Entrevista: Gleisson Dias (Rosebud Club) – Mercado Cinéfilo de Mídia Física 2020

entrevista por João Paulo Barreto

Terceira de uma série de 9 entrevistas sobre o Mercado Cinéfilo de Mídia Física n Brasil

Dentre as maneiras de ainda consumir filmes em mídia física no mercado brasileiro, os clubes de assinatura surgem como uma alternativa interessante por incluírem na variedade de itens cinéfilos de suas caixas (ou box, na inglesada maneira de se consolidar marcas) DVDs de obras relacionadas a temas propostos a cada mês. Iniciando suas atividades há dois anos com uma proposta inicialmente focada no colecionismo, o Clube de Assinaturas Rosebud foi moldando seu formato até alcançar a proposta educacional de seu atual perfil.

“Estamos envolvidos nesse ambiente de colecionismo e identificamos que existe um mercado ainda. Apesar dos sinais de decrescimento, ainda existe um nicho que é pulsante e que é viável. Nós quisemos desde o início, e não mudamos essa mentalidade em momento algum, investir na mídia física. Valorizamos muito a mídia física. Até está na nossa Missão a proposta de reavivar o valor sentimental entre o cinéfilo e a mídia física”, explica Gleisson Dias, um dos sócios do Clube, ao falar sobre a importância dos filmes no formato de mídia física nas caixas enviadas aos assinantes.

Trazendo desde a caixa número 1 uma revista exclusivamente produzida para aquela edição, a Rosebud, hoje, investe em temas de aprofundamento educacional do cinema, aborda filmografias de cineastas e de países fora do cinema blockbuster, bem como traz aprofundamentos técnicos nas suas curadorias e pesquisas para assinantes. No endereço do clube no Youtube é possível perceber essa dedicação educacional da Rosebud.

“Os outros propósitos que são a base da Rosebud é alinhar essa ideia de reavivar o valor sentimental do cinema através da mídia física com a ideia de ampliar os horizontes cinematográficos das pessoas. A gente não envia filmes só por enviar. Todo box da Rosebud é temático e a nossa ideia é fazer com que esse momento do clube se aprofunde naquele tema. Enviamos os filmes e dizemos a razão de estarmos enviando. O porquê deles serem importantes. E junto com cada box, junto com cada seleção de filmes, vai uma revista caprichada, com muito conteúdo sobre o tema. Temos colunas, colaboradores, curadores, entrevistas, tudo para poder fazer com que os nossos membros tenham um acesso à educação sobre aquele tema. Queremos que eles aprendam cada box como uma espécie de curso livre de cinema. E essas são as duas coisas que a gente sustenta. O amor à mídia física e a educação cinematográfica. É para isso que a Rosebud existe”, pontua Gleisson.

Nessa entrevista ao Scream & Yell como parte do Especial Mercado Cinéfilo de Mídia Física em 2020, Gleisson fala mais sobre a Rosebud e sobre os planos para os próximos anos do clube. Confira!

https://www.rosebud.club/

Como surgiu a proposta de criação do Clube de Assinaturas Rosebud?
A Rosebud foi uma iniciativa que aconteceu quando eu estava prestes a me formar em Cinema pela PUC do Rio de Janeiro. Quando estava no último período, comecei a me interessar por Clubes de Assinatura de outros temas. Especialmente, Clubes de Assinatura de Café. Procurei os que existiam e descobri que eram vários. Aí eu fui mais a fundo e descobri que existiam Clubes de Assinaturas sobre N coisas. Muitas coisas. De livros, de comida, de bebida e de tudo. E pensei: “Poxa, então vou procurar um clube de assinatura de cinema, porque sou apaixonado por cinema e, se tem clube de assinatura sobre tudo, com certeza vai ter clube de assinatura sobre cinema”. Mas aí, para minha surpresa, até aquele momento, não encontrei nenhum clube de assinatura de cinema no mercado. Nenhum clube de assinatura com a mesma proposta da Rosebud. Pensei naquela oportunidade como um lugar onde eu poderia conciliar as minhas duas paixões: cinema e empreendedorismo. Na época, eu estava começando a me interessar por empreendedorismo e peguei algumas matérias na faculdade. Cheguei para outras pessoas e propus uma sociedade entre os amigos. Topamos e começamos um processo seletivo para entrar em uma incubadora aqui da PUC. Participamos do processo seletivo deles e passamos. Isso foi em janeiro de 2018. E aí, de janeiro a novembro de 2018, ficamos estruturando como seria a empresa, fazendo todos os movimentos legais, todos as comunicações com fornecedores. E fomos estruturando a empresa tal qual ela se formou em novembro de 2018. Qual era o nosso objetivo? Nós somos quatro sócios e, além de cinéfilos, somos colecionadores. Estamos envolvidos nesse ambiente de colecionismo e identificamos que existe um mercado ainda. Apesar dos sinais de decrescimento, ainda existe um nicho que é pulsante e que é viável. Nós quisemos desde o início, e não mudamos essa mentalidade em momento algum, investir na mídia física. Valorizamos muito a mídia física. Até está na nossa Missão a proposta de reavivar o valor sentimental entre o cinéfilo e a mídia física, que porventura possa ter se perdido pela facilidade do streaming ou por outros N fatores como, por exemplo, a falta de players no mercado. Com a Rosebud, tentamos ajudar nesse sentido de reavivar esse valor sentimental em relação à mídia física. E aí percebemos uma coisa de validação do nosso modelo de negócio.

Junto à banca de avaliação do projeto, qual foi a avaliação acerca do trabalho ainda envolver mídia física? Trabalhar em um nicho fechado de mercado foi um ponto muito refletido?
Quando tivemos que apresentar a ideia da startup para a banca, nós sempre nos deparávamos com as mesmas perguntas. E todo mundo nos faz essas mesmas perguntas até hoje: “Puxa, vocês trabalham com mídia física? Mídia física não é uma coisa que já morreu? Alguém ainda tem aparelho de DVD? E o streaming? Não vai acabar com a mídia física?” Sendo isso algo que nós sempre nos deparávamos, a gente se baseava na nossa própria experiência como colecionadores em que estávamos envolvidos. Mas para podermos validar esse projeto, tínhamos que fazer uma pesquisa. E essa pesquisa, tanto qualitativa quanto quantitativa, mostrou para a gente que o nicho é ativo, viável e é algo ainda a ser explorado. Mas ela também mostrou que a relação do cinéfilo com a mídia física mudou de uns tempos para cá. Antigamente, você comprava mídia física porque era uma das maneiras de você ter acesso ao filme. Se você assiste ao filme no cinema e gostou, você tinha que esperar algum tempo até ele passar nos canais fechados, depois em um canal aberto, e, então, o DVD ficava ali nesse meio tempo. Hoje em dia, os filmes saem, praticamente, em todos os lugares ao mesmo tempo. Então, a relação do cinéfilo com a mídia física não é mais de ver o filme, mas, sim, de ter o filme. Ou seja, é uma relação afetiva entre aquela pessoa que quer ter aquele filme que ela gosta, ou que ela quer ter na coleção na estante. Então, apresentamos essa pesquisa ao pessoal para consolidar o nosso meio de negócio, confirmando que dá para trabalhar, sim, com mídia física. “Temos esse nicho e vamos investir nele”. E isso é o que a gente realmente acredita, porque fazemos parte dele. Mas, obviamente, há muitas dificuldades em se trabalhar nesse nicho por ser muito fechado, como você bem mencionou. Ele é um nicho fechado que não tem o tamanho que tinha em outros tempos, mas que ainda é um nicho bastante sólido. A Rosebud nasceu com esse propósito. Quer dizer, não só com esse propósito, mas esse é um deles. Os outros propósitos que são a base da Rosebud é alinhar essa ideia de reavivar o valor sentimental do cinema através da mídia física com a ideia de ampliar os horizontes cinematográficos das pessoas. A gente não envia filmes só por enviar. Todo box da Rosebud é temático e a nossa ideia é fazer com que esse momento do clube se aprofunde naquele tema. Enviamos os filmes e dizemos a razão de estarmos enviando. O porquê deles serem importantes. E junto com cada box, junto com cada seleção de filmes, vai uma revista caprichada, com muito conteúdo sobre o tema. Temos colunas, colaboradores, curadores, entrevistas, tudo para poder fazer com que os nossos membros tenham um acesso à educação sobre aquele tema. Queremos que eles aprendam cada box como uma espécie de curso livre de cinema. E essas são as duas coisas que a gente sustenta. O amor à mídia física e a educação cinematográfica. É para isso que a Rosebud existe.

Sendo um jornalista que ainda atua em um veículo impresso (no caso, o Jornal A Tarde), e tendo tido minha formação cinéfila em revistas como a SET, a Revista de Cinema, a Bravo, dentre outras, uma das coisas que mais me deixaram curioso ao abordar essa pauta da Rosebud foi o fato de vocês produzirem uma revista impressa para cada caixa. Como se dá esse processo? O custo é muito alto? Para pontuar, recentemente fiz uma entrevista com o Paulo Henrique Silva, editor da Revista Elipse, na qual ele falou sobre a empreitada de se construir um veículo impresso. E confesso que isso é algo que me empolga e estimula bastante.
Eu amei essa pergunta porque a revista é uma das coisas que a gente mais se orgulha, na verdade. A revista da Rosebud é uma das principais coisas em que a gente concentra os nossos esforços. No meio do ano, início da pandemia, passamos por uma transformação no clube. Nós rodamos uma pesquisa com os nossos membros e foi uma pesquisa muito sincera para definir o futuro da Rosebud. Jogamos abertamente com eles as nossas perspectivas e pedimos para nos darem um feedback. Isso é algo que sempre pedimos, pois construímos o clube juntos. E através dessa pesquisa, identificamos que a parte que eles mais valorizam no clube é a educacional. Ficamos muito satisfeitos com isso, porque é a parte onde nós estávamos mais interessados em concentrar nossos esforços. Então, o que fizemos? Nós remodelamos nosso clube um pouco para que ele valorizasse essa parte educacional. Porque, até então, valorizávamos essa parte do colecionismo, do entretenimento, mas a da educação sempre foi uma questão. Só que agora a gente valoriza ainda mais essa questão. Respondendo sua pergunta sobre o custo da revista, com essa reformulação, nossa revista triplicou de tamanho. Tanto em formato de centímetros, quanto de conteúdo. Tivemos que realocar recursos. Antigamente, o nossa box tinha um snack, que vinha em todos eles. E percebemos, através dessa pesquisa, que ter esse snack, apesar dos membros gostarem, não gerava tanto valor quanto os outros itens. Então, a gente meio que o substitui para poder investir mais na revista. Agora, ela pode ter esse tamanho e conteúdo maiores. Para você ter uma ideia, a primeira revista da Rosebud, que veio no nosso primeira box, tinha 12 páginas. E a última que a gente enviou tem 88 páginas. Ela aborda muito conteúdo, mesmo, sobre diversas áreas de cinema, e não somente sobre o tema daquele mês. Isso foi uma das mudanças que fizemos nos últimos meses. A partir do box 20, a revista passou a abordar assuntos variados do universo do cinema. Antigamente, todo o texto da revista era feito pela própria equipe da Rosebud. Aos poucos, fomos convidando colaboradores e colunistas para agregar nesse formato educacional. Hoje, a gente conta com três colunistas fixos e toda revista conta com um número x de colaboradores que a gente convida, dependendo do tema. Para agregar aquele tema do mês especificamente. Então, tem a matéria que aborda o tema do mês. Por exemplo, a do último mês (N.E. Entrevista realizada em 06/11/2020) foi sobre roteiro, com diferentes roteiristas escrevendo para a revista. Esse mês foi o Cinema Brasileiro. Nós convidamos pessoas do Cinema Brasileiro para escrever. Também sempre fazemos uma entrevista com o curador. O curador foi uma peça que entrou na vida da Rosebud a partir do box 16. Da 16 até hoje, todas têm um curador. Antigamente, era a curadoria própria da Rosebud. Os curadores nos ajudam a escolher os filmes e a montar o box. No próxima box, por exemplo, tem a curadoria do Cacá Diegues, por exemplo. E ele ajudou a gente a escolher os filmes e nos deu uma entrevista. Nós temos em mente que a revista é uma coisa que buscamos sempre melhorar. Até recentemente, identificamos através de uma demanda pela revista vinda das próprias pessoas que não são assinantes, mas que acompanham a gente. Um monte de pessoas acompanha o nosso trabalho educacional, mas não necessariamente possuem player de DVD, mas querem ter acesso a essa revista. Em setembro, lançamos planos só para quem quer ter acesso à revista. E tem dado muito certo, porque a gente está podendo, além de democratizar um pouco a educação que a gente se propõe, já que o plano-revista é mais barato, também alcançamos aqueles que não necessariamente têm esse apego pela mídia física ou se quer têm lugar para reproduzir. Mas são pessoas que ainda querem ter acesso a essa parte educacional, que é uma das coisas que estamos sempre melhorando, aprimorando.

A revista possui anunciantes?
Por enquanto, não temos anúncios. São só matérias e os institucionais da própria Rosebud. Mas nós cedemos um espaço para os colaboradores daquela edição. Por exemplo, já tivemos como curadores a Mubi e a Imovision. As duas tiveram páginas especiais onde puderam fazer uma declaração sobre a empresa ou algo do tipo. Esse é o mais próximo que tivemos de um anúncio.

Como é analisada a questão dos estoques de filmes junto às distribuidoras?
Esse é um dos principais gargalos que a Rosebud tem desde o início: a limitação dos estoques das distribuidoras. Sempre estivemos muito presos a esses estoques. Então, às vezes, queríamos fazer tema tal, mas não podia porque não tinha estoque suficiente. E também isso atrapalhava um pouco o nosso planejamento. Porque o ideal, no melhor dos mundos, a gente conseguiria fazer um planejamento para daqui a seis meses. Saberíamos os temas e os filmes dos boxes pelos próximos seis meses. Só que como o estoque das distribuidoras não espera, eu não poderia fazer esse planejamento de modo tão duradouro assim. E o próprio fato da gente se limitar ao estoque das distribuidoras atrapalhava um pouco o nosso processo de ter curadores externos. Porque a gente fazia um processo contrário. Ao invés de pensar no tema e depois correr atrás dos filmes, a gente tinha que elaborar os temas baseados nos estoques que estavam disponíveis. Isso mudou um pouco depois que conseguimos atingir a marca de 300 assinantes, porque tivemos um poder de barganha um pouco maior com as distribuidoras. Conseguimos trazer alguns relançamentos exclusivos. E até lançamentos. Porque a gente garantia a compra de pelo menos 300 cópias e aí as distribuidoras topavam relançar ou lançar. Com a Imovision, foi exatamente esse caso. Nós os convidamos para serem curadores e lançar um filme conosco. O box era sobre Cinema Iraniano, e o lançamento foi o filme “Três Faces”, que eles detinham os direitos, mas não estava no radar deles lançar em DVD. Mas nós garantimos 300 cópias, e eles toparam lançar e assinaram a curadoria. Isso é uma coisa que, conforme nossa base de assinantes for aumentando, vamos conseguir trazer cada vez mais com filmes exclusivos, lançamentos e relançamentos. Mas durante um tempo, tivemos que ficar bastante limitados ao que as distribuidoras disponibilizavam para a gente. Mas, graças a Deus, isso está mudando um pouco.

Você citou a Imovision como uma das curadoras e fornecedora de DVDs. Há parcerias com outras empresas como a Obras Primas do Cinema, CPC Umes Filmes e a Versátil?
Com a Versátil, nós trabalhamos desde o início. É uma das principais parceiras. A Obras Primas, também. Apesar de não ter sido uma curadoria deles, já fizemos boxes só com filmes do Obras Primas. Já trabalhamos com o Imovision e outras distribuidoras brasileira, como a Bretz, a Pandora, por exemplo. Nós temos uma pegada que é bastante educacional. Pode-se dizer que a Rosebud é um clube de assinatura de cinema mais cult. Então, a gente, além de estar limitado a um nicho, estamos limitados no nicho do nicho, que é a galera mais interessada nos filmes cult. Então, não são todos os filmes ou todas as distribuidoras que a gente poderia trabalhar. Por exemplo, a gente não enviaria algum filme da Disney, por exemplo, ou esse tipo de coisa. Já com o CPC Umes, nós estávamos em negociação para usar um filme deles há um tempo. Nós queremos muito trabalhar, mas acabamos não seguindo com o tema. Mas eu espero que a gente trabalhe com eles em breve. É uma das únicas que a gente não trabalhou ainda.

Além do custo mais alto do tipo de mídia, o que poderia encarecer o valor da assinatura, há outros impedimentos para a Rosebud enviar filmes em blu-ray, também?
O custo impactaria, sim, mas o motivo de a gente não trabalhar o blu-ray não é esse. O motivo da gente não trabalhar com blu-ray é porque, dos quase 100 filmes que a Rosebud enviou até hoje, se dez tiverem saído em blu-ray no Brasil é muito. A maioria dos filmes que a gente trabalha, nunca saíram no Brasil em blu-ray. Não conseguiríamos entregar o mesmo conteúdo para as pessoas que assinassem, por exemplo, o plano que dá acesso a DVD e o plano que dá acesso ao blu-ray. Porque a maioria dos filmes clássicos que a gente trabalha não eram contemplados em blu-ray. Eu venho vislumbrando uma mudança disso com a Versátil e Obras Primas voltando a lançar blu-rays. Então, eu acho que isso vai mudar em breve. Mas até o momento, a gente não conseguiria enviar o mesmo filme em DVD e em blu-ray para todo mundo. E é por esse motivo que a gente não consegue oferecer as duas mídias. Mas em relação ao custo, representaria, sim, uma diferença. Mas eventualmente essa diferença seria repassada aos assinantes e quem quisesse pagar mais para ter blu-rays, poderia pagar. Isso é até uma coisa que alguns assinantes perguntam para a gente às vezes. E temos que dar essa resposta. A maioria dos filmes com os quais trabalhamos, não foram lançados em blu-ray. Por isso, não teria como a gente trabalhar, por exemplo, “Trilogia de Apu”. Esse não foi lançado em blu-ray. Então, fica difícil. E, também, a gente não sabe se todos os assinantes teriam a capacidade de reproduzir a mídia de blu-ray, porque talvez só tenham aparelho de DVD. Temos assinantes de uma faixa etária muito diversificada. Desde de muito jovens, até idosos. E acredito que para uma parte deles, que talvez não seja a maior parte, mas uma parte deles pode ser que não tenha o blu ray player. Só o DVD, mesmo. Então, teria que ser uma medida que, se tomada, ou quando tomada, tem que ser coordenada para que os dois públicos sejam atendidos.

Esse ano foi realizada uma petição on line para que as empresas pudessem retornar com a fabricação de blu-rays players no Brasil. Infelizmente, mesmo com a adesão de diversas lojas e distribuidoras, o número de assinaturas não chegou a quatro mil. Ao mesmo tempo, vemos uma ascensão do streaming, com diversas plataformas surgindo e brigando pela atenção (e dinheiro) do assinante. Você considera que fatores como estes, especificamente esse crescimento do streaming, pode ser uma ameaça ao mercado de mídia física?
Acredito que dá para coexistir e sou até otimista em relação a esse futuro entre as duas mídias. Como falei, o que movimenta o colecionismo não é você assistir ao filme, mas você ter o filme. Então, o nicho em si só vai estar ameaçado se as distribuidoras não sentirem mais interesse em trazer esses filmes em mídia física. Mas há um movimento que a gente tem visto, apesar das majors terem abandonado, como a Disney  por causa do Disney+ e a SUP (Sony Universal e Paramount), que ainda não se sabe qual empresa vai assumir. Durante essa pandemia, o mercado viveu a “festa do catálogo” (N.E. Série de lançamentos e relançamentos de filmes em blu-ray que aconteceram esse ano), por exemplo, que nos fez perceber a sua solidez. Percebemos que existe um público, existe um mercado e um mercado com vontade de consumir. Esse mercado sofreu mudanças muito drásticas recentemente, principalmente por conta da saída dos grandes varejistas, como a Saraiva e a Livraria Cultura. E isso fez com que o mercado tivesse que se reinventar. E aí as distribuidoras, que garantiam uma parte massiva de suas vendas através desses grandes varejistas, precisaram se reinventar, também, e a tratar direto com o consumidor. Então, a gente vê a Versátil fazendo pré-lançamentos, lançamentos em blu-ray, fazendo pré-vendas que ainda serão lançados em janeiro, fevereiro. Essa é uma maneira dela conseguir se adaptar a essas mudanças. E a outra mudança que a gente tem, logo depois com a pandemia, foi que algumas distribuidoras se viram sem a receita dos cinemas. E isso proporcionou coisas como a volta da Imovision ao mercado de mídia física. Eles viram que tem uma maneira ali de conseguir um dinheiro que, até então, eles não estavam dando muita bola. A Imovision tinha abandonado o mercado de mídia física durante um bom tempo e voltou esse ano, sendo muito bem recebida pela comunidade dos colecionadores. Então, esses indícios me deixam muito otimista em relação ao futuro. Mas o que assusta é o que você começou falando, mesmo. As pessoas, para que elas possam continuar colecionando, continuar consumindo filmes em mídia física, precisa ter onde assisti-los. Por isso que esse movimento que foi feito no meio do ano para estimular as fábricas a voltarem a produzir aparelhos de blu-ray, foi extremamente necessário. E apesar do engajamento de grande parte da comunidade, você mesmo falou que parece não ter surtido muito efeito. É uma série de fatores que propiciam isso e não necessariamente só o streaming, como se o streaming fosse acabar com mídia física. Tem muitas outras coisas envolvidas. Tem até o valor do dólar, que está envolvido. Os custos de fabricação aumentam, deixa de ser tão economicamente viável. Mas uma coisa que deixa a gente com um radar mais otimista é a possibilidade da entrada de novos players que estão enxergando potencial nesse mercado. Não só a gente como clube de assinatura, mas as próprias lojas que perceberam que para se destacar, precisa ser mais do que lojistas. Precisam trazer conteúdos exclusivos. E esse ano a gente teve lojas como The Originals (entrevista), como FAMDvD (entrevista), trazendo coisas exclusivas. A comunidade cinéfila e colecionadora se beneficia muito desses novos ares. Então, apesar de 2020 ter sido um ano de altos e baixos para a mídia física, como vitórias e derrotas muito características, o resultado dessa equação me deixa otimista para os próximos anos em relação ao futuro do mercado do homevideo no Brasil.

Você pode falar um pouco acerca da proposta de colecionismo que a Rosebud tem a partir dos itens inseridos nas caixas? Memorabilia, canecas, itens simbólicos de decoração em termos de cinefilia. Eu vejo na loja virtual de vocês diversos exemplos. Como funciona essa proposta de escolha desses itens?
Na verdade, hoje, nós estamos em um movimento contrário. Porque a gente identificou que precisávamos no posicionar e encontrar o que a Rosebud mais valoriza. E nessa pesquisa que eu te falei que fizemos com os assinantes antes da pandemia, identificamos isso: “Olha, a Rosebud é mais do que um clube de assinatura. Ela pode ser mais que um clube de assinatura. Pode ser mais do que uma mistery box. Pode ser mais do que um objeto. Pode ser mais do que coisas de colocar na estante”. A Rosebud pode te agregar em uma questão mais do que material, que é a parte educacional onde a gente alocou a nossa força de trabalho no segundo semestre baseado no feedback que tivemos dos assinantes. Estamos em um movimento de redução dessa parte dos objetos para concentrar nosso orçamento e esforços nessa parte educacional. Além da exposição absurda que a gente teve da revista, estamos investindo em uma plataforma de cursos on line que vai ser lançada em janeiro do ano que vem. Além disso, estamos concentrando a nossa caixa. A partir do box #20, a gente não envia essas coisas que estão na nossa loja virtual. Vamos nos concentrar na revista, nos filmes, na luva exclusiva. Pôsteres, também, a gente envia. Tem álbum de figurinhas que supre essa parte da memorabilia que você falou. Mas esses itens como quadrinhos, canecas, esse tipo de coisa, a gente não envia mais justamente porque percebemos que, para o nosso assinante, valia mais a pena ele adquirir conhecimento do que ele adquirir objetos na estante dele. Esse foi o movimento que a gente idealizou. Percebemos que era hora de focar na parte educacional e entendemos com isso que, obviamente, quem estava conosco por causa dos itens, dos objetos, pode não ter ficado satisfeito, mas temos que entender que a grande maioria dos nossos assinantes estão conosco porque querem conhecer mais sobre cinema, querem aprender sobre cinema, querem se aprofundar nos temas que a gente propõe. Então, realizamos esse movimento. A partir do box #20, que foi há uns três meses, não enviamos mais esses itens.

Então, essa proposta educacional de oferecer cursos voltados para o estudo de cinema vai passar a ser um dos itens oferecidos na assinatura da Rosebud?
Isso. A gente se posicionou muito firmemente nesse segundo semestre como uma empresa voltada para a área de educação sobre cinema. Então, isso está totalmente alinhado ao nosso propósito. Estamos no movimento desde o início do ano de criar essa plataforma, gravar os cursos e disponibilizar para os assinantes como parte da assinatura. Obviamente, vamos continuar enviando os filmes, a revista, que é fundamental e agrega valor na assinatura.

Você comentou que é formado em Cinema. Imagino que mais pessoas da equipe também sejam. Os ministrantes desses cursos seriam vocês ou convidados?
Não. (risos) Esse tipo de foro eu deixo para pessoas mais habilitadas do que eu para falar sobre esse assunto. A gente vai convidar profissionais da área, professores de cinema, para falar sobre os assuntos diversos do universo do cinema. Nessa plataforma vai ter cursos desde “Cinema e Psicanálise” até “Dogma 95”, por exemplo. Sobre diretores específicos, sobre movimentos, gêneros, e a gente vai seguir convidando de acordo com as expertises dos professores. Então, não tem ninguém da equipe da Rosebud dentre as pessoas que vão ministrar as aulas. O lançamento da plataforma vai ser em janeiro.

Você citou a presença do Cacá Diegues como curador e, também, em uma entrevista para a revista encartada em uma das caixas. Como foi essa experiência de contar com a experiência de um cineasta tão importante para o Cinema Brasileiro?
O Cacá Diegues foi uma vitória que nos orgulhamos muito por termos conseguido. Um diretor que a gente admira demais. E ele foi um dos primeiros nomes que a gente cogitou para entrar em contato quando pensamos em fazer o box Cinema Brasileiro. E conseguir contato dele não foi fácil. Tivemos que movimentar várias pessoas até conseguir chegar até ele. Mas o Cacá Diegues foi extremamente solícito, abraçou muito o nosso projeto. Fez a curadoria, cedeu a entrevista, se colocou à disposição da gente e isso só aumentou a nossa admiração. Viramos mais fãs ainda. E esse box de novembro, o 23, agregou absurdamente. Não só pela escolha dos filmes, mas pelo conteúdo que o Cacá Diegues trouxe à revista. E não é à toa que ele é um dos maiores nomes do cinema. Um imortal da Academia Brasileira de Letras. Inclusive, já tivemos como curador, também, o Walter Lima Jr., também diretor e que foi curador do nosso box sobre Cinema Novo. Teve o Lucas Paraíso, que é roteirista e foi curador do box de roteiro. Teve a Mubi e a Imovision. Teve a professora Cecília Mello no box sobre cinema taiwanês. E o crítico Leonardo Luiz Ferreira, no box sobre cinema sul-coreano.

Essa proposta de vincular a assinatura da Rosebud a um curso, bem como optar por cinemas fora do mainstream como temas das caixas é algo bastante surpreendente e louvável, de fato.
Para nós, mais importante do que os filmes que têm disponíveis, é o que a gente quer ensinar. O que a gente quer que os nossos membros tenham acesso, o que a gente quer que eles aprendam. Por exemplo, fizemos um tema recentemente sobre cinema taiwanês. Escolhemos esse tema porque é uma cinematografia que é pouco explorada aqui. Muita gente da nossa base não teve muito acesso a filmes feitos em Taiwan. E, ao mesmo tempo, existem poucos filmes de cineastas taiwaneses em mídia física. Sabíamos que seria desafiador fazer esse tema, mas achamos que valeira a pena porque queríamos realmente falar sobre esse assunto. Porque, como te falei lá no início, um de nossos pilares de formação é ampliar os horizontes cinematográficos. Por isso, sempre tentamos diversificar os nossos temas de maneira que os nossos membros aprendam uma coisa diferente. Aprendam uma coisa que eles não sabiam até então, ou possam se aprofundar, caso já saibam. Então, a gente fez um box de roteiro, que foi o nosso primeiro tema técnico que nos aprofundamos. Fizemos um tema sobre cinema iraniano, e nos aprofundamos nesse cinema. A mesma coisa com o cinema de Taiwan. Também nos aprofundamos no cinema de gênero. Agora no box de dezembro, vamos nos aprofundar em uma linguagem, que é a animação. Então, o que nos norteia, o que faz com que criemos os temas, é exatamente isso: pensar o que podemos agregar à vida do nosso membro, desse nosso assinante. O que a gente pode fazer para que ele, depois de ter acesso ao box, saiba mais do que sabia antes. E a partir disso é que a gente vai atrás dos filmes. Mesmo que seja complicado em alguns aspectos. Por exemplo, achar um curador para o box de cinema taiwanês foi complicado. As opções que esse curador tinha para escolher não eram muitas e ainda assim a gente fez. Nós nos desdobramos para conseguir porque achamos que era importante que os nossos assinantes tivessem acesso a essa cinematografia. É assim que trabalhamos.

Desde a criação do Clube de Assinaturas Rosebub, como foi o equilíbrio no número de assinantes?
A gente mantém um crescimento modesto. A nossa primeira caixa foi enviada para 10 pessoas, apenas. Foram pessoas que compraram na nossa pré-venda. E fomos crescendo, angariando público. Chegar ao número de 300 assinantes até o final de 2020 era a nossa meta. Conseguimos bater um pouco antes. Mas no início da pandemia, nós achamos que ia ter uma diminuição expressiva do número de assinaturas. Tanto em número de novas assinaturas, quanto em possíveis cancelamentos. E isso nos amedrontou um pouco no início, mas logo vimos que foi o contrário. Nós conseguimos crescer no meio dessa pandemia. Acho que as pessoas estavam mais suscetíveis a receber coisas em casa, a procurar opções de cultura, entretenimento. E também os cinemas estavam fechados.

Sim. Do mesmo modo, nesse mercado de nicho, a busca por mídia física aumentou nesse período. Atrelar a Rosebud a esse mercado faz todo sentido, de fato.
Sim. A mídia física faz sentido para a gente porque como abraçamos a ideia da educação, a mídia física ela vem acompanhada de coisas que você não encontra no streaming, ou raramente encontra no streaming, que são os extras que te ajudam a mergulhar naquela obra. E isso é uma coisa que valorizamos muito na mídia física: essa possibilidade de ter os extras. E cada vez valorizamos mais como algo que queremos que nossos assinantes tenham acesso. Por isso a mídia física está totalmente alinhada ao nosso propósito educacional.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog Película Virtual

Panorama do Mercado Cinéfilo de Mídia Física em 2020 no Brasil
01) Fábio Martins – Loja FAMDv
02) Fernando Luiz Alves – Loja The Originals
03) Classicline, 1Films e Vídeo Pérola
04) Valmir Fernandes (Obras Primas do Cinema)
05) Igor Oliveira (CPC UMES Filmes)
06) Daniel Herculano (Clube Box)
07) Gleisson Dias (Rosebud Club)
08) André Melo e Fernando Brito (Versátil)
09) Juliano Vasconcellos e Celso Menezes (Blog do Jotacê)

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