Entrevista: André Melo e Fernando Brito (Versátil) – Mercado Cinéfilo de Mídia Física

entrevista por João Paulo Barreto

Terceira de uma série de 9 entrevistas sobre o Mercado Cinéfilo de Mídia Física n Brasil

A Versátil teve seu início em 1999, justamente na virada do mercado de mídia física para a revolução representada pela chegada da tecnologia do Digital Versatile Disc, o disquinho que encantou tanta gente, cinéfilos ou não, e iniciou a aposentadoria das fitas de VHS e suas necessidades de rebobinar. O nome Versátil, inclusive, vem justamente do significado da sigla DVD. À época, alguns anos antes da fundação da distribuidora, Oceano Vieira de Melo, seu fundador, participara de diversas palestras em solo estadunidense acerca dessa nova tecnologia, sendo um dos primeiros a trazer para o Brasil exemplares daqueles produtos.

Antes da distribuidora, o sr. Oceano administrava uma das principais publicações sobre o mercado cinematográfico no Brasil dentro do viés das salas de cinema, videolocadoras e venda ao consumidor final. A publicação Jornal do Vídeo, nos tempos pré internet, trazia informações valiosas sobre esse mercado. Com a ascensão da “world wide web”, o acesso a tais informações se tornaram diretos, e a necessidade de reposicionamento se fez urgente. Assim, surgiu a distribuidora.

Nessa entrevista ao Scream & Yell, um dos atuais diretores, André Melo, e o curador Fernando Brito, trazem uma aprofundada análise desse mercado desde o surgimento há 21 anos da Versátil, bem como abordam processos curatoriais, escolhas comerciais e os desafios de se manter ativa em um ambiente atualmente voltado para o colecionismo. Papo longo… e bom. Confira!

https://www.versatilhv.com.br

Dennison Ramalho, Daniel de Oliveira, André Melo e Oceano Melo

André, a Versátil surge no mercado de homevideo em 1999, fundada pelo seu pai, Oceano Vieira de Melo. Você poderia abordar essa trajetória desde aquele período até esse momento em que a empresa completa 21 anos de existência?
André Melo – Meu pai, cinéfilo desde a infância tanto em sua terra natal, Carneiros, em Alagoas, quanto na adolescência em Santana do Ipanema, sertão alagoano, mudou-se para São Paulo, SP, em fevereiro de 1967. Sempre ligado nos acontecimentos do Brasil e do mundo. 1968 foi um ano marcante, prato cheio de formação para o jovem cinéfilo. Como só frequentou a escola até os 14 anos, fazendo somente o segundo ano primário, dedicou-se a acompanhar as notícias do Brasil e do mundo pelo Rádio das emissoras de São Paulo e do Rio de Janeiro. Sua distração principal, além do cinema, era a leitura de jornal diário, com destaque para as matérias jornalísticas sobre a Sétima Arte e música. Em Alagoas, quando menino, amava assistir os filmes sobre história do mundo. Principalmente, os bíblicos. Com essa idade, veio até São Paulo procurar trabalho. Encontrou no comércio de rua em um bairro no qual resido até os dias atuais: a Lapa. Meu pai teve o contato com o cinema europeu e com o Cinema Novo já em São Paulo. Não tem educação acadêmica, mas considera que conhecer estas culturas vindas da arte e a descoberta da Doutrina Espírita codificada pelo educador e filósofo francês Allan Kardec foi de fundamental importância na sua formação moral e cultural. Em 1970, ele se mudou de São Paulo para Campinas e conhece aquela que viria ser minha mãe. Como ele diz: “O braço direito e esquerdo dele”. Sonia Aparecida Marsaiolli de Melo, com quem está casado desde 1973, tendo quatro filhos e quatro netas. Pela ordem, Juliano, com 45 anos; Daniel, 40 anos, eu, com 35 anos, e Elisa, que tem 32. Com exceção da Elisa, todos atuam diariamente na Versátil nos dias de hoje. Cada um com sua vital importância. No ano em que nasci, 1985, meu pai estava atuante como vendedor de produtos eletrônicos na antiga Sears em Campinas. Ele tinha intenção de abrir um negócio próprio que envolvesse seus conhecimentos culturais e maiores paixões. Fundou uma revista, que viria a ser chamada de Jornal do Vídeo. Eu tenho aqui na minha sala do escritório as primeiras edições, inclusive. A Jornal do Vídeo tinha publicação mensal dirigida e era referência no mercado de home vídeo nacional. Em 1995, como jornalista (autodidata), meu pai, Oceano Vieira de Melo, foi convidado em Los Angeles para participar do lançamento de uma nova tecnologia que iria substituir o CD-Rom, o CD, o disket de computador e a fita de vídeo: era o DVD – Digital Versatile Disc. Recordo dele retornar dessa viagem, contando tanto para familiares e a todos amigos como seria um revolução para o audiovisual, dizendo a minha pessoa (naquela ocasião com 10 anos de idade) como eu viveria de perto isso. Hoje achamos engraçado como, na época, algumas pessoas acreditavam como funcionava a mídia, achando que as imagens dos filmes estavam espelhadas no prateado em volta do disco (similarmente com a película), e que o leitor somente as reproduziria. Ainda não havia compreensão do funcionamento do arquivo digital e os dados em Gb. Na viagem, ele estava com a esposa, Sonia Marsaiolli de Melo, e com o editor internacional do Jornal do Vídeo, o saudoso Paulo de Góes. Ao chegar ao Brasil, fizeram cobertura especial sobre a nova tecnologia, que viria a ser lançado no ano seguinte, 1996. Na época, ele realizou palestras sobre a grande novidade para empresários, políticos e para o público em geral.

Fernando, você citou em outras entrevistas seu começo ainda nos anos 1990, como funcionário da saudosa 2001 Vídeo, bem como, em seguida, sua proximidade justamente com a Jornal do Vídeo. Poderia abordar esse seu começo profissional, bem como o início da sua cinefilia, o que o leva a assumir, no começo dos anos 2000, a função de curador da Versátil?
Fernando Brito – Meu início na cinefilia se deu ainda na minha infância e adolescência, quando eu acompanhava meu irmão nas locadoras. Na época, nós ganhamos um videocassete. Também íamos muito ao cinema com a minha irmã. E eu acompanhei bem o processo das primeiras locadoras lá no interior. Eu nasci em Tremembé, mas sou de Taubaté, interior de São Paulo. E aí nós íamos muito às locadoras naquele período em que ainda havia só fitas seladas. Tinha, também, aquela famosa pasta para escolher os filmes alternativos. Então, fui crescendo frequentando muito locadoras, conhecendo os clássicos. Guardo com muito carinho, por exemplo, quando acompanhei todos aqueles clássicos em VHS que eram prateados, cinzas, lançados pela Warner. Assisti muita coisa naquele formato. Não só da Warner, mas de outras distribuidoras. E aí veio 1995, que foi um ano muito importante para mim. Porque essa paixão pelo cinema resultou em leituras de livros sobre a História do Cinema. E sobretudo, fui a todos os ciclos que foram promovidos em São Paulo por ocasião do centenário do cinema. Na Cinemateca e em outras casas e cineclubes. Assisti a muitos clássicos. Lembro até hoje de uma sessão lá no antigo Banco Real, na Paulista, onde exibiram “Crepúsculo dos Deuses” (de Billy Wilder). Assisti a clássicos no Cine Sesc, no Centro Cultural São Paulo, e por aí vai. Foi muito bacana. E nessa ocasião, eu tive meu primeiro emprego, que foi entrar na 2001 Vídeo. Lá entrei justamente como indicador, porque eu gostava de cinema, na principal loja da rede, que era a da Paulista. Loja que era frequentada pelo (diretor teatral) Antunes Filho, pelo (diretor teatral) José Celso, pelo (cineasta) Fernando Meirelles, por atores. E aí aprendi a conhecer todos os públicos. A conhecer e a saber trabalhar com o gosto do cliente. Entender o cliente. Trabalhar com desde o cliente que gosta do Van Damme ao que gosta do Tarkovski. Então, foi a minha escola. Trabalhei na 2001 Vídeo de 1995 a 2001. Nesse período, fiz vários cursos de cinema e, em paralelo, fiz a faculdade de Letras Inglês e Português na USP e continuei com o mestrado e com o doutorado. Nesse período, eu trabalhei em várias lojas da 2001. Fui gerente, montei o site da locadora, um dos primeiros de e-commerce da 2001 Vídeo, que foi um sucesso. Dei treinamentos, dei cursos de cinema, e, em 2001, eu saí da locadora após um pequeno desentendimento entre eu e um dos sócios. E logo depois, dois ou três meses depois, comecei no Jornal do Vídeo, trabalhando lá para fazer o site da publicação trade do sr. Oceano Vieira, e, também, da Versátil, quando comecei a ajudar no cadastro de fichas, vendo os filmes. Nesse processo, me aproximei mais e acabei assumindo a curadoria a partir de 2002. Em 2001 eu entrei na empresa e, em 2002, assumi e dei a guinada na empresa com o perfil dos filmes clássicos, filmes europeus. O que na verdade eu percebi lá e sempre falo nas minhas entrevistas, é que havia uma demanda reprimida naquele momento. O mercado de DVD era um mercado ainda incipiente que estava ganhando cada vez mais tração. Foi uma revolução o DVD frente ao VHS. E percebi, sobretudo, uma demanda muito grande por filmes europeus, filmes clássicos, com boas edições. Como os filmes americanos estavam ganhando naquele momento, com extras e com qualidade. Porque apenas uma empresa lançava, mas era uma empresa de qualidade duvidosa, e a gente falou: “Não! Vamos fazer com qualidade”. E fomos lá e lançamentos Fellini, Antonioni, Pasolini. Na verdade, a Versátil, desde então, 2002 em diante, todo mês é uma pequena cinemateca. A gente foi sempre trazendo filmes inéditos. Eu lembrava sempre dos filmes que os clientes me pediam na locadora. Então, digamos que essa minha paixão por cinema sempre existiu, desde que me conheço por gente. E ela se fortaleceu na minha adolescência e, sobretudo, na minha atuação profissional. Desde 1995 eu estou nesse mercado. São 25 anos em paralelo à minha carreira acadêmica. Na verdade, a minha paixão por cinema sempre se traduziu em ação. Em ação no mercado de vídeo, seja em locadora, seja criando um site, ou seja trabalhando em distribuidora e fazendo a programação da Versátil. Fazendo a curadoria. Que é cuidar desses filmes, cuidar da cultura cinematográfica e conviver com os filmes.

André, a Jornal do Vídeo trazia informações sobre o mercado de homevideo e serviu como um guia para as vídeo locadoras. Existia concorrentes nesse mercado? Além disso, a Jornal do Vídeo trazia textos sobre os filmes escritos por críticos?
André Melo – Sim. Poucos anos depois, surgiu uma revista chamada Ver Vídeo. Era, digamos, uma editora concorrente com a de meu pai. Na Jornal do Vídeo, meu pai contava com uma redação e jornalistas que trabalhavam na criação, trazendo matérias e notícias sobre o mercado do homevideo e do cinema propriamente dito. Entre estas, dados obtidos das vendas nos cinemas de lançamentos: o que serviam como um norte para locadoras fazerem seus pedidos dali poucos meses, quando os filmes chegavam em VHS. Isso fazia a revista se tornar imprescindível para todo dono de locadora de vídeo na época. Obviamente, não existia internet, sequer streaming e a TV a cabo ainda demorou alguns anos para chegar ao Brasil efetivamente e à população. Onde hoje existem seis formas de atuar com direitos autorais, naquele período havia somente três: cinema, homevideo – que era o VHS (hoje, DVD) – e a televisão (canais abertos). Ponto. Não haviam outros formatos. Na redação, diversos jornalistas consagrados trabalharam com meu pai, entre eles alguns que eram convidados a fazer resenhas, como o crítico Rubens Ewaldo Filho, que colaborou diversas vezes na revista. Inclusive, no blu-ray do “Cinema Paradiso”, há um testemunho dele exclusivo, como meu pai o entrevistando. Como meu pai participava de muitos festivais e de lançamentos naquela época, acabou conhecendo muitas pessoas atuantes do mercado, alguns presente até os dias atuais.

A partir da ascensão da internet, a Jornal do Vídeo ficou defasada. Foi nesse ponto, coincidindo com a chegada da tecnologia do DVD, que surgiu a ideia de abrir a distribuidora, então?
André Melo – Sim. A Jornal do Vídeo estava com os dia contados por conta do acesso via internet a todos os dados que antes eram essenciais para as locadoras terem. Os primeiros lançamentos em DVD nos EUA e no Brasil foram todos de filmes americanos e, como falei antes, meu pai teve como formação em sua juventude a cultura cinematográfica nos filmes clássicos, principalmente os europeus e brasileiros. Então, ele conta que sentiu que era preciso disponibilizar estes gêneros no mercado de vídeo brasileiro. Com o Juliano, meu irmão mais velho, ele criou a Versátil Home Vídeo em 1999. Na época da revista, recebíamos como cortesia das distribuidoras todos os filmes lançados. Lembro que nós tínhamos uma videoteca na nossa casa que era praticamente um cômodo. Exceto filmes pornôs, que meu pai jamais aceitou, tínhamos praticamente tudo que havia sido lançado nos primeiros anos de VHS e DVD no Brasil. Eu nem lembro a quantidade. Daniel, o meu outro irmão, chegou a tabelar uma época. Era uma quantidade absurda! Meu pai era convidado a cobrir diversos festivais e lançamentos de filmes. Era um showbusiness. As majors, quando iam divulgar um novo lançamento, faziam coquetéis e festas corporativas de tempos em tempos. Era um mercado totalmente diferente do que a gente tem hoje. E tudo isso realmente foi mudando um pouco em 2005-2007, com o aumento da pirataria e o inicio da saída das majors aqui no Brasil. Nessa época, o Netflix já estava começando a surgir no streaming, e todo esse mercado foi perdendo cada vez mais força.

A Versátil nasce como distribuidora em 1999 e, com o conhecimento que seu pai detinha do mercado de homevideo, passou a trabalhar, também, com as locadoras, fornecendo produtos?
André Melo – Sim. Como já tínhamos o contato de muitas locadoras, a introdução-adesão pela Versátil foi relativamente fácil. Na primeira década, a Versátil trabalhava essencialmente com as locadoras. Já tínhamos vendas nas livrarias, mas a porcentagem era consideravelmente menor em vendas. As redes de locação Blockbuster, a 2001 e a 100% Vídeo, por exemplo, eram enormes clientes. Centralizavam todas as compras para atender a todas as unidades, para toda a rede. Uma quantidade muito grande direcionado exclusivamente para as locações. E, também, às locadoras de bairro nas grandes cidades, que ao passar dos anos ainda sobreviviam até depois das grandes redes surgirem, como as Blockbusters. Mas ainda tínhamos muitos clientes de locadoras pequenas que compravam três, quatro peças de cada para fazer locação. Isso ainda aconteceu bastante nas décadas de 2000 a 2010. Logo, o “rental” era muito mais presente do que o “sell-thru”, e representava a maior parte do faturamento da Versátil – situação absolutamente diferente na segunda década da distribuidora.

Chegaram, nesse começo, a trabalhar, também, com VHS?
André Melo – Sim. Dois VHS foram lançados. A Versátil já chegou a trabalhar com banca, vendendo produtos diretamente para estas, inclusive. Foi lançada, também, algumas versões dentro da Jornal do Vídeo, como uma forma de testes. Foram momentos iniciais bem interessantes.

Em que momento a Versátil começa a trabalhar com varejistas além das locadoras?
André Melo – Ainda nessa primeira década da Versátil, a gente trabalhou com diversos clientes, de todos os tamanhos. As Lojas Americanas tinham costume de fazer enormes descontos, incluindo os dvds jogados em uma “bacia”. Hoje você vê meia e roupa intima sendo vendido naquele espaço. Antes, era uma “ilha” na loja, cheia de DVDs. O cliente precisava “garimpar” os filmes que queria comprar, jogando produto um pra cima do outro e vendo o que tinha. O “sell-thru” era de outro nível. Nós tínhamos negociações com outros grandes varejistas com contratos que, posso dizer, eram nada atrativos para o nosso lado. Porque pediam cada vez mais condições comerciais obrigando o “pequeno” a fornecer mercadorias em condições muito difíceis que, no final, davam um pífio retorno de lucratividade. Por exemplo, arcar com custo de transportadoras caríssimas licenciadas por eles. Ou porcentagens de todo pagamento para a “cúpula” diretiva comercial e sempre prazos de pagamentos longínquos. Em locadoras, nós trabalhávamos com 30, 60 dias e tinham um crédito muito similar ao nosso, de pequenas empresas. Mas quando trabalhávamos com esses gigantes, tínhamos que brigar para conseguir um prazo similar para atuar com fornecedores e só atuávamos como meros intermediários, nem sempre dando certo. Por exemplo, fornecíamos os produtos a eles e tínhamos que receber em 180 dias, enquanto nossos fornecedores só aceitavam prazo de 60. Ou aceitávamos aquela condição (exigindo, por muitas vezes um capital de giro que não tínhamos) ou não fechávamos acordo. Fora toda a documentação jurídica que nos forneciam a assinar, com diversas “armadilhas comerciais” que tínhamos de tomar cuidado, pois podíamos acabar literalmente pagando para terem nosso produto na gôndola deles, principalmente quando havia promoções de final de ano. Tínhamos algumas condições comerciais até estapafúrdias, se a gente for considerar. Representa bem como o capitalismo aqui no nosso Brasil funciona para quem tem um pequeno negócio e queria trabalhar com as grandes varejistas. Graças a Deus, os marketplace (N.E. Modalidade de venda direta para o consumidor) têm ajudado a mudar um pouco disso nos dias atuais. Então, naquela primeira década, a gente não falava em livrarias. Eram um cliente como qualquer outro. Compravam uma quantidade legal? Poxa, claro. Mais do que uma locadora no interior do Pará, por exemplo, ou de Santa Catarina. Mas eu entendo que “a chave virou” para a Versátil quando lançamos os produtos exclusivos com as livrarias.

Eu me lembro de que durante muito tempo, antes de eu me aprofundar mais nos produtos da Versátil, e por conta da minha mãe ser espírita e ter DVDs dessa linha na sua casa, a Versátil sempre esteve, na minha mente, associada ao estudo da doutrina kardecista. Você poderia falar um pouco sobre o selo Vídeo Spirite e em como ele surgiu?
André Melo – Na metade dos anos 2000, o meu pai criou esse selo dentro da Versátil, o Vídeo Spirite. Leitor e estudioso dos livros da linha kardecista no espiritismo e de Chico Xavier, ele começou a ter acesso a diversos conteúdos de audiovisual que poderiam ser lançados. Ele abriu a Vídeo Spirite, que é a primeira distribuidora espírita no mundo, e colocou diversos conteúdos e documentários na mídia física para serem imortalizados, como o “Joelma 23º Andar”, “Pinga Fogo com Chico Xavier”  e outros longas que incitavam o pensamento nessa filosofia-ciência. Meu pai, como estudioso na área do jornalismo, sempre convidava alguém para falar sobre aquele conteúdo nos extras, até de filmes que citavam elemento do mundo espiritual e havia uma óptica/análise sob o espiritismo. Também resenhava textos para colocar nos menus para leitura. Ele sempre gostou de trabalhar com conteúdo espírita. Em 2010, 2011, tanto eu como meus irmãos ouvíamos muito meu pai dizer que estava cansado de lidar com os estresses diários da administração da Versátil, e queria se aprofundar no estudo da doutrina Espírita. Ele já estava procurando algo similar a uma aposentadoria e trabalhar com outras atividades, sabe? Ele já tinha experiência e conhecimento para produzir conteúdo próprio. Lembro que ele falava que queria tocar alguns projetos que tinha em mente e que os filhos poderiam ajudá-lo na distribuidora. Ele não queria abrir mão da Versátil (sabendo da importância da distribuidora para o Brasil) e entendia que meus irmãos, cada um, havia seguido caminhos profissionais diferentes. Em 2012, foi lançado o longa metragem “E a Vida Continua…” e tinha meu pai como produtor com auxilio da Federação Espírita Brasileira. Daniel, meu irmão, também participou ativamente neste projeto. O filme foi lançado nos cinemas e saiu em DVD pela Paris Filmes. E a linha da Vídeo Spirite a gente sempre manteve por fazer parte da essência da Versátil e do que minha família acredita e segue. Assim como o “Cinema Paradiso”, Bergman e toda linha de filmes de arte/cinebiografias que meu pai sempre acreditou e construiu como base para a Versátil. Até os dias atuais mantemos como uma das linhas principais de atuação na Versátil.

Foi nesse contexto de interesse dele por atuar com mais ênfase no desenvolvimento do selo Vídeo Spirite que você veio a se aproximar da Versátil até assumir como diretor da empresa?
André Melo – Sim. No final da adolescência, eu fazia diversos cursos livres de teatro, até seguir para um profissionalizante. Embora amasse aquilo, nunca me vi atuando profissionalmente no palco ou na frente das câmeras. Mas sempre amei a arte e gostava de estar próximo a ela. Próximo do fim desta formação, busquei uma segunda como psicólogo, mas sempre gostei do clima corporativo. Então, logo no segundo, terceiro ano, já atuava com ênfase em business, fazendo diversos cursos em paralelo à graduação. Inicialmente com RH generalista, depois atuei com desenvolvimento de profissionais relacionados a Gestão, atuando diretamente com diretores e trazendo negócios que podiam agregar jobs à empresa que estava e “headhunting” com alguns parceiros que me procuravam. Em 2011, estava a procura de uma recolocação. Foi quando percebi que meu pai precisava de ajuda e vi ali uma oportunidade interessante de trabalho. Recordo de entrar no estoque repleto de filmes, um mais interessante do que o outro, e, independente do cenário financeiro em que a empresa vivenciava (muitas vezes em tom de tristeza), eu vi ali um potencial de negócio a ser desenvolvido. Foi quando meu pai me convidou a, aos poucos, aprender como a distribuidora funcionava para assumir a Versátil e cuidar da empresa dali algum tempo. Profissionalmente, comecei a ter uma atuação diferente (administração), embora trazendo já uma bagagem de negócios e arte que adorava, mas principalmente conhecer a fundo o mercado de homevideo. Meu pai sempre contou muitas histórias durante minha criação e adolescência, mas estando ali era diferente. Fiquei mais de um ano somente ouvindo/acompanhando e entendendo como funcionava a distribuidora, área por área. Após alguns meses, apresentei a meus pais alguns planos para mudança/melhorias – certamente alguns “furados” e outros que deram super certo. Acredito que alguns sucessos me levaram a permanecer e estar a nove anos aqui. Gosto de pensar que foi algo que deu certo nos planos de meu pai, lhe trazendo muita satisfação, e que, assim, ele pôde centralizar suas energias em projetos mais para si mesmo e para algo em que acreditava. Depois de aproximadamente um ano e meio, gradativamente, ele começou a deixar a Versátil sob a administração dos filhos, mas sempre a par – discutindo e dando sua opinião. Não que tenha deixado de ir à Versátil, mas ia com menos frequência. Ele ia uma a duas vezes por mês, permanecendo mais afastado, mas sempre interessado. Foi o período em que começou a produzir mais conteúdo para o selo da Vídeo Spirite. A cada seis meses, ele produzia algo novo, mas sempre riquíssimo de informações. Houve um período em que fazíamos produções com duas senhoras, uma grande conhecedora do espiritismo sob vista da ciência, e outra próxima, amiga de Chico Xavier, que contava suas histórias. Meu pai as gravava contando diversos relatos interessantíssimos. Acho que isso foi muito bom para ele. Hoje, ele faz muitas palestras on line, debate com muitos palestrantes e conhecedores do meio espírita. É uma paixão que acabou seguindo e se tornou reconhecido também entre os kardecistas.

Como foram seus planos para seu início na empresa? Quais as mudanças propostas para a linha de produtos?
André Melo – Recordo que naquele ano de 2011, os números demonstravam que, todo ano, uma porcentagem muito grande do faturamento da empresa despencava. Um ou outro projeto, uma vez ao ano, segurava meses de sobrevivência – e depois sempre voltávamos ao mesmo patamar de 95% do tempo no vermelho. Foi quando começamos a desenvolver estratégias tentando mudar aquele cenário. Lembro que me sentava com o diretor comercial da época e tentávamos diversas atuações diferentes (como reuniões mensais com representantes para sentir melhor como o mercado estava atuando). Simultaneamente com o Fernando Brito (N.E. curador da Versátil, até os dias atuais) planejando um modo diferente de movimentar o mercado através de coleções. Antes, o modelo de coleções era um pouco diferente. Eram reunidos três ou quatro produtos, colocava uma luva e era vendido como coleção. Eu lembro que via aquilo como um “pacotão” com tímido desconto. Porém, isso não era vantajoso e não dava um caráter de singularidade ao produto, pois a ideia era fazer algo mais envolvente, temático, de fato. Então, logo veio a ideia de atuar com o digistack (N.E. modelo de embalagem diferenciado do convencional para acomodar os discos de DVD e Blu-ray) e utilizar ele como produto todos os meses. Um pouco antes disso, lançamos o “Lobo Solitário”,  além de algumas coleções temáticas. Foi realmente essa nova onda que começou em julho de 2013. Ficamos com o (padrão) digistack até 2017/2018. Na crise da Livraria Cultura e reajuste de preços em fornecedores essenciais, foi preciso fixar os produtos como Amaray (N.E. modelo convencional e já conhecido de embalagem de DVDs e blu-rays), mas mantendo o conceito de coleção desenvolvido anteriormente. E isso se mantém até os dias de hoje (inclusive sem reajuste de preço há quatro anos) com os boxes temáticos que estamos lançando. Começamos a coleção Filme Noir pouco depois, na qual, inclusive, estamos já pensando no 17º volume no início de 2021 (N.E. Entrevista realizada em 22/09/2020). Isso foi nos levando mais próximos às livrarias, que viram aquilo como uma oportunidade, uma vez que as locadoras, cada vez menos, se apresentavam interessadas neste novo patamar. Acredito que foi a grande mudança, quando o sell-thru ficou mais evidente e presente do que o rental, após mais de 10 anos de empresa. As livrarias viram aquilo como um custo benefício muito interessante para colocar nas prateleiras. Da mesma forma que atraía mais clientes. Era um produto com uma apresentação e um preço mais atrativos. Foi quando a Livraria Cultura, com o aumento do representatividade em faturamento, chamou a Versátil para diversas reuniões, fazendo uma a dois exclusivos por mês com eles, dando destaque e sempre dando visibilidade a nossos produtos e marca. Pouco tempo depois, a Saraiva começou a “brilhar os olhos”, no qual fizemos exclusividade com um dos primeiros produtos da linha “Essencial”, o Fellini. Foi praticamente esse o principal formato que ficamos trabalhando até 2017/2018. Uma época em que essas duas lojas representavam uma importância de quase 90% do nosso faturamento. Eram elas quem ditavam todas a regras do jogo – embora sempre esteve em nossa cabeça o sinal amarelo: se acontecesse algo com elas, teríamos gravíssimos problemas. Tentamos propor isso para outras livrarias, mas nenhuma topou. E aconteceu o pior pouco tempo depois.

Fernando Brito

Fernando, essa mudança no perfil curatorial da Versátil, como bem citou o André, vem de seu olhar como curador, buscando esse foco nas coleções, bem como abrangendo diversos estilos e escolas cinematográficas. Queria abordar contigo um pouco mais desse processo a partir dessa sua longa experiência.
Fernando Brito – Desde que aprendi a trabalhar com cinema lá na 2001 Vídeo, que foi a minha escola, eu tinha, como falei antes, clientes que gostavam apenas do Van Damme, do Lorenzo Lamas, só de filme de pancadaria. E eu tinha, também, clientes que gostavam só de filmes europeus, filmes ditos de arte. E eu sabia trabalhar com os dois. Eu entendia o gosto daquele cliente. Eu até dava o treinamento e falava: “gente, é importante você conhecer o campo em que você vai jogar. Entender o que as pessoas gostam. Porque, às vezes, o que você gosta, é muito diferente daquilo que as pessoas gostam”. Como programador, curador da Versátil, eu, em um primeiro momento, fui buscar os clássicos. Fui buscar preencher as lacunas. Quando o mercado começou a ficar cada vez mais de nicho, a diminuir por causa da mudança geracional, os millennials, as pessoas deixaram de comprar DVD para dar de presente. Aquele comprador ocasional acabou saindo do mercado e ficaram só os colecionadores. E aí eu percebi que apenas lançar os clássicos italianos, os clássicos europeus, não seria suficiente. Que havia uma demanda reprimida para lançamentos de excelente qualidade, com extras. Com o mesmo trabalho que nós fazíamos com os clássicos europeus, tínhamos que fazer com os clássicos de terror e com os filmes cult. Então, na época, eu já tinha a plena curadoria da Versátil e foi o momento de colocar Obras-Primas do Terror, colocar o cinema de gênero, colocar os clássicos de Filme Noir. Colocar as coleções todas. A coleção Obras-Primas do Terror, se você imaginar, nós já estamos no volume 14. O Giallo está indo para o volume 10. O próximo volume da Slashers será o volume nove. Vampiros no Cinema indo para o volume cinco. Zumbis no Cinema já chegou ao volume cinco. Temos as várias coleções de cinema, como a Caça às Bruxas no Cinema. Teve agora a oportunidade maravilhosa de fazer os spin offs com raridades. O primeiro número, muito especial para mim, é o Obras Primas do Terror Gótico Italiano. Teve o Obras Primas do Terror – Horror Mexicano. E agora o Horror Japonês. Então, é muito bacana trabalhar com esse público com o mesmo carinho. Como eu digo, fiz uma caixa recentemente do Mikio Naruse, que é um cinema de arte, um dos grandes cineastas do cinema clássico japonês. Um premiado e importante diretor japonês que não era conhecido do grande público brasileiro e que foi redescoberto em várias mostras no exterior. Um mestre do nível do (Kenji) Mizoguchi, do (Akira) Kurosawa e do (Yasujiro) Ozu. Estes são os quatro grandes mestres do cinema japonês. Lançamos essa caixa do Naruse com vários extras, os filmes restaurados. Algo maravilhoso. Um lançamento histórico aqui no Brasil. E, na mesma época, pouco tempo depois, fizemos uma caixa Cinema Exploitation, trazendo Herschell Gordon Lewis, trazendo o Lucio Fulci, trazendo um dos primeiros filmes a receber a classificação de “rated”, de “Proibido para Menores de 18 anos” nos Estados Unidos, um clássico do grindhouse, que é o “Eu Bebo seu Sangue”. E também o “Criatura das Profundezas”, que é um infame filme de monstros dos anos 1980. Isso foi a caixa do Cinema Exploitation, com vários extras, cópias restauradas. Então, assim, o mesmo carinho que eu conferi a edições como A Arte de Mikio Naruse, A Arte de Max Ophüls, O Cinema de Sidney Lumet; lá atrás, com a Trilogia da Vida, do Pasolini, a Trilogia da Guerra. O mesmo carinho tenho com o Cinema Exploitation, faço para cada coleção do Slashers, para cada coleção do Giallo, para cada coleção do cinema de gênero. Então, isso foi muito importante. E esse público soube reconhecer ter esse tratamento diferenciado. De a gente ter uma visão plural de cinema. E isso foi o meu aprendizado na 2001 Vídeo. Meu aprendizado como professor da História do Cinema. Bons filmes existem em todas as épocas, em todas as cinematografias, em todos os gêneros. Eles não são apenas preto e branco. Eles não são apenas coloridos. E é importante a gente ter a paixão pelo cinema e a vontade de reconhecer sem preconceitos o mérito nos diferentes gêneros e nas diferentes propostas. Entender a proposta de cada diretor. E ver se a forma cinematográfica como ele está adotando, se ela se adéqua ao critério proposto. Isso é importante.

Você citou essas coleções que reúnem exemplos do Cinema de Gênero e eu lembrei de uma observação feita nas redes sociais acerca de uma, segundo a pessoa que escreveu, suposta “predileção da Versátil por filmes de terror”. Na ocasião, você foi bem preciso ao explicar à pessoas o processo de escolha das obras e a importância de levar aos clientes esse tipo de cinema, também. Qual sua opinião acerca desse preconceito que ainda existe em relação ao Cinema de Gênero?
Fernando Brito – Lamento muito que esse preconceito exista. Realmente, o preconceito com o cinema de gênero existe e é algo complicado. Na Versátil, procuramos fazer meses temáticos. Então, às vezes tem o mês temático do terror, ou do cinema de gênero. Há, também, o mês mais dedicado a um cinema clássico ou a um cinema de arte. E às vezes você percebe que tem clientes que só compram um, ou que só compram outro. E tem muitos clientes que gostam de cinema, mas que acabam por ter um preconceito, uma opinião formada contra um cinema de gênero. E acabam deixando de conhecer grandes filmes autorais desse cinema. Na verdade, o cinema de gênero, o cinema autoral, pensando no conceito do autorismo lá da Nouvelle Critique française, da crítica francesa que antecipou e que é fundamental, é a pedra basilar, teórica, da nouvelle vague francesa, da Cahiers do Cinéma. É o conceito do autorismo, do cinema do autor, com essa ênfase na figura do diretor, na sua assinatura cinematográfica. A câmera caneta, como dizia o Alexandre Astruc. É pensar, dentro de um cinema de autor e cinema de gênero, a obra, por exemplo, de um Mario Bava, de Jean Rollin. Pensar a obra, por exemplo, dos bons momentos do Lucio Fulci, do Dario Argento. De vários diretores importantíssimos de cinema de gênero. Acho que o maior exemplo disso, como sempre falo para os alunos, é você pensar o refletir sobre o projeto Hitchcock/Truffaut. Na verdade, esse projeto foi antecedido por um livro do Éric Rohmer e do Claude Chabrol. Esse livro de entrevistas, levado a cabo pelo François Truffaut, é uma aula de cinema. É uma bíblia para quem gosta de cinema. E ele prova isso daí. Um cineasta de gênero, um cineasta conhecido como mestre do suspense, que se vendeu como mestre do suspense. Como alguém que era dominado como esse rótulo de mestre do cinema. Que era visto apenas como um bom artesão de filmes de suspense, mas que, na verdade, é um grande autor cinematográfico. Alguém com um conhecimento da linguagem, um conhecimento pleno. E o Truffaut fez esse projeto para demonstrar isso. Ou seja, digamos que o Hitchcock é uma perfeita demonstração da intersecção do cinema de gênero e cinema de autor. Então, isso é muito importante. As pessoas, às vezes, ainda têm esse preconceito e deixam de conhecer cinemas de gênero. E isso é uma pena. E eu fico feliz que muitas pessoas que tinham esse preconceito, acabaram conhecendo Mario Bava, acabaram conhecendo vários grandes diretores de gênero graças à Versátil. E várias pessoas falam isso. Quando tem esses posts de perguntas como: “Qual diretor você conheceu pela Versátil?” é que a gente vê o nosso trabalho. Teve a missão cumprida que foi a de apresentar as pérolas. Apresentar os diretores às pessoas. Eu adoro essa parte do trabalho. Para um curador, não tem nada melhor do que ver o brilho nos olhos dos colecionadores. Vê-los se deixarem conhecer. Se abrirem ao novo. Não ficarem apenas na nostalgia, nos filmes conhecidos. E a Versátil propõe isso. É a empresa que mais lança filmes fora do circuito de filmes clássicos, filmes pouco convencionais. Temos recortes diferenciados e não ficamos no mais do mesmo. Isso é um diferencial nosso. Sempre foi. Eu procuro sempre trazer essas pérolas. Porque acho que é uma função do homevideo: apresentar esses filmes raros, fazer esse trabalho. Como a Sessão Comodoro fez em São Paulo com o Carlos Reichenbach ou o Projeto Raros, em Porto Alegre, com o Christian Verardi e o Leopoldo (Tauffenbach), um grande cinéfilo lá de Porto Alegre.

E em relação a curadorias dos extras, Fernando, você poderia falar um pouco acerca desse processo?
Fernando Brito – A gente sempre estuda essa busca do extras. A cada edição, fazemos um mapeamento do que tem de extra do que está disponível lá fora, do que a gente pode trazer. E procuro sempre trazer extras que é de um diretor, de um making off. Por exemplo, quando tem extras, mas queremos acrescentar, procuro produzir novos extras, e também propor relações. A cada lançamento, analisamos os extras disponíveis já produzidos sobre o mesmo e tentamos viabilizar sua utilização em nosso lançamento. Como disse, procuro sempre conteúdos relevantes, como making of, entrevistas com o diretor e a equipe do filme, comentários em áudio, análises e mesmo filmes correlatos (longas, curtas, etc.). O importante é trazer o filme e tudo aquilo que o cerca, pois o cinema só se enriquece quando visto dentro do seu contexto histórico, cultural e de produção. Por exemplo, a edição nossa do “Kagemusha”, além de trazer a versão mais longa pela primeira vez no Brasil, e alguns extras referentes ao filme, nós trouxemos um filme que é muito importante na evolução do Kurosawa no cinema, que é um filme maravilhoso do Kazuo Mori, um diretor especializado em jidaigeki, que é o drama de época japonês, no qual envolve também filmes de samurai, que chama “A Vingança do Samurai”, de 1952, como quatro atores que viriam a fazer depois “Os Sete Samurais”, e com o roteiro do Akira Kurosawa. É um filme maravilhoso e raríssimo e que está lá nos extras do “Kagemusha”. Então, propor extras diferentes, trazer conteúdo relevante. A empresa que mais trouxe comentários em áudio traduzidos foi a Versátil. A gente procura fazer esse diferencial. Acho importante os extras. Porque é como aquilo que eu falo: os filmes não são apenas os filmes. Eles são os filmes e tudo aquilo que os cerca. E isso é fundamental.

André, você citou as livrarias e os produtos exclusivos. Em que momento essa parceria de exclusividade foi percebida como algo viável e rentável?
André Melo – Quando nós começamos a desenvolver um produto com melhor custo benefício pensando nos clientes. Mas acredito que até antes disso, houve uma certa adequação ao produto. Entre algumas histórias em que isso ficou muito evidente, recordo-me de uma. Coincidentemente, a Versátil fica a duas quadras da PUC-SP. Sem querer puxar muito a sardinha pela formação em Psicologia (risos), um dos produtos que achamos interessante em lançar e trabalhar com as instituições de ensino foram o filmes do Freud e do Jung, ambos, inclusive, sucesso de vendas. E uma das principais faculdades no país para estudar psicologia é a PUC. Lembro quando estávamos tentando fechar uma venda grande, fomos até lá, conversamos com o reitor e com alguns professores. Falamos sobre fazer um produto premium, além destes lançados, colocando entrevistas como extras – mas sempre individuais, sem a ideia atual de coleção. E aí foi uma situação embaraçosa que vivenciamos. Após a saída da reunião para a videoteca, vimos uma pequena “banca” vender por R$10 os filmes da Versátil. Inclusive, com o logo estampado da empresa (risos). Nada foi dito, mas certamente deve ter passado na cabeça de alguns: “Porque estamos fazendo esse investimento se meu aluno está tendo acesso a isso de outra forma e até mais barata”. Complicado como funciona essa lógica de valores, para você ver como o mercado de homevideo sempre foi muito sensível a reajustes de preço. Desde muito antes daquela época, quando comecei – inclusive até os dias atuais – todos os DVDs simples com um filme eram e são vendidos a R$40 para o consumidor final. E aí a pirataria pegava a mesma mídia, duplicava em um DVD-R e colocava à venda por R$10. Obviamente que aquilo não era nada vantajoso nem para nós nem para quem se interessava pelo conteúdo. O “pirateiro” comprava um produto da Versátil, replicava uma dezena, pagava a mídia e ainda saia com lucro. Foi quando percebi que era aquele (enfático) formato que estava sendo desenvolvido por nós que não estava ajudando e fazia sentido a queda de faturamento ano após ano que vivenciávamos. Foi quando começamos a perceber como outras empresas no exterior (principalmente na Europa) estavam encontrando alternativas, principalmente com mídias de áudio, que já competiam espaço com os apps. Já tínhamos passado por revoluções de softwares para facilitar a ouvir música e víamos que as distribuidoras de CD de música, lá fora, fazendo edições com valores maiores e produtos mais premium da mesma forma que uma ou outra distribuidora de filme. Foi quando a gente começou a “tropicalizar” essa realidade para o Brasil. O ticket médio do brasileiro é baixo. Não podemos colocar o produto premium a R$300, R$500 ou R$1000 como era feito na Europa, mas poderíamos pensar em um formato para chegar próximo. Por exemplo, “R$40 é vantajoso? É difícil mexer nesse valor? Então vamos começar a trabalhar com R$60 – R$70 – R$80. Ao invés de pegar um disco, vamos colocar dois, três discos e veremos o que poderíamos reduzir de valor na produção. Com a fábrica, iríamos trabalhar com mais quantidade de discos, logo poderia ajudar no preço do individual. Com os direitos autorais, iríamos comprar mais filmes e conseguir um menor preço no titulo individual do catálogo. O Fernando Brito reforçava ainda mais a agregar valor ao produto da coleção. Com um ou dois títulos fortes, e demais inéditos, nunca lançados no Brasil, ou recém remasterizados lá fora, ou até que mereceriam estar em um box pelo tema retratado no conceito do produto ou potencial que poderiam desenvolver uma vez lançados. Aos poucos, foi se aperfeiçoando a possibilidade de colocar dois filmes no mesmo disco, sem perder a qualidade, fazendo muitos testes. Ali, estávamos concebendo um produto com um custo benefício mais atrativo. Então, ao sugerir ao cliente que estava visitando a livraria e perceber que poderia levar um filme por R$40 ou seis filmes por R$70, gerava uma reflexão sobre o custo-benefício do produto. Quando a livraria viu aquilo como um produto premium, dava destaque. Foi nesse o momento em que a Versátil começou a se aproximar ainda mais das livrarias, principalmente a Livraria Cultura que percebeu a quantidade de conteúdo que havia naqueles produtos e começaram a aumentar os pedidos conosco. Em contrapartida, as locadoras, que já estavam buscando sobrevivência após as “blockbusters” e a pirataria, compravam e não sabiam como iriam trabalhar nossos produtos. Colocando mais filmes em um único produto nas prateleiras, achando irreal a inserção de dois filmes no mesmo disco para o pessoal alugar (risos). Alguns eram criativos. Tiravam uma cópia do cartaz do filme e colocavam na frente da caixinha do DVD, ou copiavam e colocavam a caneta o numero do disco/filmes enquanto outros mudaram a tabela de valores especialmente para nossos produtos. Por outro lado, no momento em que colocávamos quatro a seis filmes no mesmo produto, enquanto alguns reclamavam que precisariam fazer muito mais cópias, trabalhar muito mais, outros não sabiam como iam desenvolver. Enquanto isso, as majors continuavam no mesmo formato de sempre. Outros, não sabiam como precificar e explicar ao cliente que ele ia levar um box de filmes e que ali iria ter o valor de seis produtos e não apenas um, como estavam acostumados. Havia muitas limitações/resistência para se mobilizar e saber trabalhar aquele produto. Além de que, a cada ano, havia menos locadoras ativas, nós percebemos que era a “hora de virar a chave”. Embora com as livrarias, éramos, muitas vezes, tratados como um entre 900 fornecedores. Só depois de muito tempo passou a ser diferente e começaram a dar importância ao produto da marca Versátil e pela identidade que tínhamos. Na metade dessa segunda década, passamos a ter um relacionamento diferente com a Livraria Cultura. Fazíamos reuniões semestrais, alinhávamos todos os lançamentos, não somente os exclusivos, mês a mês: a comunicação era muito mais presente e alinhada. Se ela estava em um bom momento, também estávamos. Todo mercado acompanhava com títulos fortes, e o inverso da mesma forma. Ao mesmo tempo, era uma parceria muito mais prestigiosa. Recordo de citarem em que houve diversos momentos em que ficávamos entre o primeiro e o segundo lugar como distribuidora de produtos em mídia física mais vendida da Livraria Cultura. Competindo o “pódio” com a inabalável Disney.

Em que momento essa parceria começa a declinar por conta dos problemas financeiros e administrativos das livrarias Cultura e Saraiva, que incluíam, também, uma recuperação judicial?

André Melo – Na verdade, em 2016, bem antes da recuperação judicial, a situação já começou a se complicar, porque eles passaram a ter alguns problemas de pagamento, principalmente a livraria Cultura. E nós dependíamos deles muito, muito mesmo. Nesse período, eu e o meu irmão, o Juliano, começamos a atuar no Mercado Livre e a entender como era atuar diretamente com o cliente final e a trabalhar com uma loja. Após alguns meses, em um hotsite, fizemos alguns experimentos de vendas de produtos isolados e testando o impacto em que poderia se atingir. Na primeira ocasião em que houve um foco em quem tinha interesse em adquirir mais de um volume de uma coleção. Então, por exemplo, Obras Primas do Terror volume 4 e o volume 7 tinham um valor mais em conta do que comprados individualmente pelos sites das livrarias. Depois fomos abrindo leque para outros produtos. E foi, realmente, um jeito de percebermos que tinha um público que ainda tinha interesse em nosso produto. E não fazia sentido da Livraria estar atrasando os pagamentos para nós. Quando, em 2018, aconteceu a recuperação judicial de fato, quando houve a cartada final, nos fez perceber que tínhamos que repensar toda estratégia que estávamos nos baseando nos últimos anos. Fornecer mercadoria de uma forma mais consciente, senão não iríamos sobreviver. Com dividas em bancos, diversos fornecedores, impostos e royalties em atraso: estávamos prestes, em diversos momentos, a nos tornar mais uma empresa que entraria em falência. Fazíamos reuniões de diretoria a cada semana, toda vez saindo delas em clima de velório. Inclusive, até fazendo um parênteses em relação aos exclusivos que tínhamos com a Livraria Cultura, uma das coleções que a gente mais se popularizou ao longo da Versátil foi a Studio Ghibli.  Em 2016, no primeiro “calote” que sofremos da Livraria Cultura, tivemos problemas em acertar valores com a detentora de direitos lá fora. Nós tínhamos feito esse acerto de exclusividade com a Cultura com um prazo para pagar. Esse prazo estava relacionado com o que nós tínhamos acertado com os detentores – e nossa margem de lucro, sempre foi muito pequena. E o que aconteceu? A Cultura não pagou, nós não pudemos acertar com o estúdio, e ficamos com uma imagem muito prejudicada lá fora. Mesmo apresentando matérias e justificativas do que estava ocorrendo no país, não queriam saber: o acordo foi acertado e deveria ter sido pago. Parcelamos os valores em anos e foi realmente um período muito difícil que começou desde 2016 para a gente. Em 2018, com a retomada dos atrasos, novamente a situação voltou. É horrível você dar sua palavra, tudo estar indo conforme programação e, de repente, você precisa tomar a decisão entre pagar salário de quem está todo o dia ao seu lado, ou manter a palavra. Demorou anos para apaziguarmos essa situação. Embora nunca tivesse tido um momento com muita margem, considerando que a gente trabalhava com lojistas, pelo menos nossos salários conseguíamos manter. Recentemente participei em uma live (N.E. Entrevista realizada em 22/09/2020) em que falei que aquela foi a ocasião em que eu desenvolvi vitiligo, algo relacionado ao estresse por conta dessa dificuldade que a gente acabou passando. Outro empresário, do mesmo ramo, chegou a citar em outra live o desenvolvimento da depressão que também teve naquele período. Certamente foram diversos que passaram por isso. Foi muito difícil para muitos.

Neste ponto que vocês decidiram focar mais no contato direto com o consumidor final?
André Melo – Em 2020, hoje, é o que possibilitou principalmente estarmos investindo em blu-ray, em aquisições de filmes mais caros e recentes. Mas tudo graças a 2019, a partir das recuperações judiciais, quando focamos no desenvolvimento da nossa infraestrutura e na imagem da loja online própria. Eu lembro que, em 2019, desde o inicio do ano, em janeiro e fevereiro, nós começamos com um dos piores faturamentos da história da Versátil e chegamos em novembro e dezembro com um dos melhores faturamentos da nossa história. Tudo no mesmo ano. Foi o segundo grande momento que estávamos vivenciando. Aquele foi um ano muito decisivo para nós. Eu lembro que, em dezembro, reuni toda a equipe e apresentei esses dados. E iniciei falando: “agora, precisamos avaliar o que faremos para sobreviver nesse mercado”. E um dos principais pontos levantados foram: “Vamos voltar para o blu-ray. Vamos desenvolver a nossa loja, vamos melhorar o nosso SAC, melhorar nossa forma de envio. É melhor pecar pelo excesso do que pela falta”. Entre as principais sugestões, reabríssemos o projeto em retomar os BDs (N.E. Sigla para blu-ray disc) e fazer o volume três do Ghibli acontecer. Embora um pouco da dívida com o estúdio ainda estivesse em aberto, a maior parte já havia sido paga e estávamos planejando, logo em janeiro, em como negociar. Foi quando disponibilizaram os filmes para o Netflix. Isso nos fez acreditar que perderia o potencial comercial e começamos a pensar em outras opções. Depois de dois meses, em março, a gente já estava começando a colocar algumas informações nas redes sociais, teasers e informações para conscientizar e movimentar o pessoal que íamos voltar para o blu-ray – tanto com lançamentos (N.E. O box Carpenter Essencial deu início a essa leva no primeiro semestre de 2020) como relançamentos muito pedidos. Mas não seria também uma tarefa fácil, pois não só a produção do blu-ray é bem mais cara que a do DVD (três vezes mais caro só na produção na fábrica, e às vezes até mais, dependendo se a mídia for 25gb ou 50gb), ainda havia o fator do público estar acostumado com os BDs encalhados nas lojas Americanas por R$9,90. Da mesma forma como estava diretamente relacionada a quantidade de material que agrega ainda mais ao produto (cards, pôster, livreto e, principalmente, a luva), sem contar a crise arrastada no país: não seria um produto barato. É um produto mais premium, porém atinge não só o cinéfilo-cliente da Versátil, como, também, uma parte de quem gosta de colecionar, agregando valor ao produto. E isso teve um resultado muito bom, pelo que é possível acompanhar no desenrolar deste ano em nossos lançamentos, mês após mês, agora no final do ano, principalmente, que temos nove blu-rays em novembro e dezembro, entre exclusivos e coleções, que estão para ser lançados (N.E. Entrevista realizada em 22/09/2020). Além até do que tínhamos capacidade de fazer a esse prazo, nós investimos em equipe e reformulamos todo o pessoal para atender a essa demanda de final de ano. Se as pré-vendas promocionadas continuarem a fazer sucesso e as vendas desses produtos também, não há porquê a Versátil não continuar e até acelerar esse ritmo em 2021 com mais (lançamentos em) BD.

Você já havia falado em outras oportunidades em grupos de colecionadores acerca da necessidade de esclarecer junto ao consumidor, bem como a licenciadores estrangeiros e junto às livrarias, a confusão que alguns faziam entre a Versátil e a extinta Continental, distribuidora que lançava filmes de qualidade duvidosa e procedências de direitos autorais dúbias. Poderia abordar oficialmente esse problemas que a Versátil acerca das obras que saíram, também, pela Continental, e que causou imbróglios junto às livrarias e clientes?
André Melo – Sempre a delicada questão direitos autorais com filmes no mercado. É complicado de ser explicado em poucas palavras ou determinar uma variante só, mas podem ser comparados como contratos mutáveis e desde que favoreça ambas as partes de acordo com o que procuram. Podem “mudar de mãos” da noite para o dia a partir de uma negociação X ou Y; podem durar de 2 a 40 anos; e há os sublicenciamos. Não são contratos baratos (quando pensamos no câmbio Dólar X Real + % de IR). Há exclusividades, há quem “senta em cima”, não lança e escolhe não fazer nada estrategicamente. E são todos confidenciais. A grande verdade é essa. O que mais intriga a todos é a confidencialidade, e não é a toa. A justificativa é se empresa X adquire por Y determinado tempo e abre a informação, todo mercado pode atuar de forma K ou Z com o filme (com atores, diretores, tema em comum, por exemplo), ou até aguardar que o período acabe para adotar um posicionamento diferente no mercado com aquele produto no período posterior. Por via de regra, um filme pode ser de uma distribuidora por um período mínimo de três anos, porém pode ser por menos por situações X ou Y acordadas. Sei que parece muito vago, mas não tem fórmula simples pra explicar oficialmente. Outra vertente, por exemplo, é, em um contrato fechado, a empresa adquirir o direito de um mesmo filme de duas a três atuações comerciais, ou até o “guarda-chuva completo”, com um pacote de direitos de vários filmes. Significa que ela pode comprar para lançar em DVD/Bluray, para lançar em VOD, para o Streaming, para a TV aberta/fechada, e trabalhar com cada uma das plataformas em janelas/períodos diferentes para melhor potencializar o investimento feito. Isso, hoje. Na época em quem meu pai atuava no mercado, havia menos opções e recordo de histórias que aconteciam casos de distribuidoras trabalhar em homevídeo durante todo o contrato, e, quando prestes a vencer, compravam outro – ou até – outra distribuidora fazia esse papel, justamente para trabalhar em um formato complementar a primeira e “sair por cima”. Exatamente por isso que deve haver a confidencialidade (enfático). Entende? Hipoteticamente falando, vamos dizer que a Versátil lançou um filme em 2015 e compramos os direitos de um filme por três anos. A partir da mesma data vencida há três anos, os filmes não são mais da distribuidora – a não ser que ela renove. Não podemos produzi-los mais na fábrica ou comercializá-los. Porém, se eu tiver peças em estoque e informar a sublicenciadora/detentora de direitos se posso continuar vendendo esses filmes, e fazer um contrato complementar somente de royalties e fazer o repasse a eles lá para a frente, algumas empresas internacionais aceitam. Outras licenciadoras dizem algo similar a: “Acerte conosco, simbolicamente, US$500-1k, nós prolongamos um pouco o contrato, e renovamos os direitos até que você venda essas peças legalmente”. E, claro, outras não querem conversa. Além de todo esse cenário, como em todo lugar, existiam alguns pilantras que trabalhavam no mercado. Faziam contratos falsos, por exemplo, em italiano ou mandarim. Ou, por terem alguma informação privilegiada. Por exemplo: detentoras que haviam fechado as portas e estavam negociando individualmente os filmes com terceiros, havendo um hiato de tempo, até que os filmes voltassem a estar disponíveis novamente. Ou situações em que os direitos autorais voltariam para os produtores originais, e estes não estavam cientes – o que não significa que pode reaver os royalties das vendas de um filme em um futuro próximo. Ou até situações em que os direitos estavam sendo negociados em justiça a partir de herdeiros. Então, dito isso, é compreensível que alguns filmes que a Versátil lançou, outras distribuidoras também lançaram/poderiam lançar. Seja por terem adquirido os direitos em outro período, ou até com empresas diferentes. Outro exemplo eram filmes que estavam em domínio público. Os filmes, por situação X ou Y que acontecia no mercado, tornaram-se universais, no sentido de direito público. Todas as distribuidoras independentes já trabalharam com isso, por tratar-se de um baixo investimento. Claro, era muito atrativo lançar esses filmes para compor o catálogo, e, obviamente, havia impasses. Depois de um momento, às vezes, informação X era mais atualizada do que a Y. E logo outros filmes que tinham os direitos autorais eram lançados por distribuidora X e alegavam ser de domínio público pela Y. A Versátil, inclusive, já entrou uma ocasião ou outra com um filme que havia saído por outra distribuidora, mas sempre buscou entrar em acordo. Isso não é ilegal ou exclusivo da Versátil ou do Brasil. Ocorre o mesmo em diversos países, como também é formalizada, assinada por ambas as partes e pode ser considerada em ambiente judicial. Porém, quando a gente sentava para negociar com algumas empresas, por exemplo, não queriam dar explicação. Momento ou outro fomos questionados e acontecia algo ainda pior: eram fornecidos documentos falsos, ou até em outros idiomas (não fazendo sentido, por exemplo, um filme do Fellini, italiano, com contrato em mandarim). E começavam as histórias… Mas, a grande realidade é que cedo ou tarde todo o mercado fica sabendo e a empresa fica marcada. E aí o representante sumia, ou empresa mudava de nome… Fica evidente e chato, mas não havia outra escolha senão comprar briga judicialmente ou deixar passar. Independente de qualquer cenário, para a Versátil, assim como aprendi com meu pai, sempre tivemos postura de negociar os direitos autorais de nossos filmes, buscar alternativas amigáveis e não denegrir imagem e outras empresas – independente de como atuavam.

Como era a receptividade junto às livrarias nesses casos?
André Melo – A atuação tanto das locadoras quanto das livrarias ou revendedoras é de não se importar com questão de direitos autorais ou de como as distribuidoras vão negociar ou trabalhar isso. Porque ela quer vender o produto e ponto. Agora, se a livraria começa a perceber que há uma massiva quantidade de devoluções de clientes, isso começa a afetá-la (custo de frete), logo, pode haver uma reavaliação – ou mesmo manter de acordo com as diretrizes da empresa. Você pode vivenciar isso, por exemplo, da quantidade de produtos de origem duvidosa sendo revendida pelos grandes marketplaces. Há também livraria/revendedor/locadora que fala que é normal, que não vai se importar com isso; ou tem uma área, como algumas grandes, que cuidam exclusivamente com SAC para tratar disso. Se é frequente ou não, faz parte do negócio – mas se gera custo, cedo ou tarde, certamente, vai afetar. Porém, pelo menos no homevideo, percebemos que isso vem se tornado diferente, quando as distribuidoras começaram a falar diretamente com os colecionadores. Eu acho que estamos em um momento legal e que vem crescendo: existe uma consciência do colecionador, e, do mesmo lado, uma preocupação pela experiência que o cliente vai passar. Uma preocupação para o consumidor entender o que é uma distribuidora que trabalha de forma idônea e trabalha com produtos de qualidade. Porque, também em muitas ocasiões, o consumidor entra em uma livraria e está pouco ligando quem é a editora do livro, quem é a distribuidora de um filme, quem é que vai fazer o material extra, se paga ou não imposto ou detém os direitos. Não. Ele vai pegar o produto, vai manusear, vai experimentar. Se gostar, ele compra e consome. Se não, ele vai para outro. Eu acho que tinha um pouco disso que estava enraizado, de fato, no comércio, mas hoje percebemos que isso vem mudando. As pessoas se preocupam com a imagem institucional da marca, ou se, por exemplo, um diretor/sócio da empresa já foi envolvido em uma polemica envolvendo situações ilícitas, ou teve uma atitude racista, por exemplo, etc.

Na entrevista que fiz com Igor Oliveira, coordenador comercial do CPC UMES Filmes, selo especializado em cinema soviético e russo, abordei justamente essa nova maneira de se aproximar do público consumidor de mídia física, em grupos e redes sociais. Algo bem diferente de como era no passado, quando não imaginávamos uma empresa major dialogando com seu público. Igor afirmou que, para ele, daqui para frente, não há outro modo do mercado seguir. Você poderia falar um pouco sobre essa proximidade da Versátil junto ao seu público nas redes e grupos?
André Melo – O Igor é 10! Desde que conhecemos o trabalho que desenvolve e a qualidade do conteúdo do CPC Umes Filmes, decidimos logo nos primórdios da nossa loja que não tínhamos como pensar em um parceiro melhor e que mereceria destaque – tanto que foi a única empresa que dividimos os produtos, senão os nossos, em nossa vitrine (altamente provável que isso mude em 2021). Recordo de ter percebido, no final de 2019, quando estávamos percebendo a criação de alguns abaixo assinados (pedindo lançamentos de filmes), reclamações constantes no site do Blog do Jotacê quanto a ausência dos BDs da Versátil no mercado e uma comunidade bem ativa de colecionadores nas mídias sociais, o Fora de Catálogo. Um grupo com personalidade forte, bem aberto a novos membros, e exclusivamente para colecionadores. Envolvendo muita a interação do interlocutor das lives, Oscar Parlamone, com outros colecionadores, começaram a comentar, enviar e-mails e questionar algumas distribuidoras, juntamente com quem tinha interesse na compra de mídias física, do fato de não estarem lançando ou das independentes em lançar produtos mais recentes/comerciais, já que as majors estavam cada vez menos trabalhando com a mídia física. “Porque distribuidora X está lançando, e a Y também não está? Há um ano, ela estava lançando tudo e de repente, só se fala em streaming? E depois que o filme sair do plataforma? Onde estão os BDs? Por que a Versátil tem lançado tanto produto em DVD e nada em BD?”, indagavam. Acredito que, esse momento, teve uma enorme importância, pois motivou a comunidade de cinéfilos a ficarem mais ativos, e, principalmente, foi o momento em que vi ali uma oportunidade em esclarecer muitas dúvidas e, também, em apresentar não só os filmes e o trabalho que desenvolvíamos na Versátil, como a loja em si, como troca e tentaríamos viabilizar e atender pedidos. Eu queria entender um pouco melhor o que o colecionador buscava dali em diante. Também percebia muita confusão e havia necessidade de um diálogo/explicações de como o mercado agia. Então, comecei a, pessoalmente, eu mesmo, com meu perfil particular no Facebook, a conversar com o colecionador. Eu me identificava como sendo diretor da Versátil e opinava, explicando no que concordava ou não. Muitos me julgaram negativamente por conta disso. “Ah, não acredito que você, diretor da Versátil, está vindo falar comigo”, era algo que eu lia como resposta. Julgavam que, por ser diretor, dando uma explicação X ou Y, que estava destratando ou com gozação. Mas não era isso! Minha intenção era, de fato, dialogar. Acho que muitos estranharam ou até acreditavam que eu era fake (risos). A meu ver, sou uma pessoa como qualquer outra. Desenvolvo meu trabalho e tenho as minhas responsabilidades – assim como muitos colecionadores e cinéfilos. Então, a ideia era justamente abrir um diálogo. Eu via muitas descrenças ou muitas informações que não estavam batendo com quando estávamos fazendo os lançamentos. Por exemplo, quando a gente estava lançando “Filme Noir Vol. 12”, e aí algumas pessoas do grupo comentavam: “De novo Filme Noir?” E aí eu acho que, bem, deveria ter algo mais além desse comentário. E eu via necessidade de interagir mais com este pessoal: “Qual a sua ideia? O que te atrai mais em um lançamento?” Foi naquele momento em que refleti que não deveria entrar com o perfil institucional da Versátil para responder, mas com o meu próprio. Logo comentava: “Olha, eu sou da Versátil, e acho que a coleção Filme Noir vende, sim. Pelo menos isso representa em números… Há um porquê de continuarmos lançando produto dessa linha, tem quem goste sim. Mas, se quiser sugerir outros lançamentos, fique à vontade. Pode dar ideias”. E assim, aos poucos, o diálogo foi começando. Aprendi muito disso com o Fernando Brito, que tinha essa abertura de contato com público pelo Facebook dele quando era citado ou havia espaço para tal. Tanto quanto por e-mail, que ocasionalmente o procuravam pelo seu papel de curador. Mas a ideia era atuar além disso, respondendo às pessoas diariamente, entrando em grupos de colecionadores em WhatsApp e conscientizando de como o mercado funcionava e como fortalecê-lo. Ao meu ver, foi um passo necessário, para alinharmos a expectativa e desejo do colecionador com as estratégias futuras da empresa. Desde fevereiro desse ano, eu mesmo passei a fazer parte de grupos de WhatsApp, alguns deles, com centenas de pessoas – inclusive com meu telefone celular pessoal, o qual não mudo de número há algumas décadas! (risos). Quando há alguma dúvida e citam meu nome ou a Versátil, me apresento e comento. Ou surgindo um comentário sobre o mercado que acho pertinente, eu comento, também. E, é claro, o Igor foi muito feliz nessa colocação: não tinha outro formato! Tínhamos que nos aproximar dos nossos clientes, as distribuidoras sempre tiveram um relacionamento muito distante do colecionador por conta do revendedor. A livraria, a locadora, tinham esse papel e não nos repassavam na integra (vide pergunta no inicio dessa entrevista, em que insistiam em que fizéssemos reuniões mensais com os representantes comerciais pra trazer essas informações e não tínhamos esse retorno. Só queriam saber de promoções e de melhorar condições comerciais, etc). E é curioso como o colecionador/cinéfilo se relaciona com o filme. A maior parte das vezes não tem contato direto com o estúdio, ou com a distribuidora que de fato fez a curadoria e fez o produto estar ali. Raramente, era um ou outro cliente que relacionava à marca. A partir do momento em que há uma aproximação da marca para o seu público, acho que aí foi realmente o momento da Versátil como empresa perceber que ainda tinha um papel a desenvolver. Continuar lançando em mídia física e de forma ativa, para atender ao colecionador/cinéfilo. Há preferência por filmes clássicos ainda? Preferem filmes mais recentes? Nacionais? Estamos lançando o “Morto não Fala”, filmes da década de 80-90 como o “Carpenter Essencial”, “Paul Thomas Anderson Essencial”. Mais recentes, estamos avaliando, inclusive, em migrar também para filmes da última década. E isso é algo que, nos primeiros anos da Versátil, era inimaginável. Não fazia parte da essência da distribuidora e isso vem mudando porque buscamos o que os colecionadores querem. Nós estamos cumprindo nosso papel, de acordo com a viabilidade legal, é claro. Acho engraçado, na fundação, meu pai nomeou a distribuidora por conta da 2ª letra da sigla da revolução do audiovisual, o “versatile” do DVD. Nos dias atuais, caminhamos para um cenário com atuação diferente, independente do tipo de mídia de DVD e BD, pelo outro sentido da palavra: de Versatilidade. Há interesse em agradar diversos públicos, sempre – não nos limitando somente ao cinema clássico, de terror, noir, nacional, etc.

Qual o real impacto do mercado de streaming nos lançamentos de mídia física?
André Melo – Lembro que, logo no meu início na Versátil, o streaming estava começando cada vez mais a ficar presente. Na ocasião, o meu pai dizia: “Ao mesmo tempo que a Blockbuster entrou nos bairros e atrapalhou o negócio de diversas locadoras pequenas e de bairro, o Netflix entrou para atrapalhara mídia física e o cinema. Mas, assim como a Blockbuster perdeu espaço, Netflix também vai”. Ouvi aquilo e ficou como um mantra por muitos anos. Ou seja, somente devia ter paciência ao invés de encarar o VOD como uma assombração. Até realmente começar a entender a intenção da fala dele, mas também considerasse que, mesmo que ela se mantivesse ativa – que é o caso pelo menos até os dias atuais – sabia que ainda havia um papel a ser desenvolvido por nós, da Versátil. O Netflix sobrevive tendo como base investimentos externos, pois, organicamente, não se paga pelo tamanho que ele precisa ter para oferecer conteúdo atrativo suficiente e pelo retorno que arrecada. Se você pensar nisso, você conclui que a atuação com os filmes de catálogo, antigamente compunham 80% dele. Eram filmes irrelevantes, encarados como ‘bottom of the library titles’ (que, literalmente, ninguém negocia/procura lançar ou sublicenciar há anos) de categorias C, D, E dentro dos estúdios. Por isso são filmes presentes que simplesmente não atraem atenção e de uma forma muito bagunçada (depois até veio o ‘algoritmo’, o qual, muitas vezes, não entende de fato o que motivou cliente a buscar um titulo e sugere erroneamente conteúdo). Porém, quando você “vende” acesso a 500 filmes por R$ 19,90, ai é legal, não é? Depois de alguns anos, com a pressão de investidores, ao invés de comprar novos conteúdos dos estúdios (pois encareceria muito a condução do negócio, e retomando a dependência que todo mercado tem de repasse de royalties) começaram a produzir (ou comprar de pequenas produtoras) conteúdo próprio e, de fato, foi quando se destacaram chegando a impactar estratégias dos grandes estúdios. Após alguns anos vimos surgindo outras, como a Amazon Prime e, recentemente, a Disney. Uma delas já entrou com esse formato de produzir conteúdo próprio e recentemente anunciado pela outra, fazendo mil parcerias com empresas grandes aqui no Brasil, e que disponibilizará seu forte catálogo dessa nova plataforma. Mas essencialmente, podemos reparar que há essa sensação de acesso a muito conteúdo (enfático) para os assinantes. Mas será que agora a maior parte do conteúdo também será irrelevante? Difícil dizer ainda. Mas, certamente, será limitado. Não creio que disponibilizarão todo o catálogo para ambiente online. Retomando ao discurso de meu pai há alguns anos, eu comecei a entender que para nós, como distribuidora, o streaming pode ser um facilitador, mas, ao mesmo tempo, pode atrapalhar. Independentemente temos de ser estratégicos. Há variação de como o título pode ser trabalhado. Por exemplo, conforme citado nessa entrevista, quando lançamos os box dos volumes 1 e 2 do Studio Ghibli, tanto o DVD quanto o blu-ray, haviam acabado de ficar disponíveis para aquisição. Naquela ocasião, não estavam em streaming nenhum. Após anos em que paramos de trabalhar e a detentora não fechando novos acordos/renovando contrato, finalmente fez um contrato com a Netflix, gerando repercussão. Naquela ocasião, foi essencial para muitos (principalmente que conheciam um ou mais filmes deles) terem seu primeiro contato com a Versátil. Um público que, possivelmente, não havia comprado títulos nossos. Até os dias de hoje nos procuram pedindo esses filmes em mídia física. Outra situação foi de um filme brasileiro chamado “A Menina Índigo”, em que o diretor entrou em contato buscando um lançamento conosco. Porém, ao mesmo tempo que seria lançado pela Versátil, também iria para as plataformas VOD. E o que acontece é que quando você entra em contato com uma distribuidora de mídia física, há um prazo muito longo para desenvolver o material digital, entregar para a fábrica produzir. Até aí são quase 20 a 30 dias, e, depois de pronto, ainda sair de Manaus, chegar a São Paulo para entrega aos Centros de Distribuição das grandes livrarias, para só depois ser colocado nas prateleiras para venda. Quando para lançamento no VOD, é enviado o arquivo, convertido e sobe na nuvem. O timing é totalmente diferente. Infelizmente, para nós, ele fez isso ao mesmo tempo. Não houve “janela” entre uma ação e outra. E isso impactou diretamente nas vendas do DVD de “A Menina Índigo”. Nós estávamos vendendo o filme ainda no formato individual (o DVD por R$40) sem nada complementar ao streaming, e o mesmo estava disponível no Now e no iTunes por R$15,90. Obviamente, perdeu muito a força do lançamento. Eu avalio que, fora a diferença de valores para acesso ao mesmo conteúdo, muitos ainda acham que aquele conteúdo (adquirido ali e disponibilizado ou alugado via streaming) sempre estará lá disponível. O que não é verdade! Diferentemente da mídia física, que, se bem conservada, raramente terá problemas. Isso tratando de lançamentos recentes. Hoje, meu pai tem o mesmo discurso que o meu: a mídia física nunca vai acabar. Porém, quando a gente pega um filme que está fora do mercado há quase 10/15 anos, e lançamos em blu-ray ou em DVD, repleto de conteúdo extra e materiais exclusivos, cobiçados até internacionalmente, o tratamento é diferente. Há um porquê. Não trata-se somente (e que não é pouco) de uma identificação/preferência do consumidor com a obra, mas em possuí-lo e de livre-fácil acesso àquele conteúdo. Até os dias atuais, ainda somos questionados quanto ao lançamento do “Studio Ghibli volume 3”. Mas não há uma previsão da mesma forma. Somente começará a se tornar interessante fazer nova proposta para os licenciadores após, pelo menos, dois ou três anos da saída das plataformas digitais. Porque, somente após este hiato, a demanda surge suficientemente para aquisição em larga escala nos primeiros meses, no intuito de suprir o investimento a curto prazo – e, infelizmente, como distribuidora independente, dependemos desse rápido retorno para que se viabilize um lançamento/relançamento. No momento de lançamento de um filme/produto, ele precisa obrigatoriamente ter uma venda alta, agressiva, para reduzir o valor de investimento que foi feito (mínimo garantido de direitos autorais, fornecedores e funcionários desenvolvendo material, produção/custo da fábrica, etc). O mesmo ocorre com os estúdios que financiam grandes produções em que números das bilheterias estão diretamente relacionados ao sucesso do filme (seja para com o público, críticos, potencial comercial para venda em outras plataformas, etc). Precisa ocorrer um retorno o mais rápido possível do capital que foi colocado na frente, adiantado. Caso negativo, há uma venda alta nos primeiros três/quatro meses. Não tem porque lançar de novo aquele produto (ou algo similar a ele) após ele se esgotar. E, infelizmente, esse baixo retorno nas vendas acontece com alguns de nossos produtos que tinham um potencial fantástico, mas, por situação X ou Y, não “vingaram”. Então, temos que fazer constantes promoções e aguardar um nível de aceitação maior ou ocorrer uma demanda após determinado tempo passar.

Em outra entrevista, conversei com o Fabio Martins, fundador da loja FAMDvD, sobre a Disney ter anunciado sua retirada do mercado da mídia física na América Latina para focar no streaming, ele salientou que, para a Disney, esse mercado no Brasil nem é visto. Em uma analogia precisa, a Disney olha para o mercado de mídia física na América Latina lá de cima, como se fosse um gigante, e nem chega a enxergá-lo. Observando o fracasso do “Mulan” nos cinemas em tempos de pandemia, bem como o valor irreal de R$112,90 para o cliente assistir ao filme em seu canal, você considera um tiro no pé essa desprezo por esse mercado no qual ela construiu uma base fiel de consumidores de mídia física?

André Melo – Se o mercado de homevideo atual fosse um tabuleiro de xadrez, certamente o Fabio seria uma peça simbólica como o bispo ou a torre (para quem não conhece xadrez – são as peças mais essenciais e estratégicas do jogo). Ele agrega e ainda vai agregar muito em nosso pequeno mercado. Conhece muito de títulos individualmente, “vai pra cima”, atrás de oportunidades. Gosta de se aproximar de pessoas e tem ótimas sacadas. Quanto a colocação dele, não só está correta, como é o mesmo impasse que temos quando entramos em contato com estúdios fora do país, ou até com uma pessoa nova de um estúdio (com o qual ainda não havíamos tido contato) e temos que nos apresentar/conquistar o respeito. Fora o preconceito (ainda) de alguns (futebol, samba, etc), exige uma paciência (que muitos não têm) para fechar acordos consideravelmente menores do que outros países fechariam. Não por se tratar de filmes fracos ou negociações pequenas, mas do tamanho do esforço que empresas independentes precisam fazer para que se chegue no “mínimo garantido” para que comecem a ter o mínimo de aceitabilidade em uma proposta em dólares/euros. Há uma grande empresa, por exemplo, que mesmo nesse ano (de pandemia, em que teoricamente, estúdios estão sendo prejudicados por conta da baixa no cinema) foi clara: “U$ 35k is the minimum of a agreement acceptable, out of discussion with less”. É diferente (e certamente mais desafiador) quando negociado em libras ou euros com um público acostumado a consumir/adquirir cultura. Essa é uma realidade do que nós, distribuidoras independentes brasileiras, enfrentamos para fechar contratos lá fora, principalmente com as grandes. Não são poucas as vezes em que é preciso mandar dezenas de e-mails e propostas, às vezes tendo que envolver outras duas ou três pessoas, para começar a ter um pouco de sucesso. Claro, embora a Criterion faça o mesmo tipo de acordo, ela entra em contato e fecha o negócio sem grandes dificuldades não só por ser um valor muito mais significativo, mas porque ali há um nome a ser considerado. Agora, voltando à Disney que foi a sua pergunta, podemos refletir que estamos vivenciando uma consequência desses poucos últimos anos passados, em que houve a necessidade de união de estúdios aqui no Brasil, como a recém extinta Sony-Universal-Paramount e a atuação/representação da Cinecolor, da Disney. De fato, é muito caro ter uma operação em um só país, ou mesmo em um aglomerado de países (como a América Latina) e, com absoluta certeza, para a Disney, em uma atuação global, o quanto ela não perde para a pirataria. Ou seja, além de ser um valor monstruoso que ela perde (para os pirateiros de DVD-R de seus filmes e downloads/torrents), sua estratégia envolve o desmembramento de operações caras e uma centralização no controle-administração de conteúdo diretamente da matriz. A grande realidade é que não é barato o custo de mídia, de armazenamento, equipe comercial, repasses a fornecedores, representantes comerciais, tratativa com revendedores (ainda mais com a problemática das livrarias de 2018, que eram os maiores players do mercado – conforme dito). É diferente quando você abraça tudo, fica com toda a operação para si e tem o ganho de todos – ação muito similar a que vivenciamos, recentemente, na venda direta do nosso produto ao cliente-consumidor. Nessa primeira década da Versátil, a gente produzia um título e replicava na fábrica cinco mil peças. A peça da unidade, para ser vendida pelo mesmo valor, o ganho que íamos ter pelo custo de produção seria muito maior. Hoje, a gente produz mil peças. Quando temos uma oportunidade de fazer uma quantidade maior, arriscamos, no máximo, até duas mil peças. A nossa margem não é grande se considerar o tanto de gastos envolvidos e ainda o repasse de royalties para os detentores, a prazo. Entendo o movimento que a Disney está fazendo, brigando por um espaço que já perderam há muito tempo com a pirataria e não está tendo mais resultados como antigamente faziam, com a mídia física. Não acho que seja uma má ideia o que ela fez com o Disney Plus. Vai agradar muita gente. Vai chegar a muitas pessoas que não têm acesso a isso. O colecionador de mídia física, e de fato, todo o mercado que vive disso, perde muito. Entendo que deixaremos de ter aqueles antigos contratos absurdos que a B2W e Lojas Americanas https://blogdojotace.com.br/2012/03/11/o-titanic-do-e-commerce-brasileiro-encontrou-seu-iceberg-e-agora-b2w/ fechavam diretamente com os estúdios ou com as distribuidoras daqui, em que replicavam uma quantidade gigantesca e em uma canetada, todo um sistema saia ganhando: a fábrica um pouco, a Disney um pouco e a Americanas um pouco, e o consumidor pagava um excelente preço por conteúdo. Todos contentes. No momento em que a Disney chega direto no consumidor final e não precisa desses repasses, game over para os intermediários… “Ah, mas a Disney mata a mídia física”. Não sei se “matar” seria a palavra, mas prejudica sim, e muito. Principalmente no início da operação física do produto: a fábrica. Que precisa de uma quantidade X de mídias feitas por mês para chegar em “break-even” de compra de insumos. Sem as produções em larga escala, acabam perdendo margem. Além disso, há a necessidade em atuar com mais ou menos máquinas para produzir o DVD-BLU-RAY. Foi algo que já aconteceu conosco há alguns anos com uma pequena fábrica. É preciso aguardar duas semanas, o tempo de chegada de uma peça importada para manutenção da máquina para que reinicie o processo de finalização do lançamento/produto que estava com data prevista já ultrapassada. Independente de tudo isso, ainda enxergamos, aqui na Versátil, que não é um mercado morto ou que morrerá, mas um mercado de nicho: da mesma forma que há (embora bem mais tímido) ainda o LP, a fita cassete, ou o VHS – como formas de conservação de material que não foi repassado para outros formatos mais atuais. Claro que nossa atuação era bem maior, mas, mesmo assim, irá sobreviver e continuar existindo.

Você acha que pode existir uma possibilidade futura dela voltar atrás nessa suspensão dos lançamentos em mídia física?
André Melo – Acredito que isso possa acontecer, mas acho difícil, sinceramente. É como o Fabio disse. Lá de cima, a Disney não está enxergando o Brasil como um ganho a vir se tornar algo com potencial. Ele enxerga como uma formiga, mesmo. Todavia, ela precisa perceber que “não se deve pisar em um formigueiro”. Acredito que o Fábio seja muito sensato no movimento em tentar unir o mercado brasileiro de homevideo, seja para regulação ou para atrair a atenção das majors. Entendo que há diversos outras formas do jogo se desenrolar aqui no Brasil, senão essa que está sendo adotada e imposta. E, certamente, a Disney irá encontrar alternativas para gerar maior lucratividade possível, mirando o consumidor habitual.

Mas é preciso observar isso que você falou lá em cima acerca do streaming acabar se auto-sabotando.
André Melo – Sim. Além dos fatores que sempre haverá um fluxo de conteúdo disponível na plataforma – ou seja, de tempos em tempos novos filmes-séries entram, enquanto outros saem (a critério que outra pessoa vai definir para você), como ocorre em qualquer outro streaming – e que há um limite até a troca de senhas de streaming com amigos-familiares. Acho muito curioso que muita gente tem comentado: “Mas, espera, eu vou assinar agora Netflix pagando tanto por mês. Vou assinar Amazon Prime pagando outro tanto. Agora vem Disney Plus e a Paramount, que eu vou pagar por mês mais um tanto. Mas, eu já tenho um canal por assinatura. E eu tenho canais de streaming agora por assinatura. É esse que vai ser o novo formato? Não posso desligar aqui e deixar só canal aberto na minha televisão?” A gente pensa nisso e vê que, lá fora, é muito fácil porque é muito barato. Quando a gente pensa na renda per capita nos Estados Unidos, a história é diferente. Lá, o valor monetário disso é pífio. Se você parar para pensar, isso dá mais do que 10% do salário mínimo, assinando todos esses canais. Mas, para o brasileiro é o que da margem às trocas de assinatura: “Eu assino Amazon, meu irmão Disney, a namorada Netflix: compartilhamos senha e todo mundo se resolve”.

Na mesma entrevista com o Fabio Martins, ele observou que o mercado de colecionadores de mídia física em todo o Brasil tem, pela experiência dele de 12 anos à frente da FAMDvD, é composto por, no máximo 700 a 800 pessoas em todo o Brasil. Isso para citar um número de pessoas que coleciona filmes em blu-ray e DVD e os compra regularmente. A Disney tinha nos últimos anos no Brasil uma tiragem média de três mil unidades para cada lançamento seu em mídia física. Observando esse número, constata-se que demorou até bastante tempo para ela perceber como estava investindo de maneira errada nesse mercado. Mas que, para mim, não justifica uma suspensão total como foi anunciado.
André Melo – Acho tarefa impossível mensurar. São muitas variáveis: gerações são ultrapassadas, ligações afetivas com filme X ou Y são individuais e surgem a cada momento. Cada um tem sua forma de relação com o consumo, ou há quem vive com hobby de colecionismo por um determinado período. Todos passamos por fases de fartura e fases de aperto financeiro… é normal e cíclico. Esse cenário que vivenciamos em 2020, em plena pandemia e níveis altíssimos de desemprego por um lado, houve também a valorização do espaço de dentro de casa (vide setor de construção que não foi afetado) e um super aquecimento no e-commerce, que crescia devagar, ano após ano, e teve um boom por conta dessa necessidade. Outro exemplo disso: tenho duas filhas de oito anos de idade e temos diversos DVDs da Disney para assistir. Particularmente, acho fantástico (embora alguns possam considerar obsoleto) aquela entrada para colocar DVD no carro, na parte do encosto da cabeça do motorista-passageiro da frente. Toda viagem que fazemos, há uma preparação delas na escolha do que irão assistir no trajeto e programar sua viagem. Não tenho todos os filmes/desenhos em mídia física deles, mas elas já assistiram uma boa parte na TV fechada ou mesmo via streaming e temos aqueles que mais gostam ou já foram importantes a uma ou ambas, em DVD. Já chegaram a pedir pra comprar desenho X ou Y em que colegas comentaram, até eu perceber que estava criando colecionadoras há quatro anos já (riso). Mas o que é curioso é que quando elas tinham dois anos de idade, sabiam pegar meu celular e mexer com o dedo para mudar de foto (deslizando com o dedo para o lado), porém não tinham ainda a força para abrir a maçaneta de uma porta. Embora isso seja uma coisa trivial pelo desenvolvimento delas, prova também que a próxima geração está muito mais preparada à tecnologia ao streaming e ao acesso à informação. Hoje (até por conta das aulas não presenciais, em que as crianças tem encontrado alternativas de brincar com amigos via jogos online), embora estejam mais antenadas aos tablets, às vezes as vejo sentadas na frente dos DVDs, pegando a caixinha e relembrando a cena dos desenhos (obviamente, quando sento para conversar, me contam de situações que remetem a um passado delas ou algo que vivenciaram e relacionaram ao filme). Eu mostro que há uma forma diferente delas se relacionarem com aquele tipo de mídia. Há uma relação ali que vai além do consumo entre elas e o filme/conteúdo/produto. É totalmente diferente se elas o veem em uma lista a cada vez que vão procurar um filme novo para assistir até este sumir dessa lista. Obviamente, a Disney reproduzia ainda três mil peças por conta do lucro sob unidade ser o mínimo vantajoso para a operação dela. Porém também existiu uma época em que ela fazia 100 mil cópias e, se não vendesse 30-40%, incinerava a quantidade não vendida sem pestanejar. Seguindo a fórmula que todo mercado conhece: após sete-oito anos, relançavam o mesmo produto, ligeiramente com novo aspecto, com a justificativa de que a geração mudou. Talvez ela tenha demorado para deixar de produzir em mídia física, por conta do seu porte e leva tempo uma simbiose com toda a empresa até, de fato, gerar a mudança para fazer mudanças estruturais como esta. Outra possibilidade é que envolveria prazos de contratos que deveriam estar vencidos com empresas que faziam a representação ou que cogitaram que era algo cíclico a baixa nas vendas ou mesmo sustentava a crença que o seu público principal era o infanto-juvenil por muito tempo e deveria haver alguma relação com o produto trabalhando com todas as janelas simultaneamente enquanto houvesse mercado ou uma soma de diversos fatores. É difícil saber com exatidão.

Essa pauta teve seu inicio a partir da petição pela volta da fabricação de aparelhos de blu-ray no Brasil  e que foi divulgada pelo Blog do Jotacê. Foi alcançado um número até significativo, mas que não convenceu os fabricantes que contatei para declarações nessa matéria. Você acredita nessa possibilidade de um retorno desse mercado ao Brasil observando tiragens de filmes que se esgotam e um mercado fiel de colecionadores que permanece?
André Melo – Eu acredito que temos grandes possibilidades disso acontecer. O Jotacê faz um trabalho magnífico, e eu não tiro a razão em continuar pressionando os fabricantes de blu-rays, pois a ideia é a popularização (que nunca aconteceu desse produto) e a facilidade ao acesso a diversos públicos ajudaria massivamente o mercado a ganhar força (até chegando a baratear produtos a médio-longo prazo e tornando viável o lançamento de produtos cada vez mais premium). Inclusive, a Versátil foi uma das empresas que concordaram em fazer parte da divulgação da petição e logo na mesma semana fizemos um post nas mídias sociais demonstrando o apoio para a produção de aparelhos. Embora minha opinião pessoal sobre a produção de aparelhos é acreditar que nunca deixará de existir e a retomada na produção das fábricas e cessão às lojas é somente uma questão de tempo e/ou adaptação. Novamente um exemplo para retratar disso é considerando a oferta-procura de aparelhos para compra. Há algumas semanas, o Daniel Melo, irmão responsável pela parte digital da Versátil, me falou que um dos Blu-rays que tínhamos “pifou”. Para contextualizar, quando a gente lança um produto, após receber a master com o filme com as pastas passíveis para alteração no arquivo dentro da Versátil para começar a trabalhar digitalmente no conteúdo (no menu, na legenda, nos extras etc) trabalhando com a nossa versão, fechamos e mandamos para a fábrica para replicação. Antes de enviar para replicação a fábrica, fazemos testes com vários players para detectar eventuais erros de incompatibilidades (isso após a revisão final pessoal do Fernando Brito, que atesta qualidade/português/travamentos, etc). É o nosso Controle de Qualidade. Esse aparelho que o Daniel citou estar com problemas era o da LG que, por coincidência, muitos colecionadores ainda têm. Ficamos três dias contatando diversas lojas em São Paulo procurando quem tinha esse modelo específico de aparelho de blu-ray. Só depois desse intermédio foi que tivemos a “brilhante” ideia de consultar lojas de e-commerce para compra online e lá apareceram, entre as opções, uma viável e rápida via Mercado Livre. Você deve ter pensado: “por que não pensaram nisso antes?” Também me questionei na ocasião (risos). Acabei comprando e chegou no dia seguinte exatamente o modelo que estava buscando. Em resumo: ainda há players disponíveis no mercado, fora quem utiliza vídeo game (como eu, que tenho um PS3 exclusivamente para isso em casa), basta “saber onde procurar”. Somente com essa premissa, e conhecendo o histórico de nosso mercado e o impacto do streaming nos dias atuais, é possível pensar em possibilidades do porquê de não estarem produzindo novos aparelhos, como a baixa demanda das revendedoras (as grandes magazines) além da reduzida venda de players ou por ainda possuírem grande quantidade em estoque ou perceberam baixa rotatividade do produto. Durante uma das lives do Blog do Jotacê, foi feito um interessante comentário sobre se os colecionadores chegaram a consultar empresas ou profissionais que faziam reparos nos aparelhos de blu-ray (assistência técnica), ou mesmo da viabilidade em se tornar um mercado em ascensão (e até mais “econômico”, tendo com base o custo de fabricação em escala de novos aparelhos, para atender toda demanda do nicho). Estas reflexões foram geradas graças a petição e, acredito, estão altamente relacionadas a uma justificativa dessa produção não ocorrer mais nos dias atuais. Mas jamais desmereceria o abaixo assinado. Não acho perda de tempo (como muitos disseram), mas principalmente, e mais importante de tudo: para obter de todos um engajamento e entendimento de como funciona o mercado de homevideo e é o que vai ajudar a solidificar e fortalecer para que ele continue existindo. Uma das pautas mais importantes e está diretamente relacionada, por exemplo, é sobre o preço do disco em blu-ray nas vitrines. Há clientes que reclamam por causa de valores de R$40/50, e há lojas que atuam com esse preço médio, porém ficam à mercê de descontos/situações de encalhe médio das distribuidoras/representantes. O consumidor precisa se acostumar que o antigo R$19,90 da Americanas é hoje R$69,90 dos lançamentos, e é o valor que todos devem estar acostumados como preço médio para que haja uma sobrevida das distribuidoras, e não ter como regra o que é estipulado nas promoções. Por outro lado, não podemos desconsiderar a renda per capita no Brasil e a capacidade econômica pessoal de muitos colecionadores/cinéfilos/amantes de filmes e da dificuldade em adquirir tudo o que o mercado lança (mesmo em períodos de poucos lançamentos). Fora isso, em nosso país, ainda há uma grande discrepância nos públicos, que, diariamente, verifica eventuais promoções que estejam acontecendo (até repassando em grupos, que inclusive faço parte), porém ficam à mercê da disponibilidade daquele produto e havendo uma rápida venda e a “valorização” daquele filme em mídia física através de colecionadores-revendedores de ML e Shopee. Enquanto há quem compra importado em outra frequência. A dialética em questão é que existe um mercado que está disposto a comprar um videogame (formato que sempre terá disposição para ser um player de blu ray , e já foi provado que mesmo empresas produzindo dois modelos de videogame, com e sem disco, aquelas com disco tiveram mais sucesso em vendas) e ainda exista a importância na popularização do produto (pressão para retomada na produção das grandes fabricantes). Em suma, não acredito que, pelo menos nesse período em que vivemos, esteja atrelado a extinção da mídia em blu-ray ou mesmo DVD por conta disso. Embora esteja enfrentando impasses de tempos em tempos, não é o que vai acabar, mas melhorar o aspecto que vivemos hoje. Simultaneamente, o problema das livrarias estarem atravessando um período de recuperação judicial é muito mais grave, pois atingia diretamente o público médio e antes ajudava no contato do produto a novos públicos (diferentemente pela internet, em que há direcionamento na divulgação).

Na live do Blog do Jotacê você já havia falado sobre a situação de saúde ocorrida com você. Nesse momento, você tocou no aspecto da recuperação judicial e eu queria aproveitar essa deixa para aprofundar contigo sobre o processo que aconteceu com a Livraria Cultura há dois anos e em como isso te afetou física e psicologicamente, bem a empresa Versátil.
André Melo – Hoje é difícil ser empresário no Brasil, tendo em vista as condições que nos submetemos a pagar impostos muito caros. Estamos entre os países mais caros do mundo. Temos que lidar com cargas tributárias federais/estaduais/municipais (não estando isenta a alguns, como o mercado de livros). Ao mesmo tempo, estar sujeito a condições comerciais predatórias do mercado, como de grandes magazines. Além da responsabilidade perante uma empresa, sua família e familiares da equipe contratada e de fornecedores, que atua e depende da parceria todos os dias, tudo dependente das decisões que são tomadas. Também é difícil trabalhar com cultura, e isso é potencializado quando se atua com um nicho específico como o mercado de mídia física, que, diferentemente do livro, paga-se mais impostos e não atinge sebos e pequenos comerciantes (onde muitas editoras se apoiaram após as recuperações judiciais das livrarias) e ficamos limitados a poucos revendedores interessados. Simultaneamente, como somos tratados internacionalmente por sermos uma empresa brasileira e estarmos negociando um valor pífio para os grandes estúdios/detentores e, para nós, se não tomar cuidado, perde-se toda a margem de lucro – quando não é lá grande coisa – principalmente se o dólar dar uma disparada. E mesmo diante de tudo isso, no momento em que as livrarias entraram em recuperação judicial (com títulos vencidos de até um ano, proporcional à mesma quantidade em meses de faturamento bruto da Versátil) e é autorizado por um juiz para pagamento em 13 anos, a iniciar após dois anos da data, muitos como a Versátil se viram em “becos sem saída” e até chegaram a fechar as portas. Mesmo quem tem crédito bancário, sabemos que parcelamentos são em no máximo quatro ou cinco anos, com data de inicio em 30 dias, logo não há escapatória a não ser repensar em todo o negócio – inclusive considerando a falência como possibilidade. Há outro empresário do mesmo ramo que o nosso que mencionou diversas vezes o que passou. Inclusive, citou diretamente ao CEO de uma das livrarias durante a reunião com mais de 30 empresas que também que forneciam a ela. Isso o desestabilizou psicologicamente, parando a empresa por um tempo e se afundando na depressão, tornando-se dependente de medicamentos. Tudo graças à recuperação judicial das livrarias. É incompreensível para quem vê de fora, mas estando imerso a isso, é desesperador. Não vou mentir, houveram diversas situações em que perdia as esperanças e o impulso era grande para cometer atrocidades. Graças a Deus, tive força para enfrentar isso. Agradeço imensamente ao meu pai e à educação que me concedeu na infância/adolescência dentro do Espiritismos de Kardec, que me ajudou bastante no período. Era duro você contar com pessoal para trabalhar em parceria contigo, seguir o que rege e ter ciência que quando há algum problema, a responsabilidade é sua. Agora, se dá problema nos outros, e você fica impossibilitado (por exemplo, de pagar pensão alimentícia), é frustrante. Tomar a decisão em pagar um fornecedor e ter mercadoria para empresa “girar”, ao invés de fazer mercado para o final de semana para sua família, não é das situações mais agradáveis. Derruba qualquer pessoa. Eu lembro que houve uma ocasião em que eu fui buscar as minhas filhas na escola, e elas me pediram para comer pastel de feira. No momento em que eu aceitei, começou um novo tormento. Na minha cabeça, eu lembrei que, para a Versátil fazer o lançamento do mês seguinte, estava faltando dinheiro, fundamental para a empresa ter o mínimo giro possível. Faltava pouco e, naquela manhã, estava contando centavos de crédito (trabalhando já com o limite de cheque especial) em diversas contas bancárias pra fechar o pedido. O mesmo que depois serviria para pagar salário de funcionários, também. Minhas filhas animadíssimas, pois comeriam o desejado pastel e eu calculando se sobraria para pagar, que fosse, 20% do salário da equipe após dias de atraso da data de pagamento. Eu me sentia muito culpado por isso. Minhas filhas tinham seis anos na época, em toda sua inocência e pedindo por algo simples como um pastel de feira, que não é das coisas mais caras. Mas o que significava ali era representatividade do dinheiro. E aí eu pensei: “Vou comprar pastel para elas, mas não vou comer. Vou conseguir ai 0,05% a mais para pagar ao pessoal”. Dei a elas, as deixei em casa, dirigi até o quarteirão seguinte, me tranquei no carro e desabei. Isso após diversas vezes em que e vi refletindo sobre situações que aconteceram durante aquele período, como não estar disponibilizando em casa uma alimentação simples e barata, como uma fruta, por exemplo, que uma delas gosta de comer. Isso para poder fazer a empresa girar e poder pagar o básico para a empresa sobreviver e continuar contando com a equipe do nosso lado. Sei que não deve se comparar com a fome ou situações alarmantes de miséria ou o desemprego, mas é frustrante a dedicação diária de 10 a 14 horas por dia de trabalho e, no final do mês, ter dificuldade para ter o mínimo para viver. Enquanto isso, lidava com as livrarias que, após dias pedindo algum acerto, prometiam uma data e não cumpriam. Foi em uma dessas situações em que desenvolvi o vitiligo por conta do stress. Foi uma etapa na minha vida no qual eu deixava de comer ou de dormir direito. Não conseguia me entreter, pois acreditava que meu tempo/esforço poderia salvar – que fosse – 1% para diminuir o impacto de quem estivesse ao meu lado. Recordo que, na época, eu tinha uma lógica maluca que eu não tinha o benefício de sonhar, em lidar com subconsciente e fornecer satisfação de alguma forma para o próprio ego, enquanto havia uma pessoa sendo prejudicada pela decisão que havíamos tomado que era acreditar no discurso das livrarias de que tudo seria pago. Na minha cabeça, eu precisava viver apenas para trabalhar. Então, no meio da noite, quando tinha consciência de qualquer indício de sonhos, acordava frustrado e ia estudar alguma forma de vender/melhorar o lucro. Passavam semanas em que as noites dormidas eram de três a quatro horas/descanso por dia. Era o nível de stress com o qual estava convivendo. Tudo isso antes e durante nos meses iniciais da recuperação judicial.

Você citou o foco necessário na loja própria da Versátil através do site para conseguir reerguer a empresa. Emergencialmente, à época, como foi lidar com essa necessidade urgente de injeção de capital?
André Melo – A Versátil gastou todo crédito bancário que tinha. E eu te digo: estamos pagando até hoje, e ainda vai demorar mais alguns anos para quitar todo empréstimo que tivemos que fazer. Pra ser mais preciso, hoje, a Versátil paga por mês, em parcelas para bancos, o equivalente a três vezes a folha de pagamento dela. Porque, no momento em que a gente não tinha sequer limite para cheque especial disponível, pois estávamos devendo para fornecedores, com imposto em atraso, devendo para tudo quanto é canto, o que fizemos? Fomos atrás de crédito bancário de tudo quanto é canto. Hoje, a gente está pagando por tudo que a recuperação judicial está fazendo. “Ah, então o que te afeta hoje na recuperação judicial?” Pra você ter uma ideia, eu estou falando com você agora e com uma tabela aberta aqui na minha frente. Amanhã, preciso pagar R$7 mil para um banco em uma parcela. Daqui a dois dias, mais R$5 mil para outro. E precisa sobrar, na sexta-feira, mais 20% disso para pagamento do benefício de alimentação do pessoal – isso só esta semana! Você entende? Então, você pensa em datas para sobreviver, e o que sobra, investe para manter a empresa girando – senão para. Uma fez convidei um consultor do SEBRAE para acompanhar nossas contas e ele citou que o problema é estarmos arcando com a mesma dívida das livrarias, que mal administraram seus negócios e conseguiram aprovação da recuperação judicial, só que elas conseguiram prazo em 13 anos. Enquanto que nós só temos quatro ou cinco anos para isso, situação esta que a Versátil dificilmente conseguiria aprovação por conta da sua visibilidade no mercado. Diferente das livrarias, com as quais todos estão familiarizados. Por isso é muito revoltante a recuperação judicial da forma como aconteceu, da noite para o dia. E, hoje, estamos vivendo essa notícia de que a contraproposta que as livrarias propuseram aos credores foi negada. É ambivalente quando pensamos que a Livraria Cultura, que ajudou muito, inclusive, na imagem da Versátil, também chegou a nos causar tanta dor e dificuldade. No momento em que ela está pedindo ajuda, é difícil aceitar todos os termos que ela pede, mas ainda tentamos negociar com ela, pois o mercado precisa cada vez de mais players ativos no mercado. É difícil. Então, aquele foi realmente um desabafo que eu dei na live do Blog do Jotacê. Ao mesmo tempo em que temos que saber separar não só o profissional do pessoal, como distinguir o que é o profissional do passado e atuação/estratégias para atuar como um profissional que pensa em consequências futuras ao mercado. A gente precisa ter um mercado vivo e fortalecido. Eu agradeço ao Fabio, da FAMDVD, que torce para a loja da Versátil, assim como de outros lojas, para que dêem certo. Também desejo o mesmo para a The Originals, a Colecione Clássicos, a Classicline, a Vídeo Pérola – mesmo que algumas delas não tenham nossos produtos, é importante que todas estejam buscando alternativas das mais criativas. Acredito que a consciência coletiva, a presença e a habilidade de auto-renovação de todos no mercado, é o que irá garantir a sobrevivência de todos. Claro que a Versátil perde espaço quando, por exemplo, a Classicline lança o “Código Nolan” em blu-ray? Momentaneamente pensa que o consumidor podia estar em nossa loja, porém, ao mesmo tempo, fortalece o mercado e nos desafia a fazer um produto melhor. A concorrência e auto-cobrança não é algo prejudicial.

Em termos de valores, quanto deve a Livraria Cultura à Versátil, hoje?
André Melo – Hoje, a Livraria Cultua está devendo para a gente R$120 mil de produtos que fornecemos em novembro de 2019 até agora (Setembro/2020, após a recuperação judicial), além dos R$1.3 mi (informação pública e disponível em https://www3.livrariacultura.com.br/comunicados/recuperacao-judicial), que só iremos receber de forma parcelada a partir de 2022 a 2035. Longe de 1% disso ao mês. A partir de uma reunião com a Livraria Cultura, continuando no fornecimento de mercadorias a ela, busquei outras distribuidoras independentes de filmes para alinharmos e a seguir o mesmo discurso com a Livraria Cultura. A Versátil, CPC Umes Filmes, OP e a Classicline. Porém, fomos colocados à margem dela, que não demonstrou importância com nossas dificuldades. Quando houve aceitação para a recuperação judicial das livrarias, sabia da importância e eu procurei ajuda de um escritório de advocacia especializado nessa área e sempre compartilhava informações obtidas com representantes das independentes. Assim como acontece comigo, o tempo já é escasso suficientemente para se aprofundar e a meia compreensão podia estar equivocada. Poderia levar a tomar uma decisão X ou Y e, assim, o mercado de mídia física para um rumo ainda pior. Então, começamos a desenvolver algumas alternativas que a gente poderia tomar e apoiamos a recuperação judicial votando a favor. Mas quando buscamos ajuda, ela nos negou. Havia uma obrigação legal por parte da Livraria Cultura, depois da recuperação judicial, a pagar valores consideráveis e contínuos em novas compras após a votação. Tudo estava acertado para começarmos a receber agora em outubro de 2020. Até vir a pandemia, quando ficou certo que ninguém sobreviveria se não atuasse em conjunto e cada um com a própria loja. E agora todos questionamos: qual será o futuro da Livraria Cultura? Será que ela fecha, e se caso isso acontecer, quem vai entrar ali? Será uma nova livraria? Será que irá disponibilizar mídia física para venda? Ou será outro negócio, com nada relacionado? A chance de todos saírem perdendo não é pequena. Ainda é mais vantajoso o mercado estar vendendo, por mais superficial que fosse. Logo, por conta disso, fornecemos exclusivos dentro da Amazon, e continuamos tentando negociar com a Livraria Cultura, – obviamente, sem colocar nossa operação em risco, conforme feito no passado. Insisto, o mercado precisa estar fortalecido. Temos de crer que o que está acontecendo com a Saraiva e com a Livraria Cultura será passageiro, assim como a pandemia.

Você citou a Amazon e quero aproveitar a deixa para citar a parceira da Versátil com ela para a venda de filmes em blu-rays exclusivos. Isso após um ano já vendendo em parceria com a gigante do varejo. Como se deu essa proximidade e negociação desde 2019?
André Melo – Em abril de 2019, a gente tinha acabado de passar pelos piores meses de faturamento da história da Versátil. Tínhamos acabado de sofrer a recuperação judicial da Livraria Cultura em novembro de 2018. Pouca gente conhecia a loja da Versátil e os revendedores não estavam comprando nada. Foi quando veio a notícia: a Amazon iria começar a vender mídia física. Começamos a procurar empresas parceiras que já tinham contato com o pessoal de lá, chegando a um comprador da Amazon. Realçamos o interesse e insistimos para marcar uma reunião. A primeira reunião da Amazon foi em abril/maio de 2019, nem tinham aberto as vendas da mídia física e já estávamos lá (risos). Eu e o Fernando Brito apresentamos a Versátil e como o nosso mercado funciona, falando de produtos exclusivos, apresentamos prints dos destaques que tínhamos na Livraria Cultura e na Saraiva, e da ajuda na divulgação pelas nossas mídias sociais. E já de cara demonstraram interesse, porém disseram que o investimento que a Amazon faria iria depender de acordo com o retorno financeiro que ela obtém no período anterior. Ou seja, logo no início, obviamente, seria muito fraco, mas prometia um crescimento a médio-longo prazo. “Vamos começar a trabalhar juntos logo no início a partir de setembro/outubro. Será super positivo”. Só que entre aquele mês de abril e agosto de 2019, foi justamente a reviravolta que começamos a ter na nossa loja, nosso site, o que foi também fundamental para as etapas seguintes. As livrarias não estavam mais adquirindo os nossos produtos, a todo momento havia um novo impasse nos tratos comerciais por conta da situação das consequências da recuperação judicial em si e ainda pouquíssimas lojas de menor porte estavam interessados em revender nossos produtos. Enquanto isso, houve situações em que clientes nos ligavam diretamente perguntando onde comprar nossos produtos. Recordo de uma ligação que recebi um dia às 20h, direto no escritório, de um senhor falando que ia toda semana na Livraria Cultura procurar os produtos da Versátil, mas não achava mais. Foi quanto indicamos nossa loja. Lembro ele ter falado que tinha toda a coleção “Filme Noir”, sua coleção favorita, citando que tinha do 1 ao 8. Quando eu disse que estávamos no volume 13 já, ele ficou pasmo e pediu a conta pra depositar na hora e adquirir os outros cinco volumes (risos). Minutos após a entrada do recurso, usei o valor para pagar uma conta vencida… Ao mesmo tempo, começamos a ver que muita gente nos procurava para comprar diretamente pelas mídias sociais ou perguntava onde teria aquela mercadoria para adquirir. Foi quando começamos a reparar que havia uma esperança de sobrevida. É o que eu falei sobre os aparelhos: ainda existe uma demanda e acreditamos no potencial para o crescimento. Foi quando começamos a estudar outras lojas, condições melhores de frete, visual da loja, infra estrutura da equipe, etc. Meu irmão, Juliano Melo, encabeçou todo esse projeto e, hoje, é quem administra e controla a maior parte nesse setor. Nesse momento, começamos a obter resultados. Simultaneamente, a Amazon abriu as vendas de produtos do nosso ramo. Considerando a situação que encontrávamos, eu não sei se sobreviveríamos até este ano, quando, hoje, estão efetivamente aceitando fazer exclusivos com mais peças. Afinal de contas, a Versátil possui uma margem bem mais atrativa na própria loja, o que capacita, inclusive, a fazer mais lançamentos. E independente disso, continuamos trabalhando comercialmente com a Amazon e outros players interessados na revenda. Precisamos que os produtos da Versátil estejam lá. Enfatizando, novamente, o acesso do público médio para que venha conhecer a marca, que é o que faz o diferencial para chegarmos a uma quantidade maior de peças produzidas na nossa fábrica. O produto tem que ser levado aos grandes públicos para que haja o reconhecimento e o valor da mídia física. O produto bem acabado, bem apresentado, curadoria bem selecionada, repleto de conteúdo e extras, etc. O colecionador ativo conhece a fundo, mas, por exemplo, o público médio, como esse senhor que ligou para a Versátil, não conhece a FAMDvD ou The Originals e fica ressabiado de comprar. Mas no final de semana, frequenta shoppings e tem familiaridade com a Livraria Cultura ou Saraiva. Foi quando começamos a oferecer exclusivos dentro da Amazon, em outubro e novembro do ano passado. E eles falaram: “Olha, para exclusivos, a parte de mídia física, as vendas ainda estão tímidas. Ainda não nos apresentaram números suficientes. Então, neste momento, podemos fazer um exclusivo com 100 peças”. Todavia, somos obrigados a seguir uma tiragem mínima de produção na fábrica de mil peças – e não haveria como investir antecipadamente, estocar e segurar 900 peças por meses estas mercadorias paradas. Ainda mais naquela condição que estávamos vivendo. Então, aquele momento ainda era muito embrionário para a Amazon, por mais que seu sistema seja mais tecnológico no quesito de compras (algo que as livrarias possuíam, antigamente, pessoal especializado, como o Igor Oliveira – hoje atuante no CPC Umes Filmes). Hoje, também entendemos que foi graças a esse timing da Amazon que ocasionou o sucesso da nossa loja e aproximação dos clientes. Começamos a desenvolver possibilidades, como a retomada dos blu-rays, já próximo do final de 2019. Começamos a preparar a distribuidora para focar no que o mercado queria, para que tipo de produtos que iríamos trabalharem 2020, buscando um aperfeiçoamento e melhor atendimento a quem entrasse em contato com a nossa loja. Após alguns meses fazendo exclusivos na Versátil, e estando certo do resultado positivo dos blu-rays, foi que fizemos a retomada da proposta/parceria com alguma revendedora. Após um ano daquele primeiro contato que tivemos em 2019 com a Amazon, percebemos a Saraiva há seis meses sem interesse em comprar nossos títulos. Sequer respondia nossos e-mails e rodízio de compradores a cada dois meses. A Livraria Cultura ainda em recuperação judicial, comprando pouco e exigindo novamente um trato comercial mais vantajoso a eles do que para nós. As pequenas livrarias, por conta da pandemia estavam com as portas fechadas e certamente iriam demorar para “recuperar o fôlego”, na reabertura do comércio. E a Amazon estava crescendo cada vez mais, atuante e comprando bem mais do que quando do inicio as negociações conosco. Vejo que é essencial trabalhar com revendedores, também, pois eles ajudam no investimento deles para ter um produto em loja por um tempo determinado. Então, isso já garante 20% ou 30% a mais a ser produzido na fábrica, melhorando a margem da venda do custo unitário, sendo mais vantajoso produzir dois ou três mil unidades, ao invés de mil. É interessante para todo o mercado isso. Sempre procurei propor exclusivo para todos os clientes, abria possibilidades, buscando algo para inovar, mas nenhuma outra loja queria investir mais de 20 peças e colocam a responsabilidade na distribuidora. AÍ fica difícil. Não à toa que vamos lançar agora em novembro e dezembro, nove títulos em blu-ray, ainda mais completos e com mais memorabilia do que outros produtos da linha lançados há alguns anos. Tudo isso foi o passo adiante dado após março desse ano, quando anunciamos o lançamento do “Carpenter Essencial”. Mas, por que isso foi possível? Porque vimos até que ponto conseguiríamos administrar juntamente com a fábrica, testando o valor/itens como de brindes que poderíamos colocar junto. Qual frete eu posso trabalhar na nossa loja; como é que está o mercado para ter um produto assim; quantas pessoas vão comprar, etc. Então, a gente vai testando e estipulando métricas, acompanhando resultados e medindo até quanto conseguimos. É graças a esse momento de nicho que estamos passando, que conseguimos fazer um investimento desse porte, por mais que possam ocorrer atrasos, serão entregues nas condições que anunciamos.

Em diversas entrevistas, foi observado o perfil predatório da Amazon em relação a pequenas livrarias e lojas de filmes bem como varejistas de outras áreas. No campo da mídia física, a vemos vender por valores bem menores, causando um desequilíbrio perceptível em um mercado que já é frágil. Como distribuidora e também varejista, qual sua opinião sobre isso enquanto diretor da Versátil?
André Melo – A Amazon tem alcance a uma quantidade enorme de pessoas, que jamais a Versátil ou 90% das empresas com produtos ali sendo vendidos teria com a loja própria. Ao mesmo tempo, acredito, como qualquer outro acordo comercial, tudo tem que ser proposto, seguido e concordado por ambas as partes. A Amazon, independente da sua “fama”, deve-se estar atento às “letras miúdas”. Em outras palavras, acordos podem estar sujeitos a alterações e cancelamentos se não forem bem pontuadas inicialmente e lembrados a todo momento durante o acordo. É a mesma tratativa quando negociávamos com grandes varejistas na primeira década da Versátil. Todo contrato tem que ser avaliado com lupa e por diversas pessoas, pois podem resultar em uma venda que gere prejuízo ao invés de lucro. Tudo deve ser tratado estrategicamente, considerando até a hipótese de desistir de uma ação ou até da parceria. Por conta da dificuldades que tivemos em 2018 e em 2019, estávamos sujeitos a aceitar muitas condições comerciais que a Amazon ou qualquer outra empresa ofertasse. Mas por sorte nossa, isso não ocorreu. Hoje, damos graças a Deus. Ao mesmo tempo em que a Amazon pode ajudar na divulgação do produto/marca, ela também pode fazer a extinção de mercados em prol dela. Por isso, todo mundo que trabalha com a Amazon deve refletir muito bem antes de desenvolver algo com ela. Sabendo onde e quando ir em frente ou não – pois talvez só compense usar o canal do marketplace. Tendo como exemplo, fizemos muitos estudos antes de propor aos analistas da Amazon com estes exclusivos que levamos para parceria. E a margem da Versátil é pífia a curto prazo: somente teremos margem na quantidade que vendermos em nossa loja e a médio prazo. Mas a intenção é que a Amazon ajude na divulgação dos produtos e da Versátil, pois além de tudo, ela tem uma atuação mundial e sabemos até onde ela pode esticar a operação Brasil dela e a ajudar no movimento em prol da mídia física. Por isso, uma coisa é certa: dificilmente, considerando na atualidade, a Amazon terá exclusivos no mesmo nível que a Livraria Cultura teve conosco, um por mês, por exemplo. Tanto que mantivemos em nossa loja o mesmo produto anunciado por eles. Todos devemos aproximar o máximo de público possível para a mídia física. Queremos chegar a uma produção e a uma margem de lucro muito mais interessante e mais saudável para colocar mais produtos no mercado.

2020 se encerra como um ano bastante significativo para a Versátil em termos de lançamentos em blu-ray. Para além da curadoria, algo que o Fernando descreveu bem em suas respostas, você poderia abordar mais sobre esse processo de escolha dos títulos?
André Melo – Quando idealizamos um lançamento, após análise de mercado (atualmente via mídias sociais e enquetes) com ajuda do Juliano Melo (diretor) e da excelente curadoria/conhecimento do Fernando Brito, seguimos adiante. Havendo concordância de todos do que é legal principalmente para a comunidade cinéfila, seguimos em frente. Fazemos o levantamento de algumas hipóteses de produtos (comercialmente falando – ou seja, se já foi lançado no Brasil, há pouco ou muito tempo, se há bastante material complementar, etc.), começamos a sondar a viabilidade, como a disponibilização de direitos autorais, pois somente depois de estarmos em processo de fechar um contrato, começamos a montar como será a configuração do produto. Dublagens e extras acabam surgindo na pesquisa e vão entrando como complemento posteriormente, na maior parte das vezes, embutidas no mesmo contrato. Com todas as partes já acertadas, apenas aguardando a assinatura do contrato (às vezes leva semanas para estar 100%). Um produto da linha “Filme Noir”, por exemplo, pode ter até seis estúdios/contratos diferentes. Há os valores de como ficará o produto na fábrica/gráfica, ou se haverá envolvimento de outros profissionais na confecção do produto, como o desenhista, ou convidado para escrever no livreto, etc., que também entram nessa parte final. Quando o pessoal vem com toda essa carga de informações, montamos tudo. Confio muito na equipe, e, assim, seguimos para assinatura. É quando fechamos o contrato lá fora de todas as propostas que tínhamos feito para essas seis empresas. Embora às vezes, com duas já temos o contrato/produto fechado. Há ocasiões, de filmes em domínio público, logo são menos. Mas só lançamos o produto efetivamente quando a gente estiver com tudo certo, tudo assinado e (pelo menos uma parte) já pago (o mínimo garantido) que é uma cláusula contratual da garantia que os direitos autorais daquele produtos vão estar com a distribuidora por aquele determinado período em diante.

Outro lançamento é o do blu-ray de “Morto Não Fala”, um dos melhores filmes nacionais dentro de um cinema de gênero, que surgiu a partir de uma procura dos próprios detentores do filme para um lançamento em mídia física. Como se deu esse processo de escolha do lançamento em mídia física? Há possibilidade de outros filmes nacionais na Versátil?
André Melo – Se a gente começa a sentir que os colecionadores estão pedindo muito uma coisa, seja no formato do produto ou do custo-benefício na embalagem, por exemplo, procuramos alternativas. Se é viável, fazemos nossa parte em procurar alternativas e demonstrar interesse quando alguns projetos são encaminhados a nós por e-mail e/ou indicação. Queremos fazer um A ARTE DE ou CINEMA DE com um cineasta brasileiro, também. E já tem alguma coisa aí aparentemente surgindo para 2021. Além disso, alguns títulos individuais que valeriam o produto seja em DVD ou blu-ray. Nesse caso de “Morto Não Fala’, não será somente o filme do Dennison Ramalho, mas, também, entrevistas feitas com a equipe do filme, os curtas feitos por ele, além do storyboard do projeto das cenas. O produto é digno de um lançamento em Blu-ray, da mesma forma que deve ter o mesmo alcance lançando-o em DVD. Será uma aposta grande, principalmente em alta definição, pois além de fazer muito tempo em não lançarmos produto nacional, nunca o fizemos em BD. Todavia, “Morto Não Fala” tem um fator que deve ser levado em consideração que é o fato de ainda estar em muitos canais de streaming, por mais que já tenha passado o hype (e o material em blu-ray ter um aproveitamento muito melhor), o material complementar aqui será o trunfo. É uma realização muito grande para nós trabalhar com um produto nacional, com atores conhecidos e respeitados, além de valorizar o produto físico para aproximação do público não cinéfilo/não colecionador. E como o blu-ray já é uma outra barreira de acessibilidade, a ideia seria trazer o público para esse formato de reprodução. A ideia do lançamento simultâneo é divulgar o projeto também para os seguidores dos atores, que possuem uma legião enorme de fãs ainda maior do que dos grupos de colecionadores de mídia física. Convidá-los a conhecer a Versátil e conhecer a nossa luta.

Lançar nas duas mídias eu vejo com o um acerto, de fato. O alcance do DVD para esse público que conhece esses atores a partir da TV será bem maior, de fato.
André Melo – Sim. No Brasil, a maior parte da população está muito mais acostumada a novelas da Globo e a identidades emblemáticas dos atores. Enxergam ali uma fonte de conteúdo que, além de entreter, é interessante e acessível. Embora existam outras formas de entretenimento relacionadas à TV e ao audiovisual, como o DVD, que pode agregar muito mais conteúdo complementar. Ok, é difícil você propor ao público acostumado a consumir novela da Globo e filmes da Marvel/Tela Quente, a conhecer filmes como “O Sétimo Selo” (Bergman), “Pai e Filha” (Ozu) ou ‘Nosferatu” (versões de Herzog ou de Murnau). Porém, se você apresenta “Ruas de Fog”o, ou “Stargate”, por exemplo, começa a ser mais interessante. É um público que já vivenciou aquele filme de alguma forma, e certamente, quando for buscar adquirir esse produto, acabará conhecendo mais do nosso material. Me lembro quando fizemos o aniversário de 20 anos da Versátil no ano passado. Nós realizamos uma palestra na Livraria Blooks, do Shopping Frei Caneca. Estavam presentes meu pai, o Fernando Brito e eu. Eu lembro que perguntei a eles qual a importância do DVD hoje, e meu pai foi muito pontual afirmando que não é somente o tipo de entretenimento que irá trazer a diversão ou a emoção, mas, também, gerar conteúdo, aumentar os níveis de humanidade e sensibilidade, algo muito ausente nos dias de hoje, tanto no mundo capitalista como nas mídias sociais. Logo, quanto ao conteúdo, você tendo acesso a mais filmes, mais você tem a agregar e a enriquecer com isso. Eu lembro quando o Fernando falou: “para compor o box, quando começo a minha curadoria, eu não penso só em coisa comercial. Eu penso o comercial, algo que nunca foi lançado, algo que poucas pessoas conhecem. Porque, certamente, vão conhecer coisas novas e vão gostar. Não há satisfação maior, para mim, apresentar algo que não conhecem e essas pessoas venham a gostar”. E acredito que para o lançamento de “Morto Não Fala” chegar nesse público, seja pelo elenco, autor, diretor ou pela própria Globo Filmes, ele deve ter um atrativo especial.

Tem sido difícil lançar mais filmes nacionais por causa dos direitos autorais?
André Melo – Tem alguns filmes que mesmo você lançando diretamente com o produtor, causa problemas. Seja porque em algum momento foi lançado por outra empresa, ou algum contrato que venceu de uma forma, mas não de outra, ou alguém que vê ali a possibilidade de arrecadar alguma quantia monetária de alguma forma, como herdeiro de alguém que fez parte do filme, ex-esposa, etc. Além de tudo isso, é a atuação do sistema judiciário em nosso país. Até ter tudo esclarecido, o juiz barra as vendas, o que causa você lançar, ter um gasto todo envolvido e precisar ficar com o produto parado em estoque enquanto levam meses/anos para que haja a devida liberação legal para a retomada da comercialização. Ou seja, quem acaba “pagando o pato” é a distribuidora que investe e não tem o retorno. E ainda fica sendo cobrada pelos licenciadores de royalties, que não se importam com os tratos comerciais de terceiros. Um exemplo disso é a situação da recuperação judicial das livrarias, em que tivemos que atrasar com alguns parceiros – e mesmo sabendo de toda situação, não quiseram saber: nos obrigavam a acertar algo sem mesmo termos recebido por isso. Então, é o mesmo discurso para alguns filmes que estão impossibilitados para distribuidoras independentes lançarem. É necessário aguardar. Assim como o “Cidade de Deus”, temos que esperar vencer o contrato de direitos autorais de quem assinou, tornar-se disponível, “passar para outras mãos”, como voltar ao detentor/produtor original, para daí, realmente, começar a pensar um novo projeto. Caso contrário, não há como ser comercializado. É uma das situações que chamamos de filmes que estão “no limbo” e devemos aguardar uma possibilidade mais viável para lançar.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog Película Virtual

Panorama do Mercado Cinéfilo de Mídia Física em 2020 no Brasil
01) Fábio Martins – Loja FAMDv
02) Fernando Luiz Alves – Loja The Originals
03) Classicline, 1Films e Vídeo Pérola
04) Valmir Fernandes (Obras Primas do Cinema)
05) Igor Oliveira (CPC UMES Filmes)
06) Daniel Herculano (Clube Box)
07) Gleisson Dias (Rosebud Club)
08) André Melo e Fernando Brito (Versátil)
09) Juliano Vasconcellos e Celso Menezes (Blog do Jotacê)

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