall coincide com o início de um movimento de artistas que se afastavam dos exageros da Cool Britannia para buscar inspiração em um gênero mais orgânico que ficou conhecido como o “nu folk”.

Culturalmente, a introdução de loopers para criação de camadas era algo que já acontecia desde os tempos de Robert Fripp e o Frippertronics, com o ressurgimento na cultura pop contemporânea principalmente no “Kid A” de Jonny Greenwood e o Radiohead. A revolução musical de KT Tunstall, por sua vez, consistiu em juntar o pedal de loop –no caso, um antigo Akai Head Rush que ela usa até hoje – à sua música pop.

Com aquela aparição não planejada na TV, Tunstall não só trouxe o loop para as massas como criou o conceito moderno da banda de uma pessoa só. Para o bem ou para o mal, Ed Sheeran e sua “Galway Girl” não existiria sem KT Tunstall e “Black Horse And The Cherry Tree”.

KT Tunstall: Cinco músicas para começar a escutar

– “Black Horse And The Cherry Tree”: aquilo que começou tudo. A fortuita participação no programa Later… With Jools Holland na BBC2 foi a primeira grande oportunidade de KT Tunstall mostrar como uma garota de Fife uniu Bo Diddley e um pedal de loops e transformou num hit.

– “Suddenly I See”: também do primeiro álbum, “Eye To The Telescope”, é até hoje o maior hit da cantora nos Estados Unidos e foi desde jingle de campanha política de Hillary Clinton a trilha sonora de propaganda de celular no Brasil.

– “Little Favours”: o segundo álbum, “Drastic Fantastic” (2007), ainda guarda algum grau de parentesco com o “folksy” “Eye To The Telescope”, mas mostra Tunstall partindo para um som mais polido.

– “It Tool Me So Long, But Here I Am” – Depois de um divórcio e dramas familiares, Tunstall lança “Kin” (2016), “vira a página” da vida, entra num relacionamento com a música pop e abraça o sol da Califórnia num momento de autocura.

– “The Night That Bowie Died” – “Wax”, de 2018, indica o início de um processo de descamação dos arranjos pop de discos anteriores, soando como se Tunstall estivesse tocando no quarto ao lado ao invés de uma grande arena. “The Night That Bowie Died” é uma infalível usina de calafrios aos fãs do camaleão.

– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br/

Para entender:
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