Entrevista: Igor Oliveira (CPC UMES Filmes) – Mercado Cinéfilo de Mídia Física 2020

entrevista por João Paulo Barreto

Terceira de uma série de 9 entrevistas sobre o Mercado Cinéfilo de Mídia Física n Brasil

A Umes surgiu nos anos 80 como uma entidade a beneficiar estudantes carentes de escolas públicas, bem como fomentar projetos culturais. Desde a criação do Centro Popular de Cultura – CPC, o CPC Umes se torna, a partir dos anos 90, um imprescindível instrumento na criação de serviços culturais entre a população. Nessa trajetória de décadas, a instituição se firmou como uma opção de expandir horizontes dentro de atividades culturais e esportivas para diversas pessoas.

“Uma coisa que a gente sente que é muito especial, também, é que a entidade é frequentada por muitos jovens nos projetos que fazemos, como aulas de capoeira de graça, e uma série de outras atividades. E nisso tem também a própria militância dos estudantes. É um púbico jovem que tem contato com esse cinema”, explica Igor Oliveira, coordenador comercial do CPC Umes Filmes, selo focado no lançamento em mídia física do cinema soviético e russo no Brasil.

O selo existe desde 2013, e já trouxe obras marcantes daquele cinema, bem como realizando mostras de cinema e trazendo realizadores russos ao Brasil, como Karen Shakhnazarov, diretor do recente “Anna Karenina”. Shakhnazarov é diretor geral do Mosfilm, considerado o mais antigo estúdio de cinema da Europa. O CPC Umes Filmes possui uma parceria com o Mosfilm que permite trazer ao Brasil diversas obras desse rico cinema. No papo abaixo, dentro da série Scream & Yell de entrevistas sobre o Panorama do Mercado Cinéfilo de Mídia Física no Brasil, Igor explica mais acerca do CPC Umes Filmes. Confira o papo!

http://www.cpcumesfilmes.org.br/

O CPC UMES, união do Centro Popular de Cultura e da União Municipal de Estudantes Secundaristas de São Paulo, é parte de um importante movimento de propagação cultural. Você poderia falar um pouco sobre como surgiu a instituição?
A UMES, como entidade, surgiu em São Paulo nos anos 80. Depois ela passou a existir no Brasil inteiro. Acompanhamos as de outros estados, inclusive. Uma que é bem próxima de nós, porque também realiza a mostra de cinema lá, é a UMES de Porto Alegre. O propósito da UMES, assim como outros estados, é atender aos estudantes, viabilizar ao estudante as condições para que ele vá à escola. Falando somente da UMES, nossa principal atividade com as carteirinhas é através de um convênio estabelecido com a prefeitura há décadas, que viabiliza, para os estudantes de escola pública, a gratuidade do transporte, e, mesmo ao estudante de escola particular, um bom desconto para que eles tenham o transporte para ir à escola. No começo dos anos 90 foi criado o Centro Popular de Cultura. E, então, o nosso cine teatro que fica lá na sede da UMES, no bairro do Bixiga, aqui em São Paulo. Ele tem o nome de Cine Teatro Denoy de Oliveira em homenagem ao Denoy de Oliveira, que foi uma pessoa muito atuante na questão estudantil. O CPC surgiu, então, como essa frente que visa proporcionar ao estudante e à comunidade que cerca a nossa sede, as atividades, programações e projetos culturais. Nós estamos, hoje, com menos lançamentos, mas desde os anos 1990, já lançamos mais de 100 discos de música brasileira, trilhas de cinema, trilhas de peça de teatro, chorinhos, música instrumental. Só disco de primeira, coisa muito boa. A questão da Cultura vem desde essa época. Com peças de teatro em cartaz, mostras de cinema. Nós já estamos no quinto ano da Mostra Permanente de Cinema Italiano. Esse ano, por causa da pandemia, ela acontece virtual.

E o selo CPC UMES Filmes, como um braço da próprio CPC, oferecendo às pessoas, colecionadoras ou não, acesso ao rico cinema soviético, surge em que momento?
Em 2013, o CPC UMES começou as tentativas de contato com a Mosfilm. O cinema soviético é um cinema importantíssimo, não só em termos do pioneirismo técnico, mas da relevância desse movimento. No Brasil, se você tem um primeiro contato com esse cinema, os nomes que vêm à mente são os de Sergei Eiseinstein e o de Andrei Tarkovski. E tem muitos outros nomes importantes. Nessa época desse primeiro contato com a Mosfilm, eu ainda não estava no CPC UMES. Eu cheguei em 2018, mas teve esse contato entre 2013 e 2014 com o Mosfilm. Nessa ocasião, a primeira ideia era fazer os licenciamentos e as aquisições de direitos para lançar os filmes em DVD. No decorrer de 2014, surgiu a ideia de fazer uma Mostra comemorativa de 90 anos do Mosfilm. Após essa experiência tão legal logo na primeira vez, a mostra virou, ao longo dos anos, uma das nossas iniciativas mais importantes. Já realizamos seis mostras. Elas sempre acontecem ao final do ano, na virada de novembro para dezembro, mais ou menos. Já exibimos mais de 60 filmes. Muitos inéditos e a maioria restaurados. Com algumas variações, o que a gente tem feito é realizar a mostra no final de um determinado ano, e lançar os filmes em mídia física no ano seguinte. Por exemplo, fizemos, no final de 2019, a Mostra mais recente. Ao longo de 2020, nós vamos lançando em mídia física esses filmes. Lançamos alguns em DVD sem ter exibido, também, exibindo-os posteriormente. Alguns filmes, eventualmente, vão direto para DVD e não são exibidos na Mostra. Nós temos um público consolidado da mostra em São Paulo com mais de 10 mil espectadores. Muitos deles buscam os filmes depois. No catálogo do CPC UMES Filmes temos uma quantidade legal de obras já conhecidas, pelo menos de quem acompanha mais o cinema soviético e russo. Mas tem muita coisa que as pessoas não conheciam e ficaram conhecendo através do nosso trabalho. E aí está a questão de lançar em mídia física. É uma questão fundamental porque, assim, a pessoa tem aquilo à disposição sempre. A pessoa vai ver na Mostra, compra no ano seguinte. Pode comprar para dar de presente, também. E aí vamos propagando esse cinema, porque é muito importante. Chegaremos agora a 50 títulos com o lançamento simultâneo de “Guerra e Paz” em blu-ray e o DVD de “Eles Lutaram Pela Pátria”. Com esses dois, chegamos a 50 títulos lançados. A gente tem mais filmes, porque alguns foram lançados em DVD e, também, em blu-ray. Normalmente, o que fazemos, por trazermos um cinema bem específico, bem de nicho, temos um lançamento por mês. Um mês ou outro a gente acaba pulando. De janeiro a novembro, temos lançamentos quase que todos os meses.

De fato, essa é, para mim, uma das funções mais louváveis que o CPC – UMES Filmes cumpre: a de propagar um cinema que poucas pessoas conhecem, para além do mainstream, para além dos blockbusters.
Uma coisa que a gente sente que é muito especial, também, é que a entidade é frequentada por muitos jovens nos projetos que fazemos, como aulas de capoeira de graça, e uma série de outras atividades. E nisso tem também a própria militância dos estudantes. É um púbico jovem que tem contato com esse cinema. Sabemos que não é problema nenhum gostar do cinema blockbuster. Claro que não. Eu gosto também de blockbuster, amo todo tipo de cinema, mas é um público que, por outras vias, não teria acesso a esse cinema. Porque, aqui, somos sempre bombardeados pelo cinema estadunidense. Chegam no máximo filmes de um ou outro país. Mas, o cinema soviético, não. Imagina um cara de 17 anos tomando contato com filme do cinema soviético. Isso é muito importante. Para a formação dele histórica. Para a formação como público de cinema. E os jovens vão, levam outros amigos. Isso é uma coisa bem importante para nós.

Antes de trabalhar no CPC UMES Filmes, você teve uma longa experiência na Livraria Cultura. Gostaria de abordar contigo o impacto de recuperação judicial que teve inicio em 2018 tanto na Cultura quanto na Saraiva, e se isso, de algum modo, impactou no CPC UMES Filmes.
Sim. Trabalhei na Livraria Cultura por alguns anos. Quando o nosso diretor, o Bernardo Torres, que é o responsável pela nossa operação, começou com a operação CPC UMES Filmes, o comprador de filmes da Livraria Cultura era eu. O contato dele na livraria era comigo. Eu que iniciei o trabalho do CPC dentro da Cultura. Trabalhei lá 15 anos. E por sete ou oito anos, eu fui responsável pela área de filmes. Compras e vendas de filmes. Nessa época, no CPC UMES Filmes, o Bernardo fazia quase que tudo sozinho. Eu sai da Cultura em 2016, fiz alguns projetos pessoais, eventos culturais, ao longo de 2017. Em 2018, ele me convidou para trabalhar com ele. Sobre o impacto da recuperação judicial da Livraria Cultura no CPC UMES Filmes, se formos comparar com aquelas cifras que o Valmir (Fernandes, Obras Primas do Cinema) colocou lá na live, não tem comparação. Mas a nossa operação é muito menor, também. É como eu te disse. A nossa atividade não é 100% focada no homevideo. Essa é a grande diferença entre nós e as outras empresas que estão compondo esse mercado, hoje. Tanto Classicline, quanto Obras Primas do Cinema, quanto a Versátil, assim como as lojas FAMDvD, The Originals, são empresas familiares e que o negócio principal, fundamental, é o homevideo. Nós temos outras redes de trabalho. Só que me impacta financeiramente para que eu faça outras atividades. Por exemplo, a nossa Mostra, pela primeira vez no ano passado, nós fizemos com cobrança de ingresso porque não tivemos outra alternativa. Mas antes, nos cinco primeiros anos, ela foi gratuita. Isso porque, para nós, fazer uma mostra gratuita é mostrar que acreditamos nessa frente de cultura, de acesso gratuito à cultura. Também pelo CPC UMES ser uma entidade estudantil, sendo este um propósito, mesmo. Mas é preciso que as finanças andem. Voltando a Livraria Cultura, nós tivemos alguns momentos de pausa em fornecimentos com ela. Foi e voltou, mas, hoje, só fornecemos para a Cultura se for à vista. Eu não estou fornecendo com prazo de pagamento com eles, ao menos neste momento. Estamos negociando possibilidades para voltar ao fornecimento normal, mas, nesse momento, só com pagamento a vista. Ela paga, a gente entrega. Já para a Saraiva, a gente nunca forneceu. Mas faz um tempo que a gente não tem pedidos com a Cultura, até mesmo porque a gente tem um lançamento por mês. Normalmente os clientes aproveitam para, quando compram lançamentos, fazerem reposição dos demais títulos em seus estoques, também. Uma coisa mais objetiva sobre o impacto de vendas, essa questão eu vejo mais ligada às livrarias terem parado de comprar. Outros clientes específicos do segmento, como eu te falei a The Originals, a FAMDvD, a DVD Nostalgia, estão comprando. E aí é uma compra e uma exposição do meu produto que, hoje, é muito mais qualificada em lojas parceiras como essas, a Versátil, a Obras Primas, do que ele estar em um lugar enorme e com pouca visibilidade.

Uma questão bastante importante a ser salientada é que as lojas físicas como Cultura e Saraiva, para muitos clientes, possuíam um referencial.
Sim. Tem esse lado que é a referência que as pessoas tinham dessas lojas. Eu tiro até o lado emocional da coisa, porque eu construí essa história por muito tempo. Eu sou muito grato ao tempo que fiquei na Cultura. Fui muito feliz trabalhando lá. Agora, essa situação como está, de vai e volta, vai pagar, não vai pagar, isso é muito difícil. E os fornecedores que resolveram ficar junto deles? Porque são empresas que poderiam ter fechado. A Obras Primas do Cinema quase fechou. A Versátil quase fechou. É de perder a referência, também, porque, hoje, nenhum colecionador, a pessoa que ainda compra mídia física no Brasil, terá coragem de comprar pré venda na Cultura ou na Saraiva, porque sabem que, pela atual situação, pode atrasar ou até mesmo não receber o produto. Essa coisa de mercados que caminham para situações de monopólio, de poucos preços, isso é ruim. Isso não é bom. Então, eu acho que essa é referência se perde, também. Eu, de coração, e não é só por mim, pessoalmente, mas nós no CPC UMES Filmes desejamos muito que a Livraria Cultura supere essa situação. Mas também esperamos que honre com os fornecedores que estavam do lado dela em um momento de dificuldade.

Você citou nomes de lojas parceiras do CPC UMES Filmes. Essas parcerias de vendas, com o saída das lojas físicas do mercado, creio ter sido uma boa saída para divulgar os produtos de mídia física dentro do rico cinema soviético.
Sim. Embora a gente tenha esse impacto das livrarias, do ano passado para cá, eu tenho alguns clientes que nos procuraram e que não trabalhavam com nosso produto antes. A FAMDvD e a The Originals, por exemplo, eu comecei a trabalhar com eles no final do ano passado. Há outras lojas com essa característica. Tem, por exemplo, a DVD Nostalgia, daqui de São Paulo, que tem uma loja on line, também. Eu acho que isso movimentou bastante. E, também, o fato de que a Versátil começou a trabalhar com produtos que são exclusivos dela no site da loja. O site da Versátil foi uma iniciativa urgente para que eles pudessem lidar com a crise das livrarias. No fim, conseguiram, felizmente, dar a volta por cima. Hoje, o site é a principal fonte de faturamento deles. No começo do ano, quando lançamos a pré venda do “Stalker” em blu-ray, o André Melo me procurou para propor uma parceria. Para colocar alguns produtos do CPC UMES Filmes lá. E está dando super certo, também. Por sermos restritos ao cinema soviético, a gente ainda tem uma operação do nosso próprio site. Uma operação pequena, mas temos. Nós estamos trabalhando para fazer algumas mudanças na loja virtual, mas isso ainda não vai ocorrer já. Então, uma facilidade para a pessoa que compra o nosso produto é que ela pode adquirir na Versátil, também. E aproveitar um frete grátis ou mais barato. Pelo volume que eles têm, a Versátil consegue pleitear com os Correios. Então, um movimento da Versátil e da Obras Primas do Cinema, principalmente, de trabalhar as vendas dos produtos deles com exclusividade no site, é um movimento pelo tamanho que eles já têm. E para a gente, hoje, é muito mais bacana ver o nosso produto nas lojas deles. A Obras Primas do Cinema é nosso parceiro desde o começo. Vendem nossos produtos desde o início. Eles dão mais opções para o nosso cliente que compra outras coisas. Outra que vende nossos produtos é a Classicline. Então, é o que a gente vê lá nos próprios grupos de WhatsApp e nos grupos de Facebook. O CPC UMES Filmes é o nicho dentro do nicho. O mercado acabou virando de nicho, mas esse mercado de nicho do colecionismo tem essas duas características. Ele é muito restrito. Mas quem está dentro desse mercado, tem uma qualidade de interesse de informação muito alta. Nós vemos por essas lives que estão rolando, por exemplo, o quanto de informação bacana que está sendo trazida. O consumidor de hoje, o consumidor de mídia física, no Brasil, ele precisa ter essas informações. Precisa saber como funciona. Não sendo informação confidencial das empresas e na medida do possível, claro, ele precisa saber como é que funciona a cadeia, quais são as dificuldades enfrentadas. Porque o processo é empático pra caramba. Todo mundo tem que entender o outro, se ajudar, sabe? Você vê os caras postando as fotos dos produtos que compram. Isso é algo muito bacana. E uma pergunta que muita gente tem feito, também, é se depois de passar toda essa questão da pandemia, esse fervor do mercado, esse fervor com lançamentos incríveis, vai continuar. Eu espero que sim. Mas aí a gente tem que continuar fomentando essas outras iniciativas. Esses fóruns virtuais com essas lives, por exemplo. Para que as pessoas conheçam mais. E assim vamos ver quais são as práticas que funcionam para um, não funcionam para outros, sabe? Pela primeira vez, nós do CPC UMES Filmes conseguimos trazer no blu-ray do “Guerra e Paz”, um produto mais premium, com os colecionáveis, com os cards, com o pôster. Vemos que isso é um valor que o colecionador preza. E outro ponto, no caso da Versátil e da Obras Primas do Cinema, essa questão da pré venda antecipada com mais desconto. Porque aí o cara já garante o item gastando um pouco menos. Muitas vezes, são as mesmas pessoas comprando nas lojas. A gente até tem públicos diferentes em alguma medida, porque, assim, nem todo mundo que compra os nossos blu-rays do Tarkovski ou o “Vá e Veja”, que lançamos em blu-ray também, compra os nossos outros lançamentos. Isso é completamente compreensível. O nosso trabalho é muito de formação, também. Então, uma venda muito boa de um produto do Tarkovski me ajuda a financiar e trazer outros produtos. Trazer outros lançamentos que, para a gente, são tão importantes quanto. Às vezes, até mais. De mostrar um cinema a pessoas que não têm ideia do que tinha lá entre os anos 30 e 50 em matéria de musicais, de comédias musicais no cinema soviético.

Nas lojas e distribuidoras que você citou, é perceptível uma nova maneira de se construir esse comercio de filmes em mídia física, com uma proximidade maior entre marcas, selos e distribuidoras com o consumidor final. Um modo louvável de transmitir transparência e confiança.
Com o momento atual, daqui pra frente, não tem outro caminho. Esse contato do consumidor com quem produz o produto é o único caminho que eu vejo. Quem melhor do que eu para vender o meu produto? Não só para o lojista, que compra o meu produto, como para o cliente final. Fica uma coisa muito mais pessoal. Às vezes, sou eu quem está fazendo a venda, indicando locais onde o cliente pode adquirir os nossos produtos.

Sim. Nas redes sociais, essas parcerias entre os selos e o diálogo entre marcas e lojas têm sido algo bastante perceptível. Mesmo o CPC UMES Filmes possuindo um site próprio, facilitar o acesso aos produtos de vocês através de sites como o da Classicline, Versátil, Obras Primas do Cinema, FAMDvD, The Originals, dentre outros, significa muito para o cliente e para essa transparência necessária ao mercado.
É verdade. A gente sabe disso. É importante ter as duas frentes. Tanto ter o nosso site, como uma apresentação institucional dos nossos produtos, quanto ter os parceiros. A pessoa quer comprar o “Guerra e Paz”, mas quer, também, um “De Palma Essencial” lá na Versátil, quer comprar o “King Kong” na Obras Primas, por exemplo. Isso é sempre mais atraente para o colecionador. É como eu te falei: a gente entende a especificidade do nosso trabalho. Em relação ao nosso site, as vendas que nós fizemos direto para o consumidor esse ano têm sido bem diversificadas em termos do catálogo. Tem saído as coisas de pré venda, os últimos lançamentos, mas tem saído bastante os títulos do catálogo. E isso é bom. A gente quer que todo o catálogo seja conhecido, que vá fortalecendo com todas as pessoas que querem conhecer aqueles trabalhos. Algo bacana que já ouvi de um cliente foi: “Eu conheci esse filme do diretor tal pelo CPC. Está saindo outro que eu não conheço, mas vou comprar porque gostei do trabalho do cineasta, do trabalho do CPC”. É uma construção de um trabalho a longo prazo, mesmo. Essa questão do site, estamos, sim, pensando e trabalhando em melhorias. Não só nessa possibilidade de oferecer outras formas de pagamento, oferecer opções de frete, porque sabemos que nosso frete, pelo nosso volume e ainda em relação a outras lojas, é alto. Queremos oferecer uma interface melhor para a pessoa navegar. Ter um site mais bonito, mesmo. Ao longo desse ano, a gente vem fazendo trailers de todos os filmes para colocar. Mesmo títulos que já lançamos há dois, três anos, vamos ter trailers de todos os filmes. Porque, para o nosso trabalho, é fundamental que as pessoas que nunca ouviram falar daquele filme consigam assistir um trailer. A pergunta em relação às vendas no site vem ao encontro da questão de que eu ganho, eu tenho mais margem vendendo do meu próprio site. Mas, é importante que eu não só não deixe a cadeia toda morrer, mas que ela continue funcionando. Que os parceiros continuem interessados nos meus produtos. Dar essa confiança. E, também, buscar mais frentes. Porque, não adianta. Não tem mágica que eu faça que vá fazer o meu frete para o Nordeste ficar grátis. Então, por exemplo, ter os nossos produtos à venda lá com a Classicline é bem importante. Quando entra alguém nas redes sociais que é do Nordeste, fala sobre comprar um título e pergunta onde ponde comprar com frete mais acessível, eu sempre indico a Classicline. Isso é justamente por eles estarem em Fortaleza e podem entregar com um frete mais barato para esse cliente do Nordeste. Tem esse lado, também. Eu preciso dar conveniência para as pessoas. Oferecer outras opções junto aos produtos do CPC. Hoje, dentro do modo como o mercado ficou configurado, é impraticável que as lojas trabalhem com todos os clientes do mesmo jeito. Ainda mais pelo fato de que eu tenho um produto super específico. Então, esse cliente que entrou no meu Facebook para falar que o frete para o Nordeste estava caro, eu indiquei a Classicline. E isso é uma segurança que eu também dou tanto para a Classicline quanto para a pessoa que compra o meu produto lá. Uma segurança em falar à loja Classicline que, quando entra cliente do Nordeste para falar comigo, eu indico a loja porque eu sei que para ele vai ser uma vantagem por conta do frete mais barato. Então, você está participando da venda o tempo todo. Com muito mais qualidade, inclusive. Tenho que atender cada cliente lojista meu de um jeito especial, diferente. Que bom que esse mercado proporciona isso hoje. Que permita conversar com cada cliente de um jeito diferente. Senão eu não conseguiria botar meu produto na rua. É importante, pois tudo dentro do nicho tem que ser customizadíssimo. Na medida do possível, claro. Eu não poderia fazer um “Guerra e Paz” diferente para cada loja. Mas, eu preciso tentar, dentro das minhas possibilidades e do que é saudável para a nossa atividade continuar rolando, ver opções de atendimento diferentes para cada cliente. Como é que eu posso atender a Versátil de um jeito, a Obras Primas de outro, dentro do que o cara precisa? Como eu falei, nem todos os nossos clientes compram todos os nossos produtos. E isso é completamente compreensível. O pessoal, às vezes, começa só nos blu-rays, depois vai abrindo o leque. E isso faz continuar sendo importante manter o nosso site. Porque no site do CPC UMES Filmes tem tudo. Quando vem uma pessoa e quer comprar uma coleção inteira, ela só vai achar no nosso site. Hoje, eu não tenho o meu portfólio completo de produtos em outras lojas, embora tenha loja que tem quase tudo. Mas 100% dos produtos, você só encontra no nosso site. E ele também tem uma função de ser informativo em relação às notícias que estão rolando, das mostras que a gente está fazendo. Tem um caráter institucional bem importante, já que nós não somos especificamente só homevideo. Mas 2020 foi um ano de uma retomada, realmente. Principalmente considerando tudo o que aconteceu com o mercado em 2018 e 2019. Passamos a participar muito mais do segmento na questão da venda de DVDs. Não dá pra negar que por causa dos dois filmes do Tarkovski que lançamos em blu-ray, e, agora, com a vinda do “Guerra e Paz”. Mas achamos ótimo, também, que se abram portas para que os nossos outros filmes sejam conhecidos. São um valor fundamental do nosso trabalho. O Fernando (Luiz Alves), da The Originals, por exemplo, ele sempre me pede uma reposição, outras unidades de algum título do nosso catálogo que não tenha comprado. Eu passo os filmes, indico alguns que talvez ele não conheça, saliento as importância dos cineastas, a importância do filme. A The Originals está com quase todos os meus produtos lá no catálogo dele. E isso é de cada loja, também. Tem loja que, primeiro, procura trabalhar com os nossos blu-rays para sentir. Para a gente, o importante é ir respeitando e dando subsídio sobre os filmes. Perceber que o cara precisa para ter confiança para ir comprando aos poucos e ir crescendo o nosso catálogo dentro das lojas.

Em relação às tiragens dentro de um tipo de cinema que, para o colecionismo, como você mesmo pontuou, é um nicho dentro do nicho, com quais os números de tiragem que o CPC UMES Filmes trabalha?
A questão da fabricação é que a gente tem sempre que trabalhar com a menor tiragem possível por sabermos onde estamos pisando. Hoje, as fábricas oferecem até tiragens inferiores a mil unidades. Até pouco tempo, normalmente sim, só se fabricava a partir de 1000. Nossas tiragens iniciais ficam alguma coisa sempre em torno disso. Estamos estudando alguns filmes mais específicos e menos conhecidos para fazer tiragens menores do que mil unidades, uma vez que a RiMO (N.E. Empresa responsável pela fabricação dos discos de blu-ray e DVD) oferece isso. Tiragens de 500 a 700 unidades, por exemplo. Com alguns filmes nossos que têm mais saída, chegamos a fazer novas tiragens. Uma outra coisa fundamental que é um diferencial do CPC UMES Filmes em relação às outras distribuidoras, vem do propósito da relação que a gente tem com o Mosfilm, que é muito próxima. Anualmente a gente vai lá alinhar as questões para o ano seguinte. Somos recebidos, pelo menos em uma reunião, pelo próprio Karen Shakhnazarov. Então, assim, por essa relação, por tudo que a gente vem cultivando, e pelo propósito de continuar difundindo esse cinema aqui no Brasil, a gente não deixa esgotar nada. Você pode ver que a única exceção foi o “Solaris”, porque foi uma parceria com a Versátil. Estamos voltando com ele agora. Tanto que ele só é vendido, pelo acordo que temos com a Versátil, na loja Versátil e na nossa loja por enquanto. Mas os outros, os demais títulos, são lançamentos só nossos. Não temos a intenção de deixar esgotar. Fazemos uma nova tiragem de todos os títulos que acabam no estoque. Porque, para nós, é importante que não falte nunca. Mas tem que tomar muito cuidado. Óbvio que nem todos os títulos vão performar da mesma forma, pela relevância do título, pelo ano que sai. Por exemplo, nós lançamos oito filmes do Karen Shakhnazarov. Ele é diretor geral do Mosfilm e um baita cineasta. Ele tem uma aproximação forte com o governo da Rússia, com o departamento que seria o Ministério da Cultura de lá. É um cara que fez um cinema ao longo dos anos 80 que é incrível. Filmes que eram metáforas do fim da URSS. Como o povo estava passando por aquilo. A perplexidade deles em relação àquilo. E esses filmes não chegariam aqui no Brasil de outro jeito. Então, o nosso trabalho é muito esse. De equilibrar. De trazer uma coisa que é muito conhecida e muito aguardada como o Tarkovski, mas, também, trazer filmes de outros diretores, como o “Estação Bielorrússia”, que é um dos nossos lançamentos. As pessoas não conheciam e todo mundo que assiste nos dá um retorno excelente sobre o filme. Destacam sempre a perspectiva diferente que a obra traz sobre os veteranos de guerra. Isso dá uma ideia boa do que é mais peculiar em relação ao nosso trabalho, em relação às outras distribuidoras.

Você citou o primeiro contato com a Mosfilm, na Rússia, ainda em 2014, visando a realização da Mostra aqui no Brasil. Poderia falar um pouco mais sobre essa relação com o Mosfilm e seu diretor, o Karen Shakhnazarov?
O CPC UMES Filmes fica muito honrado e, também, muito seguro de que a gente está cuidando muito bem desse cinema. Porque, você imagina o Mosfilm, um estúdio de quase 100 anos. Você vai lá, e encontra um lugar gigantesco. Hoje, ele tem vários prédios. Estão construindo mais locações, inclusive, porque tem muita gravação de coisas que não são somente para cinema. Tem publicidade, séries de TV, também. O complexo do Mosfilm é gigantesco. Você imagina esse colosso e a gente, que tinha um histórico de várias atividades culturais, uma tradição importante aqui no Brasil, mas não éramos conhecidos. Pelos primeiros contatos, o Mosfilm deve ter se perguntado: “Quem são esses caras?” (risos) É uma relação construída ano a ano. E a gente percebe como a seriedade do nosso trabalho reflete, como é percebida pelo Mosfilm. É tudo muito transparente, muito tranquilo. A gente fala com a própria diretora de relações internacionais lá. E tem, pelo menos nessa reunião presencial e em outros momentos, contato com o próprio Karen Shakhnazarov. E isso mostra a importância que ele vê no que fazemos e o envolvimento que ele quer ter no trabalho. Que ele quer saber o que está rolando. O cara é diretor de cinema. O cara é um artista. Ele não é um burocrata que está lá, sentado apenas. Então, isso é muito legal. Isso é um lado que é muitíssimo prazeroso de se ver. A filmografia dele precisa ser muito mais vista, descoberta por quem não conhece, porque faz toda a diferença o Karen Shakhnazarov estar à frente do Mosfilm, hoje, e como fomos construindo essa parceria de verdade Isso faz a gente acreditar que ainda vem muita coisa boa.

Com “Guerra e Paz” lançado recentemente, e após ‘Vá e Veja”, “Andrei Rublev” e “Stalker”, o CPC UMES Filmes vem crescendo dentro do mercado de lançamentos em alta definição. Você poderia falar um pouco sobre esse avançar da empresa em um mercado cuja produção mais cara (em relação ao DVD) torna mais incerta a frequência de lançamentos?
A questão do custo, que inclusive foi muito bem pontuada em lives pelo pessoal tanto da Obras Primas quanto da Versátil, muitas vezes não é que o DVD custa X e você vendo por Y; e o blu-ray custa X proporcional e você vende por Y proporcional. Às vezes, no blu-ray, você espreme o máximo que dá o orçamento. E tem que apertar porque, senão, o blu-ray ficaria caríssimo para vender. O CPC UMES Filme, além dos quatro títulos que você citou, trouxe em blu-ray o “Anna Karenina”, do Karen Shakhnazarov, que foi o nosso primeiro título. Esse foi um projeto maior dentro do nosso trabalho. Foi o primeiro filme que a gente colocou em um circuito comercial de cinema. É um filme de 2017. Lançamos em junho de 2018. Saiu em parceria com o Itaú Cinemas, onde ficou em cartaz em São Paulo, Salvador, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, e, depois, em alguns outros cinemas menores. Ficamos muito felizes com o resultado. O Karen Shakhnazarov veio para o lançamento no Brasil. Tiveram eventos com ele, entrevistas. Foi super legal. Ele visitou alunos, conheceu estudantes, viu rodas de capoeira. Então, assim, o “Anna Karenina” foi um projeto maior que contemplava um momento importante. Foi filme de 2017 que tem uma qualidade incrível. Tínhamos que lançá-lo em blu-ray, também. Depois veio o “Vá e Veja”, que havia passado por uma restauração. Já tínhamos lançado o DVD, mas o blu-ray veio após a restauração. Com o blu-ray, vamos olhando a viabilidade comercial para títulos mais fortes. Tarkovski a gente sabe que tem colecionadores, cinéfilos que querem o filmes do diretor em blu-ray. Tanto quanto o fato de já ter sido restaurado ou não. Porque, por exemplo o pessoal fala muito do “Dersu Uzala”, só que esse filme, embora a cópia dele esteja, a partir da película original do Mosfilm, com uma qualidade ótima no DVD, ele não foi restaurado. Ele não passou pelo processo de restauração dos outros filmes. É uma restauração super meticulosa, supervisionada pelo próprio Karen Shakhnazarov. Em Veneza tem aquela mostra separada, dentro do festival, só para filmes restaurados. O “Vá e Veja” ganhou prêmio por essa restauração. Por isso, o pessoal pergunta muito a razão de lançarmos alguns e não outros. Esse é o principal critério: a restauração. Mesmo assim, alguns filmes acabamos por tomar a decisão de lançar somente em DVD. Por causa da questão do custo. Sabemos também que nosso público, embora tenham pessoas, hoje, dentro do segmento de colecionador, que só consomem blu-ray, sabemos que essas pessoas querem o filme. A gente que gosta mais desse cinema de arte, ou cinema cult, ou cinema europeu, ou seja qual nome que queiram dar, um cinema que não é o de mainstream, atrai o colecionador. O cara quer o filme, então, ele compra um DVD, também.

Verdade. Lembro de uma live em que o Fernando Brito , curador da Versátil Home Vídeo, falou sobre as diferenças de qualidade para um DVD atual e um fabricado, por exemplo, no começo dos anos 2000.
Sim. Essa foi um coisa bacana que o Fernando Brito falou na live lá do MovieBox. Sobre a qualidade dos DVDs recentes. Um DVD que você compra hoje não é igual aos DVDs feitos há 10, 15 anos. A qualidade dos DVDs de hoje é outra coisa. Ficamos impressionados, por exemplo, como ficou a qualidade do DVD do “Balada do Soldado” que a gente lançou. Ficou impressionante. Muito, muito boa a qualidade. Mas tomamos a decisão de lançar, por enquanto, só em DVD. Só voltando para fechar a questão da pergunta anterior. Basicamente, as dificuldades são essas. É a questão de custo. E para volume, também. Porque, assim, se eu aumentar o volume, esse custo vai baixando com a fábrica. Mas, assim, em quanto tempo eu vou conseguir vender esses blu-rays? Esse mercado já tem um tamanho muito restrito hoje. Mais restrito ainda é o fato de que a gente trabalha com um cinema muito específico. Temos que tomar bastante cuidado. Temos um segmento que foi caminhando para uma diminuição de lojas, de distribuidores. As majors se interessando cada vez menos, com exceção dessas iniciativas dos blu-rays exclusivos e dos filmes que saem em cinema, os blockbusters. Mas, no fabricante, foi acontecendo a mesma coisa. Porque foi enxugando a carteira de clientes. Hoje, eu consigo fazer blu-ray só em uma fábrica. E imagino que a situação das outras distribuidoras seja a mesma. Porque tem uma questão técnica. Para fazer um blu-ray, há mais itens além do que eu pago para a fábrica pelo custo unitário. O cara fala assim: “Vou te entregar o disco dentro da embalagem, com arte, com tudo, por tanto”. Além disso, eu pago uma taxa anual para um órgão lá nos Estados Unidos que é referente à patente do formato de blu-ray. (N.E. Trata-se da Advanced Access Content Systen Licensin Administator). Todo mundo paga isso. Além deste valor anual que se paga, também é embutido um outro valor no custo unitário, que é também relacionado a essa patente. Então, assim, isso, em relação ao valor pago à patente do blu-ray, não tem no DVD, né? É uma coisa que se agrega ao custo do blu-ray, porque tem essa questão da patente lá fora. O stamper do blu-ray, que é o disco master, também não tem fabricação no Brasil. A RiMO, que é onde fabricamos, que é onde a Versátil fabrica, a Obras Primas fabrica, traz de fora do país. Quando vem para o Brasil é que se faz a tiragem. Então, isso daí já é um outro custo. Não só pelo fato de que o blu-ray não aconteceu no Brasil como poderia ter acontecido, de uma forma muito melhor, com mais escala, com popularidade, mesmo. Mas por vários fatores. Além disso, tem esse fato do mercado ir encolhendo, que é uma questão muito maior, mundial, com a chegada do streaming e outros pontos. Mas aí restringe, tipo, o que eu tenho para fabricar nessa fábrica, por esse valor e por aquele valor. Restringe demais. Se eu tivesse duas fábricas, teria um melhor equilíbrio.

Você falou anteriormente acerca da questão das tiragens junto a RiMO. Poderia aprofundar mais essa relação dos selos com a única empresa a fabricar os lançamentos de distribuidoras independentes?
Além da RiMO, existe também o que era anteriormente a Sony DADC (Digital Audio Disc Corporation), que foi comprada aqui no Brasil pela Solutions 2 Go, uma empresa do Canadá. Hoje, a Solutions 2 Go opera em vários países, e está meio que dominando o mercado da mídia física, tanto em filmes quanto em videogames. Na Solutions 2 Go, chegamos a ter um primeiro contato quando ainda era Sony DADC para fabricar com eles. Tem uma questão de que, quando mudaram de Sony DADC para Solutions 2 Go, eles tinham uma pendência com o exterior. Com esse órgão das patentes que eu comentei. Eu não consigo fabricar lá, por exemplo. E aí, assim, acabou. Está todo mundo fabricando na RiMO. Eu não sei se é isso que leva também outros distribuidores a só fabricarem na RiMO, mas imagino que sim. Porque nós somos todos independentes. Empresas menores que adquirem os direitos lá fora e fabricam. Agora, uma major, por exemplo, uma Paramount, uma Universal ou Sony, essa questão da patente já vem de fora, pronta, entendeu? Então, a Warner, se eu não me engano, tem a fabricação com a Solution 2 Go. Agora, nós só temos um local para fabricar blu-ray. E DVD, também. Aí eu já estou trabalhando em uma fábrica para fazer o blu-ray, acabo negociando uma condição só para todos os nossos produtos. E faz DVD e blu-ray no mesmo local. Fazemos nossos DVDs na RiMO já há bastante tempo. E fizemos nossos discos de blu-ray lá, também. É claro que outras empresas que têm mais volume de venda do que a gente podem ter uma condição melhor. Isso aí é de cada negócio. Mas, independente de qual condição seja, é ruim você ter só uma opção de fabricante. Você tem qualidade, ok. Isso aí é indiscutível. Agora, você não tem margem de negociação. “Ah, eu quero fazer um blu-ray. Esse filme merece um blu-ray. Onde tem para fabricar? Aqui”. O cara fala que custa tanto e você decide se fabrica ou não. Agora se você tivesse três opções, por exemplo, você podia escolher por N fatores de qualidade, de entrega mais rápida e, também, pela questão do preço. É isso. Em um mercado que virou nicho, você tem essas restrições. Onde é que eu vou fabricar um blu-ray hoje? Só na RiMO? Só reforçando: em termos de qualidade, não tem o que falar. É um ótimo produto. Mas, hoje, por exemplo, aumentou a quantidade de lançamentos pra caramba agora nesses últimos três, quatro meses. E está tudo lá. Tudo na RiMO sendo fabricado. CPC UMES, Versátil, Obras Primas, produto de majores, que eventualmente está fabricando alguma coisa. Então, tomara que eles dêem conta desse cronograma todo de um monte de lançamento que está entrando para eles. Esperamos que sim. Por enquanto está tudo caminhando bem.

Um dos diferenciais relacionados o colecionismo de filmes em mídia física vem dos extras que podem ser disponibilizados como um complemento à experiência fílmica. Lembro de uma pessoa que perguntou sobre isso em dos grupos, acerca da razão da ausência de extras nos filmes do CPC UMES Filmes. Você poderia falar um pouco sobre isso?
Sim. Na ocasião, eu respondi até salientando que era uma importante pergunta. Porque, normalmente, as pessoas só perguntam se tem ou se não tem. Nunca perguntam o porquê de não ter. É pelo fato de que nós fazemos licenciamento direto com o Mosfilm. Direto com o estúdio. E eles não têm material extra. Isso não é, obvio, uma questão que a gente tenha descartado das nossas possibilidades a inclusão de extras nos filmes. Nós ficamos pensando em como conseguir materiais extras que coubessem dentro da viabilidade dos produtos. Mas de forma nenhuma vamos deixar de lançar um produto porque ele não tem extras. Então, ao mesmo tempo que vamos continuar lançando os filmes, a gente fica pensando como poderíamos ver outra opção. Eu cheguei a pontuar na resposta sobre os produtos da Criterion. Eles, por exemplo, têm extras. Nas edições deles para “Guerra e Paz” e “Andrei Rublev” têm extras. Mas é um conteúdo próprio da Criterion. Ou que eles tenham adquirido com alguma televisão ou algum canal que produziu aquele material. Por enquanto, não conseguimos ter acesso. O legal é que, nesse dia em que essa pergunta surgiu, surgiu uma outra possibilidade bem trabalhosa que seria, eventualmente, produzir algum conteúdo extra também por aqui. O Valmir (Fernandes), com a Obras Primas, já fez isso. O André (Melo), na Versátil, possui estúdio. Ele entrou em contato comigo naquele mesmo dia para falar que disponibilizava de estúdio para a captação, caso eu quisesse convidar algum crítico para falar sobre algum filme. Tem esse caminho, também. Até hoje, a gente não conseguiu. Mas não está descartado. Pensamos no assunto com carinho. Mas temos esse outro lado. Eu não vou ficar segurando de colocar o filme no mercado porque ele não tem extras. Entendemos que, para o colecionador, os extras são importantes. Eu coleciono DVD, também, há muito tempo. Adoro assistir extras. É o que eu te falei. Estar nesse mercado hoje, do tamanho que eles está, da forma como ele se configurou, é pensar sempre um pouco como o eu consumidor, também. E a gente pensa com carinho, embora não tenha conseguido fazer ainda.

Usando uma frase sua, que é a definição do selo CPC UMES Filmes no mercado da mídia física representar um nicho dentro do nicho queria abordar com você a opção de disponibilizar parte do catálogo dos filmes soviéticos e russos em plataformas de streaming. É um caminho, também?
Esse ano, por conta das pessoas estarem isoladas (eu nem sei se estão ainda. Eu sei que eu estou), houve iniciativas de programação gratuitas no YouTube. Começamos a fazer por meio de parcerias lá com o Sputnik Brasil, e depois a gente começou esse projeto Cinema Russo em Casa. Até novembro, toda sexta-feira, filmes do nosso catálogo ficaram disponíveis em exibições gratuitas a partir das 19h de sexta até às 19h de domingo. Como eu te falei, nós temos a frente das mostras e uma série de parcerias. Uma delas, que já tinha rolado ano passado e que ia continuar esse ano, é com o circuito SPCine, o órgão de audiovisual da prefeitura de São Paulo. Nós íamos ter duas exibições por mês lá no centro cultural, com preço popular, R$4/R$2, mas não aconteceu por causa da pandemia. Nós acreditamos em todas as frentes. Vai ter uma pessoa que vai comprar DVD, vai ter uma pessoa que vai assistir ao streaming. Hoje, acho que o caminho é perceber o tamanho disso. Quantas pessoas vão comprar aqueles títulos? É claro que isso é um exercício em cima do que você já vendeu de outros títulos. Você não acerta 100% sempre, mas, não adianta também a gente estar exclusivamente ligado a esse propósito. Há pessoas que não vão comprar DVD nunca mais. Temos que entender isso. Agora, o que eu faço para quem continua comprando mídia física? Como é que eu apresento meu produto? Como é que eu melhoro meu produto? Onde eu tenho que botá-lo pra vender? Esse é um ponto. Agora, não deixamos de pensar em outras iniciativas. O Belas Artes à La Carte, por exemplo, tem filmes soviéticos e russos no catálogo. Essa negociação deles foi conosco. Eu acredito que as frentes vão conviver. Não sei como será a história com as salas de cinema, que é um dos grandes assuntos desse ano. O que aconteceu com o lançamento de “Mulan”, por exemplo. As perguntas eram como é que seria visto, se ia entrar no streaming, se tinha que pagar à parte. Diversas pessoas baixando o filme no mundo inteiro. Mas, a gente acredita que essas frentes vão conviver e queremos que continue existindo essa viabilidade, pois não queremos parar de fazer mídia física. Mas olhamos sempre para o streaming e para outras frentes, também. Os filmes do Tarkovski, por exemplo, que lançamos este ano, tiveram venda excelente em blu-ray. Ambos estão disponíveis em streaming. E no Belas Artes à La Carte está desde o ano passado. Nós continuamos acreditando na mídia física, mas, pelo propósito de difusão do cinema soviético, acreditamos que temos que estar em outras frentes, também. Claro que isso precisa ser muito bem pensado. Não é tudo quanto é streaming. O “Anna Karenina”, como eu te falei, como é um projeto lá de trás e que lançamos em blu-ray pouco tempo depois que ele saiu do cinema. Hoje, ele está no Now, da Net. A pessoa pode alugar o filme por lá também. Como eu disse, nós acreditamos em todas as frentes. E eu entendo que seja mais natural que a gente trabalhe assim porque o nosso começo já é olhando para outras possibilidades de difusão do cinema soviético. A nossa mostra foi gratuita por muito tempo. Mostras de Cinema, parcerias de exibição, por exemplo, são buscas nossas. Isso em comparação às demais empresas do mercado que têm essa outra característica de serem de homevideo desde que nasceram. Isso é uma peculiaridade do CPC UMES Filmes, também. Mas procuramos também proteger a mídia física. Lançamos o “Guerra e Paz” em blu-ray, e não pretendemos lançá-lo por agora em streaming. As pessoas estão acabando de comprar. As lojas estão investindo, divulgando o produto. Então, nós procuramos ter esse cuidado. Não é algo de qualquer jeito, colocando no streaming, ou em qualquer outro canal. Nós entendemos, isso porque, do lado de cá, somos apaixonados por cinema. Somos também colecionadores. Sabemos o impacto disso em uma comunidade de amantes da mesma coisa que a nós.

Em uma das lives realizadas pelo Blog do Jotacê,, foi longamente discutida a notícia de que a Disney ia parar de lançar filmes em mídia física na América Latina, o que inclui, agora, os filmes da Marvel, da Fox, além das animações do estúdio. Foi um debate riquíssimo por ser possível, além de trazer as opiniões (passionais e racionais) de colecionadores, também abordar os aspectos econômicos da decisão com a presença de uma economista. Para você, essa decisão da Disney pode se tornar um tiro pé?
A economista Andrea Fil trouxe uma visão muito racional à live. Os caras estão olhando para a cifra. Em se tratando de Disney, as pessoas estabeleceram uma relação muito passional com a marca Disney e seus licenciados, seus produtos. As pessoas amam e querem ter. A história do lastro físico, das coisas físicas, ela já é muito mais complexa. É outra pauta muito grande. Eu procuro sempre ver os dois lados, porque eu sou muito de coisa física. Eu tenho muito livro, muito DVD, muito CD. Então, eu sei que a maioria das pessoas não é como eu. Mas, nesse sentido, eu acho que pode ser, sim, um tiro no pé. Isso porque não só pelo fato de ser relacionado ao Brasil, mas porque parece ser uma tendência que ela está trazendo para seus filmes no mundo todo. Porque a questão do Brasil é a América Latina. O Juliano (Vasconcellos, editor do Blog do Jotacê) até falou na live que tem um cara que é um formador de opinião lá dos Estados Unidos que observou o mesmo movimento rolando lá. Enquanto isso, você tem outros distribuidores, outros estúdios, trabalhando por uma frente de 4K, que ainda é bem segmentado, mas já tem os seus adeptos. A Disney, então, partiu para esse lado. Eu acho, nesse ponto de vista da Disney, que é um tiro no pé. E do ponto de vista para o nosso mercado, é horrível quando sai um ator de dentro desse mesmo mercado. Uma presença tão importante. Não por ser Disney em si, mas pelo tempo que está no mercado. Qualquer uma das majors vai desistindo, o mercado perde força de volume. Porque o trabalho dos independentes é um trabalho colossal, mas chega uma hora que ele esbarra em restrições. Como, por exemplo, aquela brincadeira que o pessoal fez na live sobre cogitar a possibilidade da Versátil trazer a Disney. A Disney não licencia coisas pra ninguém que não seja ela. Então, quer dizer que ela não vai trazer mais, mas não pode licenciar para ninguém trazer? E aí? Isso eu acho complicado. Porque, por trás disso tudo, tem o gosto das pessoas por determinadas coisas. Tem gente que não vai, de uma hora para outra, parar de consumir mídia física, passar a gostar de outros tipos de filme. Se elas gostam, elas vão querer os filmes da Disney. Elas querem os blockbusters. E tem gente que gosta de tudo. Então, quando sai uma presença dessas do mercado, é, sim, muito ruim.

Essa pauta de levantar em entrevistas um panorama para o mercado da mídia física no Brasil surgiu a partir de tentativas minhas de contatar assessorias de imprensa dos fabricantes de players para falar acerca da ausência de novos aparelhos sendo fabricados no Brasil. A partir da petição lançada pedindo essa volta da fabricação, criei a pauta, mas além de não ter tido respostas de alguns fabricantes, também recebi a opção de não participar oriundas de marcas como Samsung e LG. No seu ponto de vista, há uma viabilidade desse retorno da fabricação no Brasil?
É fundamental. Porque qual foi o movimento que foi acontecendo? O número das fábricas pode ter ido diminuindo ao que elas esperavam por causa dos videogames que também funcionam como players de blu-ray. Só que, assim, quanto custa em média um aparelho para rodar filmes em blu-ray e DVD? E quanto custa um videogame? E quem não joga videogame? Então, você esta preterindo um público. Eu, por acaso, jogo videogame, também. Trabalhei muitos anos com videogame. Eu tenho um aparelho de videogame, inclusive. Mas já é um esforço enorme, que já vem de anos e entrando em décadas, você trazer para um público mais velho a ideia de migrar do DVD para o blu-ray. Imagina para um cara que tem que comprar um videogame de R$2000 para poder rodar os filmes. É triste pelo o que você mesmo relatou e pelo a gente viu nos grupos. Há um descaso, um desinteresse. É o que acontece quando a gente fica nas mãos de poucos. Então, você está restrito a dois ou três fabricantes que não estão interessados em fazer. Estão olhando para frente. A televisão vai seguir, TV 4K, TVs mais modernas, e o aparelho não vai seguir essa evolução porque o cara só está interessado em streaming e streaming. Final de semana aqui, por exemplo, eu fiquei quase cinco horas sem internet. E aí eu estava tranquilo. Pude ver meus DVDs. Meu filho aprendeu muito comigo. Usa a internet, acessa o YouTube, mas tem os DVDs dele, tem jogo de videogame em formato físico. E aí a gente fica brincando: e o dia que vier a tempestade solar e acabar com toda a internet do mundo? Só vai sobrar mídia física para a gente assistir.

Observando um ano como o de 2020 com tantos lançamentos em mídia física, um número imenso de pessoas em redes mantendo contato com distribuidores, esgotando estoques, eu me pergunto se os fabricantes não percebem a oportunidade única de retorno se investirem em uma tiragem de aparelhos de blu-ray.
Realmente, acaba sendo triste ver esse não retorno. Mas se você ver também um outro movimento que eu acho interessante, que o do colecionador como formador de opinião. Observe que de cinco anos atrás para hoje, é muito mais ativo. O mercado, os fornecedores e distribuidores que ficaram são muito mais receptivos. O “Código Nolan”, da Classicline, foi um produto construído muito pelas sugestões da comunidade falando sobre como estava, como não estava, o que seria legal ter no produto, o que não seria. E o distribuidor, a Classicline, ouvindo (N.E. Entrevista realizada no começo de setembro, antes do lançamento do produto da Classicline). Então, também vejo esse movimento. Porque o que eu tenho percebido, na questão desse mercado, e como eu trabalhei muito tempo com isso lá na Livraria Cultura (o auge do que era DVD era 2008, 2009) muita gente que está colecionando, hoje, e que compra mídia física, não comprava naquela época. Ou era mais jovem. E muita gente, também, está fora do que é, digamos, o eixo Rio-SP. O que eu vejo de colecionadores de outros lugares do Brasil, a quantidade é imensa. Muita gente do interior, muita gente do Nordeste. Isso é um movimento, também, que força uma coisa relacionada ao frete. Que é a gente achar outras alternativas em relação ao frete. E não só para isso. É um exemplo de que temos que achar outras alternativas em relação aos produtos. De quem sai e de quem vai continuar no mercado. Essas empresas precisam pensar em possibilidades diferentes. Quem sabe os fabricantes de players também não vejam isso em algum momento? É esperança que a gente tem que ter.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog Película Virtual

Panorama do Mercado Cinéfilo de Mídia Física em 2020 no Brasil
01) Fábio Martins – Loja FAMDv
02) Fernando Luiz Alves – Loja The Originals
03) Classicline, 1Films e Vídeo Pérola
04) Valmir Fernandes (Obras Primas do Cinema)
05) Igor Oliveira (CPC UMES Filmes)
06) Daniel Herculano (Clube Box)
07) Gleisson Dias (Rosebud Club)
08) André Melo e Fernando Brito (Versátil)
09) Juliano Vasconcellos e Celso Menezes (Blog do Jotacê)

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